SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO




          GEOGRAFIA        ENSINO MDIO




 Este livro  pblico - est autorizada a sua reproduo total ou parcial.
                          Governo do Estado do Paran
                                Roberto Requio

                       Secretaria de Estado da Educao
                         Mauricio Requio de Mello e Silva

                                    Diretoria Geral
                                Ricardo Fernandes Bezerra

                         Superintendncia da Educao
                         Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde

                         Departamento de Ensino Mdio
                                Mary Lane Hutner

                  Coordenao do Livro Didtico Pblico
                              Jairo Maral




Depsito legal na Fundao Biblioteca Nacional, conforme Decreto Federal n.1825/1907,
de 20 de Dezembro de 1907.


 permitida a reproduo total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte.
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO
Avenida gua Verde, 2140 - Telefone: (0XX) 41 3340-1500
e-mail: dem@seed.pr.gov.br
80240-900 CURITIBA - PARAN


Catalogao no Centro de Editorao, Documentao e Informao Tcnica da SEED-PR

             Geografia / vrios autores.  Curitiba: SEED-PR, 2007.  280 p.

             ISBN: 85-85380-35-7

             1. Geografia. 2. Ensino mdio. 3. Ensino de geografia. 4. Dimenso poltica do espao
        geogrfico. 5. Dimenso cultural e demogrfica do espao geogrfico. 6. Dimenso econ-
        mica do espao geogrfico. 7. Dimenso socioambiental do espao geogrfico. I. Folhas. II.
        Material de apoio pedaggico. III. Material de apoio terico. IV. Secretaria de Estado da Edu-
        cao. Superintendncia da Educao. V. Ttulo.



                                                                                     CDU 91+373.5



                                        .
                                       2 Edio
                                  IMPRESSO NO BRASIL
                                DISTRIBUIO GRATUITA
                       Autores
                Andr Aparecido Alflen
                   Gisele Zambone
                   Joo Carlos Ruiz
               Leda Maria Corra Moura
                 Mrcia Regina Garcia
               Roslia Maria Soares Loch

            Equipe Tcnico  Pedaggica
                    Gisele Zambone
              Juliana Carla Muterlle Bitar
               Marcio Miguel de Aguiar
                    Valquiria Renk

     Assessora do Departamento de Ensino Mdio
              Agnes Cordeiro de Carvalho

Coordenadora Administrativa do Livro Didtico Pblico
               Edna Amancio de Souza

                Equipe Administrativa
                    Mariema Ribeiro
                 Sueli Tereza Szymanek

              Tcnicos Administrativos
              Alexandre Oliveira Cristovam
                   Viviane Machado

                      Consultor
                 Roberto Filizola - UFPR

                   Leitura Crtica
         Mafalda Nesi Francischett - Unioeste/PR

            Consultor de direitos autorais
             Alex Sander Hostyn Branchier

                   Reviso Textual
                   Renata de Oliveira

     Projeto Grfico, Capa Editorao Eletrnica
            Eder Lima/Icone Audiovisual Ltda

                Editorao Eletrnica
                 Icone Audiovisual Ltda


                         2007
  CartadoSecretrio
Este   Livro Didtico Pblico chega s escolas da rede como resultado
do trabalho coletivo de nossos educadores. Foi elaborado para atender
 carncia histrica de material didtico no Ensino Mdio, como uma
iniciativa sem precedentes de valorizao da prtica pedaggica e dos
saberes da professora e do professor, para criar um livro pblico, acessvel,
uma fonte densa e credenciada de acesso ao conhecimento.

A motivao dominante dessa experincia democrtica teve origem na
leitura justa das necessidades e anseios de nossos estudantes. Caminhamos
fortalecidos pelo compromisso com a qualidade da educao pblica e
pelo reconhecimento do direito fundamental de todos os cidados de
acesso  cultura,  informao e ao conhecimento.

Nesta caminhada, aprendemos e ensinamos que o livro didtico no 
mercadoria e o conhecimento produzido pela humanidade no pode ser
apropriado particularmente, mediante exibio de ttulos privados, leis
de papel mal-escritas, feitas para proteger os vendilhes de um mercado
editorial absurdamente concentrado e elitista.

Desafiados a abrir uma trilha prpria para o estudo e a pesquisa,
entregamos a vocs, professores e estudantes do Paran, este material de
ensino-aprendizagem, para suas consultas, reflexes e formao contnua.
Comemoramos com vocs esta feliz e acertada realizao, propondo,
com este Livro Didtico Pblico, a socializao do conhecimento e dos
saberes.

Apropriem-se deste livro pblico, transformem e multipliquem as suas
leituras.


                    Mauricio Requio de Mello e Silva
                     Secretrio de Estado da Educao
  AosEstudantes
                           Agir no sentido mais geral do termo significa tomar ini-
                      ciativa, iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. Por
                      constiturem um initium, por serem recm-chegados e ini-
                      ciadores, em virtude do fato de terem nascido, os homens
                      tomam iniciativa, so impelidos a agir. (...) O fato de que o
                      homem  capaz de agir significa que se pode esperar de-
                      le o inesperado, que ele  capaz de realizar o infinitamente
                      improvvel. E isto, por sua vez, s  possvel porque cada
                      homem  singular, de sorte que, a cada nascimento, vem
                      ao mundo algo singularmente novo. Desse algum que 
                      singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele no
                      havia ningum. Se a ao, como incio, corresponde ao fa-
                      to do nascimento, se  a efetivao da condio humana
                      da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distino
                      e  a efetivao da condio humana da pluralidade, isto
                      , do viver como ser distinto e singular entre iguais.


                                                                   Hannah Arendt
                                                              A condio humana



   Este  o seu livro didtico pblico. Ele participar de sua trajetria pelo
Ensino Mdio e dever ser um importante recurso para a sua formao.

    Se fosse apenas um simples livro j seria valioso, pois, os livros re-
gistram e perpetuam nossas conquistas, conhecimentos, descobertas, so-
nhos. Os livros, documentam as mudanas histricas, so arquivos dos
acertos e dos erros, materializam palavras em textos que exprimem, ques-
tionam e projetam a prpria humanidade.
   Mas este  um livro didtico e isto o caracteriza como um livro de en-
sinar e aprender. Pelo menos esta  a idia mais comum que se tem a res-
peito de um livro didtico. Porm, este livro  diferente. Ele foi escrito a
partir de um conceito inovador de ensinar e de aprender. Com ele, como
apoio didtico, seu professor e voc faro muito mais do que "seguir o li-
vro". Vocs ultrapassaro o livro. Sero convidados a interagir com ele e
desafiados a estudar alm do que ele traz em suas pginas.

    Neste livro h uma preocupao em escrever textos que valorizem o
conhecimento cientfico, filosfico e artstico, bem como a dimenso his-
trica das disciplinas de maneira contextualizada, ou seja, numa lingua-
gem que aproxime esses saberes da sua realidade.  um livro diferente
porque no tem a pretenso de esgotar contedos, mas discutir a realida-
de em diferentes perspectivas de anlise; no quer apresentar dogmas,
mas questionar para compreender. Alm disso, os contedos abordados
so alguns recortes possveis dos contedos mais amplos que estruturam
e identificam as disciplinas escolares. O conjunto desses elementos que
constituem o processo de escrita deste livro denomina cada um dos tex-
tos que o compem de "Folhas".

    Em cada Folhas vocs, estudantes, e seus professores podero cons-
truir, reconstruir e atualizar conhecimentos das disciplinas e, nas veredas
das outras disciplinas, entender melhor os contedos sobre os quais se
debruam em cada momento do aprendizado. Essa relao entre as dis-
ciplinas, que est em aprimoramento, assim como deve ser todo o pro-
cesso de conhecimento, mostra que os saberes especficos de cada uma
delas se aproximam, e navegam por todas, ainda que com concepes e
recortes diferentes.
    Outro aspecto diferenciador deste livro  a presena, ao longo do tex-
to, de atividades que configuram a construo do conhecimento por meio
do dilogo e da pesquisa, rompendo com a tradio de separar o espao
de aprendizado do espao de fixao que, alis, raramente  um espao de
discusso, pois, estando separado do discurso, desarticula o pensamento.

    Este livro tambm  diferente porque seu processo de elaborao e
distribuio foi concretizado integralmente na esfera pblica: os Folhas
que o compem foram escritos por professores da rede estadual de en-
sino, que trabalharam em interao constante com os professores do De-
partamento de Ensino Mdio, que tambm escreveram Folhas para o li-
vro, e com a consultoria dos professores da rede de ensino superior que
acreditaram nesse projeto.

    Agora o livro est pronto. Voc o tem nas mos e ele  prova do valor
e da capacidade de realizao de uma poltica comprometida com o p-
blico. Use-o com intensidade, participe, procure respostas e arrisque-se a
elaborar novas perguntas.

   A qualidade de sua formao comea a, na sua sala de aula, no traba-
lho coletivo que envolve voc, seus colegas e seus professores.
Sumrio
Texto de Apresentao do LDP de Geografia.........................................10
Contedo Estruturante: DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                  Apresentao.do.Contedo.Estruturante:.Dimenso.Poltica.do.Espao.
                  Geogrfico..................................................................................14
             1  O.Brasil.podia.ser.diferente?.....................................................18
             2  .proibida.a.entrada!...............................................................36
             3  A.unio.faz..a....?..................................................................50
             4  A.gua.tem.futuro?.................................................................66

Contedo Estruturante: Dimenso CulturaleDemogrficadoEspao
                       Geogrfico
  .           . Apresentao.do.Contedo.Estruturante:.Dimenso.Cultural.e.Demogrfica.
                do.Espao.Geogrfico...................................................................78
             5  Voc.produz.ou.consome.o.espao?.........................................84
             6  Para.onde.vais?...................................................................102
         7  Nada.a.ver?.Tudo.a.ver!........................................................118
                                    .
         8  Passa.por.sua.cabea.ter.muitos.filhos?....................................132


Contedo Estruturante: DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
    .      . Apresentao.do.Contedo.Estruturante:..
                                                      .
             Dimenso.Econmica.do.Espao.Geogrfico...................................144
         9  A.indstria.j.era?...................................................................148
        10  A.gente.se.v.no.shopping?......................................................162
        11  Ns.da.rede...........................................................................174
        12  Dinheiro.traz.felicidade?............................................................186
        13  Fome:.problema.econmico?....................................................198

Contedo Estruturante: DimensoSocioambientaldoEspao
                       Geogrfico
.          . Apresentao.do.Contedo.Estruturante:.Dimenso.Socioambiental..
                                 .
             do.Espao.Geogrfico.................................................................212
        14  Os.seres.humanos.so.racionais..Ser?.......................................216
        15  Pare.de.sonhar.com.um.carro!..................................................230
        16  Catstrofes.so.evitveis.ou.inevitveis?.......................................246
        17  Voc.toma.veneno?................................................................262
       EnsinoMdio




           A
           p
                       Apresentao
           r                                "Antes mundo era pequeno porque Terra era grande.



           e
                                           Hoje mundo  muito grande porque Terra  pequena"
                                                                       (Parabolicamar, Gilberto Gil, 1991)


                                                             "Alguma coisa est fora da ordem,


           s                                                     Fora da nova ordem mundial"
                                                                    (Fora da Ordem, Caetano Veloso, 1991)




           e             Queremos comear este livro propondo a voc, estudante do Ensi-
                     no Mdio, um desafio: tente responder as perguntas que seguem sem
                     uma pesquisa prvia!
                         Onde voc mora? Como  este lugar? Por que este lugar  assim?

           n         Que relaes econmicas e polticas este lugar estabelece com outros
                     prximos e distantes?
                         Essas perguntas referem-se ao espao geogrfico e, portanto, so


           t         centrais para os estudos de Geografia. Para respond-las ser necess-
                     rio lanar mo de conhecimentos que inicialmente eram apenas com-
                     partilhados entre as geraes de um mesmo grupo e, mais tarde, foram
                     organizados, registrados e discutidos mais amplamente, sobretudo nas

           a         instituies de ensino e pesquisa.
                         Mas, afinal, como sabemos hoje como so os lugares e por que so
                     assim e no de outro jeito?


           
                         As respostas destas questes foram construdas, inicialmente, por
                     meio da observao da dinmica da natureza. Esse conhecimento foi




           
           o
10   Apresentao
                                                                          Geografia




fundamental para os povos primitivos que se deslocavam constante-
                                                                          G
                                                                          E
mente  procura de um melhor local para se acomodar e encontrar ali-
mentos. Conhecer quando e onde as rvores frutferas estavam produ-
zindo era essencial para sua sobrevivncia.
    Voc sabia que as migraes realizadas pelos indgenas que habita-


                                                                          O
vam o nordeste brasileiro eram determinadas pelas estaes do ano e
pela variao da flora na rea em que se deslocavam? Aqueles grupos
observavam a natureza e mapeavam, ainda que mentalmente, os cami-
nhos e extenses que deveriam percorrer nos diferentes perodos do


                                                                          G
ano para garantir a sobrevivncia da tribo.
    Alm desses conhecimentos, outros como a dimenso, forma e mo-
vimentos do planeta, as diferenas entre as regies naturais, as diver-
sas formas de organizao social, cultural e econmica foram sistema-
tizados por pesquisadores e no final do sculo XIX, institucionalizados
pela Geografia, identificados como prprios desse campo de estudos.
Esses conhecimentos geraram o mapeamento do planeta quanto ao
seu quadro natural, social, econmico e cultural; a criao de conven-
                                                                          R
es para localizao, orientao e medio de distncias consideran-
do a curvatura da superfcie terrestre; enfim, dados, nomenclaturas e
convenes que nos identificam como ocidentais e orientais, povos do
norte e do sul, entre outras possibilidades.
                                                                          A
    No decorrer dos ltimos cinco sculos, a relao sociedade-natu-
reza foi, e ainda , responsvel por pesquisas a respeito de como  es-
te lugar e por que ele  assim. Inicialmente essas pesquisas baseavam-
se em minuciosas e detalhadas descries sobre os diversos lugares
                                                                          F
do planeta, suas caractersticas naturais, culturais e econmicas. Hoje
os estudos geogrficos abordam a relao sociedade-natureza com um
olhar crtico sobre as relaes de produo, as quais levam  degrada-
                                                                          I
                                                                          A

                                                                                      11
       EnsinoMdio




           A
           p         o ambiental e sobre as relaes polticas que se estabelecem entre
                     os pases onde os recursos naturais so encontrados.
                         Na verdade, desde que o modo capitalista de produo se desen-
                     volveu, refletir sobre onde as coisas se localizam implica em pensar nas

           r         relaes de poder que envolvem essa localizao, bem como tudo que
                     esteja contido no lugar. O fato de uma floresta, uma jazida mineral ou
                     um manancial localizar-se no territrio de um determinado pas, leva-


           e
                     r a possveis negociaes internacionais sobre conservao e explo-
                     rao desses "objetos naturais", chamados de recursos, sob a tica do
                     capitalismo. Dessa mesma perspectiva, a escolha do local de instala-
                     o de uma empresa, de construo de um porto, de uma estrada ou


           s         de um aeroporto tem determinantes polticos e econmicos, bem co-
                     mo culturais, ambientais e demogrficos.
                         Diante das consideraes feitas at aqui, voc notou que responder
                     o onde? pode ser mais complexo do que simplesmente dar a localiza-

           e         o de alguma coisa? Mais ainda, responder onde implica em relacio-
                     n-lo com o como  o lugar, por que ele  desse jeito, pois, essas pergun-
                     tas so indissociveis.


           n
                         Toda essa reflexo fica ainda mais complexa no atual perodo his-
                     trico, iniciado aps a Segunda Guerra Mundial, com a internaciona-
                     lizao da economia e com o avano das tcnicas de comunicao e
                     transportes.

           t             As transformaes do espao geogrfico, ocorridas nos lugares que
                     participam das relaes globais  de produo e de mercado, entre ou-
                     tras  tm apresentado hoje, um ritmo mais veloz e impactante do que


           a
                     no passado. Essas transformaes so, muitas vezes, resultado de de-
                     cises tomadas em outros lugares, em alguns casos situados a milha-
                     res de quilmetros de distncia, por interesses que no consideram a



           
           
           o
12   Apresentao
                                                                        Geografia




realidade do lugar afetado. Por exemplo, o aquecimento terrestre po-
de ter causas em processos ocorridos a grandes distncias de ns, dos
quais sofremos as conseqncias. Devido a estas situaes podemos
afirmar que a Terra  pequena e que alguma coisa est fora da ordem,
                                                                        G
                                                                        E
no  mesmo?
    Assim, para responder as perguntas prprias do campo de estu-
do da Geografia,  preciso compreender e interpretar a realidade so-
cial, econmica, poltica, cultural e ambiental do espao geogrfico


                                                                        O
de forma integrada. Isso significa considerar as dimenses geogrfi-
cas da realidade  econmica, geopoltica, socioambiental, cultural e
demogrfica  e como elas participam da constituio do recorte es-
pacial colocado em estudo. Essas dimenses traduzem-se, nesse li-
vro nos Contedos Estruturantes das Diretrizes Curriculares de Geo-
grafia: Dimenso Poltica do Espao Geogrfico, Dimenso Cultural
e Demogrfica do Espao Geogrfico, Dimenso Socioambiental do
Espao Geogrfico. Estes Contedos Estruturantes mereceram, cada
                                                                        G
um deles, um texto de apresentao que pode ser usado para deba-
te em sala de aula.
    Considerando a concepo de Geografia exposta  que constru-
mos o Livro Didtico Pblico, desejando ainda que este transforme a
                                                                        R
escola num lugar de pesquisa para compreenso do espao em qual-
quer escala geogrfica.
    Os textos que voc encontrar a seguir, no tm o intuito de es-
gotar as possibilidades de discusso dos Contedos Estruturantes aos
                                                                        A
quais se referem, mas pretendem gerar debates e pesquisas que leva-
ro ao aprofundamento e a aprendizagem dos contedos especficos e
dos conceitos da Geografia.                                             F
                                                                        I
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       EnsinoMdio

                       DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                         Este Contedo Estruturante engloba os interesses relativos aos ter-

            I        ritrios e as relaes de poder, econmicas e sociais que os envol-
                     ve. Para trat-lo abordaremos um dos campos de estudo da Geogra-
                     fia que tem como interesse o territrio: a Geopoltica.



            n             "O poder no  tudo, embora seja muito... o poder est em todas as
                      partes: nas ruas, nas favelas, nas prefeituras, nas escolas, nos livros e nos
                      jornais, na televiso, nas fbricas e no campo".
                       Jorge G. Castaeda (1994, p.395)



            t            O que significa "Geo" com certeza voc sabe. Sua professora, l
                     na 5 srie, deve ter definido. E poltica, o que ?
                         A palavra geopoltica no  uma simples contrao das palavras

            r        geografia e poltica;  mais que isso, algo que diz respeito s dispu-
                     tas de poder no espao. A palavra "poder" implica em dominao,
                     numa relao entre desiguais, que pode ser exercido por Estados
                     ou no. Esta dominao pode ser cultural, sexual, social, econmi-

            o        ca, repressiva e/ou militar, o que levaria a dominao de um terri-
                     trio. Mas o que  territrio?
                         Para Milton Santos (2005), o territrio  o cho e mais a popula-
                     o,  a base do trabalho, da residncia, das trocas materiais e espi-

            d        rituais e da vida.
                         O termo geopoltica surgiu com a publicao de "O Estado como
                     Organismo", do sueco Rudolf Kjellen, no incio do sculo XX. Kjellen
                     foi seguidor do gegrafo alemo Friedrich Ratzel, que  considerado

            u        um dos pais da cincia geogrfica e grande responsvel pelas idias
                     presentes na geopoltica.
                         Ratzel foi contemporneo da unificao alem (sculo XIX). Pre-
                     senciou a formao do Estado alemo, "pas" que at as ltimas d-

                    cadas do sculo XIX no existia como o conhecemos hoje. Seu atual
                     territrio, naquele perodo, era constitudo por um conjunto de rei-
                     nos cujas relaes eram freqentemente conflituosas. Para Ratzel, a
                     sociedade  como um organismo com necessidades de moradia e ali-


                    mentao. Quanto maior sua rea para obter estes recursos, melhor
                     so as condies de vida desta sociedade. Caberia ao Estado manter
                     a posse do territrio, e por isso ele luta pelo seu domnio. Estas idias
                     ficaram conhecidas pela expresso "espao vital".


            o
14   Introduo
                                                                             Geografia




     O termo geopoltica nem sempre foi visto com bons olhos, pois
no perodo da II Guerra Mundial, a geopoltica, com suas idias de
espao vital e povos superiores, atendeu aos interesses do governo
nazista alemo.
     No Brasil foi Josu de Castro, com uma de suas obras mais famo-
sas, Geopoltica da Fome (publicado em 1951), quem reacendeu o
                                                                             G
debate sobre a geopoltica e sobre o problema da fome. Neste per-
odo o tema "fome" era um tabu no Brasil, no se falava nele, embo-
ra milhares de pessoas j sofressem com ela. Mas, como destaca o
prprio autor, sempre foi considerado pouco conveniente, entre os
povos bem alimentados, discutir a fome dos menos afortunados. No
                                                                             E
entanto, a fome tem sido, desde muito tempo, a mais perigosa das
foras polticas, como j sabiam os romanos no sculo I, da surgindo
sua preocupao e a famosa expresso: "pani et circenses".
     Na dcada de 70, Yves Lacoste, em seu livro "A Geografia  isso
                                                                             O
serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra", afirmava que a geopo-
ltica seria a verdadeira geografia. Estaria certo Yves Lacoste? Afinal, o
que seria da guerra sem os mapas, sem saber onde h pontes, usinas
de gerao de energia para serem destrudas? Quais os terrenos ade-
                                                                             G
                                                                             R
quados para fazer os tanques de guerra entrarem em um pas? Mas a
geografia s lida com mapas e localizaes das coisas?
     Este debate, se a geografia realmente serve para fazer a guerra,
serviu como forma de revalorizar a geografia, principalmente a fei-


                                                                             A
ta nas escolas, geografia essa que at ento tinha como preocupa-
o enumerar rios, cidades, descrever paisagens e tipos humanos
exticos.
     A Geopoltica est relacionada ao poder e a quem o exerce. Ali-


                                                                             F
s, a coisa mais importante, quando se fala de geopoltica,  pergun-
tar quem est exercendo o poder, quem est dando as ordens sobre
aquela poro do espao, que pode ser chamada de territrio.
     A geopoltica de hoje  um campo de estudos interdisciplinar,


                                                                             I
pois pesquisa e quer entender temas como: os rumos do Brasil
ou de qualquer outro Estado-Nao no sculo XXI (ver Folhas "O
Brasil podia ser diferente?"); as possibilidades de confrontos ou de
crises poltico-diplomticas ou econmicas; as estratgias para os
grupos se tornarem hegemnicos no espao geogrfico; ou ainda,
para ocupar racionalmente os ambientes naturais. Tudo isso exige
os conhecimentos de Geopoltica e de muitas outras cincias.                 A

                                                                                         15
        EnsinoMdio




                          Na atualidade, Estado e fronteiras, to importantes para os enten-
                      dimentos da geopoltica, tm sofrido alguns abalos, dado o proces-
                      so de globalizao. Estes abalos podem ser encontrados no surgi-
                      mento dos blocos econmicos e instituies supranacionais (OTAN
                      - Organizao do Tratado Atlntico Norte, Mercosul  Mercado Co-
                      mum do Sul, UE  Unio Europia, etc.) que erodem (desgastam) o
                      poder e a soberania dos estados nacionais, tornando sem sentido 
                      em parte  a antiga noo de fronteira. Veja o caso da Unio Euro-
                      pia, tema que ser tratado no Folhas "A unio faz a... ?".
                           preciso destacar que h mltiplos territrios: Estado-Nao; es-
                      tado (provncia); municpio ou cidade; das grandes corporaes mul-
                      tinacionais, mais poderosas economicamente que muitas naes jun-
                      tas; dos grupos (gangues, trfico, etc.).
                          Numa escala geogrfica micro h tambm a idia de que o futebol
     Charge 1                                   tem sua geopoltica, pois o campo, as arqui-
                                                bancadas, a disputa entre as torcidas fora
                                                dos estdios, as quais "desfilam seu dom-
                                                nio pela cidade" (GOmeS, 2002),  mais uma dis-
                                                puta de poder no e pelo territrio (Veja no
                                                Folhas " Proibida a entrada").
                                                    Ficam as perguntas: dada a globalizao,
                                                esto os Estados fadados ao fim? As frontei-
                                                ras entre os pases no tm mais razo de
                                                ser? As relaes de poder esto desapare-
                                                cendo? A Terra ser nosso grande territrio,
                                                o qual teremos que defender somente de
                                                invases aliengenas? As questes ambien-
                                                tais e sociais, que tm proporcionado de-
                                                bates mundiais, levaro  unio dos povos?
                                                As guerras sobre o globo acabaro?
                                                    A geopoltica  entendida de vrias
                                                formas, todas elas ligadas ao espao ter-
                                                ritorial e s estratgias de ao dos Esta-
                                                dos ou de grupos sociais, como forma de
                                                expandir o territrio ou defender as fron-
                                                teiras. A questo ambiental tambm po-
                                                de ser considerada nesta temtica, pois a
                                                sociedade e o Estado devem estabelecer
                                                leis e atitudes que impediro ou facilita-




16    Introduo
                                                                             Geografia




ro as aes predatrias e/ou conservacionistas, protegendo dessa
forma seu territrio e seus recursos. Como exemplo podemos dis-
cutir a importncia da Amaznia ou do Aqfero Guarani para o
povo brasileiro ou para a humanidade (Veja mais detalhes no Fo-
lhas "A gua tem futuro?"). Os territrios onde estes se encontram,
podem vir a ser disputados por vrios pases. Debata essa idia a
partir da charge 1.
   Como se v, a geopoltica  um contedo bastante amplo. Os tex-
tos que seguem a esta apresentao tm por objetivo auxiliar e apre-
sentar alguns dos temas relacionados a ele, mas temos claro que tratar
de todos os temas relacionados a geopoltica seria um trabalho pa-
ra muitos e por muito tempo; ficam aqui apenas algumas discusses.
Bons estudos!


  RefernciasBibliogrficas
   CASTAEDA, J. G. Utopia desarmada: intrigas, dilemas e promessas da
   esquerda latino-americana. So Paulo: Companhia das Letras, 1994.
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   GOMES, P. C. da C. A condio urbana: ensaios de geopoltica da cidade.
   Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
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   guerra. Campinas: Editora Papirus, 1989.
   SANTOS, M. Por uma outra globalizao: do pensamento  conscincia
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   universal. 12 ed. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2005


  ObrasConsultadas
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   VOL.1 N 2 - OUT/NOV/DEZ 1997.
   ANDRADE, M. C. de. Geopoltica do Brasil. So Paulo: Ed. tica. 1989.
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  DocumentosConsultadosOnlInE
   http://www.revistaautor.com.br/artigos/2004/33ale.htm. Acesso em: jun.
   2005.




                                                                                         17
       EnsinoMdio




18   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                             Geografia




                                                                                        1
                                                            O BRASIL PODIA
                                                           SER DIFERENTE?
                                                                                       Gisele Zambone1



                                                                  Brasil podia ser diferente? Dife-
                                                                  rente em qu? Em seus habitan-
                                                                  tes; em suas paisagens; em seus
                                                                 limites territoriais; em seus cos-
                                                               tumes; em suas crenas; em suas
                                                           riquezas?




Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
1




                                                                           OBrasilPodiaSerDiferente?     19
         EnsinoMdio

                                               O Brasil "nasceu" com cerca de 2.800.000km2. Considerando-se
                                           que esta rea  aproximadamente 35% da rea atual, podemos dizer
                                           que ele nasceu modesto. Esta  a rea que "cabia" a Portugal de acor-
                                           do com o Tratado de Tordesilhas l nos idos do sculo XV (observe
                                           a figura 1). Assim, este era o territrio, pelo menos formalmente, sob
                                           domnio portugus.

     Figura 1 - Tratado de Tordesilhas
                                                                                       claro que o Brasil no
                                                                                  brotou do cho como uma
                                                                                  planta, mas a idia de cres-
                                                                                  cimento, de expanso como
                                                                                  uma planta tambm ocorre
                                                                                  com o territrio de um pas,
                                                                                  assim como o desaparecimen-
                                                                                  to ou diminuio da rea ocu-
                                                                                  pada por este. O solo que ho-
                                                                                  je o Brasil ocupa j existia, o
                                                                                  que no existia era seu terri-
                                                                                  trio, a poro do espao sob
                                                                                  domnio, poder, soberania de
                                                                                  um Estado organizado.




           Quadro 1
         Um Estado  uma comunidade organizada politicamente, ocupando um territrio definido, normal-
      mente sob Constituio e dirigida por um governo; tambm possuindo soberania reconhecida interna-
      mente e por outros pases. O reconhecimento da independncia de um estado em relao a outros,
      permitindo ao primeiro firmar acordos internacionais,  uma condio fundamental para estabeleci-
      mento da soberania. Tambm se chamam estados as subdivises polticas das repblicas federati-
      vas, como por exemplo, no Brasil so estados Gois, So Paulo, Rio Grande do Sul; nos Estados Uni-
      dos da Amrica, o Texas ou Dakota do Norte.
       Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/estado.



                                              Inicialmente este territrio era da Coroa Portuguesa e, somente
                                           a partir de 1822, passou a pertencer ao chamado Estado Brasileiro.
                                           Quando falamos que ele nasce modesto,  ao territrio que nos refe-
                                           rimos. Mas como ele "cresceu"? Ampliando seu poder? Como o Estado
                                           Portugus conquistou mais territrios?
                                               Foram muitos os conflitos entre os indgenas e a Coroa portuguesa
                                           e a Coroa espanhola para que aqueles "cedessem" seu territrio.
                                              Como se pode visualizar na figura 1, o Tratado de Tordesilhas dava
                                           um limite para a expanso Portuguesa, mas em 1580 Portugal ficou sem
                                           sucessor em suas terras para ocupar o trono, o nico sucessor legtimo

20    DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia

era Felipe II, neto do rei da Espanha. Mas um espanhol no trono Portu-
gus? Sim. Felipe II teve que usar a fora, derrotando os exrcitos lusi-
tanos para assumir o trono. Esta relao deu um certa autoridade para
que os portugueses que viviam na colnia considerassem que no ha-
via problema em ultrapassar os limites definidos pelo Tratado de Tor-
desilhas. Em 1640, quando o trono de Portugal foi recuperado, as ter-
ras a oeste do limite do tratado estavam ocupadas por portugueses que
no apresentavam nenhuma disposio em devolv-las. Associado a is-
to e a outros conflitos que ocorreram na Europa, em 1750 o Tratado de
Tordesilhas deixa, formalmente, de existir.
    Quanto a relao indgenas x portugueses, estes ltimos possuam
uma organizao social e econmica bem diferente da dos indgenas.
Entre as diferenas encontramos o desejo de lucro, a propriedade in-
dividual ou posse da terra e de seus recursos, o dinheiro utilizado na
compra e venda das mercadorias, organizaes sociais e econmicas
introduzidas no Brasil, o que j era comum na Europa. Estamos falan-
do dos princpios do sistema capitalista. Que tal buscar mais informaes
sobre o sistema capitalista?
    A figura 2 mostra onde a Coroa Portuguesa tinha soberania sobre o
espao brasileiro no sculo XVI.
    H uma caracterstica de "arquiplago*" (veja na figura 2 as reas em
vermelho), por ser formado por reas isoladas ou com contatos muito t-
nues, onde a troca de mercadorias ou pessoas pouco existia entre estas
reas. E no havia esta preocupao com a troca,
                                                     Figura 2 - A ocupao territorial do Brasil
pois a economia e, conseqentemente, o espao
estavam organizados para enviar sua produo
para o exterior, para a metrpole. Esta preocu-
pao em enviar a produo para o exterior vai
caracterizar o Brasil por um longo perodo.
    D uma olhadinha na localizao das ca-
pitais dos estados na figura 3. Por que ser que
elas esto onde esto? A letra da msica Notcias do
Brasil diz alguma coisa sobre isto?

     Quadro 2
     Notcias do Brasil
      milton Nascimento
      "A novidade  que o Brasil no  s litoral/
  muito mais,  muito mais que qualquer zona
 sul /Tem gente boa espalhada por esse Bra-
 sil /Que vai fazer desse lugar um bom pas /
 Uma notcia est chegando l do interior /No
 deu no rdio, no jornal ou na televiso /Ficar de
 frente para o mar, de costas pro Brasil /No vai
 fazer desse lugar um bom pas"


                                                                        OBrasilPodiaSerDiferente?       21
       EnsinoMdio

                     Figura 3 - A Marcha do Povoamento e a Urbanizao - Sculo XVII




                                No incio do povoamento do territrio do Brasil, ou do pas que vi-
                            ria a ser chamado assim, a populao de origem europia e africana fi-
                            cou bastante restrita ao litoral, desenvolvendo inicialmente atividades
                            econmicas com caractersticas extrativistas. Que caractersticas seriam
                            estas? Procure mais detalhes.
                                No final do sculo XVI, os colonizadores comearam o cultivo da
                            cana-de-acar e a montagem de engenhos de acar, principalmente no
                            litoral do nordeste. A escolha por stios litorneos, prximos s baas ou
                            enseadas junto da plancie litornea, deu-se porque a produo agrcola
                            era dirigida para a exportao. Nossas primeiras cidades estavam ligadas
                             funo de porto comercial e militar, e tinham o objetivo de garantir a
                            posse da Colnia pela Coroa Portuguesa.
                                Observe na figura 3 - "A Marcha do Povoamento e a Urbanizao"
                            - as cidades e suas datas de fundao.  importante salientar que a da-
                            ta de fundao  aquela quando o ncleo urbano recebe o ttulo ofi-
                            cial de vila ou cidade, mas elas j existiam antes.

22   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia

   A ocupao do interior nordestino se deu atravs da introduo da
pecuria bovina em reas no propcias ao desenvolvimento da ca-
na-deacar. No era propcia dada a distncia para a exportao do
produto final - o acar, e pelas condies naturais, solo e clima, me-
nos adequados para esta cultura.



                 PESQUISA

     A agricultura moderna depende das condies naturais como a agricultura citada anteriormente?
     Por qu? Pesquise sobre este tema.


    Nos sculos XVI e XVII, a lavoura canavieira e a criao de gado fo-
ram as atividades que contriburam para a efetivao da ocupao do es-
pao brasileiro e sua expanso territorial. A pecuria permitiu tambm a
fixao da populao, o que deu origem  formao dos primeiros n-
cleos urbanos no interior do territrio. Eram povoados pequenos onde
j ocorria a atividade artesanal, o comrcio, residiam os funcionrios da
administrao municipal, oficiais da Coroa, artesos e mercadores.
    A fundao de cidades, ou vilas, no interior deveria ser autorizada
pela Coroa, atravs de seus donatrios, em demonstrao de sua sobe-
rania sobre o espao. As cidades do perodo colonial representavam um
prolongamento do mundo rural. Isto  diferente nos dias atuais? Por qu?
Aponte elementos que demonstrem esta semelhana ou diferena.
    A cmara municipal foi a primeira e principal instituio poltica repre-
sentativa da populao da colnia, na qual as funes mais importantes
eram exercidas pelo "concelho". Essa era composta pelos juizes ordin-
rios, procuradores, vereadores e os almotacs (fiscais), sendo estes, ho-
mens escolhidos entre os adultos livres, includos os nobres, senhores de
engenho, os proprietrios, os militares e o clero. Era responsabilidade do
"concelho", fixar taxas sobre os ganhos dos artfices (impostos), definir
cdigos de posturas, determinar a conservao das vias pblicas, definir
as jornadas de trabalho e julgar as ofensas verbais e os pequenos furtos.



                 DEBATE

      Atualmente, a cmara municipal exerce essas funes? Qual a importncia de ter a participa-
 o de todos (homens e mulheres independente de suas condies financeiras) nas decises po-
 lticas do local onde se vive? As decises polticas interferem em sua vida? Faa um debate sobre
 isso com seus colegas e professores.



                                                                          OBrasilPodiaSerDiferente?     23
       EnsinoMdio

                                As vilas representavam o primeiro degrau da vida urbana, eram
                            aglomerados urbanos que funcionavam como sede de um distrito mu-
                            nicipal. J a cidade, desde o perodo colonial at hoje, por fora de lei,
                             representada pela localidade onde est sediado o poder municipal
                            (prefeitura). Uma de suas funes  administrar o municpio. Mas quais
                            outras funes tm a cidade? Pesquise sobre este tema e defina qual a
                            funo principal da cidade onde voc mora.
                                No sculo XVII, o territrio "brasileiro" continuou a se expan-
                            dir, pois a descoberta de minerais provocou o deslocamento do
                            povoamento, de forma mais intensa, para o interior, inicialmente
                            de forma temporria, uma vez que se baseava na explorao alu-
                            vial*. Mais adiante, a descoberta de veios aurferos permitiu maio-
                            res ganhos, criou condies para a fixao da populao no ind-
                            gena, o que acabou consolidando o territrio de domnio da Coroa
                            Portuguesa.
                                Os responsveis por descobrir estes recursos minerais foram os
                            Bandeirantes, eles formavam grupos de expedies de explorao que
                            se originavam em So Paulo. Estas expedies foram responsveis pe-
                            la expanso do territrio brasileiro.
                                Os Bandeirantes avanaram em direo ao interior por entre flores-
                            tas e as margens de rios como o Tiet e Paran; chegaram at a regio
                            Amaznica, alm do limite do Tratado de Tordesilhas, invadindo as ter-
                            ras que pertenciam  Espanha por este tratado. Eles iam em busca de
                            riquezas, como minerais e indgenas para escravizar.
                                A corrida ao ouro atraiu milhares de pessoas provenientes do lito-
                            ral e de Portugal; alm disso, a necessidade de gado para alimentao
                            e para o transporte do ouro proporcionou o surgimento de novas cida-
                            des e vilas no caminho dos tropeiros.


                     PESQUISA

        Cidades como Lapa e Castro no Paran surgiram em funo dos tropeiros. Voc sabe qual a origem
     de sua cidade? Que tal pesquisar?



                               Com a explorao do ouro e das pedras preciosas, a partir do
                            sculo XVIII, novas regies foram incorporadas  fronteira econ-
                            mica: os atuais estados de Minas Gerais, Gois, Mato Grosso e Ma-
                            to Grosso do Sul.
                               As necessidades de escoamento do ouro e a fiscalizao da produ-
                            o mineral fizeram do Rio de Janeiro a segunda capital da colnia, em
                            1763. Em 1808, com a chegada da famlia real portuguesa, a cidade te-
                            ve suas condies de desenvolvimento ampliadas.

24   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia

   Observe a figura 4 e identifique as diferentes denominaes para
os estados ou territrio brasileiros e os limites territoriais. Os diferentes
limites e denominaes refletiam as diferenas das relaes polticas e
econmicas que ocorriam neste espao. Observe que h o Estado do
"Brazil" e o Estado do Maranho. Como voc explica isto?

Figura 4 - Vice-reino do Brasil (1763)




 Fonte: http://www.ibge.gov.br/brasil500/index2.html

    A ocupao da Amaznia, ou do Norte brasileiro, ocorreu no scu-
lo XVI, devido  existncia de muitos rios, que permitiram a implanta-
o de pequenos ncleos que, em sua maioria, no prosperaram nem
economicamente nem populacionalmente. Esta poro do territrio fi-
cou sob o controle militar para garantia do territrio. Essa ocupao
inicial no mudou quase nada as condies naturais, exceto em algu-
mas regies, como na rea ao redor de Belm.
    Como voc explica esta situao de no mudana das condies natu-
rais apesar da instalao de uma sociedade com princpios capitalistas?
     A poro do territrio conhecida por Amaznia apresentava baixa
ocupao populacional sob o controle da Coroa Portuguesa, que pra-
ticamente no tinha domnio da rea, por isso esta poro do territrio
foi cobiada por outras naes europias.

                                                                          OBrasilPodiaSerDiferente?     25
          EnsinoMdio



                                No extremo sul do Brasil, no sc. XVIII, a colonizao, ou domina-
                            o do territrio, deu-se inicialmente com populao de origem por-
                            tuguesa  os colonos aorianos assentados no Rio Grande do Sul. Esta
                            regio j fora objetivo de incurses de criadores paulistas, os Bandei-
                            rantes, que se estabeleceram nas reas de campo, desenvolvendo a pe-
                            curia, que a encontrou condies ambientais favorveis.
                                Observe a importncia das atividades econmicas e das condies
                            naturais para a dominao do territrio. Foram as atividades econmi-
                            cas que permitiram a fixao da populao e o domnio do territrio?
                                As atividades econmicas, geralmente ligadas ao extrativismo ou 
                            agricultura, eram muito dependentes das condies naturais, dadas as
                            condies tecnolgicas ento presentes.
                                Por volta do sc. XIX, a ao colonizadora no Sul do Brasil instalou
                            colnias baseadas no sistema de apropriao de terras, atravs de co-
                            lonizao oficial ou particular. Este tipo de colonizao foi implantada
                            em outras pores do territrio, mas, foi no sul do pas que esse modo
                            de ocupar as terras foi mais difundido. Isto fez esta poro do territ-
                            rio diferente? Procure mais informao sobre este tema.
     Figura 5 - Imprio do Brazil - 1822                                    No final do sculo XIX,
                                                                        o Brasil ainda no tinha a
                                                                        "forma" que tem hoje, ter-
                                                                        ritorialmente falando  fal-
                                                                        tava a efetiva ocupao do
                                                                        Centro-Oeste e do Norte do
                                                                        Brasil, pores que foram
                                                                        ocupadas de forma mais in-
                                                                        tensa a partir da dcada de
                                                                        60 e 70 do sculo XX. Que
                                                                        tal procurar mais informa-
                                                                        es sobre a ocupao do
                                                                        Centro-Oeste e Norte do Bra-
                                                                        sil no sculo XX at os dias
                                                                        de hoje? Ainda existem mui-
                                                                        tos conflitos por terra nesta
                                                                        poro do Brasil.
                                                                            Observe agora as dife-
                                                                        renas nos limites dos es-
                                                                        tados brasileiros nas figu-
                                                                        ras 5 e 6.



      Fonte: Atlas Geogrfico escolar. Rio de Janeiro, 2000.




26    DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                      Geografia


                                      Figura 6 - Republica dos Estados Unidos do Brazil (1889)
    O Brasil que temos hoje,
quando se refere ao seu ter-
ritrio,  o mesmo que te-
mos nos mapas? Do incio
do sculo XX at hoje, mui-
ta coisa mudou na paisagem
brasileira e na sua configu-
rao interna. Nenhum ma-
pa, sozinho, daria conta de
representar o territrio bra-
sileiro e suas mudanas. Te-
ramos que utilizar muitos
mapas, os mapas temticos,
como o de uso do solo, de
estradas, de atividades eco-
nmicas, etc.
    Que tal fazer uma busca
em um Atlas e verificar estas
diferenas?  possvel verifi-
car todas as transformaes
que ocorreram na paisagem
do Brasil e em sua configu-
                                 Fonte: Atlas Geogrfico escolar. Rio de Janeiro, 2000.
rao interna?
     No final do sculo XIX e incio do sculo XX, aconteceram muitos
fatos que provocaram a mudana em nossa paisagem. Podemos citar o
fim da escravido; a ampliao do trabalho assalariado; a chegada de
grande quantidade de estrangeiros (imigrantes); a mudana na forma
de governo do Brasil (monarquia para repblica); a expanso da eco-
nomia cafeeira no Sudeste; novas condies de transportes e comu-
nicaes, como as estradas de ferro, o telgrafo e o cabo submarino.
Estas mudanas desdobraram-se em outras, e em conjunto criavam no-
vos contextos, com reflexos at os dias atuais.




                   DEBATE

      Debata com seus colegas como os fatos citados mudaram a paisagem e o espao brasileiro.




                                                                                    OBrasilPodiaSerDiferente?     27
       EnsinoMdio



                               Fazendo uma pausa: neste perodo o Brasil no  mais colnia de
                           Portugal. Em 1822 passa a ser controlado pelo seu prprio governo,
                           tendo soberania sobre seu territrio, mas o soberano  um impera-
                           dor. Esta forma de governo vai se manter at 1889, ano em que o go-
                           verno passa a ser escolhido de "forma mais" democrtica, mas sem a
                           participao de grande parte da populao nesta escolha. Foi adota-
                           do o sistema presidencialista e as provncias do perodo imperial pas-
                           saram a ser chamadas de estado (leia o quadro 1), compondo, desta
                           forma, os Estados Unidos do Brasil. A semelhana com Estados Uni-
                           dos da Amrica no  mera coincidncia, busque mais informao
                           sobre este tema.
                               No sculo XX, com mudanas ocorridas no sistema scio-econmi-
                           co (como o trabalho livre e assalariado) e o crescimento dos merca-
                           dos internacionais (principalmente com o caf), foi possvel o controle
                           pelo governo republicano do Brasil de muitas regies interioranas do
                           pas, com o surgimento de cidades e o crescimento de cidades j exis-
                           tentes. Associado a diferentes atividades econmicas, o "Brasil" foi fi-
                           xando seu domnio pelo territrio, colocando seus antigos donos (in-
                           dgenas) em parques e reservas.
                               O "Brasil" da frase anterior aparece entre aspas porque estamos nos
                           referindo  nao brasileira, composta pelo seu povo e tambm por
                           grupos que detinham o poder, ou o controle do que deveria ocorrer
                           neste territrio, definindo as leis e quem deveria fazer cumpri-las.
                               Como vimos, as fronteiras e limites do Brasil apresentaram gran-
                           des alteraes ao longo de sua histria. Por exemplo: o estado do
                           Acre s passou a fazer parte do nosso territrio em 1910, quando foi
                           comprado da Bolvia. Voc imaginaria hoje um pas vendendo par-
                           te de seu territrio? Quem autorizaria esta venda? Qual deveria ser o
                           destino do dinheiro recebido? Haveria outra forma de conquistar es-
                           ta poro de terra?
                               E quanto s fronteiras internas? De 1940 at os dias atuais o pas so-
                           freu 17 alteraes na configurao de suas unidades poltico-adminis-
                           trativas, com a criao e extino de unidades. As ltimas modifica-
                           es ocorreram com a Constituio de 1988, que deu origem ao estado
                           de Tocantins, elevou os territrios federais do Amap e Roraima  cate-
                           goria de estados e anexou o territrio federal de Fernando de Noronha
                           a Pernambuco. Mas esta histria no acaba aqui. Leia o texto no qua-
                           dro 03 e responda se acredita ser necessrio ou no a criao de mais
                           estados no pas. Justifique sua resposta.




28   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                                       Geografia



                                             Quadro 3
Colcha de retalhos: Projetos em tramitao no Congresso pre-
tendem criar novos estados
 Andr Campos
     O estado de Tapajs
    No corao da floresta Amaznica, a poro oeste do Par convive com
propostas de emancipao h praticamente tanto tempo quanto a prpria in-
dependncia do Brasil. Em 1876, o militar Augusto Fausto de Sousa props
nova diviso do imprio em 40 provncias, incluindo a criao do estado de Ta-
pajs no oeste paraense. A proposta foi esquecida, mas o nome acompanha
at hoje o movimento de emancipao da regio.
     Aps atravessar o sculo passado em discusso e ser descartada em di-
versas ocasies, a idia voltou a ganhar flego em novembro de 2000, quan-
do foi aprovado no Senado o projeto de convocao de plebiscito sobre a
criao desse estado. O pretenso estado de Tapajs possui territrio maior
do que o da Frana ou da Espanha. Apesar de representar 58% da rea to-
tal do Par, a regio responde por apenas cerca de 10% do PIB estadual e
tem aproximadamente 16% da sua populao atual. Tamanha desigualdade
de desenvolvimento e de ocupao  em grande parte explicada pela histri-
ca concentrao de investimentos governamentais na regio metropolitana de
Belm, a capital.  naquela rea que se encontram, por exemplo, quase a me-
tade das agncias bancrias, a maioria das rodovias estaduais e os melhores
ndices paraenses no que diz respeito a domiclios com gua canalizada, ilumi-
nao eltrica e instalaes sanitrias.
     A idia da criao do estado de Tapajs, porm, no conta com a simpatia
de lideranas polticas de Belm. Existe o temor de que a aprovao do pro-
jeto seja o estopim de um amplo processo de fragmentao do estado, que
convive tambm com articulaes polticas para a criao do estado de Cara-
js, no sudeste do Par, alm da proposta, ainda incipiente, de transformar a
ilha de Maraj em territrio federal.
     A falta de um programa poltico abrangente, capaz de abrigar os anseios
de todos os segmentos da sociedade e no somente de uma pequena elite
poltica e econmica interessada em regular o territrio segundo interesses es-
pecficos,  justamente uma das principais crticas feitas aos projetos de redi-
viso territorial hoje debatidos no Brasil. Gilberto Rocha, professor do Depar-
tamento de Geografia da Universidade Federal do Par (UFPA), v situao
semelhante nas propostas de diviso atualmente discutidas no estado. Para
ele, a criao de unidades federativas no Par  um debate de elites, no qual
a populao se posiciona sentimentalmente. " muito fcil mobilizar o povo de
uma regio em favor de uma proposta desse tipo   s apontar as carncias
do local e dizer que um novo estado ir resolver a situao", afirma.
 Fonte: http://www.reporterbrasil.com.br/reportagens/tapajos/iframe.php. Acesso em 02 agosto 2005.




                                                                                                     OBrasilPodiaSerDiferente?     29
       EnsinoMdio




                     PESQUISA

        Faa uma pesquisa sobre as propostas de criao de novos estados no Brasil. Elabore um texto
     sobre este tema. D um ttulo adequado e acrescente ao texto figuras, grficos e mapas. Organize um
     mural com os textos e debata com a classe sobre o tema.




                                 A consolidao das fronteiras e limites do Brasil  o resultado de
                             um processo histrico de produo e reproduo do espao atravs
                             do trabalho humano. Como vimos, os limites entre as unidades da
                             federao so objeto de propostas de alterao. Mas os conflitos en-
                             tre as unidades da federao no terminaram, nem se resumem ao
                             conflito por reas. Na atualidade, as localidades e estados disputam a
                             atrao de empreendimentos econmicos, empresas (indstrias, co-
                             mrcio ou servios) que (acreditam governos locais) geraro empre-
                             gos e maior arrecadao de impostos. Isto criou a chamada "guerra
                             fiscal". Este  um outro assunto. Mas que tal buscar informaes so-
                             bre a "guerra fiscal"? (Veja o Folhas "A indstria j era?").
                                 Tratou-se anteriormente da proposta para a criao de inmeros
                             estados (Unidades da Federao  UF) no Brasil. Qual sua opinio
                             sobre as vantagens e desvantagens que este tipo de deciso traria
                             para a Unio e, conseqentemente, para a populao que integra
                             estes territrios?
                                 As propostas de desmembramentos no afetam somente os esta-
                             dos. A constituio promulgada, em 1988, facilitou aos estados legisla-
                             rem sobre a criao de novos municpios.
                                  Veja no artigo 18 da Constituio, em seu pargrafo 3 (Da Or-
                             ganizao do Estado CAPTULO I DA ORGANIZAO POLTICO-
                             ADMINISTRATIVA), que determinou a regulamentao das emanci-
                             paes municipais pelos Estados, descentralizando a deciso, que
                             antes cabia  Unio.
                                 A intensa criao de municpios no  um fenmeno recente,
                             mas como podemos verificar na tabela "Distribuio dos municpios
                             brasileiros, segundo o perodo de instalao, pelas unidades da fe-
                             derao", a onda emancipacionista ocorreu com maior intensidade
                             em alguns estados.




30   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                 Geografia



 Tabela 1

               Distribuio dos municpios brasileiros segundo o perodo de instalao,
                            pelas unidades da federao  Brasil 1980-2001
                                                                                       2001-
 ESTADOS                              1980            1991       1993   1997   2001               %
                                                                                        1980
 Rondnia                                   7               23     40     52     52        45
 Acre                                     12                12     22     22     22        10
 Amazonas                                 44                62     62     62     62        18
 Roraima                                    2               6       8     15     15        13
 Par                                     63            105       128    143    143        80
 Amap                                      5               9      15     16     16        11
 Tocantins                                52                79    123    138    138        86
 Maranho                               130             136       138    217    217        87
 Piau                                  114             118       148    221    223      109
 Cear                                  141             178       184    184    184        43
 Rio Grande do Norte                    150             152       152    166    167        17
 Paraba                                171             171       171    223    223        52
 Pernambuco                             165             169       177    185    185        20
 Alagoas                                  94                97    100    101    102         8
 Sergipe                                  74                74     75     75     75         1
 Bahia                                  336             415       415    415    417        81
 Minas Gerais                           722             722       723    756    853      131
 Esprito Santo                           53                67     71     77     78        25
 Rio de Janeiro                           64                70     81     91     92        28
 So Paulo                              571             572       625    645    645        74
 Paran                                 290             323       371    399    399      109
 Santa Catarina                         197             217       260    293    293        96
 Rio Grande do Sul                      232             333       427    467    497      265
 Mato Grosso                              55                72     77     77     77        22
 Mato Grosso do Sul                       55                95    117    126    128        73
 Gois                                  171             211       232    242    246        75
 Fonte: http://www.ibam.org.br/publique/media/eSP020P.pdf


   Utilizando esta tabela, calcule o percentual entre a quantidade total
de municpios que existiam em 2001 em relao aos valores observados
em 1980. Acrescente estas informaes no espao reservado. Faa isto
para o total do pas e tambm para cada estado.




                                                                               OBrasilPodiaSerDiferente?     31
       EnsinoMdio



                               Qual a sua concluso sobre a diferena quanto ao crescimento ab-
                           soluto e percentual da quantidade de municpios no Brasil? Se voc s
                           tivesse a coluna com as porcentagens, sua concluso seria a mesma?
                               Ainda utilizando a tabela, voc deve desenvolver uma srie de ati-
                           vidades para que possa expressar os dados da tabela em um mapa te-
                           mtico. O objetivo  melhorar a visualizao da informao, permitin-
                           do responder mais facilmente s seguintes questes: em que regio do
                           Brasil o processo de criao de novos municpios ocorreu com maior
                           intensidade? Qual sua explicao para este fato?
                              As orientaes para que voc possa construir o mapa so as seguintes:
                           1. Defina o limite inferior da primeira classe (Li), que deve ser igual
                              ou ligeiramente inferior ao menor valor das observaes - presen-
                              tes na coluna 2001 - 1980 ou de %;
                           2. Defina o limite superior da ltima classe (Ls), que deve ser igual ou
                              ligeiramente superior ao maior valor das observaes - presentes
                              na coluna 2001 - 1980 ou de %;
                           3. Defina o nmero de classes (K), que ser calculado usando k = n .
                              Obrigatoriamente deve estar compreendido entre 5 a 20; n  o n-
                              mero de elementos da amostra que  igual ao nmero de estados;
                           4. Conhecido o nmero de classes, defina a amplitude de cada classe:
                                   (Ls  Li)
                              a=             .
                                       k
                           5. Com o conhecimento da amplitude de cada classe, defina os limites
                              para cada classe (inferior e superior), ou seja, os valores que iro
                              compor a legenda;
                           6. Considerando as classes, distribua os Estados pelas classes;
                           7. Escolha uma cor para cada classe. Utilize uma nica cor variando o
                              seu tom, ou conjunto de cores de uma das sries (quentes ou frias),
                              procurando utilizar os tons mais claros para as classes inferiores;
                           8. Utilizando um mapa do Brasil dividido em estados, distribua a in-
                              formao sobre ele;
                           9. Agora responda s questes propostas anteriormente.
                              Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica -
                           IBGE (2000), a partir da promulgao da Constituio de 1988, surgiram
                           1307 novos municpios. A grande maioria dos municpios criados
                           recentemente possui um nmero de habitantes menor que 20 mil,
                           sendo que 74% destes tm menos de dez mil habitantes. Na regio Sul,
                           estes representam mais de 90% do total (TOmIO, 2002). Pesquisas do IBGE
                           tambm demonstram que os municpios que apresentam pequenas
                           populaes so os que perdem mais populao, ou seja, apresentam
                           crescimento negativo.

32   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                        Geografia



    Todo o territrio brasileiro est dividido entre estados e munic-
pios e sob o controle de um governo, estadual e municipal, sem falar
                                                                            GlOSSRIO
da Unio. Para que um novo municpio seja criado  preciso que um            Arquiplago: con-
municpio j existente (municpio me) "ceda" parte de seu territrio,       junto de ilhas, reas
de sua populao, de sua infra-estrutura e de sua arrecadao de im-         isoladas;
postos (as verbas).                                                          Aluvial: depsito de
    O governo municipal tem vrias responsabilidades em relao             cascalho ou sedi-
populao. Como ele obtm recursos para cumprir com suas obriga-             mentos de um rio;
es, como: educao, sade, abertura e manuteno de estradas na            Fato gerador: 
zona rural, etc.?                                                            um evento econmi-
    Cabe, aos municpios, um volume mnimo de recursos, que  re-            co que pode ser tri-
passado, pela Unio, independentemente de existir em seu territrio          butado  a produo
fato gerador* da receita.                                                    de bens industriais e
                                                                             agrcolas, a compra
     Os recursos fiscais municipais tm origem em quatro fontes:
                                                                             e venda de bens, o
    Recursos de arrecadao prpria, como o IPTU (Imposto Predial e          recebimento de sal-
    Territorial nico) e ISS (Imposto Sobre Servios);                       rio ou rendimentos, a
    Recursos transferidos de impostos estaduais e federais em virtude        venda, importao o
    da fonte de receita estar no territrio do municpio, como a tribu-      exportao de bens
    tao sobre funcionrios do poder municipal (100%), o ITR (Im-           e servios etc.
    posto Territorial Rural, 50%), o IPVA (Imposto Sobre Veculos Au-
    tomotores, 50%), o ICMS (Imposto Circulao de Mercadorias e
    Servios, 18,75%);
    Recursos transferidos pelo estado (oriundos do ICMS) e pela Unio
    (Fundo de Participao de Municpios);
    Recursos de transferncias voluntrias (convnios, obras etc.).
    Pesquisas demonstram que a maioria dos municpios criados nas
ltimas duas dcadas dependem diretamente das transferncias fede-
rais para o seu funcionamento. Ento por que tantos municpios se
emanciparam?




               ATIVIDADE

    No Paran, como se pode verificar na tabela, muitas emancipaes ocorreram nos ltimos 20
 anos. Este fato ocorreu em sua regio? Qual a condio econmica destes municpios hoje? A po-
 pulao tem condies de sade e educao melhores agora? Como ficaram os municpios que ti-
 veram que ceder parte do seu territrio?




                                                                     OBrasilPodiaSerDiferente?       33
       EnsinoMdio

                              Veja nos mapas - "Diviso poltica administrativa do Paran" - a
                           evoluo dos municpios no Paran.

                            Mapa 1
                                      Diviso poltico-administrativa do Paran  1940

                                                                                   Escala aprox. 1 : 5 400 000




                            Mapa 2
                                     Diviso poltico-administrativa do Paran  2000
                                                                                   Escala aprox. 1 : 5 000 000




                               Comeamos este Folhas falando a respeito de territrio, de soberania
                           sobre uma poro do espao e princpios da geopoltica. Ser que esta
                           discusso tem alguma coisa com este grande nmero de emancipaes
                           de municpios?

34   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
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 RefernciasBibliogrficas
 Atlas Geogrfico Escolar. IBGE 2000.


 ObrasConsultadas
 ANDRADE, M. C. Geopoltica do Brasil. So Paulo: tica, 1980.
 CORRA, R. L. Regio e Organizao Espacial. So Paulo: tica,
 1987.
 FERREIRA, C.; SIMES, N. N. Tratamento estatstico e grfico em
 geografia. Lisboa: Gradiva. 1987.
 JNIOR, C. P. Formao do Brasil Contemporneo.               So Paulo:
 Brasiliense, 1963.
 MAGNOLI, D. O corpo da ptria. So Paulo: Moderna, 1997.
 TAVARES, L. A. A fronteiras fsicas do espao rural: uma concepo
 normativo-demogrfica. RAE GA  o espao geogrfico em anlise,
 Curitiba, n. 7, p. 33-46, 2003. Editora UFPR.



 DocumentosConsultadosOnlInE
 BREMAEKER, F. E.J. Evoluo do quadro municipal brasileiro entre
 1989 e 2001. Disponvel em: www.ibam.org.br/publique/media/ESP020P.
 pdf. Acesso em 03 ago 2005.
 CAMPOS, A. Colcha de retalhos: Projetos em tramitao no Congresso
 pretendem criar novos estados. Disponvel em: www.reporterbrasil.com.br/
 reportagens/tapajos/iframe.php. Acesso em: 02 ago 2005.
 CONSTITUIO DA REPBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponvel
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 http//pt.wikipedia.org/wiki/Estado. Acesso em: 10 ago 2005.
 IBGE  teen. Disponvel em: www.ibge.gov.br/home/default.php. Acesso
 em 04 ago 2005.
 IWAKE, S; TSCH, O; PIERUCCINI. M. A. Criao dos municpios e processos
 emancipatrios. Disponvel em: www.unioeste.br/projetos/oraculus/PMOP/
 capitulos/Capitulo_03.pdf. Acesso em 03 ago 2005.
 TOMIO, F. R. L. A criao de municpios aps a Constituio de 1988.
 Rev. Brasileira de Cincia Social. vol.17 n. 48 So Paulo Feb. 2002.
 Disponvel em: www.scielo.br/scielo .php?script=sci_arttext&pid=S0102-
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 www.ibam.org.br/publique/media/ESPO20P.pdf. Acesso em: 20 ago 2005.
 www.ibge.gov.br/brasil500/index2.html. Acesso em: 04 ago 2005.



                                                                      OBrasilPodiaSerDiferente?     35
       EnsinoMdio




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                                                                        PROIBIDA
                                                                      A ENTRADA!
                                                                                       Gisele Zambone1



                                                                     proibida a entrada!
                                                                     Voc j se deparou com esta
                                                                 frase? Lembra em qual local? Por
                                                                    que a entrada era proibida?
                                                                     Os lugares privados normalmen-
                                                                    te tm sua entrada controlada,
                                                           mas existem lugares que, mesmo sendo
                                                           pblicos, sofrem o controle de circula-
                                                           o, ou seja, no so todos que podem
                                                           entrar ou sair. Em que tipo de lugar isto
                                                           ocorre? O que causa esta situao?




Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
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                                                                                  ProibidaAEntrada!     37
       EnsinoMdio

                                              No perodo da II Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, na Alemanha
                                          Nazista, quando os judeus foram excludos em guetos, encontravam-se
                                          placas em estabelecimentos comerciais proibindo a entrada de judeus.
                                          Por que isto ocorria?  comum proibir a entrada de pessoas em estabe-
                                          lecimentos comerciais? Estes no so lugares pblicos?
                                              Embora os judeus, por vrias vezes ao longo da histria, tenham si-
                                          do segregados, obrigados a formar guetos, a configurao destes guetos
                                          nem sempre foi igual. Em alguns casos, o gueto era um quarteiro com
                                          uma populao relativamente rica, como o gueto judeu em Veneza, no
                                          sculo XIV, na Itlia. Mas apesar da riqueza, a populao judia tinha sua
                                          circulao restrita. Na maioria das vezes, os guetos eram pobres. Quan-
                                          do ocorria crescimento populacional, as ruas ficavam estreitas, as cons-
                                          trues cresciam verticalmente e as casas se tornavam superpopulosas.
                                          Ao redor dos guetos havia, por vezes, muros e, frequentemente, os re-
                                          sidentes dos guetos precisavam de um passe para circularem fora deste
                                          espao. Por que os judeus sofreram estas restries?
                                              Um dos guetos mais conhecidos foi o Gueto de Varsvia, na Pol-
                                          nia, no perodo da II Guerra Mundial. Criado em 1940, estima-se que
                                          inicialmente abrigava 380.000 pessoas, cerca de 30% da populao da
                                          cidade, em uma rea que correspondia a 2,4% do tamanho de Vars-
                                          via. Para piorar a situao, a populao foi acrescida por judeus trazi-
                                          dos de outras cidades e vilas. As condies precrias em que viviam e
                                          a fome constante trouxeram doenas e levaram  morte grande nme-
                                          ro de pessoas. Em 1942, aproximadamente 300 mil pessoas, residen-
                                          tes neste gueto, foram levadas para os campos de extermnio nazis-
                                          ta. O fim do gueto s se fez com o fim da Guerra em 1945. Para saber
                                          mais detalhes sobre este gueto, assista ao filme "O Pianista" (veja o
                                          quadro 1).
                                              Mas no foram somente judeus que ficaram restritos aos guetos. Ci-
                                          ganos, homossexuais, religiosos, comunistas e outras pessoas que os
                                          nazistas consideravam indesejadas tambm.
                                                                                         Os Guetos originalmente se-
      Quadro 1                                                                       riam bairros onde os judeus eram
           No Brasil o filme tem o ttulo "O Pianis-                                 forados a morar. Na atualidade,
      ta", este filme conta a histria de um pia-                                    esta expresso tambm  usada
      nista polons que precisava se escon-                                          para designar bairros onde so
      der no Gueto de Varsvia para sobreviver                                       confinadas certas minorias por
      em plena Segunda Guerra Mundial. Mos-                                          imposio econmica ou racial,
      tra como era o gueto e as crueldades da                                        como, por exemplo: os guetos ne-
      guerra. O diretor  Roman Polanski.                                            gros da frica do Sul no perodo
       Imagem disponvel em:http://adorocinema.cidadeinternet.                       do apartheid* ou os guetos ne-
         com.br/filmes/pianista/pianista.htm#Psters
                                                                                     gros norte-americanos.




38   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                   Geografia



                       PESQUISA

     Voc gosta de HIP HOP? Os guetos norte-americanos tm tudo a ver com este ritmo. Que tal bus-
 car mais informaes sobre os guetos e sobre o HIP HOP? S para dar uma ajuda: "Hip Hop  um mo-
 vimento cultural, composto de quatro aspectos principais: break, rap, DJ e o graffiti". Veja mais detalhes
 no quadro 2.




 Quadro 2
      possvel considerar que grafite existe desde a Pr-Histria, mas como
 forma de arte urbana ficou mais conhecido na dcada de 70.
    O movimento cultural hip-hop comeou pintando o metr de Nova York
 (EUA), tendo depois se expandido para os muros e paredes da cidade.
     As primeiras formas de grafite eram pinturas ligeiras com spray ou "tags"
 (marcas visuais, assinaturas), mas evoluram para traos mais elaboradas, en-
 riquecidas com efeitos de cor e de sombra. A arte grafite foi, por longo tempo,
 estigmatizada pelas autoridades e por parte da populao em geral, pois na
 opinio destes, tal atividade estava associada s gangues de rua,  violncia,
 s drogas e aos crimes. De fato, o grafite ainda pode ser tipificado como van-
 dalismo, que  uma forma de contraveno, quando no autorizado.
  Hip hop: From Wikipedia, the free encyclopedia.
  Disponvel em: http://en.wikipedia.org/wiki/Hip_hop




    No se pode confundir guetos com bairros pobres ou com os bair-
ros tnicos*, pois a formao destes no se deu de maneira forada pe-
los poderes vigentes, nem sua populao  obrigada a trabalhos for-
ados para a sociedade externa. "Todos os guetos so segregados mas
nem todas as reas segregadas so guetos". (WACquANT, 2004).
    Como exemplo de reas segregadas urbanas e que no so gue-
tos temos as "comunidades cercadas", ou seja, os condomnios fecha-
dos*, em especial os de alto padro, cujos moradores fazem questo
de se separar do restante da cidade, ocorrendo assim uma auto segre-
gao. Geralmente seus moradores so iguais em termos de riqueza, e
em muitos casos, etnia, mas nem por isso so guetos. Nas palavras de
Loc Wacquant (2004) "essas ilhas de privilgio servem para aumentar,
e no deprimir, as oportunidades de seus residentes, assim como para
proteger seus modos de vida. Elas irradiam uma aura positiva de supe-
rioridade e no uma sensao de infmia ou de pavor".




                                                                                      ProibidaAEntrada!       39
       EnsinoMdio

                                Para esta parcela da populao (autos segregados) os espaos p-
                            blicos so substitudos por espaos privados, como os condomnios fe-
                            chados, os shoppings centers e os clubes particulares, locais em que
                            essas pessoas convivem com seus iguais. Para ampliar esta discusso,
                            veja o Folhas que tem como ttulo "A gente se v no shopping? ".
                                 "As geraes mais novas criadas nesses condomnios no experi-
                            mentam o convvio com o outro, isto , com o diferente, elemento fun-
                            damental para a construo de um espao pblico" (GOmeS, 2003). Voc
                            acha importante o convvio com diferentes pessoas? Os espaos pbli-
                            cos que voc freqenta possibilitam este convvio?
                                Voc j observou os diferentes "tipos" que habitam a cidade? As
                            diferentes formas de se vestir, msicas preferidas, os temas das con-
                            versas, expresses (grias) usadas etc. Para alguns estudiosos estes di-
                            ferentes "tipos" pertencem a diferentes "tribos urbanas". Saiba mais
                            lendo o quadro 3.


                              Quadro 3
                                                                   A antropologia  uma cincia que por
                                                               muito tempo estudou os povos indgenas,
                                                               e sua diversidade cultural. Com tempo per-
                                                               ceberam que a diversidade cultural que se
                                                               buscava nas tribos indgenas tambm esta-
                                                               va presente em nossas cidades. Por isso a
                                                               expresso tribos urbanas, que s pode ser
                                                               usada para grupos de pessoas que se di-
                                                               ferenciam atravs de sua linguagem, da for-
                                                               ma de vestir e agir em relao  cultura do-
                                                               minante, fazendo questo de mostrar que
                                                               fazem parte deste grupo, reforando, as-
                                                               sim, sua identidade.
                               Foto e texto: Gisele Zambone.




                     ATIVIDADE

        No municpio onde voc vive existem reas segregadas? Elas so reas ricas ou pobres? O que
     gerou esta situao? Em que regio da cidade esto localizadas?




40   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                          Geografia

    Os condomnios fechados, assim como os guetos, possuem contro-
le de quem entra e de quem sai. A entrada em um pas tambm sofre
controle. Por que isto ocorre? Somente pessoas tm sua entrada e sa-
da controlada?
    Estes controles de entrada e sada de um pas freqentemente ocor-
rem nas fronteiras* terrestres, exemplo, na "Ponte da Amizade" entre
Foz do Iguau, no Paran/Brasil e Ciudad del Este no Paraguai. Leia o
quadro 4.


 Quadro 4
     Ponte da Amizade  Foz do Iguau, Paran.
      Denise Paro.
     "O arame farpado  a mais nova
 arma anticontrabando adotada pe-
 la Receita Federal (RF) na aduana da
 Ponte da Amizade, fronteira BrasilPa-
 raguai. A proteo de ferro est sendo
 colocada sobre um muro de 4,5 me-
 tros de altura para impedir que os mu-
 ambeiros desviem da fiscalizao jo-
 gando mercadorias, cigarros e drogas
 na barranca do Rio Paran".             elizabete Descrovi - acervo pessoal




    Isto ocorre porque tratam-se de territrios nacionais diferentes.
Mas o que  territrio mesmo? Ele s se refere aos pases?
    Para Marcelo Souza (1995), o conceito de territrio tanto deve
ser entendido no sentido do territrio nacional, como do ponto de
vista de uma delimitao de um espao a partir de relaes de po-
der e de controle que um grupo exerce sobre este. O territrio no
deve ser tomado somente em relao ao Estado. Pode e deve ser
pensado numa escala menor, como: a rua, o bairro, a casa, a cida-
de; ou mesmo numa escala internacional, como: a rea formada pe-
lo conjunto dos territrios de pases membros de uma organizao
 a Organizao do Tratado do Atlntico Norte, OTAN. (Veja mais
no Folhas "A unio faz a... ?")
    Um elemento importante para pensar o territrio  o controle do
espao. Como o controle  obtido, a  outra conversa. Que tal bus-
car a resposta para isto? Quem controla os territrios de algumas fa-
velas do Rio de Janeiro? Como esse grupo faz esse controle? Pesquise
outro tipo de territrio controlado por grupos sociais diversos e rela-
te sua pesquisa.




                                                                               ProibidaAEntrada!     41
       EnsinoMdio

                               Um outro elemento importante para pensar o territrio  sua dura-
                           o. Para Marcelo Souza, estes podem ter escalas temporais diferentes:
                           sculos, dcadas, anos, meses ou dias. Assim, os territrios podem ter
                           um carter permanente, mas tambm podem ter uma existncia peri-
                           dica (SOuZA, 1995, p.81), durante o dia, controlado por um grupo,  noite,
                           por outro. Nas grandes cidades encontramos com mais freqncia es-
                           te tipo de territrio, as "territorialidades flexveis", que se alteram. Co-
                           mo exemplo disso, pode-se citar os territrios da prostituio feminina
                           ou masculina (prostitutas, travestis, michs), que dominam uma certa
                           poro da cidade  noite, cedendo lugar durante o dia para o comr-
                           cio de rua, como feiras livres e camels.
                               Outro aspecto bem ligado ao territrio  a disputa do mesmo por
                           grupos concorrentes para expandir sua rea de influncia. Por exem-
                           plo: travestis que invadem a rea das prostitutas; feirantes que passam
                           a vender os mesmos tipos de mercadorias que os camels e vice-ver-
                           sa, disputando os clientes.
                               No Quadro 05 h um exemplo fictcio de como isto pode ocorrer.
                           Dessa forma a cidade fragmenta-se em diferentes territrios nos quais
                           o espao das convivncias fica restrito, especializado.


                            Quadro 5

                               Territrios durante o dia                                                                                                                    Territrios durante a noite


                                                                                    R. Comendador Macedo                                                                                                                         R. Comendador Macedo


                                                              Travessa Itarar                                                                                                                             Travessa Itarar


                                                                                R. Nilo Cairo                                                                                                                                R. Nilo Cairo
                                    R. Conselheiro Laurindo




                                                                                                                                                                                 R. Conselheiro Laurindo
                                                                                                              R. Francisco Torres




                                                                                                                                                                                                                                                            R. Francisco Torres
                                                                                                                                                      R. General Carneiro




                                                                                                                                                                                                                                                                                                    R. General Carneiro
                                                                                          R. Mariano Torres




                                                                                                                                                                                                                                       R. Mariano Torres
                                                                                                                                    R. Doutor Favre




                                                                                                                                                                                                                                                                                  R. Doutor Favre
                                                                        R. Tibagi




                                                                                                                                                                                                                     R. Tibagi




                                    Camels                                                                                                                                      Travestis                                                                 Michs
                                    Feira livre                                                                                                                                  Prostitutas




                               Para Matos e Ribeiros (2005, p.89), "a cidade se fragmenta em diversas
                           territorialidades de excludos pela sociedade, formando um verdadeiro
                           "caleidoscpio", onde coexistem diferentes territrios. Entre eles, os de
                           catadores de papel, dos sem-teto, das crianas de rua, dos guardado-
                           res de carro, conhecidos como "flanelinhas". So, na maioria das vezes,
                           territrios superpostos com os da prostituio e constituem verdadei-
                           ros "territrios do medo", em decorrncia da violncia praticada pelos
                           diversos grupos neles atuantes, bem como da ao da polcia".

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                                                                                           Geografia

    Mas estas muitas divises, em diferentes reas de controle, so im-
portantes para cada um dos grupos ou tribos urbanas, pois o territ-
rio  a base para a afirmao do seu poder sobre aquele espao,  o
que vai permitir e definir at onde podem ter a postura social que d
identidade ao grupo, ou seja, o que marca o grupo. Fora daquele ter-
ritrio, manter a mesma postura pode gerar problemas, pois provavel-
mente estar invadindo territrio de outro grupo.



                ATIVIDADE

    Voc j observou esta alterao do controle do espao urbano durante o dia e  noite? Como ela
 se d na cidade ou bairro onde voc mora? Voc j se deparou entrando em territrio que no devia?
 O que ocorreu?



    Um grupo que deixa claro onde est seu territrio so os pichado-
res, que, para alguns pesquisadores, compem uma tribo urbana. Es-
tes grupos buscam demarcar e consolidar o territrio frente aos adver-
srios. Para isto utilizam-se de uma simbologia prpria e, muitas vezes,
 apenas reconhecvel pelos outros pichadores. Voc consegue deci-
frar tudo o que picham por a?
    Nas palavras de Jos Renato Masson (2005), "as pichaes caracte-
rizam formas de expresso que possuem dupla significao, depen-
dendo do olhar". Elas representam uma forma de comunicao que,
alm de transmitir informaes, demarcam o territrio e poder, mas
tambm podem ser compreendidas como formas de escandalizar,
"zoeira, s baguna".
    Outra questo ligada aos pichadores, que tem um carter duplo, 
em relao ao reconhecimento do ato. Para o Estado e seus instrumen-
tos de represso (mais conhecido por polcia), o pichador no quer ser
reconhecido, mas perante o grupo de pichadores, este busca o reco-
nhecimento de seu ato.




                ATIVIDADE

    Em sua cidade existem pichadores? Como eles territorializam a cidade com suas pichaes? Qual
 sua opinio sobre pichadores?




                                                                               ProibidaAEntrada!      43
       EnsinoMdio

                                Outro tipo de territorialidade extremamente importante em relao
                           ao domnio do espao  o praticado pelo trfico de drogas. A cidade
                           do Rio de Janeiro, quando se fala em trfico de droga,  a mais divul-
                           gada pela mdia, mas a ao dos traficantes traando seus territrios,
                           infelizmente, no ocorre s no Rio de Janeiro.
                               Pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), Helio de
                           Araujo Evangelista, aponta que a origem do trfico de drogas no Rio de
                           Janeiro est ligada ao fato de a cidade ser passagem da droga a ser envia-
                           da para os Estados Unidos da Amrica e Europa e ao "jogo do Bicho".
                               A relao com o jogo do bicho ser explicada, mas, antes, voc pre-
                           cisa responder o que o Rio de Janeiro tem que o fez um local de en-
                           vio de droga para fora do pas?
                               Segundo Helio de Araujo Evangelista, em entrevista para a revis-
                           ta Momento - UFF, o "jogo do bicho"  um jogo ilegal, uma contra-
                           veno e quem o pratica est desobedecendo a lei 3.688, de 1941.
                           Mas, apesar da proibio, continuou a ser praticado. Os bicheiros,
                           que h muitos anos agiam na ilegalidade, j tinham a "manha" de
                           como trabalhar tranqilo fora da lei.
                               Por volta de 1970, o trfico de droga j ganhava muito dinheiro no
                           Rio de Janeiro (veja no quadro 6 a quantidade de dinheiro e de mor-
                           tes). Os bicheiros desenvolveram conhecimento sobre como atuar na
                           ilegalidade e ofereceram sua rede de contatos aos traficantes. Em tro-
                           ca participavam dos lucros da nova "economia". Esta relao foi man-


                             Quadro 6
                                 Ele  famoso, bilionrio e faz questo de aparecer, embora no deixe
                             pistas dos principais detalhes de sua intimidade. Manchete quase diria nos
                             meios de comunicao, sua principal caracterstica  o "talento" para mo-
                             vimentar muito dinheiro, comprar pessoas e destruir vidas. O narcotrfico 
                             assim: brutal e impiedoso, mas, para muitos,  um "negcio da China".
                                 As cifras so alarmantes: em 2000, o comrcio de entorpecentes mo-
                             vimentou, no mundo inteiro, cerca de US$ 1,5 trilho de dlares, uma eco-
                             nomia que supera o PIB do Canad. E no Brasil, a cada ano, o narcotrfico
                              responsvel pela lavagem de US$ 15 bilhes de dlares  o equivalente
                             a 3% do PIB nacional.
                                Segundo maior setor de movimentao econmica do planeta  per-
                             dendo apenas para o petrleo  o trfico de drogas tambm tem sido um
                             dos grandes responsveis pelo estrondoso aumento da violncia no Rio
                             de Janeiro nos ltimos anos. Para se ter uma idia, no perodo de 1985 a
                             1991, houve 70.061 homicdios no municpio, enquanto que nos sete anos
                             da Guerra do Vietn foram mortos 56 mil americanos.
                              Fonte: Publicao mOmeNTO uFF, n 147  fevereiro/maro de 2004  pg. 6 e 7.




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                                                                                                                          Geografia

tida at 1990, aproximadamente, quando os bicheiros passaram a ser
enquadrados na lei. Mas o fim desta relao permitiu que aparecessem
outras ligaes ou lideranas chamadas comandos ou faces.
    Voc j ouviu falar destes grupos? Qual  o objetivo deles? Como
controlam o territrio? (Leia o quadro 7).


 Quadro 7

            Vigrio Geral (e) e Parada de Lucas (D), favelas onde faces rivais disputam comrcio de drogas




                Kita Pedroza                                   Arquivo Viva Favela


     "Difcil explicar onde termina uma favela e comea a outra. Parada de
 Lucas e Vigrio Geral, na Zona Norte do Rio, so divididas apenas por uma
 linha imaginria  a `fronteira' imposta por faces rivais do trfico. A violn-
 cia de um lado sempre atinge o outro. Como acontece desde o sbado
 (02/10/2004), quando nova guerra foi deflagrada pelo controle do comr-
 cio de drogas na regio. Dessa vez, no entanto, a tenso alterou tambm o
 cotidiano de favelas vizinhas, que esto acolhendo moradores expulsos de
 Vigrio Geral... A demarcao de territrios na Zona Norte teria relao com
 os recentes confrontos na Zona Sul? Para o pesquisador do Centro de Jus-
 tia Global, Marcelo Freixo, nada no Rio de Janeiro hoje  fato isolado. "Is-
 so no  uma simples disputa do trfico de drogas, que  feito no mbito
 internacional e mexe com bilhes de dlares. Essa  uma disputa do varejo
 da droga, coisa muito menor. Hoje todas as unidades prisionais do Rio es-
 to divididas por faces e isso no nasce l dentro,  apenas refletido l.
 O mapa do Rio de Janeiro est completamente demarcado por essas fac-
 es criminosas. A situao de Parada de Lucas e Vigrio Geral apenas re-
 produz, mais uma vez, essa disputa."
  Jaime Gonalves - Disponvel em http://www.vivafavela.com.br/default.asp




    Os conflitos so muitos entre os grupos rivais e sempre com o obje-
tivo de manter o territrio ou de expandi-lo. Esta disputa por mais ter-
ritrios  vista em todos os grupos urbanos (as tribos urbanas, os pi-
chadores, a prostituio masculina ou feminina, etc.), mas geralmente
no  violenta.



                                                                                                               ProibidaAEntrada!     45
        EnsinoMdio



                                           O territrio do trfico de drogas no se limita a algumas partes da
                                       cidade. As zonas de fronteira entre pases tambm so territorializadas
                                       entre os traficantes e produtores de droga. O trfico, nas ltimas dca-
                                       das, segue modelos empresariais de atuao. Segundo o pesquisador
                                       Dalcy Fontanive (In: ARCHONTAKIS e BRAGA, 2004), "Ele est arma-
                                       do das tecnologias e conhecimentos que toda empresa e toda grande
                                       organizao precisam para se manterem". Que conhecimentos so es-
                                       tes que as empresas devem ter para se manterem?
                                           A populao dos bairros, vilas ou favelas que compe o territrio
                                       do trfico, muito freqentemente, sofre com a falta de infra-estrutura,
                                       como: escolas, gua encanada, energia eltrica, etc. Esta ausncia do
                                       Estado permitiu ao traficante uma relao de ajuda a esta populao.
                                       O que o Estado no faz os traficantes fazem. Assim, estes ajudavam os
                                       moradores e os moradores "no os viam". Mas esta relao tem se alte-
                                       rado nos ltimos anos. O silncio dos moradores tem sido obtido pelo
                                       medo. Para saber mais detalhes sobre este tema, assista ao filme "Cida-
                                       de de Deus". (Veja o quadro 08).


                                                                             Como a idia de trfico de dro-
     Quadro 8
                                                                         gas est muito ligada  cidade do
         Inspirado no livro homnimo de                                  Rio de Janeiro, a favela tambm so-
     Paulo Lins, um ex-morador das fa-                                   fre do mesmo preconceito.  pre-
     velas cariocas, foi levado s telas                                 ciso lembrar que nenhum destes
     por Fernando Meirelles. Cidade de                                   espaos  territrio exclusivo do
     Deus  uma favela que surgiu nos                                    trfico, ou seja, estes espaos no
     anos 60, e se tornou um dos luga-                                   so dominados em sua totalidade
     res mais perigosos do Rio de Janei-                                 pelo trfico, nem o trfico ocorre
     ro, no comeo dos anos 80.                                          somente nestes espaos.
      Fonte: http://cidadededeus.globo.com/




                          ATIVIDADE

        Qual  sua explicao para o fato de a maioria das pessoas associarem a idia de favela ao trfico
     de drogas? Voc concorda que existe um preconceito das pessoas em relao a este fragmento da ci-
     dade? Como mudar esta idia? Onde mais ocorre o trfico de drogas?




46   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                         Geografia



    O termo "favela" surgiu para identificar uma forma de habitao popular
construda nas encostas do Rio de Janeiro, ainda no final do sculo XIX,
por uma populao majoritariamente composta de ex-escravos que antes
viviam nos cortios existentes em reas ao redor do centro da cidade.
Originalmente, a palavra favela foi utilizada como apelido do Morro
da Providncia, no Rio de Janeiro, que comeou a ser ocupado para
moradia por ex-combatentes da Guerra de Canudos, que teriam trazido
da campanha uma planta chamada "favella", muito comum em Canudos.
(Leia mais sobre a formao das favelas do Rio de Janeiro no Folhas "Voc
produz ou consome espao?").
    Hoje elas esto presentes nas maiores e nas menores cidades do
Brasil. Para o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica), o
conceito adotado para favela  um aglomerado "sub-normal", consti-
tudo por um mnimo de 51 domiclios, que ocupa terreno de proprie-
dade alheia e as construes ou arruamento esto dispostos de forma
desordenada e bastante prximo (reas adensadas), alm da carncia
de servios pblicos essenciais.
     As favelas so reas de habitaes irregulares, pois seus morado-
res no possuem ttulo de propriedade, a infra-estrutura (como gua
encanada e energia eltrica) , muitas vezes, conseguida atravs dos
gatos*. A rea no possui arruamento pr-estabelecidos como em um
loteamento regular.
    O que um loteamento deve ter como infra-estrutura para ser consi-
derado como regular (dentro da lei)?
    Quais so os servios pblicos essenciais que toda rea urbana de-
ve ter? Eles esto presentes onde voc vive?
    Uma caracterstica comum apontada por muitos pesquisadores 
que estas reas constituem "espao de excluso" social, resultado da
"segregao espacial".
     Voc se lembra como comeou a conversa deste Folhas? Falva-
mos sobre a excluso dos judeus e a segregao destes em um espao.
Retome a idia inicial para responder estas perguntas.
    Como voc explica esta idia de excluso social e de segregao
espacial? Por que os pesquisadores apontam estas caractersticas pa-
ra as favelas?
    Neste Folhas falamos de guetos, espaos privados, territrios flex-
veis, tribos urbanas, trfico de droga e favelas. Isto  a mostra de co-
mo o espao urbano  fragmentado, dividido, repartido entre muitos
elementos, que nem sempre se entendem, pois todos querem defen-
der seu territrio.




                                                                              ProibidaAEntrada!     47
       EnsinoMdio



                             GlOSSRIO
                              Apartheid:  uma palavra da lngua inglesa que significa vida separada. Na
                              frica do Sul, em 1948, foi implantado um regime assim denominado, em
                              que os brancos detinham o poder e os demais povos, em sua maioria ne-
                              gros, eram obrigados a viver de acordo com regras que os impediam de cir-
                              cular livremente ou eram excludos do governo nacional e no podiam votar,
                              exceto em eleies para instituies segregadas que no tinham poder.

                              Bairros tnicos: localidades onde h predomnio de uma etnia. Como
                              exemplo, o bairro da Liberdade (japoneses) e do Bexiga (italianos), em So
                              Paulo que conservaram esta caracterstica at meados do sculo passado.

                              Condomnios fechados: podem ser classificados em dois tipos: os
                              constitudos na forma de conjuntos de edifcio, tipo vertical; ou os condo-
                              mnios horizontais que so compostos de casas e contam com servio de
                              segurana coletiva.

                              Fronteiras: indica a margem do mundo habitado, extremo entre dois pa-
                              ses ou regies.

                              Gatos: ligaes clandestinas na rede de gua ou de energia eltrica.

                              Nazistas ou o "Nacional Socialismo" designa a poltica da ditadura que go-
                              vernou a Alemanha de 1933 a 1945, o "Terceiro Reich". O nazismo  fre-
                              qentemente associado ao uso da violncia.




48   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                             Geografia



 RefernciasBibliogrficas
 ARCHONTAKIS, P.; BRAGA, D. Violncia e narcotrfico: combinao ex-
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 DocumentosConsultadosOnlInE
 FIGUEIREDO, M. da P. C. de. As territorialidades de meninos e meninas
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                                                                                  ProibidaAEntrada!     49
       EnsinoMdio




50   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia




                                                                                         3
                                                          A UNIO FAZ A... ?
                                                                                  Andr Aparecido Alflen1



                                                                   unio faz a fora?
                                                                   Voc concorda com a frase acima?
                                                                   Unidos realmente venceremos?
                                                                  Uma das estratgias utilizadas
                                                                     pelas empresas e pelos pases
                                                                     para vencer, no perodo da glo-
                                                           balizao, foi esta. As empresas atravs
                                                           da fuso e os pases atravs da formao
                                                           dos blocos econmicos e polticos.
                                                              Mas, por que a globalizao exige esta
                                                           estratgia?




Colgio estadual Vincius de moraes - Campo mouro - PR
1




                                                                                     AUnioFazA...?         51
       EnsinoMdio

                                Estudiosos do processo de globalizao, entusiastas do livre merca-
                            do, afirmam que a abertura da economia seria a soluo para aumen-
                            tar o bem-estar social das populaes dos pases pobres e dos povos
                            de um modo em geral. Por outro lado, h quem afirme justamente o
                            oposto, ou seja, o fortalecimento dos Estados e o controle das impor-
                            taes como forma de aumentar o bem-estar social.


                              Quadro 1
                                  So chamadas de "Abertura econmica" as medidas que facilitam a en-
                              trada de produtos e empresas estrangeiras.
                                   No incio dos anos 90, o governo do presidente Fernando Collor (1990-
                              1992) implementou medidas neste sentido, as quais tiveram continuidade
                              com o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002).
                              Este processo causou a falncia de muitas empresas, as quais no esta-
                              vam prontas para a concorrncia externa, mas, contribuiu para melhorias
                              administrativas e tecnolgicas de muitas outras. A abertura econmica no
                              Brasil provocou tambm a privatizao de muitas empresas, como o sis-
                              tema de telefonia, bancos, empresas qumicas, siderrgicas, petroqumi-
                              cas, de fertilizantes, energia eltrica, trechos da Rede Ferroviria Federal
                              S.A.  RFFSA. Enfim, empresas que possuam grande participao ou to-
                              talidade acionria do governo federal.
                               Texto do autor.




                     ATIVIDADE

         Quem tem razo? A abertura da economia (quadro 1)  condio suficiente para aumentar o bem-
     estar dos povos?




                                Quando se fala em globalizao, logo se pensa na economia, no
                            comrcio mundial e na indstria articulada com grandes conglomera-
                            dos econmicos. Mas a globalizao  mais do que isso. (Veja o Folhas
                            "Dinheiro traz felicidade?").
                                Voc j deve ter assistido a filmes dos estdios Disney, da Warner
                            Bros, entre outros exemplos da indstria cultural. Deve ter visto ou
                            consumido em uma lanchonete da rede McDonald's. A mdia mundial,
                            atravs da msica, espetculos, filmes, divulga hbitos, moda, costu-
                            mes que vo sendo assimilados por pessoas de vrias partes do plane-
                            ta, mudando padres de comportamento, hbitos culturais, entre ou-
                            tros. (D uma olhada no Folhas "A gente se v no shopping?").



52   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                      Geografia

   Diante disso, no seria o caso de questionarmos se o processo
de globalizao altera as identidades culturais dos povos? Estaramos
diante de uma cultura global? Ser que a cultura global tambm no
est a servio do mercado, objetivando apenas a comercializao dos
seus produtos?
   A globalizao acaba divulgando por todo o mundo o modo de
vida e de consumo que atende aos interesses do modo capitalista de
produo. Como sabemos, o padro de consumo nos Estados Uni-
dos, nos pases da Europa Ocidental, no Japo e na Austrlia  bas-
tante elevado.



               ATIVIDADE

     Esse padro tambm  globalizado? Seria possvel esse mesmo nvel de consumo em todos os
 pases do mundo? Neste caso, haveria prejuzos ambientais?



    Mas, quando comeou a globalizao? No existe consenso quan-
to  origem deste fenmeno. Para muitos pensadores, a origem des-
se processo se encontra na expanso martima europia a partir do
sculo XV, tambm chamada de Grandes Navegaes, a qual seria
motivada principalmente pela crise do feudalismo e pelo surgimen-
to do capitalismo, cujos interesses obrigaram alguns povos europeus
a intensificarem a atividade comercial com outras regies do globo,
fora da Europa.
    Outros pensadores afirmam que somente a partir da consolidao
do capitalismo como sistema scio-econmico com seus avanos tc-
nicos na produo e circulao das mercadorias  que as condies
para a mundializao da economia teriam se efetivado. Para estes, a
globalizao iniciou no sculo XIX, e no no sculo XV. E para voc,
quando iniciou a globalizao? Qual  a sua opinio?
    O fato  que foi com o capitalismo que se estabeleceram as bases
para o processo de mundializao da economia. Esse processo se in-
tensificou a partir do fim da segunda guerra mundial, principalmente
com o surgimento das empresas multinacionais, cujas matrizes estavam
em pases desenvolvidos e as filiais espalhavam-se por outros lugares
do planeta. A partir da dcada de 70, esse fenmeno acelerou-se com
a introduo das novas tecnologias da informao e da produo (ve-
ja o Folhas "A indstria j era?").




                                                                              AUnioFazA...?      53
       EnsinoMdio

                                  As novas tecnologias contriburam para a rapidez da produo e da
                              circulao de mercadorias por todo o mundo, caracterstica atual da
                              globalizao. No entanto, isso no seria plenamente possvel se no
                              fosse pela ao dos pases desenvolvidos que, atravs da ideologia
                              neoliberal, propagam a abertura da economia como soluo para o
                              desenvolvimento econmico dos pases pobres e, com ela, a melhoria
                              do bem-estar social das populaes de todo o mundo. Mas ser que
                              isso  verdade?
                                  As polticas neoliberais adotadas em vrios pases do Sul, sob a orien-
                              tao ou imposio do Fundo Monetrio Internacional (FMI) e do Banco
                              Interamericano de Desenvolvimento (BIRD), no se traduziram em bem-
                              estar social de suas populaes, pelo contrrio, aumentou-se o desem-
                              prego, houve perdas salariais e problemas sociais de toda ordem.


                                Quadro 2
                                    Neoliberalismo  o nome que os socialistas deram para a reemergn-
                                cia do liberalismo nos anos 70/80. Os liberais defendem a instituio de um
                                sistema de governo em que o indivduo tem mais importncia do que o Es-
                                tado e de que quanto menor a participao do Estado na economia, maior
                                 o poder dos indivduos e mais rapidamente a sociedade pode se desen-
                                volver e progredir, para o bem dos cidados.
                                   Tal concepo se caracteriza pela valorizao da competio entre as
                                pessoas; do amplo acesso a todos venderem o que produzem num mercado
                                o mais amplo possvel; da sociedade que decide o seu nvel de consumo ou
                                quanto poupa para a sua velhice; da famlia que se preocupa com a sua sa-
                                de escolhendo os seus prprios mdicos ou os professores de seus filhos;
                                alm da competio econmica em escala mundial como elementos regula-
                                dores e promotores de eficincia. E quando a famlia no tem dinheiro?
                                     Mas a partir da crise do petrleo de 1973, seguida pela onda inflacion-
                                ria que surpreendeu os estados de Bem-estar social, o neoliberalismo gra-
                                dativamente voltou  cena. Responsabilizaram os impostos elevados e os
                                tributos excessivos, juntamente com a regulamentao das atividades eco-
                                nmicas, como os culpados pela queda da produo. A soluo seria o
                                desmonte gradativo do Estado, com a diminuio dos tributos e a privatiza-
                                o das empresas estatais.
                                 Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoliberalismo




                     ATIVIDADE

        Aps a leitura do texto sobre Neoliberalismo (quadro 2), responda: Por que, sob o Neoliberalismo, o
     desemprego aumentou?



54   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                           Geografia

    Embora a abertura da economia, no caso do Brasil, tenha propor-
cionado uma modernizao tecnolgica em alguns setores da econo-
mia, tornando-os parte do mercado internacional, isso no se traduziu
em melhoria para a populao, pois os ndices de desemprego conti-
nuam altos, e a situao social tambm no foi alterada.
    A modernizao tecnolgica no  o nico fator da concorrncia
global, as empresas que no se modernizarem para enfrentar a con-
corrncia mundial podero ter srios prejuzos ou ir  falncia. (Ver
Folhas "A indstria j era?").
    A competio, entre os trabalhadores, torna-se mais acirrada, exi-
gindo maior qualificao e atualizao constante para se manter no
mercado de trabalho. O desemprego  um dos principais problemas
da economia globalizada, atingindo milhares de trabalhadores em to-
do o mundo e no apenas nos pases pobres ou do sul.
    O que estaria levando ao aumento do desemprego tanto nos pases po-
bres como nos ricos? E, afinal, o que a Geografia com o seu objeto de estu-
do, o espao geogrfico, tem a ver com isso? Debata com seus colegas.
    No s as empresas buscaram novas estratgias para viverem e
vencerem no mundo globalizado, mas os pases e seus governos tam-
bm tiveram que busc-las.
    Observa-se que h um esforo em ampliar ainda mais o processo de
globalizao atravs de acordos internacionais que buscam eliminar ta-
rifas sobre importao e exportao e outros entraves econmicos para
a livre circulao de mercadorias e capitais por todo o mundo; aliado a
isto, verifica-se uma tendncia de regionalizao do espao geogrfico
mundial. Essa regionalizao se d atravs da formao de blocos eco-
nmicos, o que se constitui numa estratgia dos Estados Nacionais para
enfrentar a dinmica de uma economia mundializada.
    Atualmente existem blocos econmicos organizados e alguns em forma-
o, destacando, em termos de poder econ-
mico e poltico, trs grandes mercados re-
                                                         Mapa 1 - Blocos Econmicos
gionais: Unio Europia, Nafta (North
American Free Trade Agreement)
e a Bacia do Pacfico.
    Observe no mapa os de-
mais blocos econmicos exis-
tentes ou em formao. Faa
uma pesquisa e elabore uma
tabela com os pases mem-
bros de cada bloco e com da-
dos econmicos sobre eles.                                                 Escala aprox. 1 : 270 000 000


Depois, verifique quais blo-
cos tm mais condies de
sobreviver neste mundo glo-
balizado.

                                                                                                AUnioFazA...?         55
       EnsinoMdio

                               A nova ordem internacional que se configura na existncia dos
                           grandes blocos de poder emerge aps o fim da Guerra Fria, em 1989;
                           entretanto o embrio da Unio Europia  bem anterior, como vere-
                           mos a seguir.
                               Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, o equi-
                           lbrio multipolar que existia entre os pases europeus (Frana, Inglater-
                           ra, ustria-Hungria e Itlia) cedeu lugar a uma nova configurao geo-
                           poltica mundial baseada no confronto bipolar entre Estados Unidos da
                           Amrica (EUA) e a Unio das Repblicas Socialistas Soviticas (URSS).
                               A ordem que emerge do ps-guerra  a de um mundo dividido em
                           dois blocos rivais: o bloco capitalista, formado pelos Estados Unidos
                           e pelos pases que se submeteram a sua liderana, tornando-se assim
                           rea de influncia americana e o bloco dos pases socialistas, liderado
                           pela URSS e sob sua influncia. O conflito poltico e econmico entre
                           os dois blocos deu origem  Guerra Fria (veja detalhes no quadro 3).


                             Quadro 3
                                A guerra fria  a designao dada ao conflito poltico-ideolgico entre
                            os Estados Unidos (EUA), defensores do capitalismo, e a Unio Sovitica
                            (URSS), defensora de uma forma de socialismo, compreendendo o perodo
                            entre o final da Segunda Guerra Mundial e a extino da Unio Sovitica.
                                 chamada de "fria" porque no houve qualquer combate fsico, embora o
                            mundo todo temesse a vinda de um novo combate mundial, por se tratar de
                            duas potncias com grande arsenal de armas nucleares. Norte-americanos
                            e soviticos travaram uma luta ideolgica, poltica e econmica durante esse
                            perodo. Se um governo socialista era implantado em algum pas do Terceiro
                            Mundo, o governo norte-americano logo via a uma ameaa a seus interes-
                            ses; se um movimento popular combatesse uma ditadura militar apoiada pe-
                            los EUA, logo receberia apoio sovitico.
                             Fonte: Wikipdia. Disponvel em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Fria.



                               A Europa Ocidental, neste contexto, tornou-se rea de influncia
                           dos EUA e um dos territrios onde mais se tencionava o conflito leste
                           oeste, entre socialismo e capitalismo. Recebeu dos EUA vultosos re-
                           cursos (Plano Marshal) para sua reconstruo e recuperao econmi-
                           ca, com o objetivo de evitar uma converso ao socialismo estatizante
                           como soluo para os problemas econmicos e sociais do ps-guerra.
                               Foi no contexto, de Guerra Fria, que surgiu a idia da formao de
                           um bloco econmico europeu a partir da criao da Comunidade do
                           Carvo e do Ao, CECA, tratado assinado em 1951, que tinha como ob-
                           jetivo principal evitar futuras rivalidades entre Frana e Alemanha.




56   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                 Geografia



                 PESQUISA

     O que era essa comunidade? Por que ela pode ser considerada o embrio da Unio Europia? Pesquise.



    A idia de uma explorao conjunta dos minrios situados em ter-
ritrios da Alemanha e da Frana poderia evitar novos confrontos b-
licos entre as duas potncias. Deste acordo inicial, envolvendo Fran-
a, Alemanha, Itlia, Blgica, Luxemburgo e Pases Baixos, surgiram
outros tratados, como o Tratado de Roma, em 1957, que deu origem
 Comunidade Econmica Europia. Muitos outros tratados e acordos
foram concebidos e adotados at o tratado de Maastricht, em 1992, que
criou a figura jurdica da Unio Europia.




                 PESQUISA

    Faa uma pesquisa sobre a construo da Unio Europia, enfocando os principais acordos que
 culminaram na sua formao. Pesquise tambm sobre os processos que levam  formao de um
 Mercado Comum e de uma Unio Aduaneira. Para isso, utilize livros, revistas e sites.




  AUnIOEUROPIA-UE
    O tratado da Unio Europia surge como estratgia de fortalecimento poltico e econmico
em contraposio a hegemonia dos EUA.              Mapa 2 - Unio Europia
    A Unio Europia, em ter-
                                                                               Escala aprox. 1 : 58 100 000
mos de blocos econmicos, 
uma das organizaes regio-
nais que mais avanou, pois
no se limitou  circulao de
mercadorias e capitais. Servios
e pessoas podem circular livre-
mente, podendo os trabalha-
dores se empregar em outros
pases, gozando de uma legis-
lao trabalhista nica para to-
do o bloco. Sua organizao
econmica inclui a adoo de
uma moeda nica utilizada por

                                                                                        AUnioFazA...?        57
       EnsinoMdio


                           doze pases, dos vinte e cinco que constituem atualmente o bloco euro-
                           peu. Isto apresenta algumas vantagens, por exemplo, a necessidade de
                           manter as conta equilibradas, controle da inflao, entre outros.
                               A idia de uma "Europa Unida" d impresso que existe uma cer-
                           ta uniformidade econmica e social entre os pases que a compem,
                           mas isto no corresponde  realidade. Os doze pases que adotaram o
                           Euro como moeda fazem parte de um grupo de pases que apresen-
                           tam um Produto Interno Bruto (PIB) mais elevado, constituindo o n-
                           cleo da UE. Dentre esses pases podemos destacar Frana, Alemanha e
                           Itlia, que lideraram o processo de formao deste bloco e desempe-
                           nham um relevante papel neste processo.




                     ATIVIDADE

         E quanto aos outros pases, que papel cabe a eles? Essa organizao em blocos apresenta
     apenas vantagens? Se existem organismos supranacionais como o Banco Central Europeu e o Par-
     lamento Europeu, que regulam questes internas dos pases europeus, como fica a soberania dos
     pases membros?




                               Outra caracterstica que diferencia a Unio Europia dos outros blo-
                           cos  a existncia de fundo comunitrio de desenvolvimentos para os
                           pases menos desenvolvidos, buscando a sua equiparao econmica.
                           Esse fundo  direcionado para as regies com Produto Interno Bruto
                           (PIB) inferior a mdia da Unio Europia, as chamadas zonas depri-
                           midas. Apesar disso, o desemprego continua aumentando na Europa.
                           Como isso se explica?
                               A Unio Europia tambm possui uma poltica agrcola comum
                           que consome grande parte do fundo comunitrio de desenvolvimento
                           europeu. Essa poltica de proteo agrcola, que muitas vezes se d
                           atravs de subsdios, tem gerado inmeros protestos por parte dos
                           pases que so grandes exportadores agrcolas, como o Brasil e a
                           Argentina. Leia o quadro 4.
                               Mas que problemas os subsdios agrcolas europeus podem cau-
                           sar e causam para a agricultura do Brasil? Eles podem afetar a sua
                           alimentao?




58   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia


      Quadro 4
      Subsdios agrcolas dos ricos prejudicam pases pobres
     Estados Unidos e Unio Europia investem US$ 350 bilhes ao ano pa-
 ra proteger produtos agrcolas, como: laticnios, acar, arroz, trigo, milho e
 carne. Esses subsdios criam uma situao artificial de mercado, que mina
 a competio igualitria de outros pases produtores. Os governos ricos pa-
 gam, para os agricultores, a diferena entre os custos de produo e o valor
 dos produtos agrcolas no mercado internacional. H casos em que o custo
 de produo nesses pases chega a ser superior ao valor pago pelos produ-
 tos no mercado internacional. Essa prtica fora uma queda internacional dos
 preos, o que diminui a competitividade dos pases em desenvolvimento e,
 eventualmente, mina a prpria produo destinada ao mercado interno des-
 ses pases, j que os produtores locais ficam incapazes de competir com pro-
 dutos importados to baratos.
  Fonte http://www.comciencia.br/reportagens/agronegocio/02.shtml acessada em 11/2005




    A maioria das naes da Europa Ocidental desenvolveu, no per-
odo ps-guerra, uma ampla rede de proteo social aos trabalhado-
res, como previdncia social, seguro desemprego, melhoria do poder
aquisitivo, manuteno dos empregos e outros benefcios, que ficou
conhecida como poltica do Estado de Bem-Estar Social. Pesquise so-
bre essa poltica e caracterize o papel que o Estado assumiu durante o
perodo em que ela estava vigente.
    Nesta economia global com suas estratgias para aumentar a lu-
cratividade, torna-se praticamente impossvel para os pases europeus
manterem a poltica de Bem-Estar Social, construda durante a Ordem
da Guerra Fria.
    Entre os projetos futuros da Unio Europia, est a formao de
uma unio poltica ainda indefinida. Ser que a Unio Europia se
transformar em um nico Estado Nacional? As naes europias acei-
tariam abrir mo de sua soberania em favor de um super Estado?
    Como ficariam, neste processo, os movimentos separatistas que lu-
tam para conseguir independncia e construir sua autonomia como Es-
tado Nacional? Poderiam dificultar a formao de Unio Poltica Euro-
pia? (Veja o Folhas "Nada a ver? Tudo a ver!").




                                                                                        AUnioFazA...?     59
       EnsinoMdio



                     PESQUISA

        Faa uma pesquisa sobre os movimentos separatistas e sobre as minorias tnicas existentes na Eu-
        ropa. Veja como so tratados esses movimentos na Europa.
        Rena-se com seus colegas e realize um debate sobre o futuro dos Estados Nacionais diante do
        processo de globalizao.




                               OnAFTA
                                 Outro bloco econmico importante na atualidade  o NAFTA (North
                             America Free Trade Agreement) ou Acordo de Livre Comrcio da Am-
                             rica do Norte. O NAFTA surgiu em 1991 como estratgia dos EUA para
                             manter sua hegemonia sobre o continente Americano, que com o fim
                             da Guerra Fria poderia se tornar rea de influncia dos novos centros
                             de poder que estavam surgindo, como a U.E e o Japo  que emergia
                             como potncia econmica.
                                 Para os EUA, o NAFTA significa ampliao das exportaes para os
                             pases do bloco, alm da possibilidade de ampliar sua influncia sobre
                             o continente americano, pretenso, alis, que no  nova.
                                 Cite alguns pases da Amrica onde a interferncia norte-americana
                              maior.
                                 O NAFTA prev apenas a livre circulao de mercadorias e capi-
                             tais, estabelecendo diversas salvaguardas para alguns produtos. No
                             est nos planos uma integrao nos moldes da Unio Europia, como
                             a ajuda econmica a pases menos desenvolvidos, integrao monet-
                             ria, entre outros.
                                 A formao do NAFTA foi comemorada como soluo para o desen-
                             volvimento econmico do Mxico, o que no tem se concretizado na pr-
                             tica (veja mais sobre este tema no Folhas "Dinheiro traz felicidade?"). Se
                             as exportaes Mexicanas aumentaram consideravelmente para os EUA,
                             as importaes deste tambm aumentaram numa proporo bem maior,
                             principalmente no setor alimentcio e automotivo.
                                 A agricultura mexicana, principalmente a camponesa,  o setor que
                             mais enfrenta dificuldades devido aos subsdios empregados na agri-
                             cultura dos EUA. Lembra-se dos subsdios fornecidos pelos Europeus
                             aos seus agricultores?




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                                                                                                            Geografia


    O tratado do NAFTA ampliou, com certeza, os fluxos econmicos
nesta regio, mas no caso do Mxico no tem produzido o to pro-
palado desenvolvimento econmico e social. A integrao econmica
no gerou empregos como se pregava na poca do acordo. Pesquisas
revelam que o nmero de pobres aumentou, estando hoje prximo a
50% da populao e aproximadamente 19 milhes de pessoas vivem
abaixo da linha da pobreza.
    No foi somente o trabalhador mexicano que perdeu. Com o objetivo
de diminuir os custos da produo, empresas industriais foram transferidas
para o Mxico, onde a mo-de-obra  mais barata, eliminando muitos
postos de trabalho nos Estados Unidos.
    Alm disso, para o Mxico, aumentou a dependncia do merca-
do americano. Antes os mexicanos tinham um comrcio internacional
mais diversificado. Na atualidade, mais de 70% das transaes comer-
ciais so realizadas com os EUA.



      Quadro 5
      Grupo mexicano pede ajuda para derrubar muro de fronteira nos EUA
     Um grupo de 42 entidades sociais mexicanas e norte-americanas infor-
 mou neste sbado 04/02, em Caracas, na Venezuela, estar organizando a
 entrada de milhares de pessoas nos Estados Unidos pela fronteira em Ciu-
 dad Juarez (Mxico).
     "Estamos convidando as pessoas para, na primeira semana de maio,
 derrubar o muro [que os EUA construram em parte da fronteira com o Mxi-
 co, para evitar a entrada de imigrantes ilegais]", disse Edur Arregui Koba, da
 Liga Magonista Sete de Janeiro.
     Ciudad Juarez, segundo Koba, foi escolhida por ser "um laboratrio de
 horror do projeto neoliberal". Vrios ativistas presentes contaram histrias de
 explorao e misria causadas pelo livre comrcio naquela cidade, inclusive
 o assassinato de mulheres trabalhadoras.
    "O Nafta permite passar facilmente produtos e empresas, mas as pes-
 soas no podem passar", reclamou Jos Bravo, da Aliana Justa.
     O norte-americano Emery Wright, da organizao Project South (Projeto
 Sul), que tambm faz parte do movimento, disse que  preciso lembrar que
 "a possibilidade de mover-se  um direito, mas o deslocamento obrigatrio
  produto da globalizao".
  Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u92071.shtml. Acesso em: fevereiro de 2006.




                                                                                                     AUnioFazA...?     61
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

        Que problemas poderiam causar esta dependncia do Mxico em relao aos EUA?
         Ainda sobre esta temtica, aps a leitura do artigo "Grupo mexicano pede ajuda para derrubar
     fronteira nos EUA", responda: Por que as mercadorias entre os EUA e o Mxico podem passar li-
     vremente mas as pessoas no?




                               OBlocodoPacfico
                                O Bloco do Pacfico comeou a se caracterizar a partir da dcada
                            de 80, quando o Japo comeou a direcionar seus investimentos para
                            os Tigres Asiticos como estratgia para diminuir seus custos de pro-
                            duo, haja vista, que sua economia crescera muito, os salrios dos tra-
                            balhadores tiveram melhoras e sua moeda se valorizou em relao ao
                            dlar, aumentando assim seus custos de produo.
                                Atualmente esse redirecionamento no ocorre simplesmente como
                            estratgia de reduo de custos, mas como estratgia de fortalecimento
                            da economia regional diante da reorganizao da economia mundial e
                            do fortalecimento poltico perante os outros blocos de poder.
                                A APEC (Asia Pacific Economic Cooperation)  um bloco bem dife-
                            rente quando se trata da proximidade fsica entre os pases que o com-
                            pem. Engloba pases da sia, Amrica e Oceania.
                                A APEC tem, atualmente, 21 membros, que so: Austrlia; Brunei
                            Darussalam; Canad; Chile; China; Hong Kong; Indonsia; Japo; Re-
                            pblica da Coria; Malsia; Mxico; Nova Zelndia; Papua New Gui-
                            nea; Peru; Filipinas; Rssia; Cingapura; Chinese Taipei; Tailndia; Esta-
                            dos Unidos da Amrica; Vietn.
                                Outro dado que diferencia a regio da Bacia do Pacfico,  o fato
                            desse mercado regional no ser constitudo formalmente por nenhum
                            acordo de livre comrcio ou de outro tipo. A designao de bloco eco-
                            nmico se deve ao fato de que nas ltimas dcadas vem ocorrendo, de
                            forma surpreendente, um direcionamento dos investimentos e das re-
                            laes comerciais entre os pases desta regio. Entre seus integrantes
                            destacam-se o Japo, a China e os Tigres Asiticos (Coria do Sul, Sin-
                            gapura, Hong Kong e Taiwan), alm da Austrlia e da Nova Zelndia.
                                Aps a Segunda Guerra, o Japo, por sua localizao estratgica
                            em relao ao mundo sovitico, recebeu alguns benefcios, como no
                            precisar pagar indenizaes de guerra. Foi, no entanto, proibido de
                            se militarizar, ficando sua proteo sob o comando da OTAN (Aliana



62   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                   Geografia

do Tratado do Atlntico Norte). Dentro da estratgia da Guerra Fria de
conteno do socialismo, recebeu ainda investimentos dos EUA com o
objetivo de recuperar sua economia e seu desenvolvimento.
     Esse contexto foi favorvel ao Japo, mas o seu crescimento se
deve tambm a fatores internos, alm da ajuda econmica externa.
Os baixos salrios, os sindicatos controlados pelo Estado e atrelados
as empresas tornaram sua economia mais competitiva. Os investi-
mentos estatais na economia, na educao, no treinamento de mo-
de-obra e a estabilidade do regime poltico japons, aliados a outros
fatores tornaram o Japo a grande potncia econmica que emergiu
a partir dos anos 80.
    O mesmo raciocnio explica o surgimento dos Tigres Asiticos  pases
que mais se desenvolveram economicamente nas dcadas de 60 e 70.
Entre os fatores que podem explicar a nova condio desses pases es-
to os baixos salrios, ausncia de uma poltica de proteo social aos
trabalhadores e os pesados investimentos realizados pelos estados em
suas economias. Tambm no podemos esquecer dos investimentos
externos de pases capitalistas como estratgia geopoltica de conten-
o do socialismo vindo da URSS. Lembra-se da Guerra Fria tratada an-
teriormente? Qual a relao dela com este fato?
    A estratgia de fortalecer o comrcio regional promoveu uma ver-
dadeira reorganizao dos fluxos comerciais desse bloco, aumentan-
do de forma expressiva o comrcio ente os pases asiticos. O volume
de negcios realizados entre os pases asiticos teve um acrscimo de
aproximadamente 140% no perodo de 1992 a 2002.
    O Japo, devido ao seu desenvolvimento econmico e sua estra-
tgia de direcionar boa parte dos seus investimentos para o interior
dessa regio, coloca-se como principal liderana de bloco econmi-
co, rivalizando em termos econmicos com os paises da U.E. e com
os Estados Unidos. No entanto, a economia japonesa tambm vem en-
contrando dificuldades de manter um padro elevado de vida de sua
populao. O desemprego vem aumentando e a estabilidade no em-
prego, caracterstica de sua economia, est desaparecendo.
    Na Regio da sia, a China vem se destacando como o pas que
mais cresce em termos de desenvolvimento econmico, apesar de ter
recentemente diminudo o seu ritmo de crescimento, sua economia
desponta entre as maiores do mundo. O crescimento chins aparen-
temente se explica pelo fato da China combinar uma economia forte-
mente estatal com uma abertura econmica que possibilita investimen-
tos privados, principalmente investimentos externos. Outros fatores,
como um grande mercado consumidor e mo-de-obra abundante e ba-
rata, tambm contribuem para esse crescimento. Apesar disso, enfren-
ta graves problemas sociais e ambientais. (Leia sobre as minas de car-
vo da China no Folhas "Pare de sonhar com um carro!")



                                                                            AUnioFazA...?     63
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

         Como a globalizao interfere no nmero de empregos? O desemprego  culpa da concorrn-
     cia econmica globalizada? Faa uma pesquisa sobre esse tema.




                                Essa organizao do espao geogrfico mundial em blocos eco-
                            nmicos, caracterstica do processo de globalizao, no tem altera-
                            do uma realidade mundial, talvez a tenha camuflado. Enquanto a ati-
                            vidade comercial e financeira se intensifica entre os principais blocos
                            econmicos e suas potncias econmicas, os pases pobres no conse-
                            guem ou no possuem recursos para o seu desenvolvimento. A popu-
                            lao desses pases pobres representa a grande maioria da populao
                            mundial, em torno de 75%, mas a distribuio da riqueza mundial no
                            ocorre na mesma proporo, cabendo a essas populaes algo em tor-
                            no de 20% da riqueza mundial. Esses pases geralmente no possuem
                            o domnio de tecnologia de ponta e de pesquisas, o que dificulta ain-
                            da mais o seu desenvolvimento econmico.
                                O cenrio geopoltico no sculo XXI se configura na existncia de
                            trs grandes blocos econmicos que teoricamente dividiriam o poder
                            poltico e econmico do Mundo Globalizado. Mas esse jogo de poder
                            no est to definido assim e no podemos esquecer de que esse pro-
                            cesso  dinmico, est em constante transformao, o que pode levar
                            a novas configuraes geopolticas.



                     ATIVIDADE

        Enquanto os trs mais poderosos blocos ampliam as trocas comerciais, o continente africano
     tem ficado  margem desse processo. Apesar de possuir mo-de-obra em abundncia, a ausncia
     de infra-estrutura adequada dificulta os investimentos externos e o desenvolvimento interno. Mas
     ser que os investimentos externos poderiam contribuir para o desenvolvimento do continente Afri-
     cano? Contribuiriam para resolver os graves problemas sociais existentes?




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 ObrasConsultadas
 COSTA, R. H. da. Blocos Internacionais de Poder. So Paulo: Contexto,
 1990.

 GONALVES, R. et all. A Nova Economia Internacional: uma perspectiva
 Brasileira. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

 HIRST, P.; THOMPSON, G. Globalizao em questo: a economia
 internacional e as possibilidades de governabilidade. Petrpolis: Vozes,
 1998.

 HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos: o breve sculo XX 1914-1991. So
 Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 LOPEZ, L. R. Globalizao: a histria interativa. Disponvel em: http://www.
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 MAGNOLI, D. Unio Europia: histria e geopoltica. So Paulo: Moderna,
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 ________________. Mundo Contemporneo: relaes Internacionais
 1945-2000. So Paulo: Moderna, 1996.

 ________________. Globalizao: estado nacional e espao mundial. So
 Paulo: Moderna, 2003.

 MARTIN, H. P.; SCHUMANN, H. A Armadilha da Globalizao: assalto 
 democracia e ao bem-estar social. So Paulo: Globo, 1997.

 STRAZZACAPPA, C. & MONTANARI, V. Globalizao: o que  isso, afinal?
 So Paulo: Moderna, 2003.

 VICENTINO, C.; SCALZARETTO, R.. O Mundo Atual: da guerra fria  nova
 ordem internacional. So Paulo: Scipione, 1992.



 DocumentosConsultadosOnlInE
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 http://pt.wikipedia.org/wiki/guerra_fria
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                                                                                AUnioFazA...?     65
       EnsinoMdio




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                                                         A GUA TEM
                                                            FUTURO?
                                                                     Leda maria Corra moura1


                                                             oc acha que suas aes
                                                             podem minimizar o proble-
                                                            ma de falta de gua? Acredita
                                                         que os pases com abundncia
                                                      de recursos hdricos podem se so-
                                                   bressair econmica e politicamente?




Colgio estadual euzbio da mota - Curitiba - PR
1




                                                                        AguaTemFuturo?         67
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                                        Nos ltimos anos, a gua tem estado em pauta. Fala-se da falta de
                                    chuvas e das conseqncias disso: danos  agricultura, racionamento
                                    de energia eltrica, implementao de campanhas para economizar o
                                    recurso nos diversos setores; fala-se das possibilidades de irrigao e,
          Cad a gua?              no Brasil, da transposio do rio So Francisco. Fala-se das guas con-
          O boi bebeu.              taminadas por produtos agrcolas; fala-se da poluio das guas devido
          Cad o boi?               aos resduos urbanos  residenciais e industriais; fala-se do derretimen-
          O boi morreu.             to das calotas polares e do conseqente aumento do nvel do mar; fala-
                                    se do futuro, sem gua, que nos espera; fala-se do Aqfero Guarani.
                                        Apesar de existir bastante gua no planeta, sua distribuio  bastan-
                                    te desigual: h regies onde a gua  abundante, como a regio amaz-
                                    nica; h outras extremamente secas, como o deserto do Atacama/Chile.
                                    Observe nos grficos 01 e 02 a distribuio da gua no planeta.

                                               Grfico 1                                 Grfico 2
                                         Total de gua na Terra          Distribuio de gua doce na Terra


                                                                                    77,20%


                                                         97,3%
                                                                                          22,40%


                                       2,7%                                 0,01%
                                                                                                        0,39%

                                          gua doce                       Na atmosfera         Na superfcie
                                          gua salgada                    guas subterrneas   Nas calotas polares




                                        Analisando estes dados, voc acredita que, no futuro, faltar gua
                                    potvel? Voc acha que suas aes podem minimizar este problema?
                                    Acredita que os pases com abundncia de recursos hdricos podem se
                                    sobressair econmica e politicamente?
                                        A gua  um recurso renovvel, isto , ela autopurifica-se num
                                    processo chamado ciclo hidrolgico ou ciclo das guas. Voc j es-
                                    tudou isso; para lembrar-se do processo, pesquise e enumere as fa-
                                    ses do ciclo d'gua.
      Quadro 1                          A quantidade de gua no ciclo  sempre a mesma (cerca de 1.386
     quem bebeu esta gua?          milho de Km3), este volume d'gua  uma constante no planeta h,
      Se a gua se renova, as mo-   aproximadamente, 500 milhes de anos. As alteraes percebidas por
     lculas de gua que esto em   ns so relativas s regies. Por exemplo, uma regio apresenta pero-
     nossos corpos podem ter si-    dos chuvosos e secos devido a diversos fatores  climticos, topogrfi-
     do bebidas por outras pesso-   cos  mas a gua que no est em determinada regio em perodos de
     as em outros tempos. quem      seca, est em algum outro lugar. Leia o quadro 01 e reflita.
     ser que j bebeu esta gua:
                                        O consumo de gua pela populao  varivel de acordo com h-
     Strauss, Jobim, Hermeto?
                                    bitos, costumes, disponibilidade do recurso e desenvolvimento da re-
                                    gio. O abastecimento de gua para a populao  um indicador de


68    DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia

qualidade de vida. Pode-se classificar o consumo de gua por setores:
o setor domstico  o que menos consome gua, sendo responsvel
por 10% do total; seguido do setor industrial, que responde por 21%
do consumo; e, o grande consumidor  o setor agrcola, com 69% do
total consumido no planeta.
    Segundo Borghetti (2004, p. 82), "quanto maior o nvel de desenvolvi-
mento do pas, maior  o consumo de gua no setor domstico". Voc
poderia explicar por que isto ocorre? Lembre-se que  considerado se-
tor domstico o consumo de gua para alimentao, uso sanitrio e os
servios urbanos municipais como hospitais e creches.
    A gua  um recurso dotado de valor econmico e permite a produ-
o de outros recursos e/ou bens.  utilizada para: produo de energia
eltrica (veja Folhas "Pare de sonhar com um carro!"); abastecimento in-
dustrial; irrigao de plantaes; transporte; pesca/piscicultura; turismo/
lazer e, ainda tem uso teraputico. Alguns autores diferenciam gua de
recurso hdrico. Chama-se gua o elemento fsico-qumico, essencial 
vida, e disponvel na natureza; j, o recurso hdrico,  a gua vista como
bem econmico, dotado de valor financeiro.
    Todos os usos da gua provocam, tambm, efeitos negativos, que
podem ser minimizados a partir de aes conscientes. Ser que a desa-
celerao do modo de produo capitalista pode reverter estes efeitos?
    Leia, a seguir, as diversas possibilidades de uso da gua e alguns
efeitos causados por cada um deles:
    Abastecimento urbano: possibilita  produo de esgotos que, por sua
    vez, provocam poluio orgnica e qumica. "No Brasil, o lanamento
    de lixos domsticos e industriais sem tratamento nos cursos de gua fi-
    gura como a principal causa de degradao das guas" (Cludio Langone, mi-
    nistrio do meio Ambiente, no IV Frum mundial das guas);
    Processo industrial: gera resduos que provocam poluio orgnica
    e qumica, muitas vezes com alto grau de toxidade; o desperdcio
    tambm  um fator significativo nas atividades industriais, princi-
    palmente devido ao no reuso da gua.
    Produo de energia eltrica: causa danos ambientais, sociais e econmi-
    cos, devido  formao do lago e a conseqente necessidade de emigra-
    o das pessoas e fim da produo agrcola e pecuria ali existente.



                 PESQUISA

    Voc pode pesquisar a este respeito e conhecer que danos so estes e, a partir de suas pesqui-
 sas e de debates com seus colegas, tirar suas concluses se a energia hidreltrica  a melhor solu-
 o energtica para o Brasil.




                                                                                 AguaTemFuturo?        69
       EnsinoMdio

                              Irrigao e criao de animais nas proximidades de rios: provocam per-
                              das e poluio por agroqumicos utilizados nas lavouras e por deje-
                              tos orgnicos. Sobre este assunto, voc pode ler o Folhas "Voc to-
                              ma veneno?".
                              Hidrovias: apesar de ser o meio de transporte de menor impacto
                              ambiental, pode poluir por derrame de leos combustveis e/ou
                              derramamento das cargas transportadas, principalmente se forem
                              txicas.
                              Turismo/lazer e uso teraputico (exploraes econmicas em estn-
                              cias hidrominerais, guas termais, praias doces): aparentemente
                              inofensivas, produzem grande quantidade de lixo.
                               Alm de seu intenso uso, a gua , tambm, fonte de inspirao e
                           aparece cantada em verso, prosa e notas musicais h muito tempo. Co-
                           mo exemplo, podemos citar diversas canes nas quais a gua  ou
                           sua forma de aparecer   a personagem principal: a valsa "Danbio
                           Azul" (1867), de Johan Strauss II (1825-1899); a ax music, muito can-
                           tada no carnaval, "gua Mineral", de Carlinhos Brown; a cano da
                           MPB "guas de Maro" (1972), de Tom Jobim (1927-1994); a MPB "Pla-
                           neta gua" (1980), de Guilherme Arantes.
                               As canes citadas so de diversos gneros, isto , fazem parte de
                           categorias dentro de um mesmo estilo ou tm alguns elementos em co-
                           mum  melodia, harmonia, ritmo, timbre, forma, tessitura. Os gneros
                           podem ser definidos geograficamente (msica indiana, por exemplo);
                           cronologicamente (msica renascentista); ou por apresentarem carac-
                           tersticas tcnicas em comum.
                               O site "Clique msica: a msica brasileira est aqui", que pode ser
                           acessado por meio do endereo http://cliquemusic.uol.com.br/br/home/
                           home.asp, relaciona os seguintes gneros musicais:

                             ax msica;     lundu;            msica caipira;    samba;
                             baio;          frevo;            pagode;            samba de breque;
                             bossa nova;     jovem guarda;     partido-alto;      samba-cano;
                             brega;          mangue beat;      polca;             samba-enredo;
                             b-rock          maracatu;         punk;              samba rock;
                             coco;           marcha-rancho;    quadrilha;         soul brasileiro;
                             choro;          marchinha;        rap;               tropicalismo;
                             forr;          maxixe;           repente;           valsa;
                                             modinha;                             vanguarda

                              Isso no significa que no existam outros, pois os estilos musicais,
                           ao entrarem em contato entre si, produzem novos estilos e as culturas
                           se misturam para produzir novos gneros.




70   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                    Geografia

    Alguns artistas utilizam os sons produzidos com a gua em suas com-
posies.  o caso de Hermeto Pascoal, msico alagoano que, alm de
tocar diversos instrumentos, produz sons harmoniosos a partir de ob-
jetos, entre outras coisas. Em entrevista concedida a Christiane Duarte,
Daniel Lima e Oswaldo Schlickmann Filho, em 1999, e publicada no site
construdo por eles (disponvel em: http://www.geocities.com/hermeto-
paschoal/index2.htm), ele declara: "Eu toco inclusive este aqui (mostra
um copo com gua) que  instrumento que eu toco muito no disco [...]",
referindo-se ao CD "Eu e Eles", lanado naquele ano.



                 ATIVIDADE

    Voc pode realizar experincias que tero resultados sonoros muito utilizados, atualmente, na
 msica contempornea e grupos musicais como o ingls Slomp. No livro didtico pblico de Arte,
 o Folhas "A msica nossa de cada dia" pode auxili-lo nessa tarefa. Seguem algumas sugestes
 de atividades para auxiliar na sua produo sonora:
  1. Construo de um "aquafone": prepare diversas garrafas ou copos feitos do mesmo material e co-
     loque neles volumes de gua diferentes. Com uma baqueta (voc pode usar como baqueta um l-
     pis, uma caneta, um talher, etc.), bata nas garrafas/copos e observe a diferena dos sons;
 2. Utilize objetos feitos de mesmo material, mas com formatos diferentes (garrafas, copos, travessas, etc.)
    e coloque neles a mesma quantidade de gua; perceba que, ao bater neles, os sons so diferentes;
 3. Derrame gua de um recipiente para outro. Varie formato e tamanho do recipiente que receber a gua.




    Por conta da essencialidade da gua, ela atrai, onde quer que es-
teja, investimentos de muitos pases. Apesar de a gua ser um bem de
uso comum do povo, muitas so as empresas a beneficiarem-se com
seu manejo. Deste modo, pases do mundo todo tm privatizado a ex-
plorao e distribuio de gua para a populao. No Brasil, diversas
cidades privatizaram este servio, a primeira delas foi Limeira, no inte-
rior de So Paulo, que, desde 1995, tem os servios operados pela em-
presa francesa Lyonnaise des Eaux, uma das trs empresas que con-
trolam 40% do mercado mundial de gua em cerca de 100 pases. As
outras empresas so: Veolia e Saur, tambm francesas.
    A privatizao tem tornado os servios mais caros e com qualidade
duvidosa. Em diversos pases tm ocorrido movimentos populares no
sentido de tornar a gua um recurso de manejo estatal. Na Frana, as
privatizaes municipais se deram na dcada de 80 do sculo XX; nes-
te incio de sculo, elas esto sendo revistas e muitas concesses esto




                                                                                       AguaTemFuturo?          71
       EnsinoMdio

                                   sendo canceladas. No Uruguai, houve plebiscito que garantiu a gua
                                   como bem de domnio pblico e, por isso, deve ser gerida pelo Esta-
                                   do (2004); na Bolvia, houve resciso do contrato de prestao de ser-
     Quadro 2                      vios aps protestos da populao (2005).
      I Frum mundial de guas         Muitas aes vm acontecendo no sentido de garantir a gesto pbli-
       foi em marrakech, marro-    ca da gua e sua distribuio a baixo custo. Entre elas est a realizao
       cos, em maro de 1997;      do Frum Mundial de guas, que est na sua quarta verso. Segundo
      II Frum mundial de          seus organizadores, o principal propsito do evento  definir caminhos
       guas foi em Haia, Pases   adequados para que seja garantida a distribuio universal e sustentvel
       Baixos, em 2000;            do recurso. Observe, no quadro 2, a cronologia do evento.
      III Frum mundial de gua        De acordo com diversas pesquisas, a gua est tornando-se um recur-
       foi realizado em Kyoto,
                                   so cada vez mais escasso e, justamente por isso, seu manejo vem sendo
       Shiga y Osaka, no Japo,
                                   objeto de interesses econmicos e polticos. Em 2002, o documento da
       em maro de 2003;
                                   ONU denominado "Desafio Global, Oportunidade Global" apresenta in-
      IV Frum mundial de
                                   formaes como: 40% da populao mundial tem dificuldade em conse-
       guas aconteceu em Ci-
                                   guir gua potvel; 2,2 milhes de pessoas morrem, por ano, por bebe-
       dade do mxico, em mar-
       o de 2006.                 rem gua contaminada; em 2025 sero 4 bilhes de pessoas sem acesso
                                   a gua. Partindo dos nmeros apresentados pela ONU, podemos afirmar
                                   que o controle do uso da gua significa deter o poder?
                                       Se voltarmos ao incio deste Folhas, veremos que 22,4% da gua dis-
                                   ponvel no planeta est abaixo da superfcie. Ou seja, h mais gua no
                                   sub-solo do que em rios e lagos. "Os terrenos ou formaes geolgi-
                                   cas que armazenam guas subterrneas so chamados aqferos" (ROCHA,
                                   2002, p. 25). Segundo Scotti (2005), a Unesco apresenta registros a respeito
                                   do uso das guas subterrneas e dos problemas decorrentes da m uti-
                                   lizao destas reservas. Os aqferos variam de tamanho e de profun-
                                   didade. Entre os mais importantes do mundo est o Aqfero Guarani
                                   ou Sistema Aqfero Guarani (SAG), que ocupa 1,2 milhes de km2 nos
                                   territrios argentino, brasileiro, paraguaio e uruguaio. Da rea total do
                                   aqfero, a maior parte est localizada em territrio brasileiro  cerca de
                                   840.000 km2. Abrange parte das seguintes unidades da federao: Rio
                                   Grande do Sul, Santa Catarina, Paran, So Paulo, Minas Gerais, Gois,
                                   Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Veja na Figura 3 a localizao do
                                   Aqfero Guarani. So 45 trilhes de m de gua que, segundo Scotti
                                   (2005), necessitam de mais pesquisas a respeito de sua qualidade.



                        ATIVIDADE

        Leia o Quadro 03 e faa um paralelo de seu contedo com as informaes que voc tem visto
     na grande mdia.




72   DimensoPolticadoEspaoGeogrfico
                                                                                                                                         Geografia

    Mapa esquemtico do Aqfero Guarani                                                                 Quadro 3
                                                                                                        H controvrsias!
                                                                                                        Como o SAG foi formado em
                                                                                                        momentos geolgicos dife-
                                                                                                        rentes, apresenta profundi-
                                                                                                        dades diferentes. Segundo
                                                                                                        pesquisas relatadas no docu-
                                                                                                        mento "Contribuies ao es-
                                                                                                        tado atual do Sistema Aqu-
                                                                                                        fero Guarani" (2004), nas
                                                                                                        ocorrncias mais profundas
                                                                                                        a gua, em geral, no  po-
                                                                                                        tvel devido a alta salinidade
                                                                                                        e pode apresentar substn-
                                                                                                        cias nocivas.
                                                                                                        O gelogo Jos Luiz Flores
                                                                                                        machado afirma que o Siste-
                                                                                                        ma Aqfero Guarani , de fa-
                                                                                                        to, formado por diversos aq-
                                                                                                        feros e que sua potencialidade
                                                                         Escala aprox. 1 : 15 800 000
                                                                                                         bem diversa do alardea-
                                                                                                        do, bem como sua gua no
                                                                                                        apresenta potabilidade em to-
                                                                   rea de afloramento
                                                                                                        da a rea de ocorrncia.
                                                                   rea de confinamento                  Texto da autora.
                                                                  Cidade
                                                                  Capitais Estados/Provncias
                                                                  Capitais dos Pases


     Fonte: modificado de CAS/SRH/mmA (2001) por Boscardin Borghetti et al. (2004)

    Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai vm discutindo, na Comisso
Parlamentar Conjunta do Mercosul (Mercado Comum do Sul), questes
referentes ao aqfero e seu manejo.
    Em outubro de 2004 foi realizado o Seminrio Internacional Aq-
fero Guarani "Gesto e Controle Social", na cidade de Foz do Iguau,
no Paran. Participaram do evento membros da Comisso Parlamen-
tar Conjunta, representantes dos Governos dos quatro pases, de movi-
mentos populares e de ONG's que lidam com a problemtica do meio
ambiente e da gua, e de universidades e centros de pesquisa. Neste
evento foi redigida a "Carta de Foz do Iguau sobre o Aqfero Guara-
ni", documento em que os participantes declararam:
       Que a reserva de gua subterrnea estocada no Aqfero Guarani, compro-
       vadamente um dos maiores sistemas aqferos do mundo, estendendo-se
       pelos territrios do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai, indiscu-
       tivelmente uma das maiores riquezas naturais da Regio do Cone Sul, seja
       declarado bem pblico do povo de cada Estado soberano onde a reserva se
       localiza, e que seja protegido pelos governos e populaes para que possam,
       estratgica e racionalmente, auferir os benefcios comuns, indispensveis pa-
       ra a sobrevivncia futura. (Carta de Foz do Iguau, 2005.)


                                                                                                                       AguaTemFuturo?               73
        EnsinoMdio

                                                                      Lendo este trecho da Carta, voc pode per-
                                                                  ceber preocupaes com a proteo do aqfe-
                                                                  ro bem como a explicitao de que os Estados-
     Soberania:                                                   Nao onde ele se localiza so soberanos. Foi
     1. propriedade que tem um estado de ser uma ordem su-        institudo em 2004, o Conselho Mercado Co-
        prema que no deve a sua validade a nenhuma outra or-     mum para "elaborar um projeto de Acordo dos
        dem superior;                                             Estados Partes do Mercosul relativo ao Aqfe-
     2. o complexo dos poderes que forma uma nao politica-      ro Guarani que consagre os princpios e crit-
        mente organizada;                                         rios que melhor garantam seus direitos sobre
     3. carter de um rgo ou de um estado que no est sub-     o recurso guas subterrneas, como Estados e
        metido ao poder de nenhum outro rgo ou estado;          na sub-regio". O Conselho ainda no concluiu
                                          Fonte: Ferreira, 1986   sua tarefa, mas, dentre os parmetros que bali-
                                                                  zam a construo do projeto est o princpio da
                                                                  soberania dos Estados.



                        ATIVIDADE

         Voc sabe o que significa soberania? Sabe por que estes documentos referem-se  soberania dos pa-
     ses que abrigam o Aqfero Guarani? Leia o quadro a respeito de soberania (voc pode, tambm, ler no Fo-
     lhas "O Brasil podia ser diferente?" o conceito de Estado) e discuta com seus colegas a presena deste con-
     ceito em documentos que tratam do Aqfero.


                                       A maioria das pessoas acredita que, atualmente, no existem pro-
                                   blemas de sobrerania; ou que, quando eles acontecem, so conflitos
                                   distantes de ns e no nos dizem respeito. Porm, diversas aes con-
                                   temporneas, por parte de diversas naes, ferem a sobrerania de ou-
                                   tras e, tais aes tm conseqncias em todo o mundo.


                        ATIVIDADE

         Voc lembra de alguma destas aes? Tomou conhecimento por meio de telejornais, revistas ou em jor-
     nais impressos a este respeito? Procure alguns destes conflitos e faa uma lista colocando quais os pases
     envolvidos e as razes que deram origem  peleja.



                                      A gua sempre foi causadora de conflitos. Seja devido ao uso pa-
                                   ra navegao, seja para abastecimento da populao, seja para a pro-
                                   duo de energia...
                                      No Brasil, por exemplo, parte da ocupao territorial deu-se por
                                   meio dos rios. Os conflitos de nosso pas com os pases vizinhos, hoje


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                                                                                                  Geografia

parceiros no Mercosul, deram-se devido  bacia do Prata, que engloba
um dos principais sistemas hidrovirios do mundo, do qual o rio Para-
n  o principal formador. Lembre-se, tambm, de que o Paraguai no
tem litoral e que o rio Paran  seu acesso natural ao oceano.
    Ainda em se tratando de acesso, o Canal do Panam  outro exem-
plo de conflito. O Panam fica no istmo que liga Amrica do Norte 
Amrica do Sul, separa o Oceano Atlntico do Pacfico e, at o in-
cio do sculo XX, era territrio colombiano. O canal foi iniciado pe-
los franceses, em 1880, com o intuito de ligar os dois oceanos e, com
isso, reduzir distncias, o que favorecia a consolidao do capitalis-
mo industrial, por meio da troca comercial entre pases industrializa-
dos e pases no-industrializados. Devido a diversos fatores, os fran-
ceses abandonaram o projeto. Os Estados Unidos, considerando que
o domnio do canal seria de grande importncia econmica, militar
e poltica, fizeram contato com a Colmbia para terminar o projeto;
como o acordo EUA-Colmbia no foi aprovado pelo parlamento co-
lombiano, os EUA apoiaram o movimento panamenho de indepen-
dncia (1903), terminaram o canal e tiveram domnio sobre a Zona
do Canal at 1999.
    Pesquise a respeito do Canal do Panam: busque saber sobre os
conflitos que envolveram este ponto geo-estratgico.
    Com relao  escassez de gua, tambm existiram e ainda existem
diversos conflitos no mundo. Confira alguns na tabela 1.

TABELA 1
                       Principais conflitos mundiais por posse de gua na atualidade

                               Pases                               Objetos das disputas

                 Israel X Palestina e Jordnia                      guas do rio Jordo.

                         Egito X Sudo                         Controle das vazes do rio Nilo.

                    Turquia X Iraque e Sria            Controle das vazes dos rios Tigre e Eufrates.

                          Lbia X Chade                   Explorao de aqferos no Saara Central.
 Fonte:VIANNA, 2005, p.351. (Adaptado.)


    As afirmaes relativas  escassez de gua potvel num futuro pr-
ximo tornam este recurso natural objeto de cobia. Evidentemente, pos-
suir ou deter o poder sobre grandes mananciais  fator estratgico. Por
isso, alguns pontos do planeta so zonas potenciais de conflito, por
exemplo, EUA e Canad  devido a regio dos Grandes Lagos e rios
compartilhados; e pases da ex-Iuguslvia  devido ao compartilhamen-
to da bacia do rio Danbio (o mesmo da valsa citada anteriormente).


                                                                                    AguaTemFuturo?           75
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

        Ser que a regio do Sistema Aqufero Guarani  uma zona de conflitos em potencial? Ser que
     os pases do cone-sul ou outros entraro em conflito por causa de seu domnio? Leia as informaes
     a seguir e tire suas concluses.




                                 Desde junho de 2005, existem preocupaes com a soberania dos
                             pases do ConeSul. Isso porque Paraguai e EUA fizeram, segundo o go-
                             verno paraguaio, um acordo militar de treinamento.
                                 Em 27 de julho de 2005, a Folha de So Paulo publicou um artigo
                             intitulado "Foras militares dos EUA podem intervir no Brasil, diz Fidel
                             Castro", o artigo refere-se a um discurso do ditador cubano onde de-
                             monstra preocupao com uma possvel interveno dos EUA na Bo-
                             lvia e no Brasil. Tal preocupao deu-se devido ao desembarque de
                             soldados norte-americanos no Paraguai.
                                 Em 25 de setembro de 2005, o jornal argentino Clarn publicou uma
                             matria com ttulo "Marines en Paraguay: se reaviva el temor sobre los re-
                             cursos naturales" com sub-ttulo: "Aumentan las sospechas de que la pre-
                             sencia militar est vinculada con el agua", o texto trata da entrada dos
                             militares estadunidenses no Paraguai, da imunidade total dada a eles e
                             dos temores com relao ao Aqfero Guarani que esta ao provocou.
                                 O jornal O Globo, de 06 de janeiro de 2006, publicou artigo de Wal-
                             demar Zveiter (Ministro aposentado do Superior Tribunal de Justia) inti-
                             tulado "Os EUA e o Paraguai precisam se explicar", no texto o autor tra-
                             ta da importncia da gua, da situao estratgica daqueles que a detm
                             e do desembarque dos soldados norte-americanos no Paraguai:
                                    [...] dados geogrficos tornam clarssima a importncia estratgica do
                                    aqfero, tornando-se ainda mais relevante numa poca em que cientistas
                                    sociais e geopolticos alertam para a crescente importncia da gua no
                                    mundo. Bem acima do petrleo, para o qual j comeam a ser encontradas
                                    alternativas, a gua doce do planeta poder se constituir, a partir dos
                                    prximos vinte anos, um motivo de disputas entre naes, levando-os at
                                    a guerra por seu domnio.
                                 Cada um dos pases do Mercosul que abrigam o Aqfero Guarani
                             so Estados-Nao. So soberanos, isto , independentes, tm autono-
                             mia sobre todo o seu territrio e tudo o que tem nele. Assim, cabe a
                             estes pases as decises relativas  explorao e uso dos recursos na-
                             turais que possuem.
                                 Voc acha procedentes as preocupaes mencionadas anteriormen-
                             te? Seria este o nosso futuro com relao  gua?




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                                                                                        Geografia

 RefernciasBibliogrficas
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 Aqfero Guarani: a verdadeira integrao dos pases do Mercosul.
 Curitiba: s.e., 2004.
 FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionrio da lngua portuguesa. Rio de
 Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
 ROCHA, G. A. Um copo d'gua. So Leopoldo; Editora Unisinos, 2002.
 SCOTTI, M. Aqfero Guarani: tcnicos pedem investimentos e pesquisas.
 In: Revista CREAPR. ano 8, n. 35, Agosto/2005.
 VIANNA, P. A gua vai acabar? In: ALBUQUERQUE, Edu S. de. Que pas 
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 ObrasConsultadas
 BENNET, R. Uma breve histria da msica. Rio de Janeiro: Zahhar
 Editores, 1986.
 FIER, F. Aqfero Guarani: reserva estratgica. Publicao do mandato de
 deputado federal, 2005.


 DocumentosConsultadosOnlInE
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 worldwaterforum4.org.mx/home/home.asp?lan=spa. Acesso em: 21 e 22
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 Jornal Clarin. Disponvel em: www.clarin.com/diario/2005/09/25/elmundo/i-
 02601.htm. Acesso em: 12 maro 2006.
 MACHADO, J. L. F. A verdadeira face do "Aqfero Guarani": mitos e
 fatos. Trabalho apresentado no XVI Simpsio de Recursos Hdricos, realizado
 em Joo Pessoa-PB, em novembro de 2005. Disponvel em: www.cprm.
 gov.br/rehi/simposio/pa/artigoENPerf%20Machado.pdf. Acesso em: 17
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                                                                               AguaTemFuturo?      77
       EnsinoMdio




                       DimensoCulturaleDemogrficadoEspao
            I          Geogrfico
                           Voc sabe o que  cultura? A palavra cultura pode apresentar v-

            n        rios significados. No senso comum, est associada  formao aca-
                     dmica de uma pessoa, aos seus anos de estudo, sendo considerado
                     culto quem possui formao em nvel superior. J quem no estudou
                     ou estudou poucos anos,  considerada uma pessoa de pouca cultu-


            t        ra. Cultura  um conceito muito mais abrangente do que isso e no
                     pode ser compreendido de maneira to reduzida. Mas afinal, qual o
                     interesse da Geografia pela cultura? Por que estamos propondo uma
                     reflexo sobre esse conceito no livro de Geografia?


            r             Os estudos geogrficos j nasceram marcados pelas caractersticas
                     culturais dos povos e dos lugares. A Geografia Cultural surgiu no final
                     do sculo XIX, junto com a Geografia Humana e dela nunca se afastou.
                     Segundo Paul Claval, gegrafo francs,  possvel destacar alguns mo-


            o
                     mentos marcantes do desenvolvimento da Geografia Cultural.
                          Inicialmente os estudos culturais da Geografia voltavam-se para
                     os aspectos materiais da cultura, tais como as tcnicas, as paisagens
                     e os gneros de vida dos diferentes povos do planeta. Pode-se dizer


            d
                     que, naquele perodo, a Geografia Humana estava permeada pelos
                     estudos culturais e que a abordagem cultural era marcada pela obje-
                     tividade e pelo empirismo.
                          Os estudos da Geografia do incio do sculo XX apresentavam co-


            u
                     mo os diferentes grupos se adaptavam ao meio ambiente, aproveitan-
                     do ou no as possibilidades oferecidas por ele. Estas possibilidades
                     de aproveitamento vinculavam-se  dimenso cultural e social de ca-
                     da povo, pois este poderia no perceber as oportunidades oferecidas


            
                     pelo meio em funo de seu "atraso" cultural e da organizao social
                     do grupo, necessitando conviver com outros povos para avanar cul-
                     turalmente e socialmente.
                          Esta forma de pensar a respeito de outras culturas serviu para jus-


            
                     tificar a dominao europia sobre as colnias at meados do sculo
                     XX. Voc acredita que existam povos atrasados culturalmente?

                          Voc poderia citar alguns pases que, no passado, tiveram um perodo
                      de grande desenvolvimento econmico, influenciaram poltica, social e cul-


            o         turalmente outras naes e que foram superados por outra cultura?




78   Introduo
                                                                              Geografia




   Mais tarde a Geografia Cultural passou a considerar, em suas pes-
quisas, as representaes mentais, as imagens que os indivduos, co-
mo voc, fazem dos lugares e como os percebem. Alm disso, deixou
de ser um subdomnio da Geografia Humana e tornou-se um campo
de estudos especfico da Geografia.


      Faa um desenho sobre o que voc acredita ser o que mais caracteriza
 a cidade onde mora. (praas, ruas, rios, prdios, pessoas, etc). Compare-o
 com o dos colegas. O que os desenhos tm em comum?  possvel con-
 cluir que "imagem" vocs tm da cidade onde vivem?


    Consideramos que a cultura  um conjunto de idias, hbitos, cren-
as e prticas sociais que organizam as relaes sociais, polticas e eco-
nmicas de um povo que, assim, produz paisagem e espao geogrfi-
co. Por isso a cultura  importante para os estudos geogrficos.
    A partir da definio acima, voc consegue descrever o que carac-
teriza sua cultura? Ou seja, quais so as idias, hbitos, crenas e prti-
cas sociais que compem a sua cultura? Como estes elementos tomam
forma na sociedade, na paisagem e no espao onde voc vive?
     preciso destacar, no entanto, que os estudos culturais em Geo-
grafia, assim como todos os estudos geogrficos, devem oportunizar
anlises crticas do espao geogrfico. Por isso no devemos confundir
os estudos culturais em Geografia com meras descries de paisagens
exticas ou de povos com costumes sociais e religiosos diferentes dos
nossos. A relao entre cultura e produo do espao geogrfico (ob-
jeto de estudo/ensino da Geografia) deve ser considerada sem que se
perca de vista os aspectos histricos, econmicos, polticos e sociais
do espao em estudo, bem como das relaes que este espao estabe-
lece com outros, prximos e distantes.
    H vrias possibilidades e maneiras de se fazer estudos geogrficos
culturais. Algumas dessas possibilidades esto exemplificadas nos Folhas
que compem o nosso livro. Outras sero apenas mencionadas aqui.
    Por exemplo, ao analisar o espao produzido por uma tribo indgena
que vive em reserva e tem pouco contato com outras culturas  possvel
compreender como suas idias e valores, seus modos de produzir (re-
lao com a natureza) e de se organizar socialmente (relaes sociais e
polticas) se materializam na arquitetura e na paisagem da aldeia. Em al-
guns casos, as lavouras coletivas, as ocas compartilhadas por muitas fa-
mlias, a ausncia de cercas, revelam uma sociedade que no se baseia
na propriedade privada e que no conhece a diviso de classe.




                                                                                          79
       EnsinoMdio




            I            Em sociedades complexas como a nossa, ou seja, aquelas que so
                     divididas em classes sociais, compostas por vrios grupos tnicos, nas
                     quais as pessoas migram com maior ou menor intensidade em funo
                     de variveis polticas e/ou econmicas, os estudos culturais geogrfi-

            n        cos so to importantes quanto, tambm, complexos. Perguntas como:
                     por que a maioria dos negros brasileiros so pobres e, portanto, ocu-
                     pam espaos urbanos menos valorizados e pior estruturados? Ou, por
                     que h, em grandes metrpoles, a formao de bairros tnicos? Cer-

            t        tamente h explicaes histricas, econmicas e polticas para essas
                     configuraes scio-espaciais que devem ser centrais nas anlises ge-
                     ogrficas culturais. As respostas a essas questes, se reduzidas a expli-
                     caes tnico/culturais isoladamente, possibilitam afirmaes precon-


            r        ceituosas e no verdadeiras.
                         Outro aspecto a ser considerado nos estudos culturais geogrficos
                     nas sociedades complexas  a produo e uso de espao arquitetni-
                     co. A arquitetura e as paisagens monumentais evocam mitos e heris


            o        (nomes dos prdios, ruas e avenidas, bustos destacados nas praas p-
                     blicas) que representam a histria oficial e a classe/etnia dominante.
                     Cria-se, assim, um imaginrio de valor histrico e moral que representa
                     alguns, mas deve ser incorporado por todos. O espao , assim, con-


            d
                     dio para organizar o cdigo cultural da classe dominante. Veja o Fo-
                     lhas "Voc produz ou Consome Espao?".
                         Os estudos de grupos sociais/tnicos e lugares culturalmente dife-
                     renciados desvelam como o simbolismo e as aes humanas produ-


            u
                     zem e mantm paisagens geogrficas. Porm, esses estudos podem
                     indicar mais que isso. Quando os grupos e as sociedades em estudo
                     esto  margem do sistema capitalista de produo, os estudos cultu-
                     rais geogrficos podem indicar como se estabelecem, nos lugares, ou-


            
                     tros tipos de relaes polticas, talvez mais solidrias do que as da so-
                     ciedade hegemnica.
                          preciso considerar ainda que a cultura se diferencia com o pas-
                     sar do tempo e, assim, cada gerao desenvolve sua prpria cultura de


            
                     acordo com o ambiente em que vive e trabalha, com as dificuldades
                     que encontra, com as informaes que recebe, etc. O mesmo ocorre
                     com os grupos sociais de uma gerao. A cultura de diferentes gera-
                     es e grupos sociais tem em comum a forma como  construda, ou
                     seja,  nos processos de comunicao, nas relaes sociais e de traba-

            o        lho que a cultura se constri.




80   Introduo
                                                                                      Geografia




    No sculo XX, o progresso dos meios de comunicao, como o
telefone, o cinema, a televiso e a internet propiciou a comunicao
a longa distncia. Alguns desses meios possibilitaram o aparecimen-
to de uma nova forma de cultura popular, que geralmente denomi-
namos de cultura de massa, pois  difundida e padronizada, para um
                                                                                      G
grande nmero de pessoas.
    A cultura de massa tende a criar formas padro de viver, de consu-
mir, de comportamento, etc. Isso cria necessidades que levam  pro-
duo de coisas (tipos de roupas, alimentos, aparelhos eletrnicos, cal-
                                                                                      E
ados, entre outros) e a mudanas de costumes. Ou seja, a cultura de
massa modifica o espao geogrfico, numa tentativa de padroniz-lo,
diminuindo o que  especfico dos diferentes lugares.
    As relaes sociais e de classe, na atual condio histrica, tendem
                                                                                      O
a homogeneizar as culturas atravs da cultura de massa. Mas a cultura
varia de acordo com os grupos sociais e isso garante a manuteno da
diversidade cultural. Mas o que  diversidade cultural?  possvel ser
diferente? Algum quer ser diferente?
                                                                                      G
     Segundo a Declarao Universal da Diversidade Cultural, os indivduos e
 grupos devem ter, garantidas, as condies de criar e difundir suas expres-
 ses culturais; o direito  educao e  formao de qualidade que respeite
                                                                                      R
 sua identidade cultural; a possibilidade de participar da vida cultural de sua
 preferncia e exercer e fruir suas prprias prticas culturais, desde que res-
 peitados os limites dos direitos humanos. O direito  diferena, e  constru-
 o individual e coletiva das identidades atravs das expresses culturais 
                                                                                      A
 elemento fundamental da promoo de uma cultura de paz.
                                                         Fonte: www.cultura.gov.br.


    Voc j assistiu "Smallville", "Friends" ou "Os Simpsons"? Estes so
produtos da indstria de entretenimento, da cultura de massa. Deba-
                                                                                      F
ta com seus colegas como estes produtos culturais citados, ou outros
semelhantes, participam de sua vida e, conseqentemente, compem
sua cultura. Como eles tendem a modificar seus costumes, suas esco-
lhas, suas formas e espaos de diverso.
                                                                                      I
    As reflexes acerca da diferena traz, para os estudos culturais ge-
ogrficos mais recentes, a anlise a respeito dos processos migratrios
e das conseqentes novas (des)configuraes regionais.
                                                                                      A

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       EnsinoMdio




                         A fora cultural de um grupo pode ser claramente constatada quan-


            I        do esse grupo migra. Os migrantes procuram organizar o novo espao
                     tal qual o espao por eles deixado. Tentam organizar o meio reprodu-
                     zindo formas que lhes possibilitem viver como viviam anteriormente,
                     construindo edificaes nos mesmos moldes arquitetnicos, difundin-


            n        do hbitos e estabelecendo relaes sociais com pessoas de mesma
                     origem. Estas questes so tratadas nos Folhas "Nada a ver? Tudo a
                     ver!" e "Para onde vais?".
                         Ser que as necessidades dos moradores dos grandes centros ur-


            t        banos so as mesmas de uma sociedade indgena, de uma sociedade
                     esquim ou de uma sociedade de pescadores do interior da Floresta
                     Amaznica? Todos possuem os mesmos anseios ou ser que as "neces-
                     sidades" podem ser produzidas em funo da vida que levamos?


            r            Outro assunto primordial na Geografia Cultural so as mudanas
                     demogrficas e sociais associadas  urbanizao e industrializao. A
                     concentrao de pessoas de variadas origens e as mudanas na econo-
                     mia e nas relaes de trabalho e sociais afetaram a forma das pessoas


            o
                     perceberem seu mundo, resultando em novas formas de vida nas ci-
                     dades e na cultura. Associado a isto, mcdowell (1996) aponta que "a desco-
                     lonizao, a migrao internacional, a globalizao do capital, do co-
                     mrcio e das formas de produo cultural resultaram em sociedades
                     em que as tendncias internacionais, os bens e servios esto modi-

            d        ficando a todos ns e o nosso sentido de identidade vinculado a ter-
                     ritrio". Podemos exemplificar isto atravs das comunidades que se
                     formam no orkut (ou outras ferramentas parecidas). So pessoas que
                     esto em diferentes pases, ou regies do mesmo pas, mas que parti-

            u        lham as mesmas idias e forma de conceber o mundo. Provavelmen-
                     te se identifiquem mais com algum no outro lado do mundo do que
                     com seu vizinho de rua.
                         Neste Contedo Estruturante veremos Folhas que tratam da de-

                    monstrao cultural das sociedades na produo espacial ("Voc Pro-
                     duz ou Consome Espao?"), da mobilidade dos grupos sociais ("Para
                     onde vais?" e "Passa por sua cabea ter muitos filhos?"), que acabam
                     por forjar novas configuraes espaciais, das marcas deixadas na pai-

                    sagem pelos diferentes grupos, da cultura como elo  nao, propor-
                     cionando um sentido de pertencimento ("Nada a ver? Tudo a ver!"),
                     dentre outros. Ser que voc se identificar com alguns destes assun-
                     tos? Para responder esta pergunta adentre os Folhas deste Contedo


            o        Estruturante.




82   Introduo
                                                                                Geografia




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                                                                                R
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                                                                                I
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       EnsinoMdio




84   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                    Geografia




                                                                              5
                                                  VOC PRODUZ OU
                                                CONSOME ESPAO?
                                                                         marcia Regina Garcia1


                                                                oc j parou para pensar
                                                                sobre a produo do espa-
                                                               o de sua cidade? Como ela
                                                             est organizada? Ou ela est
                                                          "desorganizada"? Por que ela 
                                                       assim? A maneira como o espao
                                                    est organizado apresenta conseqn-
                                                  cias para nossas vidas?




Colgio estadual Barbosa Ferraz - Andir - PR
1




                                                              VocProduzouConsomeEspao?         85
       EnsinoMdio

                             AFormaeaFunodasPaisagens
                              A organizao do espao pode ser entendida como as diferentes
                          formas pelas quais as sociedades asseguram sua sobrevivncia, trans-
                          formando o meio natural ou o meio j transformado. Estas transforma-
                          es buscam atender as necessidades  de alimentao, de moradia,
                          trabalho, lazer, entre outras  de todos.
                              Um espao pode apresentar formas de diferentes tempos histricos,
                          e estas formas podem mudar de funo ao longo do tempo, ou seja, as
                          caractersticas arquitetnicas (prdios, casas) e as funes que as pesso-
                          as do a estas construes (moradia, comrcio, prestao de servios,
                          etc.) mudam de acordo com o tempo histrico, atendendo aos interesses
                          sociais, polticos, econmicos e culturais em que esto inseridos. Assim,
                          a produo espacial  intencional e dinmica, podendo mudar em di-
                          ferentes ritmos. Como exemplo podemos citar o Shopping Estao, em
                          Curitiba. Sua construo original abrigava a estao ferroviria da cida-
                          de, inaugurada em 1885 e desativada em 1970. Recentemente teve sua
                          estrutura e forma readaptadas, passando a ter novas funes: abriga cen-
                          tro de convenes, teatro, museu e o shopping. Assim, a configurao
                          espacial foi produzida pela sociedade que ali vive, tornando-a mais ade-
                          quada para suas necessidades. Voc poderia citar algumas transforma-
                          es desse tipo na cidade onde mora? Voc pode perguntar para as pes-
                          soas com mais idade ou pessoas que morem na cidade h mais tempo.
                              Devido a existncia de grupos sociais com culturas distintas, temos
                          produes espaciais diferentes e, conseqentemente, paisagens carac-
                          tersticas ou tpicas de cada grupo.

                             PaisagemeEspao
                              Antes de continuarmos nesta discusso,  preciso ter claros os con-
                          ceitos de paisagem e de espao.
                              A Paisagem  esttica,  parte de um todo e  o registro de um mo-
                          mento histrico.  como uma foto. Observe em fotos antigas como era
                          o espao de sua cidade. O que foi transformado na paisagem?
                              Em cada perodo a paisagem se caracteriza por um determinado con-
                          junto de tcnicas. Estas tcnicas so as maneiras de construir casas, tem-
                          plos (sistemas de engenharia), maneiras de produzir alimentos, carros,
                          eletrodomsticos (tecnologias de produo), maneiras de se relacionar
                          socialmente, entre outras. Tais tcnicas, associadas s condies econ-
                          micas, polticas e culturais, criam as formas. A paisagem no se cria de
                          uma s vez, mas sofre acrscimos e decrscimos ao longo da histria,
                          por isso ela  uma herana de muitos momentos passados.
                              J o Espao  mais que paisagem, pois retrata o movimento da socie-
                          dade em suas relaes e dinamismo.  a ao do trabalho humano.
                              Quando olhamos ao nosso redor, devemos pensar e repensar os
                          porqus da configurao espacial, pois ela pode nos dizer muito de

86   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                              Geografia

nossa realidade. Por exemplo: as praas sempre foram locais de en-
contro ou desencontro, aonde muitos iam para discutir assuntos pol-
micos, vender mercadorias, passear, brincar, namorar, reivindicar ati-
tudes, encontrar amigos ou conhecidos, dentre outras coisas. No Rio
de Janeiro, na Praa da Aclamao (hoje Praa da Repblica), foi pro-
clamada a Repblica em nosso pas; na Plaza de Mayo (Buenos Aires
 Argentina), muitas mes reivindicaram, e reivindicam at hoje, aes
governamentais referentes ao desaparecimento de seus filhos, familia-
res e amigos durante a ditadura na Argentina, ato que deu nome a uma
associao (Asociacin Madres de la Plaza de Mayo).
    As praas, assim como as construes em geral, tm sua histria e
essas histrias so frutos de uma poca, de uma sociedade em cons-
tante reestruturao.
    A Praa Tiradentes, em Curitiba, simboliza o "marco zero" da ci-
dade, foi construda no local onde, segundo a lenda, o cacique Tin-
diqera, da tribo Tingi, teria escolhido para estabelecer o povoado
que daria origem  cidade. Ela, alm de fazer parte da histria da so-
ciedade curitibana, mostra o dinamismo existente na sociedade e a
necessidade de atender aos anseios polticos de diferentes momentos
histricos, refletindo a cultura de seu povo. Inicialmente, esta praa
recebeu o nome de Largo da Matriz, o qual durou at 1880, quando
o imperador D. Pedro II visitou Curitiba. Neste perodo, a sociedade
sentiu necessidade de prestar-lhe uma homenagem, e a praa passou
a ter o nome do imperador  Largo Dom Pedro II. Aps a proclama-
o da Repblica, mudou novamente de nome, passando a ser a Pra-
a Tiradentes. Para os dirigentes do novo regime, era necessrio eli-
minar os "vestgios ou os heris" do regime anterior, reconstruindo a
imagem de novos heris, anteriormente desconsiderados. Essa prti-
ca  comum em muitos pases.

 Foto 1 - Largo da Matriz. Curitiba, PR   Foto 2 - Praa Tiradentes. Curitiba, PR




     Fonte: www.curitiba.pr.gov.br            Fonte: Icone Audiovisual

    A Repblica necessitava tocar os sentimentos, o corao dos bra-
sileiros, e a melhor forma encontrada para isso foi a reconstruo do
passado, criando um conjunto de smbolos e, entre estes, merece des-
taque a reconstruo da figura de Joaquim Jos da Silva Xavier, Tira-
dentes, o "bode expiatrio" da Conjurao Mineira. Leia, no quadro 1,
mais detalhes sobre esta histria.



                                                                          VocProduzouConsomeEspao?      87
       EnsinoMdio


                                 Quadro 1
                                "... a 15 de outubro de 1790, uma carta rgia secreta foi emitida reco-
                            mendando ao presidente Coutinho "clemncia" para todos os implicados
                            nas reunies ou que tivessem conhecimento da inconfidncia. Os inconfi-
                            dentes ativos deviam ser banidos para Angola e Benguela, e os cmplices
                            e implicados para Moambique. Com uma s exceo: o pleno rigor da lei
                            deveria ser aplicado ao prisioneiro ou prisioneiros que, alm de terem com-
                            parecido s reunies, "com discursos, practicas e declaraes sediciosas,
                            assim em pblico como em particular procurassem em differentes partes"...
                            disseminar o movimento. Previamente, as "diferentes partes" tinham sido
                            definidas como sendo Minas e o Rio de Janeiro. No entanto, nada disso era
                            do conhecimento pblico: o governo se preparava para produzir um espe-
                            tculo. A alada e a proclamao secreta de clemncia deviam se constituir
                            em elementos importantes de um cenrio sofisticado e planejado.
                                A carta rgia de 15 de outubro visava claramente  e somente  ao alfe-
                            res Silva Xavier. Por que o modesto Tiradentes iria ser transformado em bo-
                            de expiatrio? Em grande parte, ele mesmo lavrara sua sentena de morte.
                            "Quem era ele?"  tinha perguntado ao desembargador Torres em seu pri-
                            meiro interrogatrio  "no  pessoa que tenha figura, nem valimento, nem
                            riqueza", como poderia convencer o povo de to grande cometimento? Em
                            muitos aspectos sua pergunta encerrava uma grande verdade: Tiradentes
                            no pertencia  plutocracia mineira que todos os demais integravam. Tinha
                            tentado ingressar nela com afinco, mas fracassara sempre. No era influen-
                            te, no tinha importantes ligaes de famlia, era um solteiro que passara
                            a maior parte de sua vida  sombra de protetores mais ricos e bem-sucedi-
                            dos. Ao Contrrio de Cludio Manuel da Costa e de Alvarenga Peixoto, no
                            tinha fama que ultrapassasse as fronteiras do Brasil. Na verdade, o alferes
                            provavelmente nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos mais
                            amplos do movimento (...).
                                Um julgamento-exibio seguido pela execuo pblica de Silva Xavier
                            proporcionaria o impacto mximo, como advertncia, ao mesmo tempo que
                            minimizaria e ridicularizaria os objetivos do movimento: Tiradentes seria um
                            perfeito exemplo para outros colonos descontentes e tentados a pedir de-
                            mais antes do tempo.
                             Fonte: mAXWeLL, Kenneth R. A devassa da devassa: a Inconfidncia mineira: Brasil  Portugal, 1750-1808.
                             Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, pgs. 216-217.




                              Como podemos deduzir, uma pessoa de pouca influncia, pobre e,
                          praticamente, desconhecida provavelmente tenha sido escolhida pa-
                          ra servir como exemplo do que acontecia com aqueles que conspira-
                          vam contra o sistema, o nico a receber a pena capital, executado em
                          21 de Abril de 1792.



88   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia

    Tiradentes foi propositalmente esquecido durante o Imprio e "res-
suscitado na Repblica". A Monarquia teve como seu principal smbo-
lo D. Pedro I, heri da independncia. E a Repblica, quem seria seu
heri? Antes mesmo de sua proclamao, os republicanos j haviam
retrocedido um sculo em nossa histria e reconstrudo a imagem de
uma pessoa que sonhou com o fim da opresso portuguesa e a liber-
dade da colnia: Tiradentes. Utilizavam-se de imagens como o Cristo
crucificado. As homenagens prestadas ao mrtir, em 1890, foram res-
gatadas atravs de pesquisas em jornais e outros documentos e descri-
tas pelo historiador Jos Murilo de Carvalho.
    Voc pode identificar como as coisas acontecem em nosso mun-
do? Pense nos personagens de nossa histria e procure identificar ou-
tros personagens que tambm tenham sua imagem associada ao sacri-
fcio pela nao.
    Atravs desse pequeno exemplo, procuramos mostrar como o es-
pao geogrfico  constantemente modificado, sendo estas modifica-
es, muitas vezes, fruto de interesses de uma minoria, a elite econ-
mica e/ou poltica.



                ATIVIDADE

      Voc conhece a histria das praas da sua cidade? Estes espaos j foram reorganizados, tendo sua
 estrutura transformada para atender a novas funes? Faa um levantamento, no se esquecendo de entre-
 vistar antigos e novos moradores.




  OEspaoGeogrficonaHistria
    Independente desta questo da mudana de nome, as praas tive-
ram diferentes usos ao longo do tempo e estes usos estavam relaciona-
dos  cultura do grupo social onde estas se encontravam.
    Na Grcia antiga, a praa (gora) era o local onde os cidados,
aqueles que se dedicavam ao pensar, discutiam poltica. Lentamen-
te tornou-se smbolo da presena do povo nas atividades polticas, re-
presentando mais do que a simples praa de mercado  espao do co-
mrcio. Era o smbolo da liberdade, onde os cidados se expressavam.
Desta forma tambm funcionava a praa (frum) romana, sendo um
smbolo de poder.
    Ser que na antiguidade a palavra cidado possua o mesmo signi-
ficado que possui hoje? Leia o quadro 2 "Gregos" para entender me-
lhor como o cidado era visto naquele perodo.



                                                                      VocProduzouConsomeEspao?           89
       EnsinoMdio


                                 Quadro 2
                                Gregos  Na Grcia, cidado era todo homem que opinava sobre os ru-
                            mos da sociedade. Para ter esse direito de expresso, deveria ter posses,
                            pois assim no precisaria trabalhar para sobreviver, podendo se dedicar in-
                            tegralmente s questes pblicas. Estrangeiros, mulheres, escravos e ho-
                            mens livres que trabalhavam (artesos, comerciantes) no pertenciam a es-
                            te seleto grupo.
                             Texto sistematizado pela autora



                              As praas medievais assumiram outras caractersticas. O comrcio
                          ficou muito restrito, no mais se discutia poltica ou se expressava opi-
                          nies. Sua nova funo estava muito mais prxima do espetculo. Nela
                          ocorriam julgamentos e execues, um espetculo de horrores, como
                          as execues de "bruxas", ao qual a populao comparecia.
                              Durante a Revoluo Francesa, a Praa Lus XV, em Paris, tor-
                          nou-se o local predileto dos revolucionrios, servindo de cenrio pa-
                          ra inmeras execues na guilhotina, inclusive de nobres como a
                          rainha Maria Antonieta e o rei Lus XVI, sempre assistidas por nu-
                          merosa platia. Neste momento importante da histria, esta foi de-
                          nominada Place de la Rvolution e atualmente chama-se Place de
                          la Concorde. Na atualidade, as praas passaram a ser o local das
                          passeatas e das reivindicaes sociais em diferentes pases, como
                           o caso da Praa Tiananmen, popularmente conhecida por Praa
                          da Paz Celestial, em Pequim, na China. Nome, alis, bastante con-
                          traditrio considerando-se os eventos de que este espao urbano
                          foi palco. Em abril de 1989, estudantes e outros setores da socie-
                          dade pediam reformas polticas e econmicas na China. Chegaram
                          a levar mais de um milho de pessoas s ruas de Pequim. Em 15
                          de maio, o governo iniciou a mobilizao de tropas para pr fim
                          ao movimento, dando incio a uma batalha de rua conhecida co-
                          mo o massacre da Praa da Paz Celestial. Estima-se entre 300 e 3 mil
                          o nmero de mortos na represso.
                               No Brasil, at a dcada de 1970, as praas das cidades do interior
                          tinham grande importncia na vida da sociedade. Geralmente possu-
                          am um coreto ou algo semelhante ao centro; era local de discursos
                          polticos, festividades religiosas, exposies locais, mas, principalmen-
                          te, local de encontro. As pessoas iam para a praa para verem e serem
                          vistas. Os encontros se davam nas praas. Havia toda uma organiza-
                          o ritual nos passeios pelas praas nos fins de semana e feriados. Os
                          rapazes circulavam ocupando, sempre, a poro externa da calada e
                          as moas ocupavam a parte interna, caminhando em sentido contrrio.
                          Assim, um ficava de frente para o outro, ou seja, os olhares se cruza-
                          vam, as pessoas se viam e os namoros comeavam.


90   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                     Geografia

    No momento atual, em que a TV se tornou um dos meios de comu-
nicao de massa mais usuais e o shopping center  o local de encon-
tro (ou desencontro), a praa perdeu a sua essncia. De local de debate,
de comrcio, de espetculo e de encontro, onde a cultura de um po-
vo se evidenciava, passou ao efmero, onde as pessoas no se encon-
tram, no se vem, apenas passam rapidamente e, muitas vezes, com
medo, proporcionado pelo abandono em que se encontram, ou pelos
seus novos ocupantes  moradores de rua, gangues, prostitutas. (veja
mais detalhes no Folhas " proibida a entrada!"). Esporadicamente, estas
se enchem de pessoas, mas sem o mesmo significado de outros pero-
dos histricos.

  EspaoUrbano:OCasodoRiodeJaneiro
    Assim como uma praa, a prpria cidade tem uma organizao que
atende e j atendeu a muitos interesses. Neste sentido, o espao urba-
no, ao mesmo tempo, apresenta diferentes usos e formas,  elemento
de separao, mas estabelece ligaes. Tal organizao pode ser facil-
mente constatada em diferentes bairros residenciais, comerciais e in-
dustriais, que esto interligados, articulados entre si e em diversos n-
veis, por rodovias e ferrovias que possibilitam a livre circulao de
pessoas, produtos e servios. Assim, as vrias partes (que se diferen-
ciam pelos usos e caractersticas locais) encontram-se interligadas. Dia-
riamente as pessoas deslocam-se de um bairro a outro para trabalhar,
fazer compras, conseguir atendimento mdico, etc. O espao urbano 
produto de uma sociedade que consome tal espao, mas a atuao dos
diferentes agentes sociais  feita e sentida em diferentes nveis.
    A populao de baixa renda e a misria podem gerar espaos ur-
banos. Por no terem condies de adquirir um lote para construir sua
moradia e no tendo a oferta desta pelo Estado, para sobreviver, ocu-
pam reas imprprias e constrem suas moradias. Morar pressupe
ocupar um espao.
    Voc sabe como surgiram as favelas do Rio de Janeiro? Elas podem
estar distantes de ns, mas as conhecemos atravs da TV. No Paran
tambm existem favelas, alis, hoje estas esto se espalhando por qua-
se todas as cidades. Mas, por que estudar as favelas da cidade do Rio de
Janeiro? Porque elas apresentam um aspecto curioso na lgica da pro-
duo do espao geogrfico que demonstra interesses diversos, alm de
conhecermos um pouco sobre a origem das favelas brasileiras.
    At meados do sculo XIX, devido aos meios de transporte da poca
era necessrio morar perto dos locais onde poderia conseguir um traba-
lho. As pessoas lutavam diariamente para consegui-lo, pois trabalho fixo
era muito difcil e no existiam leis trabalhistas que garantissem um sa-
lrio mnimo ou o descanso semanal. Grande parcela da populao vi-
via de pequenos servios. Muitos viviam do comrcio ambulante de pro-



                                                                 VocProduzouConsomeEspao?      91
       EnsinoMdio

                                dutos e servios (doces, quitutes, engraxando sapatos, ...) no centro da
                                cidade ou puxando mercadorias do centro para o cais do porto, isto ,
                                vendendo sua fora de trabalho. Era no centro da cidade, onde a circu-
                                lao de pessoas era maior, que as possibilidades de manuteno da vi-
                                da podia ser garantida.
                                    A plancie, ou a poro mais suave do relevo da cidade do Rio de
                                Janeiro, estava ocupada simultaneamente por pobres e ricos, estes l-
                                timos foram gradativamente deixando o centro. Como possuam seus
                                prprios meios de transporte, afastaram-se deste local, indo para locais
                                mais distantes, com bons ares. Seus antigos casares viraram cortios,
                                ou seja, uma habitao coletiva, da qual cada famlia alugava um c-
                                modo da casa para viver, as demais dependncias (cozinha, banheiro),
                                eram usadas em conjunto por todos os moradores.
                                    Outros, tentando lucrar, construam grandes habitaes coletivas
                                (cortios) para alugar cmodos. A regio central do Rio de Janeiro esta-
                                va tomada por cortios no final do sculo XIX e incio do sculo XX.



                     ATIVIDADE

        Que tal realizar a leitura de um clssico da literatura brasileira? O Cortio (1890), de Alusio de Azevedo
     (1857  1913), nos mostra como era a vida nos cortios do Rio de Janeiro naquela poca.
           A leitura pode ser muito esclarecedora, pois mostra a construo e organizao do espao. Alm de au-
     xiliar na compreenso de questes scio-culturais e econmicas amplas,  um romance social envolvente,
     cheio de sonho, sensualidade, explorao, traio, ambio, cime...



                                   Mesmo com o incio do funcionamento dos carros que se moviam
                                sobre trilhos (puxados a burro), a partir de 1868, e com o incio do tr-
                                fego suburbano na Estrada de Ferro D. Pedro II, em 1870, a populao
                                pobre no se transferiu para a periferia, pois no tinha dinheiro para pa-
                                gar o transporte periferia-centro-periferia. Fato que se repete at hoje.

                                     Foto 3 - Estao Central da anti-    Foto 4 - Aqueduto transfor-
                                     ga Estrada de Ferro Dom Pedro        mado em viaduto para bondes
                                     II (Rio de Janeiro, 1899).           (Rio de Janeiro, 1896).




                                         Fonte: marc Ferres                Fonte: marc Ferres

92   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                    Geografia



                 PESQUISA

    Voc j ouviu falar da Revolta da Vacina? Ela existiu e foi aqui no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro,
 nesse mesmo perodo estudado. Que tal realizar uma pesquisa sobre esse acontecimento?



    Com o fim do sistema escravista, a situao habitacional ficou ain-
da pior, porque os ex-escravos viam na cidade grande a chance de so-
breviver e conseguir algo melhor. Os cortios proliferavam rapidamen-
te e eram vistos, pela sade pblica, como causadores das epidemias
que freqentemente assolavam a cidade (febre amarela, peste bub-
nica, varola, tuberculose, dentre outras), pois eram locais sujos, sem
condies para circulao de ar e iluminao solar adequada, e no
havia saneamento bsico.
    Aps a Proclamao da Repblica, os governantes comearam a
desejar dar novos "ares"  capital de nosso pas, que na poca era o
Rio de Janeiro, na tentativa de melhorar sua imagem no exterior.
    As ruas estreitas no condiziam com o novo tempo, com a moder-
nizao. Agora no estamos mais no tempo da charrete, do cavalo,
mas dos bondes e automveis. Era necessria uma grande reforma ur-
bana, que j estava acontecendo no continente europeu.
    O prefeito Francisco Pereira Passos, nomeado para o cargo duran-
te a presidncia de Rodrigues Alves (1902 - 1906), decidiu iniciar a re-
forma da cidade em nome do progresso e da higiene. O governo local
desapropriou e destruiu quarteires prximos ao litoral, acabando com
as moradias coletivas. Os cortios eram desapropriados e demolidos
com a presena policial para evitar reaes da populao desalojada.
Os governantes pareciam no se importar com os seres humanos que
iam sendo expulsos de suas moradias da noite para o dia. Entretanto,
num "ato de bondade", permitiam que estes se apropriassem dos res-
tos da demolio (tbuas, telhas, etc).
    Com o pouco material conseguido, estes excludos do centro cons-
truram pequenas casas nos morros prximos  uma estratgia encon-
trada para permanecer na regio central. No podendo viver na plan-
cie, restaram-lhes os morros, surgindo, assim, as primeiras favelas do
Rio de Janeiro. A ocupao destes j estava acontecendo desde 1897,
quando militares vindos da Guerra de Canudos ocuparam, provisoria-
mente, os morros da Providncia e de Santo Antnio, localizados nos
fundos de guarnies do Exrcito e da Polcia. Veja mais sobre este te-
ma no Folhas " Proibida a Entrada!".




                                                                         VocProduzouConsomeEspao?             93
       EnsinoMdio

                                   Neste processo de desapropriaes e demolies, muitos conse-
                                guiam emprego nas obras executadas pelo governo, na abertura de
                                avenidas e construes residenciais, o que possibilitou renda para uma
                                numerosa populao desempregada. Tambm estava em construo o
                                novo porto, que, por um lado, desempregou os carregadores que fa-
                                ziam o transporte de mercadorias do centro ao porto, mas, por outro
                                lado gerou empregos em sua construo.
           Foto 5 - Rio de Janeiro                 Aps a expulso dos pobres das plancies litorneas
                                               e a realizao de obras de infra-estrutura, ocorreu uma
                                               grande valorizao desta rea, inviabilizando o retorno
                                               da populao de baixa renda. Com isso, retornam para
                                               a regio os ricos que tinham se afastado anteriormen-
                                               te, no tendo mais os excludos ao lado, mas no po-
                                               dendo deixar de v-los nos morros locais. Dessa for-
                                               ma, podemos entender alguns interesses existentes na
                                               produo do espao geogrfico.
            Fonte: www.vivafavela.com.br  Tony Barros




                         ATIVIDADE

        E na sua cidade, h favelas? Elas so denominadas favelas ou recebem outros nomes? Como foi o pro-
     cesso de formao desses espaos? Se voc no sabe, que tal perguntar para as pessoas mais velhas?




                                             Agora leia atenciosamente os textos poticos 3 e 4:

                                                         Quadro 3
                                                         Saudosa maloca  1955
                                                          Adoniran Barbosa 1910-1982

                                                         Se o senhor no t lembrado, d licena de contar
                                                         Ali onde agora est este adifcio arto
                                                         Era uma casa via, um palacete assobradado
                                                         Foi aqui seu moo, que eu, Mato Grosso e o Joca
                                                         Construimo nossa maloca
                                                         Mais um dia, nis nem pode se alembr
                                                         Veio os home com as ferramenta e o dono mand derrub...
                                                         [...]
                                                         Que tristeza que nis sentia, cada tuba que caa
                                                         Doa no corao...
                                                         [...]



94   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia


        Quadro 4
        Ave Maria do morro - 1942
         Herivelto martins 1912-1992
        Barraco de zinco, sem telhado, sem pintura
        l no morro barraco  bangal
        l no existe felicidade de arranha-cu
        [...]
        tem alvorada, tem passarada ao alvorecer
        [...]
        e o morro inteiro, no fim do dia
        reza uma prece: ave maria


    Uma caracterstica de todas as lnguas do mundo  que elas no so
faladas da mesma maneira pelos seus usurios, ou seja, h uma gran-
de variedade de formas de expresso oral. Isso j existia desde a anti-
guidade. Havia, por exemplo, o latim vulgar (popular), o qual deu ori-
gem  Lngua Portuguesa, que diferia do latim culto.
    As pessoas de diferentes locais, idades, profisses ou classes sociais
possuem formas distintas de se expressar, e esta forma no  a mesma
em todas as situaes, pois algumas exigem formalidade e outras no.
A nossa linguagem oral tambm difere da escrita. Pelo sotaque pode-
mos identificar a origem de uma pessoa?
    As lnguas variam de grupo social para grupo social, de regio para
regio e tambm de situao para situao. Por exemplo,  freqente
jovens serem orientados para, ao procurar um emprego, no se apre-
sentarem para a entrevista falando gria. Nessas ocasies  comum o
uso da norma culta.



                  ATIVIDADE

    Nos poemas  possvel identificar a condio social do narrador-personagem. Enumere os objetos
 geogrficos, presentes no texto, que possibilitam esta identificao.
     Os dois poemas apresentam alguma relao com o que est sendo apresentado neste Folhas? Comente.



   Bem, voc j deve ter percebido que existem diferentes espaos,
como: condomnios fechados, bairros residenciais de classe mdia,
bairros operrios, favelas, shopping, praas, locais de diverso... A
construo destes espaos obedece a interesses econmicos, sociais e
culturais. Ser que os usurios de tais espaos so os mesmos?



                                                                     VocProduzouConsomeEspao?            95
       EnsinoMdio


                             OslugarescomoObjetosdeConsumo
                              Voc j pensou na possibilidade de comprar uma mercadoria, um
                          produto e no lev-lo para casa? Ser que isso  possvel?
                              Com a intensificao da globalizao imposta pelos avanos nos
                          meios de transportes e telecomunicaes, pessoas, produtos e servios
                          passaram a circular pelos diferentes continentes com maior rapidez e
                          facilidade, passaram a percorrer maiores espaos em menor tempo. A
                          cultura dominante passou a ser mostrada como o modelo a ser segui-
                          do atravs dos meios de comunicao de massa. Indiretamente, esti-
                          mulam os consumidores visuais a adotarem determinados padres que
                          lhes so passados pela TV, pois estes sim so modernos, sinnimos de
                          prosperidade, de sucesso, de modernidade.
                              Para muitos, essa massificao cultural poderia representar a extin-
                          o da diversidade cultural. Os lugares estariam se tornando homog-
                          neos em todo o planeta. Tudo estava ficando igual. Nesse contexto, ga-
                          nha destaque a produo do lugar para o turismo.
                              As pessoas vo para um local distante para ver "a mesmice" que
                          existe onde elas residem? Ou as pessoas viajam para conhecerem
                          locais e culturas distintas? E voc, quando viaja, procura o diferen-
                          te ou o familiar?
                              Para atender a determinado tipo de turista (consumidor tempo-
                          rrio de espaos), verifica-se a diferenciao dos lugares, onde os
                          vilarejos, as pequenas, mdias ou grandes cidades tentam manter
                          determinadas diferenas para que estas sejam consumidas pelos tu-
                          ristas. Muitas cidades encontram na manuteno dessas diferenas
                          sua fonte de renda no mundo globalizado. Este foi o jeito que tais
                          lugares encontraram para se inserirem na globalizao, oferecendo-
                          se como espaos de consumo culturalmente diferenciados, algumas
                          vezes evidenciando modos de vida (ex.: turismo rural, turismo t-
                          nico, ecoturismo).
                              No momento atual, denominado pelo grande estudioso e pro-
                          fessor Milton Santos (1926-2002) de perodo tcnico-cientfico-in-
                          formacional, criam-se novas formas de consumo, denominadas de
                          no-material, como o turismo. Para atender a essa nova forma de
                          consumo que  visual, criam-se lugares tursticos, repletos de en-
                          cantos, tornando o espao "coisas", mercadorias passveis de serem
                          consumidas, objetos de desejo. Podemos citar como exemplo des-
                          sa produo de lugares alguns parques temticos, como o Beto Car-
                          reiro World (SC), o Play Center (SP), a Disneylndia (inicialmente




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                                                                                                 Geografia




nos Estados Unidos e que hoje se espalha por diversos pases do
globo), o Hoppi Hari (SP), consumidos por crianas, adolescentes
e adultos, alm de resorts como Costo do Santinho (SC), Costa do
Saupe (BA), dentre outros.




                ATIVIDADE

    Que tal fazer uma lista com 10 diferentes locais do Brasil e do mundo que voc gostaria de visitar e
 aqueles que no gostaria.
     Pense em organizar sua lista a partir do local de maior desejo e do local de maior rejeio, em duas
 colunas. Justifique cada escolha.




    Mas como um lugar torna-se vendvel ou deixa de s-lo? Como
esses elementos tornam-se alvos de nosso desejo? Atravs da intensa
publicidade, meios de comunicao, das inovaes tecnolgicas, das
estratgias do mercado, dos modismos esportivos e culturais e cri-
trios estticos. Os lugares tursticos precisam viver inovando em su-
as tcnicas para atrair os turistas com novas ofertas e investir muito
em publicidade para no perder valor nesse mercado. Esses so mo-
tivos pelos quais os lugares so valorizados ou desvalorizados a ca-
da momento histrico.
    Nesse contexto, o valor simblico da paisagem  apropriado pe-
la publicidade e  incorporado ao desejo das pessoas (ao imaginrio),
passando a ter valor de venda, como se fosse uma mercadoria.
    Com a evoluo tecnocientfica, os deslocamentos humanos pelo
planeta tornaram-se mais rpidos e eficientes. Empresas de transporte
areo e terrestre viram no turismo um meio de obter lucro associan-
do-se s redes de hotelaria para promoo da imagem de um lugar,
atravs dos pacotes tursticos, vendidos atravs de agncias que ho-
je, muitas vezes, so virtuais. Para ilustrar e facilitar nossa compreen-
so espao-temporal veja, na tabela 1, os dados elaborados por David
Harvey (professor de geografia da Universidade de Oxford - Estados
Unidos) sobre a evoluo dos deslocamentos humanos.




                                                                       VocProduzouConsomeEspao?            97
       EnsinoMdio


                          TABELA 1
                                    Velocidade dos meios de transporte ao longo da histria:
                              1500          A mdia de velocidade das carruagens e dos barcos a vela era
                              1840          de 16 Km/h
                              1850
                                            Locomotivas a vapor, 100 Km/h; os barcos a vapor, 57 Km/h
                              1930
                              1950          Avies a propulso voavam a 480-640 Km/h
                              1960          Jatos de passageiros voam a 800-1000 Km/h
                           Fonte: Harvey, apud Trigo, 2002, p. 20


                              Podemos dizer que, at o incio do sculo XIX, se um rei desejas-
                          se ser conhecido pelos seus sditos, ele precisava percorrer as vilas
                          de seus domnios a cavalo ou em uma carruagem. No incio do sculo
                          XX, os meios de transporte j tinham mudado, mas os lugares no se-
                          riam to facilmente conhecidos como hoje. Atravs da televiso, da in-
                          ternet, pessoas se tornam mundialmente e instantaneamente conheci-
                          das, assim como os lugares.
                              Em meio a esse processo de marketing do lugar, verifica-se o for-
                          talecimento das festas regionais, do artesanato, da culinria. A cultu-
                          ra local ressurge, ganha fora, mas no mais como manuteno pura e
                          simples da tradio cultural, e sim como uma mercadoria de valor, al-
                          go para ser vendido ao consumidor, o turista. Como exemplos, pode-
                          mos citar: o festival folclrico de Parintins (AM), onde foi construdo
                          o Bumbdromo, para os bois Garantido e Caprichoso realizarem seus
                          desfiles (bumba-meu-boi); o carnaval do Rio de Janeiro; as festas juni-
                          nas do Nordeste brasileiro, sendo as festas de Campina Grande (PB) e
                          Caruaru (PE) as mais famosas.
                              Espaos produzidos tecnicamente para atrair turistas (resorts, esta-
                          es de esqui, guas termais, etc.), que no divulguem intensamente
                          sua mercadoria, sua imagem e seu discurso, podem rapidamente ser
                          substitudos por outros.  o imaginrio coletivo que determina se um
                          local vai ser muito ou pouco procurado. Atravs da propaganda, divul-
                          ga-se o paraso, um mundo mgico onde os sonhos podem se tornar
                          realidade.  a ao da magia do discurso divulgado pela intensa publi-
                          cidade. Caso esse discurso no atinja seu alvo, um local produzido tec-
                          nicamente pode "morrer" para o interesse das pessoas.




98   DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia


    Assim, os locais so criados e tambm podem ficar decadentes.
Existe um jogo de interesses econmicos, uma estratgia de consu-
mo, que faz com que isso acontea. Os mesmos interesses que vo-
c pde constatar na construo do espao urbano tambm podem
ser constatados na produo do espao turstico, consumvel por uns,
mas inacessvel a tantos outros.
    Com a inovao tecnolgica e cientfica, o "mundo ficou menor",
pois a velocidade dos deslocamentos aumentou, possibilitando a uma
pessoa realizar a aventura de dar a volta na Terra em, aproximada-
mente, 80 horas.
    Entretanto, no podemos nos esquecer que tudo  uma questo
de acessibilidade, que pode ser analisada por vrios aspectos. Um
deles  o dinheiro: t-lo representa grande possibilidade de mobi-
lidade, pois pelo fato de no t-lo, uma pessoa pode passar a vi-
da sem sair das proximidades do local de nascimento, mesmo nos
dias de hoje.
    Outro aspecto da acessibilidade no envolve somente o dinhei-
ro, pois eu posso chegar a Paris (Frana), situada a aproximadamente
10.000 Km de distncia de Curitiba, em menos tempo do que eu gasta-
ria para chegar a Manicor (Amazonas-Br), visto que eu teria que ir de
avio at Manaus (aproximadamente 4.000 Km de Curitiba) e depois
pegar um barco que levaria muitas horas para chegar l, num percur-
so total que representa a metade da distncia at Paris. Voc entendeu
estes aspectos tratados?




                ATIVIDADE

    Aps ter lido essa breve discusso sobre as diferentes formas de produo e apropriao do espa-
 o geogrfico, que tal realizar uma anlise da configurao do espao de sua cidade? E a, voc produz
 ou consome espao? Ou produz e consome? O que me diz?




                                                                      VocProduzouConsomeEspao?           99
       EnsinoMdio



                            RefernciasBibliogrficas
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100 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                       Geografia


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                                                                    VocProduzouConsomeEspao? 101
       EnsinoMdio




102 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                   Geografia




                                                                                             6
                                                                      PARA ONDE VAIS?
                                                                                   Roselia maria Soares Loch1


                                                                           que leva as pessoas a sarem
                                                                            do seu local de origem? O
                                                                            que elas sentem ao chegar
                                                                            num lugar novo?




Instituto de educao do Paran Prof. erasmo Piloto - Curitiba - PR
1




                                                                                           ParaOndeVais? 103
       EnsinoMdio

                              Mudam os tempos, mudam as vontades... Mas o motivo de ir e
                          vir das pessoas  quase sempre o mesmo: sobrevivncia. Se na po-
                          ca dos homens das cavernas esse era o principal objetivo do nomadis-
                          mo, imagine hoje!
                              Pense nas pessoas que saem do campo para a cidade ou da cidade pa-
                          ra o campo; de uma cidade do interior (Porto Vitria/Pr, Missal/Pr) para
                          outra maior (Curitiba/Pr, Londrina/Pr) ou vice-versa, da cidade grande
                          para a cidade do interior; de um pas (Brasil) para outro (Estados Uni-
                          dos, Japo) ou vice-versa. O que leva estas pessoas a sarem do seu
                          local de origem? O que elas sentem ao chegar num lugar novo? Como
                          se d a relao daquele que chega com o morador do local? Como  a
                          adaptao de quem muda de um lugar para outro?
                              O fenmeno migratrio sempre esteve presente na histria da hu-
                          manidade. Ao abordar as razes desse deslocamento populacional,
                          precisamos considerar os movimentos da populao e as suas implica-
                          es na estruturao do espao geogrfico. Esses movimentos ocorre-
                          ram com diferentes intensidades, nos diversos perodos histricos. Leia
                          o quadro 1 para enriquecer seus conhecimentos.


                                 Quadro 1
                                Na metade do sculo XX ocorreu uma das mais expressivas migraes
                            foradas, provocada por conflitos religiosos entre muulmanos e hindus,
                            aps a ndia conquistar a sua independncia, em 1947. Esse conflito cul-
                            minou com a diviso do territrio da antiga colnia britnica em dois pases:
                            um para os muulmanos, o Paquisto e outro para os hindus, a ndia. Mais
                            de 17 milhes de muulmanos viram-se forados a abandonar as reas em
                            que viviam na ndia para irem morar no Paquisto.
                             Fonte: meDICI, m. de C. Geografia: a populao mundial. 2002. Texto adaptado.



                              Os grandes deslocamentos de pessoas provocaram povoamento de
                          regies e modificaes nas relaes sociedade-natureza e sociedade-
                          sociedade nestes espaos.
                              De que maneira as migraes desencadeiam mudanas nessas rela-
                          es? Discuta com seus colegas e anote as concluses.
                              Fazer referncia aos movimentos populacionais (migraes) im-
                          plica compreender a existncia de um movimento de sada e um ou-
                          tro de chegada. Esses movimentos podem ser internos, dentro de um
                          mesmo pas, ou internacionais, que so os que acontecem entre pa-
                          ses: emigrantes  saem do pas de origem; e imigrantes  entram em
                          um pas que no  o seu.




104 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                          Geografia

   Os movimentos populacionais, internos ou externos, podem ser es-
pontneos, quando a migrao  livre; ou forados, quando as pessoas
sentem-se obrigadas a migrar, como  o caso do trfico de pessoas
para a escravido e das perseguies de ordens diversas: religiosas,
polticas, tnicas ou ambientais. No Brasil temos, como exemplo de
emigrao forada, as perseguies polticas que muitos brasileiros
sofreram por ocasio da Ditadura Militar de 1964 (veja o quadro 02),
condenando-os ao exlio.
   Teoricamente, essa poca deveria ser protagonizada pelo "siln-
cio", melhor dizendo, pela falta de liberdade de expresso (veja o qua-
dro 2  Ditadura Militar). Porm, nem os burocratas encarregados da
censura conseguiram calar a criatividade da Msica Popular Brasileira
(MPB). Chico Buarque, cantor e compositor, cansado de ser persegui-
do e ter suas canes censuradas, inventou um personagem, Julinho
da Adelaide, com o qual assinou algumas composies. Outros auto-
res tambm usaram letras de msicas para fazer protestos, muitas ve-
zes velados, naquele momento poltico.

      Quadro 2
      Ditadura Militar (1964-1979): foi um movimento deflagrado em maro
 de 1964, no estado de Minas Gerais, sob o comando do general Olmpio
 Mouro Filho, contra o governo institudo do presidente Joo Goulart, que
 perdeu o comando no dia seguinte. O movimento estendeu-se at 1985.
 Embora a abertura poltica tenha sido instaurada a partir de 1979, s em
 1985 tomou posse um presidente civil, Jos Sarney, ainda eleito pelo
 Congresso Nacional de forma indireta. Apoiado por empresrios, proprie-
 trios rurais e setores da classe mdia, o movimento reagiu principalmente
 s "reformas de base" propostas pelo governo com o apoio de partidos de
 esquerda, acusando o presidente de pretender estabelecer uma "repbli-
 ca sindicalista". O perodo caracteriza-se pelo autoritarismo, supresso de
 direitos constitucionais, perseguio policial e militar, e utilizao da tortu-
 ra dos presos e seqestrados que se opunham ao regime. A liberdade de
 expresso nos meios de comunicao foi suprimida mediante a adoo
 da censura prvia. Foi de extrema importncia para os governos militares
 o papel desempenhado pelo Servio Nacional de Informao (SNI), criado
 pelo general Golbery do Couto e Silva.
  Fonte: enciclopdia encarta, 2001. Texto sistematizado pela autora.



   No Quadro 3, leia a letra da msica Sabi, de Chico Buarque, e a
poesia Cano do Exlio, de Gonalves Dias.




                                                                                    ParaOndeVais? 105
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

        Na msica de Chico Buarque explique que relao ela tem com os fatos que ocorriam naquele perodo.
         Analisando a Cano do Exlio e Sabi, faa uma analogia entre as duas poesias escritas em perodos
     histricos diferentes. Voc pode procurar a letra inteira da msica e/ou ouv-la para auxiliar seu trabalho.




                                     Quadro 3

                                     SABI                               CANO DO EXLIO
                                      Tom Jobim e Chico Buarque  1968    Gonalves Dias  1847
                                     Vou voltar                          Minha terra tem palmeiras,
                                     Sei que ainda vou voltar            Onde canta o Sabi;
                                     Para o meu lugar                    As aves, que aqui gorjeiam,
                                     [...]                               No gorjeiam como l.

                                     [...]                               Nosso cu tem mais estrelas,
                                     Sei que ainda vou voltar            Nossas vrzeas tm mais flores,
                                     Vou deitar  sombra                 Nossos bosques tm mais vida,
                                     De uma palmeira                     Nossa vida mais amores.
                                     Que j no h
                                     Colher a flor                       [...]
                                     Que j no d...
                                                                         Minha terra tem palmeiras,
                                     [...]                               Onde canta o Sabi.
                                                                         No permita Deus que eu morra,
                                     [...]                               Sem que eu volte para l;
                                     Foi l e  ainda l
                                     Que eu hei de ouvir cantar          Sem que desfrute os primores
                                     Uma sabi                           Que no encontro por c;
                                                                         Sem que ainda aviste as palmeiras,
                                                                         Onde canta o Sabi.



                                   As migraes espontneas ou foradas ainda podem ser controla-
                               das,  o que acontece quando o Estado controla, ou tenta controlar, a
                               entrada e/ou a sada de pessoas.
                                   De maneira geral, os fluxos migratrios tm sido alvos de discus-
                               ses polmicas, haja vista os conflitos e problemas acontecidos nas
                               reas receptoras  questo de territrio X invaso de fronteiras X con-
                               trole do Estado. Muito se tem discutido sobre os impactos no mercado
                               econmico e na cultura das reas de imigrao.


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                                                                                                                                Geografia



                ATIVIDADE

Faa a leitura dos textos 1 e 2. Aps a leitura, discuta as questes propostas.
Apresente as concluses.


       Texto 1
      A ONU (Organizao das Naes Unidas) calcula que, dentro de cinco anos (a partir de
  2005), 50 milhes de pessoas vo ser consideradas refugiadas ambientais devido a proble-
  mas desta natureza nas regies onde vivem. Estima, ainda, que hoje j existem tantos re-
  fugiados ambientais quanto pessoas que so foradas a deixar suas casas por causa de
  distrbios polticos ou sociais. Entre os problemas ambientais que deixam as pessoas refu-
  giadas esto: o esgotamento do solo, a desertificao, enchentes, terremotos e outros de-
  sastres naturais.
   Fonte: ONu  mundo ter 50 milhes de refugiados ambientais em 2010. Disponvel em http://my.opera.com/RichardCooper/blog/
   show.dml/42474. Acessado em 13/10/ 2005.




       Texto 2
      Em novembro de 2005, ocorreu um grave conflito social na Frana. H 30 anos, o pa-
  s estava aberto a uma onda macia de imigrao proveniente de pases subdesenvolvidos.
  Sem uma poltica de controle da imigrao, nem mesmo uma preocupao com as con-
  seqncias inevitveis que essa chegada macia de estrangeiros iria provocar nas esferas
  poltica, econmica e social, entraram na Frana cerca de 10 milhes de estrangeiros. Se-
  gundo as notcias divulgadas pelos meios de comunicao social, a maioria dos imigran-
  tes  rabes e negros  no se integrou  sociedade francesa, nem mesmo teve a inteno
  de faz-lo, pois consideram seus bairros como territrios que lhes pertencem. A maior par-
  te dos habitantes dos subrbios que sofreram distrbios e incndios apresenta uma atitude
  hostil ao Estado. Indiscutivelmente, a imigrao macia est no centro da crise social do pa-
  s. Aps os episdios de violncia, as autoridades francesas perceberam o quo  impor-
  tante contar com polticas de controle da imigrao. Espanha, Alemanha, Portugal e outros
  pases da Europa no devem reproduzir os erros sofridos pelas primeiras geraes de imi-
  grantes, devem tirar lies da violncia que sacudiu a Frana e rever a situao social dos
  imigrantes. A excluso social foi a razo do conflito, alm de outro fato agravante: se os es-
  trangeiros legais esto marginalizados nos subrbios, imaginem a situao dos ilegais, mais
  expostos  armadilha da criminalidade.
   Texto sistematizado pela autora




                                                                                                                   ParaOndeVais? 107
       EnsinoMdio



                                   Aprofundandooassunto!
                                    Quem quiser emigrar para a Austrlia, para os Estados Unidos da
                                 Amrica (EUA), para o Canad ou para qualquer outro pas precisa
                                 pedir uma autorizao junto  embaixada ou consulado do pas
                                 para onde pretende viajar, a fim de saber quais so os requisitos
                                 necessrios.
                                    Cada pas usa diferentes critrios e exigncias para a entrada e per-
                                 manncia de estrangeiros.
                                    Voc sabe quais so os critrios e exigncias adotados pelo Brasil
                                 para a entrada de um estrangeiro? As pessoas que moram nos pases
                                 da Amrica do Sul precisam de vistos para entrar no Brasil?
                                    Na Europa, persiste uma poltica mais relacionada com o contexto
                                 imediato do mercado de trabalho: se precisar de trabalhadores, abre a
                                 porta, se o mercado de trabalho no est bem, fecha.



                      ATIVIDADE

         Se a Europa fechar suas fronteiras e criar critrios para entradas de imigrantes no seu territrio, ir provo-
     car mais problemas ou ir resolv-los?
         A entrada de novos imigrantes  temida por muitos, sob a alegao de se perder tradies e valo-
         res to acalentados pelos pases europeus. Ser que isto pode ocorrer realmente?
         Outra questo ligada  imigrao  o aumento dos movimentos xenfobos que vem os imigrantes
         com desconfianas e receios. Que movimentos so estes? Por que isto acontece?
         A questo da imigrao , para a Organizao das Naes Unidas (ONU), uma questo de direi-
         tos humanos, pois est reconhecido internacionalmente o direito de circulao. Porm,  curioso
         que exista o direito de se deixar um pas, mas no o de entrar em outro. Como voc interpreta es-
         ta questo?
         Qual ser o destino dos 50 milhes de pessoas refugiadas ambientais? Antes de responder, pense:
         quem so essas pessoas? Lembre-se, qual era o perfil dos desabrigados ambientais deixados pe-
         la passagem do furaco Katrina nos Estados Unidos?



                                     Apesar de serem mltiplas as razes que levam as pessoas a
                                 deixar para trs as suas razes culturais e construir uma nova vida em
                                 lugares muitas vezes desconhecidos, o principal responsvel pelos
                                 atuais movimentos migratrios acontecidos na maioria dos pases  o
                                 fator econmico.



108 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                   Geografia



                                 DEBATE

     Vamos refletir mais um pouco! As migraes econmicas so foradas ou espontneas? Discuta
  com seus colegas e apresente as concluses.



    Os primeiros movimentos migratrios intercontinentais tinham fina-
lidade de explorar e/ou colonizar novas terras. A Europa foi um impor-
tante foco de emigrao quando, no perodo das grandes navegaes
(a partir do sculo XV), permitiu o deslocamento de europeus para as
reas recm-descobertas, principalmente da Amrica.

                                   Destino dos emigrantes europeus  1800/1920




 Escala aprox. 1 : 201 500 000




           Os pases que mais perderam populao no fluxo migratrio ocorrido entre 1800 e 1920, da
        Europa para Amrica, foram o Reino Unido, Itlia, Alemanha e Espanha. E entre os que mais rece-
        beram imigrantes, destacaram-se a Argentina, o Brasil, os Estados Unidos e o Canad.
         Fonte: mDICI, miriam de Cssia,2002, pg.62



   Essa emigrao europia continuou por muito tempo. A mais ex-
pressiva emigrao que ocorreu da Europa para a Amrica foi ao longo
de todo o sculo XIX (1801-1900) e dos primeiros 25 anos do Sculo
XX. Calcula-se que a sada de europeus tenha ultrapassado a casa dos
60 milhes de pessoas. Esse deslocamento populacional foi em decor-




                                                                                           ParaOndeVais? 109
       EnsinoMdio

                            rncia de um conjunto de acontecimentos, de ordem social e econmi-
                            ca, que funcionou como fator de repulso populacional para a Europa
                            e de atrao populacional para a Amrica. Entre os quais se destaca-
                            vam como motivo de repulso, o estado de misria de uma parcela
                            expressiva dos habitantes europeus; como motivo de atrao, as van-
                            tagens econmicas oferecidas por muitos pases do continente ameri-
                            cano aos europeus que se dispusessem a viver no novo territrio.
                                Aps a Segunda Guerra Mundial, o mundo presenciou uma mu-
                            dana significativa no quadro dos fluxos migratrios. Os pases afe-
                            tados pela guerra, especialmente os europeus e o Japo, que eram
                            pases de emigrao, reconstruram suas economias e alteraram sua
                            condio migratria. De pases emigratrios, transformaram-se em
                            reas de imigrao.



                     ATIVIDADE

         De acordo com a leitura, voc conheceu os fatores que determinaram o grande fluxo de
     pessoas da Europa para a Amrica durante o sculo XIX e o incio do sculo XX. Realize um
     trabalho de pesquisa com o objetivo de identificar as caractersticas das migraes que ocorreram
     na Europa no ps-guerra.




                               OvaievemdentrodoBrasil...
                                A histria da formao do povo brasileiro  marcada a partir de fluxos
                            migratrios, da busca contnua pela conquista da sobrevivncia. As mi-
                            graes no Brasil no ocorreram ou ocorrem por causa de guerras, como
                            aconteceu e ainda acontece em muitos pases, mas pela inconstncia dos
                            ciclos econmicos em cada momento da histria e de uma economia pla-
                            nejada independentemente das necessidades da populao.
                                A seguir voc conhecer alguns momentos da histria do Brasil que
                            foram responsveis pelas andanas da populao, andanas estas que
                            se basearam na formao de reas de atrao e de repulso de popula-
                            o. Observe como as migraes acompanham as distintas fases de de-
                            senvolvimento econmico do pas.
                                Os primeiros movimentos migratrios ocorridos dentro do Brasil fo-
                            ram os realizados pelos indgenas, que eram sociedades nmades. Aps
                            a chegada dos portugueses, os movimentos migratrios de alguns des-
                            tes povos passaram a ser forados. Expulsos das suas terras pelos por-
                            tugueses, eram obrigados a migrar para o interior do Brasil. Alm disso,
                            muitas tribos sofreram um lento e progressivo extermnio pelos portu-
                            gueses.

110 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                Geografia

    Nessa primeira fase do povoamento, ocorreu a ocupao inicial
do litoral brasileiro e posteriormente o estabelecimento da agroin-
dstria canavieira no Nordeste. Devido a maior proximidade com a
Metrpole e s condies naturais favorveis, como o clima e o solo,
a cultura da cana-de-acar se fixou na zona da mata nordestina, foi
nessa rea que se fixou tambm o colonizador (leia o Folhas "O Bra-
sil podia ser diferente?").
    Com o passar do tempo, o povoamento extravasou a rea de
plantio e de industrializao da cana, alcanando o agreste e o ser-
to nordestino. A atividade responsvel pela penetrao mais para
o interior do Brasil foi a pecuria, encontrando um estmulo para o
seu desenvolvimento pelo fato da populao do engenho represen-
tar um mercado de consumo de carne e couro. Um fato proeminen-
te, determinado pela criao do gado, foi o desenvolvimento do co-
mrcio externo de couros e sola, sem falar na carne seca, ou charque,
um dos elementos bsicos da alimentao das classes menos favore-
cidas e dos escravos.
    Devido  concorrncia das plantaes de cana nas Antilhas, a pro-
duo do acar brasileiro sofreu uma queda nos preos, declinan-
do este ciclo econmico. Com o aparecimento da minerao, e conse-
qentemente declnio da produo aucareira, o Nordeste deixou de
ser rea de atrao populacional e passou a condio de rea de repul-
so. Minas Gerais e regies de Mato Grosso e Gois nos sculos XVII
e XVIII, tornaram-se reas de atrao populacional, principalmente na
primeira metade do sculo XVIII.
    A atividade mineradora foi responsvel, em grande parte, pelo in-
tenso movimento interno migratrio, principalmente pelos desloca-
mentos da populao, no s do planalto paulista, mas tambm do
Nordeste aucareiro e da Bahia. Esse deslocamento da economia im-
plicou tambm no deslocamento do centro poltico-administrativo da
Colnia. A capital deixou de ser Salvador e passou a ser a cidade do
Rio de Janeiro, bem mais prxima da regio de minerao. Com o pas-
sar dos tempos, a fase da minerao comeou a declinar.




               ATIVIDADE

    O que voc imagina que tenha ocorrido para que o declnio da minerao acontecesse?
 Pesquise e responda.




                                                                         ParaOndeVais? 111
       EnsinoMdio

                                MudaaEconomia,MudaaDireodasMigraes
                                 Diante da decadncia desta atividade, a prtica da agricultura foi a al-
                             ternativa encontrada por muitas populaes das zonas de minerao.
                                 As migraes internas nesse perodo, em busca de melhores solos
                             para o desenvolvimento da agricultura, conduziu muitos colonos de Mi-
                             nas Gerais a migrarem para So Paulo. Muitas cidades do Nordeste do
                             Estado de So Paulo tiveram seus ncleos iniciais fundados no incio do
                             sculo XIX por populaes de Minas Gerais.  o caso de Ribeiro Preto
                             e Franca, alm de outras.
                                 No incio do sculo XIX, o caf foi se tornando o principal produto de
                             exportao brasileiro. Sua lavoura situava-se no vale do Paraba, entre a
                             serra do Mar e as Minas Gerais. A cultura cafeeira fortaleceu a regio cen-
                             tro-sul, pois estradas surgiram para o escoamento do produto para o litoral,
                             portos foram aparelhados e estradas de ferro construdas. A mo-de-obra
                             usada foi a escrava, mas com a abolio da escravatura, no final do scu-
                             lo, quem passou a trabalhar na agricultura cafeeira?
                                 As reas de repulso de populao nesse perodo compreendiam
                             parte de Minas Gerais, Bahia e demais estados que compem a re-
                             gio Nordeste. Com a expanso da cafeicultura para outras reas, o
                             caf foi criando condies para o deslocamento de populaes em
                             outras direes, como: sul de Mato Grosso e as frteis terras do Nor-
                             te do Paran.



                     ATIVIDADE

         E o algodo? Na segunda metade do sculo XVIII o cultivo do algodo tornou-se uma das mais im-
     portantes atividades econmicas da Regio Nordeste, competindo at com a cana-de-acar. Portugal
     exportava o algodo para a Inglaterra, grande produtora de tecidos. Essa atividade comeou a decair
     no incio do sculo XIX, quando os Estados Unidos entraram na concorrncia pela venda do produto. O
     que aconteceu com a populao do Nordeste que produzia o algodo?




                                  Outro fator que estimulou ainda mais as migraes internas no Bra-
                             sil, foi o avano das plantaes de caf, a construo de ferrovias e ro-
                             dovias que passaram a ligar diferentes lugares do interior, onde o caf
                             era produzido, ao litoral, de onde saa para o exterior.
                                  Na mesma poca da expanso da cafeicultura, segunda metade do
                             sculo XIX, uma outra atividade econmica, a extrao da borracha,
                             atraiu contingentes populacionais para a sua rea de ocorrncia  a
                             Amaznia. Uma grande seca no Nordeste, nesta poca, e uma imensa
                             rede fluvial de transporte tambm contriburam para o deslocamento

112 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                 Geografia

populacional para a Amaznia. O mundo consumia crescentes volu-
mes de derivados do ltex aps a aplicao industrial do processo de
vulcanizao, descoberto em 1848.
    Deve-se a esses deslocamentos de populaes do Nordeste para a
poro ocidental do Brasil a anexao do Acre ao territrio brasileiro,
pois antes, o que hoje  o Estado do Acre, pertencia  Bolvia. Na d-
cada de 1910, a regio entrou em decadncia em razo das plantations
asiticas, especialmente da Malsia, que superaram em larga escala a
produo brasileira de borracha.
    O que so plantations? Quais se desenvolveram no Brasil?

  ACrisedoCafeoInciodaIndustrializao:
  novasMigraes
    Em 1929, o caf passou por uma crise, reflexo da crise mundial
que atingiu o capitalismo em funo da superproduo da indstria de
bens de consumo. Com a decadncia do caf, em 1930, devido a que-
da do preo do produto no mercado internacional, a economia passa
novamente por um processo de transformao.
    Inicia-se ento a exportao de outros produtos da agricultura e da
pecuria, e algumas indstrias (de calados, roupas e alimentos) apre-
sentam um grande crescimento. O desenvolvimento industrial do pas
determinou tambm a existncia de fortes movimentos migratrios in-
ternos, sobretudo do Nordeste para o Rio de Janeiro e So Paulo, onde
este segmento da populao constituiu a base do operariado.
     a partir de 1950 que a indstria brasileira realmente se desenvol-
ve, provocando a vinda de grande parte da populao do espao ru-
ral para o espao urbano.
    Outra fase de deslocamento de populao para a Regio Norte ocor-
reu na poca da construo da rodovia Transamaznica (BR  230), e de
outras rodovias federais nessa regio, alm da atuao do Instituto Na-
cional de Colonizao e Reforma Agrria - INCRA - desde 1970.
    No perodo de 1956 a 1961, o fluxo continuava com a construo
de Braslia que absorveu grande parte de operrios (candangos) oriun-
dos do Nordeste e Minas Gerais e a construo da Rodovia Belm-Bra-
slia (BR  153). Estes foram fatores que estimularam o fluxo migrat-
rio interno para o Planalto Central. Calcula-se que cerca de 2,5 milhes
de pessoas se fixaram ao longo da rodovia Belm-Braslia.
    Muitas famlias, na sua maioria da regio Sul e muitas do Nordeste,
dada a dificuldade de obter ou mesmo comprar terras na regio de ori-
gem  especialmente no Paran e no Rio Grande do Sul  buscaram as
fronteira agrcolas da Amaznia, projeto este que fazia parte dos pro-
gramas de colonizao e ocupao da Amaznia, promovido pelo go-
verno nas dcadas de 1970 e 1980.


                                                                           ParaOndeVais? 113
       EnsinoMdio

                               Vamosrecapitular!
                                Organize, em seu caderno, uma tabela com os dados apresentados a
                             partir da leitura. Identifique as fases de desenvolvimento econmico
                             do pas e as de reas de atrao e de repulso da populao. Utilize
                             o modelo da tabela a seguir.

                                                                  Ttulo:

                                Ano/dcada            Fase econmica   rea de atrao   rea de repulso




                             Comentrio:




                                                              Muitas correntes migratrias continuam
     - Nessa situao, onde moraria o nosso               redefinindo a organizao espacial das socie-
     migrante?                                            dades atuais. O crescimento das cidades, a
     Analise a ilustrao.                 Charge 1       urbanizao, o xodo rural, os deslocamen-
                                                          tos entre cidades, o surgimento das metrpo-
                                                          les e o desenvolvimento econmico local ti-
                                                          veram contribuio das migraes.
                                                              O Sudeste  considerado a regio de maior
                                                          atrao populacional, principalmente as gran-
                                                          des cidades, que receberam e ainda recebem
                                                          grandes contingentes populacionais. Tal fato
                                                          tem agravado a situao das cidades, pois as
                                                          mesmas no possuem uma infra-estrutura urba-
                                                          na para atender a uma crescente populao.
                                                              Na esperana de encontrar trabalho nos
                                                          grandes centros urbanos da regio Sudeste, um
                                                          grande nmero de nordestinos tem se aventu-
                                                          rado numa viagem que, na maioria das vezes,
                                                          no tem retorno. Quando chegam ao destino,
                                                          os imigrantes encontram uma realidade bem
                                                          diferente da que esperavam: falta de emprego,
                                                          de moradia, violncia urbana, etc. A ausncia
                                                          de escolaridade e o despreparo para exercer
                                                          outras funes mais qualificadas s lhes ofere-
                                                          cem opo de sobrevivncia. O retorno ao lu-
                                                          gar de origem  muitas vezes impossvel por-
                                                          que lhes faltam condies para isso.


114 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                           Geografia

   Assim como na poca da Ditadura Militar a msica se fez presente
abordando atravs das composies o momento histrico vivido pelo
pas, os movimentos migratrios internos tambm so temas de mui-
tos compositores brasileiros. Vamos lembrar a msica "Peguei um ita
no Norte" de Dorival Caymmi. Esta letra foi escrita quando a migrao
era intensa no pas.
            Quadro 4
                             Peguei um ita no norte
                                       Dorival Caymmi

                              Peguei um Ita no norte
                              Pra vim pro Rio morar
                            Adeus meu pai, minha me
                              Adeus Belm do Par
                                       [...]

                                 Talvez eu fique por l
                                          [...]

                                        [...]
                             T h bem tempo no Rio
                              Nunca mais voltei por l
                             Pro ms "intera" dez anos
                              Adeus, Belm do Par

              Dorival Caymmi (1914- ), compositor, cantor e violonista brasileiro.
              Nasceu em Salvador, em 30 de abril de 1914. msico autodidata,
              comeou cantando e tocando na Rdio Clube Bahia, nos anos 1930.


    Quando essa msica foi escrita? Pesquise a que momento hist-
rico a letra se refere e elenque as razes que levavam  migrao
naquele perodo.
    Como voc pode perceber, so mltiplas as razes que fazem o bra-
sileiro migrar dentro do seu prprio pas, mas o xodo rural  o exem-
plo mais representativo dos fluxos migratrios campo-cidade no Brasil.
A sada do campo em direo s cidades tem representado para muitos
brasileiros a possibilidade de construir uma vida nova, com mais quali-
dade do que a vivida no campo. A maioria, ao chegar s cidades, perce-
be que seus desejos so apenas sonhos de difcil realizao.



                DEBATE

    Para voc,  a cidade que atrai o homem do campo ou o campo que o expulsa? Quem so os
 responsveis pela sada do homem do campo?



                                                                                     ParaOndeVais? 115
       EnsinoMdio


    Charge 2
                                                               Basta o governo investir na gerao
                                                           de empregos? Os trabalhadores neces-
                                                           sitam "tomar medidas" para garantir ou
                                                           conseguir seu emprego?
                                                               Liste em seu caderno e depois dis-
                                                           cuta com os seus colegas: Quais se-
                                                           riam as medidas que um empregado
                                                           deve tomar para garantir sua empre-
                                                           gabilidade? Que medidas cabem ao
                                                           governo para gerar mais empregos?
                                                               Embora os fluxos migratrios en-
                                                           tre as grandes regies brasileiras te-
                                                           nham grande importncia na dinmi-
                                                           ca da populao, recentemente surgiu
                                                           e vem ganhando fora processos mi-
                          gratrios localizados no interior de cada regio.  possvel identificar
                          novas caractersticas da migrao interna no pas, entre elas, o papel
                          dos movimentos intra-regionais na recuperao demogrfica de de-
                          terminadas reas marcadas no passado pela evaso populacional.
                              Os estados do Sudeste, que no passado recebiam muitos migran-
                          tes, em especial do Nordeste, hoje tambm mostram grande fluxo de
                          sadas para outras reas. As direes e sentidos dos fluxos migratrios
                          mostram uma configurao mais complexa desse fenmeno, que re-
                          quer novas interpretaes. A migrao, que no passado representou a
                          mobilidade social atravs dos projetos de ocupao e povoamento de
                          reas pouco exploradas e povoadas assentou uma parcela consider-
                          vel da populao brasileira.
                              Atualmente podemos perceber que essas reas que no passado
                          eram consideradas de atrao, depois de um certo tempo, podem se
                          transformar em reas de expulso, quando os fatores responsveis pe-
                          la produo de riqueza se esgotam. No auge do caf muitos migrantes
                          foram para So Paulo e Paran e em seguida, o declnio desta cultura,
                          expulsou-os para os estados do Norte e Centro-Oeste do Brasil. Pode-
                          mos concluir que atrao e repulso acontecem no mesmo local, tudo
                          vai depender do momento histrico e econmico do pas.




116 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                   Geografia



    O maior desafio hoje consiste em resolver os problemas das re-
as de repulso de populao, pois os homens sempre procuram se fi-
xar onde existem melhores condies de vida material e tambm so-
cial. Por isso a necessidade de se criar uma economia sem violentos
desequilbrios regionais, para que a populao possa se distribuir me-
lhor pelo espao.
    E voc, para onde vai?



  RefernciasBibliogrficas
   Enciclopdia Microsoft Encarta: Movimento militar de 1964. 2001.
   MDICI, M. de C.. Geografia: a populao mundial: cincias humanas e
   suas tecnologias. 1 ed. So Paulo: Nova Gerao, 2002.


  ObrasConsultadas
   BAENINGER, R. Tendncia das migraes internas no Brasil. In: Revista
   Cincia Hoje, Rio de Janeiro, Vol. 37, n 219, Set. 2005.
   DAMIANI, A. L. Populao e geografia. So Paulo: Contexto, 2004.
   GEORGE, Pierre. Geografia da populao. Col. "Saber Atual", n 1187, 3
   ed. So Paulo: Editora Difel, 1974.
   MARTINS, D.; VANALLI, S. Migrantes. 6 ed. So Paulo: Contexto, 2004.
   RUA, Joo et ali (Org). Para ensinar geografia. Rio de Janeiro: Editora
   Access, 1993.
   VELASCO e PONTES, V. Para onde vais? Revista INTERIOR, Ano VI, N
   30, pg.04-13, Jan/Fev. 1980.



  DocumentosconsultadosOnlInE
   http://my.opera.com/richardcooper/blog/show.dml/42474. Acesso em: 13
   out 2005.




                                                                             ParaOndeVais? 117
       EnsinoMdio




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                                                                             7
                                                        NADA A VER?
                                                        TUDO A VER!
                                                                        marcia Regina Garcia1


                                                              oc acredita existir alguma
                                                              relao, alguma forma de
                                                             identidade entre as aes
                                                          citadas na charge abaixo?
                                                        H alguma coisa em comum
                                                     nos conflitos citados? Que interes-
                                                  ses levam estas pessoas a brigarem, a
                                                fecharem fronteiras, a praticarem aten-
                                                tados  vida?




Colgio estadual Barbosa Ferraz - Andir - PR
1




                                                                     nadaaVer?TudoaVer! 119
        EnsinoMdio

                                         O espao geogrfico pode explicar.
                                         O que voc faria se invadissem sua casa? Ou, se fossem assistir, em sua
                                      casa, ao final de um campeonato, mas... torcendo para o outro time?
                                         Ento, vamos pensar! Se o espao geogrfico tem a ver com isso,
                                      quais seriam os conceitos da Geografia presentes a?
                                         Voc certamente j ouviu falar em territrio. Mas o que  territrio?

                                          "(...) extenso considervel de terra; torro. rea de um pas ou estado,
                                       ou provncia, ou cidade, etc. Base geogrfica do Estado, sobre a qual exer-
                                       ce ele sua soberania (...)" (FeRReIRA, 1986)
                                          "rea terrestre, seu espao areo e mares vizinhos, organizados em um
                                       Estado soberano." (GIOVANNeTTI; LACeRDA, 1996, p. 208)

                                          Durante muito tempo as definies apresentadas eram a nica for-
                                      ma de territrio reconhecida na sociedade civil, e ao falarmos ou ou-
                                      virmos tal palavra nos vinha ou ainda vem  mente sentimentos nacio-
                                      nalistas. Entretanto, nas ltimas dcadas, a situao comeou a mudar
                                      e surgiram discusses sobre a existncia de novas territorialidades.
                                          Atualmente, territrio tem sido definido como um espao estabele-
                                      cido e delimitado atravs de relaes de poder  poltico e/ou econ-
                                      mico  e estas relaes podem ou no estar associadas ao Estado. Es-
                                      te territrio pode ser contnuo ou descontnuo.
                                          Mas, o que  um territrio descontnuo?
    Quadro 1                              Ao longo de milhares de anos, os territrios foram estabelecidos e
                                      mantidos pela fora, pelas relaes de poder. Assim, no so e nunca
    milton Santos usa tais ex-
    presses para se referir a        foram eternos, mas mutveis, transformveis, readaptveis, moldveis,
    locais que acumulam den-          frgeis ou no. Por exemplo, lembra do Reino Unido de Portugal e Al-
    sidades tcnicas e informa-       garves? Este era o nome do Brasil, que na poca era territrio de Por-
    cionais, atraindo mais investi-   tugal, ou seja, fazia parte daquele Estado. Embora geograficamente dis-
    mentos (luminosos) ou onde        tantes, formavam um s reino - olha o territrio descontnuo a!
    estes esto ausentes (opa-            Hoje, a relao colonial entre pases no est mais institucionalizada,
    cos). uso-as para referir-me a    mas existem outras relaes que formam territrios descontnuos, so os
    territrios reconhecidos legal-   territrios-rede. Voc consegue imaginar isso? Consegue perceber estes
    mente (luminosos) e os no        territrios na realidade vivida? Assista aos telejornais e anote as notcias
    reconhecidos (opacos), mas
                                      que voc acha que se referem  idia de territrio descontnuo.
    no dando maior importncia
    a um que a outro.                     No momento vivenciado por ns, onde a velocidade das transfor-
    Veja mais sobre este assun-
                                      maes so intensas, temos diversos territrios em diferentes escalas
    to no Folhas "Dinheiro traz fe-   geogrficas. Do mundo at o bairro ou a casa, existem vrias escalas
    licidade?"                        de anlise do espao; este dimensionamento do grande para o peque-
                                      no, do macro para o micro  o que chamamos de escala geogrfica.
                                      Por exemplo, h territrios "opacos"  como os territrios dos bichei-
                                      ros, das prostitutas, dos narcotraficantes, das gangues, das minorias t-
                                      nicas  dentro de territrios "luminosos". Amplie a conversa lendo o
                                      quadro 1.

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                                                                                        Geografia

    Hoje se fala em territrios flexveis, cclicos, descontnuos, isto ,
territrios que podem mudar em curto, mdio ou longo prazo. Mas no
momento, estudaremos outros territrios, aqueles que envolvem dis-
puta entre diferentes grupos tnicos.



                ATIVIDADE

    Por que existem brigas entre grupos tnicos? O que representam estes grupos? Por que
 querem territrios?



    Alguns conflitos envolvem diferentes grupos tnicos dentro de um
mesmo Estado, pois h povos que formam uma nao sem Estado.
Ocupam um territrio, mantm suas caractersticas culturais (religio,
idioma e tradies), mas no possuem independncia, reconhecimento.
Voc j ouviu falar disso? Conhece algum exemplo?
    Entre os diversos conflitos tnicos que existem, o que ocorre na        O CASO DO
Irlanda do Norte e o que ocorre na Espanha e Frana (Pas Basco         TERRITRIO BASCO
mapa 1) sero tratados aqui. Voc pode pesquisar outros, diversos
deles so noticiados na TV todos os dias.
    A regio denominada "Pas Basco" (Euskadi, em vascono  idio-
ma local) abrange o Norte da Espanha e o Sudoeste da Frana. Do pri-
meiro pas, engloba as provncias de lava, Guipscoa e Biscaia e as
provncias autnomas de Navarra; do segundo, engloba as regies de
Sola, Lapurdi e Baixa Navarra.
    O povo basco est estabelecido, historicamente, neste mesmo ter-
ritrio h aproximadamente 5 mil anos, entretanto h indcios que re-
montam sua cultura  pr-histria europia. Resistiram s sucessivas
invases de romanos, visigodos, francos, mouros, dentre outros.
                                                                       Mapa 1 - Pas Basco
    A populao basca
sempre tentou manter
sua independncia eco-
nmica, poltica, social
e territorial. A partir do
sculo IX iniciou-se, na
Pennsula Ibrica, a for-
mao de vrios reinos
independentes, como Escala aprox. 1 : 58 700 000
Leo, Arago, Navarra e
Castela; ficando o povo
basco concentrado nes-
tes dois ltimos.


                                                                             nadaaVer?TudoaVer! 121
       EnsinoMdio

                              No sculo XVI, parte do Reino de Navarra foi anexado  Espanha e
                          parte  Frana, ficando o povo basco dividido entre esses dois pases.
                              Os bascos conservaram, desde a Idade Mdia, relativa autonomia admi-
                          nistrativa e comercial, embora tivessem que pagar tributos aos dominado-
                          res, sendo duramente reprimidos em muitos momentos de sua histria.
                              Em 1931, com a queda da monarquia espanhola, os bascos inicia-
                          ram nova tentativa de independncia. As divergncias polticas inter-
                          nas eram grandes e o descontentamento era geral. Nas eleies de
                          1936, republicanos, socialistas e comunistas se uniram na Frente Po-
                          pular, obtendo vitria. O governo, com maioria de esquerda, anistiou
                          presos polticos e fez uma reforma agrria; no entanto os conflitos de
                          rua continuavam (articulados pela direita). Num dos conflitos, um lder
                          de direita foi assassinado, abrindo caminho para a ao do exrcito do
                          general Francisco Franco, dando incio  Guerra Civil Espanhola (1936-
                          1939). Franco pediu apoio a Hitler para realizar um grande ataque sen-
                          do prontamente atendido, realizando muitos bombardeios em Madri.
                              Hitler viu nesse conflito uma forma de testar novas armas de guer-
                          ra e, juntamente com Franco, escolheu um local para um bombardeio
                          ininterrupto de sua fora area. A cidadezinha de Guernica foi escolhi-
                          da, pois era um alvo fcil, desarmado, onde havia um grande carvalho
                          embaixo do qual, desde a Idade Mdia, os reis espanhis juravam res-
                          peitar o conselho, as leis, os costumes dos bascos. Tambm era uma
                          demonstrao do que aconteceria com todos aqueles que sonhavam
                          com uma Espanha federalista. Aproximadamente 40% da populao
                          foi morta ou ferida. Tal acontecimento ficou imortalizado pelas mos
                          de Pablo Picasso - pintor e desenhista de origem espanhola.
                              A autonomia regional foi abolida na ditadura de Francisco Franco,
                          sendo reestabelecida parcialmente em 1979, com a assinatura do Tra-
                          tado do Estatuto de Autonomia de Guernica.
                              Os bascos resistiram  aculturao mantendo suas tradies e sua
                          lngua (euskera ou vascono), que no apresenta nenhuma semelhana
                          com as demais faladas no continente. Segundo os bascos, a fronteira de
                          seu pas (territrio)  ntida, sendo delimitada pela lngua, ou seja, come-
                          a onde se fala o vascono e termina onde este deixa de ser usado.
                              Na Frana, a populao basca  pequena, mas na Espanha, esta  vis-
                          ta como ameaa. Em alguns momentos viveram um massacre silencioso
                          e indireto, pois tiveram a proibio do ensino de seu idioma nas esco-
                          las, como tentativa de `matar' o elo cultural que une seu povo, no po-
                          dendo se manifestar poltica e culturalmente.

                            AlutapeloTerritrioBasco:OSurgimentodaETA
                              Nesse contexto surgiu, em 1959, a ETA (Euskadi Ta Askatasuna  P-
                          tria Basca e Liberdade), originado do conservador PNV (Partido Nacio-
                          nalista Basco, fundado em 1894), a partir da atividade de vrios grupos



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                                                                                        Geografia

culturais e polticos que atuavam na sociedade. A ETA  uma organiza-
o que objetiva conseguir a independncia do pas Basco, incorporan-
do a este todas as reas onde se fala o euskera, pois, conforme j citado,
 por meio do idioma que suas fronteiras so estabelecidas.
    Posteriormente, a ETA aderiu  luta armada, transformando-se em
grupo terrorista. A opinio popular ficou dividida, pois muitos so con-
tra a violncia como forma de conseguir a autonomia basca, porm ou-
tros defendem que a luta armada  a nica forma de consegui-la.
    A questo  ampla, envolvendo aspectos culturais, polticos e eco-
nmicos, pois o Pas Basco  uma das regies agrcolas mais desenvol-
vidas da Espanha, alm de possuir grande concentrao industrial (Bil-
bao, um centro siderrgico, e Guipscoa, com destaque desde o sculo
XVI na produo de armas). Ser que a questo econmica  uma das
razes da negao da independncia para a regio?

  AQuestoTerritorialnaIrlandadonorte
    O outro caso de conflito tnico que vamos tratar  o da Irlanda do
Norte (Ulster), onde o conflito tambm  latente, envolvendo questes
polticas e culturais, tendo como pano de fundo a divergncia entre ca-
tlicos e protestantes.
    Por que catlicos e protestantes no conseguem viver em harmonia
nos dias de hoje, quando em outros pases isso  possvel? Ser que  a
religiosidade a raiz do conflito, como a mdia procura demonstrar?
    Suas origens remontam ao sculo XII, quando a Irlanda passou a ser
dominada pela Inglaterra, perodo em que ainda no havia ocorrido a
fragmentao do cristianismo, intensificando-se com o surgimento do an-
glicanismo, no sculo XVI.
    A Irlanda  habitada desde 6.000 a.C. aproxima- Figura 1 - Irlanda e Reino Unido
damente. Primeiro a sociedade organizava-se em
cls, depois passou a organizar-se em pequenos es-
tados sob o governo de um rei e, posteriormente,
um rei supremo e eletivo. Do sculo IX ao sculo
XI, a ilha passou a ser atacada por incurses vikin-
gs, enfraquecendo o poder local.
    Em 1170 iniciou-se a invaso anglo-normanda,
com sucessivas batalhas, terminando com a assina-
tura, em 1175, do Tratado de Windsor, pelo qual a
Irlanda passou a ser um feudo da Inglaterra. Como
vassala, deveria pagar tributos, fornecer homens
ao exrcito e obedecer ao soberano ingls. Na dis-
tribuio dos feudos, o rei dava privilgio a nobres
ingleses, forando os irlandeses  servido.




                                                                             nadaaVer?TudoaVer! 123
       EnsinoMdio



                              No sculo XVII, intensificam-se as lutas pela posse da terra, por au-
                          tonomia poltica e divergncias religiosas, pois o anglicanismo j havia
                          sido declarado como religio oficial da Inglaterra e os irlandeses per-
                          sistiam no catolicismo. No aceitar a imposio religiosa era uma for-
                          ma de resistncia cultural.
                              Nesse contexto de intensas disputas, em 1641, os irlandeses (catli-
                          cos) atacaram os ingleses (protestantes), sendo violentamente reprimi-
                          dos por Cromwell, num longo massacre prolongado, pela resistncia,
                          at 1652, levando ao extermnio grande parte da populao irlandesa.
                          A maior parte das terras do pas foi distribuda entre soldados e finan-
                          ciadores do exrcito puritano. Muitos sobreviventes emigraram e ou-
                          tros foram escravizados.
                              Os conflitos e a opresso do dominador sobre o dominado persis-
                          tiram. No sculo XIX, o nacionalismo irlands ganhou nova forma ao
                          assumir um aspecto mais cultural e econmico, iniciado com a tentati-
                          va de reviver seu idioma, o galico, nas escolas, pela organizao co-
                          operativista na agricultura e a tentativa de industrializao. Muitos fo-
                          ram os levantes pela independncia.


                            AlutaArmadapelaPossedoTerritrio
                             Como tentativa de eliminar o poder ingls e conquistar a indepen-
                          dncia, surgiu, em 1919, o IRA - Exrcito Republicano Irlands.
                             A Irlanda tornou-se Estado independente em 1921, em meio a for-
                          tes conflitos e movimentos sociais, entretanto a Inglaterra manteve
                          sob seu poder o norte (Ulster). A independncia s foi reconhecida
                          aps a Segunda Guerra Mundial, passando a denominar-se Eire, mas
                          uma poro norte ainda permaneceu junto ao Reino Unido  Irlan-
                          da do Norte.
                             Os irlandeses nunca aceitaram a separao, pois ainda desejam ter
                          todos os irlandeses unidos num mesmo Estado-nao. Nesse contexto,
                          o IRA atuou reivindicando a unificao do pas, alternando momentos
                          de reivindicao pacfica da populao com atentados terroristas.
                             O Ulster  uma regio de solo frtil, que concentra um grande par-
                          que industrial, destacando-se a indstria txtil, automotiva, construo
                          naval, aviao, eletroeletrnicos e muitas indstrias de bens de consu-
                          mo no-durveis, alm de petrleo.
                             A minoria catlica (42%) deseja a unificao com a Irlanda, fato que
                           contestado pela maioria protestante (58%), que controla o governo
                          e ocupa os melhores postos de trabalho, desejando a permanncia da
                          unificao com o Reino Unido.




124 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                          Geografia



                PESQUISA

     Aprofunde seu conhecimento sobre o assunto e procure chegar a uma concluso sobre este
 complexo e antigo conflito. Ele  motivado pela intolerncia religiosa ou deveria ter outra conotao?
 Existem outros motivadores?



  AQuestoTerritorialdosCurdos
    Outro caso de conflitos tnicos territoriais , por exemplo, o dos
curdos no Oriente Mdio, que formam uma grande nao a lutar pela
independncia e reconhecimento de seu territrio, o Curdisto.
    Os curdos so descendentes de pastores e vivem h milhares de
anos nas montanhas da sia Central, fato que permitiu a manuteno
de sua cultura, apesar do contato com outros povos.
    No passado foram dominados por romanos, persas e otomanos.
Muitos se refugiavam nas reas montanhosas.
    A dominao motivou a unio dos curdos, a fim de expulsar os in-
vasores de suas terras, reivindicando um Estado baseado na lngua e
nas tradies curdas.
                                             Mapa 2 - rea geogrfica-cultural do Curdisto
    Com o fim da Primeira Guerra Mundial,
acreditaram na possibilidade da criao do
Curdisto, pois o Imprio Otomano havia
sido derrotado. Tal ao foi mencionada
no Tratado de Svres, de 1921. Entretan-
to, a Turquia foi contra, pois na rea foram
descobertas jazidas de petrleo e existia o
medo da propagao da revoluo Russa.
A Inglaterra optou por dividir o Curdisto
entre Turquia, Sria e Iraque.
    Os anos que se seguiram foram de dura
represso, principalmente na Turquia, onde
o idioma curdo chegou a ser proibido.
                                                                                 Escala aprox. 1 : 18 500 000




                PESQUISA

     Faa uma pesquisa sobre os recursos minerais existentes na regio pretendida pelos Curdos e
 discuta com colegas e professor os possveis interesses que inviabilizam sua independncia.




                                                                                nadaaVer?TudoaVer! 125
       EnsinoMdio

                               Aps a Segunda Guerra Mundial, a Unio das Repblicas Socialis-
                           tas Soviticas (URSS) apoiou a independncia dos curdos (Repblica
                           de Mahabad), mas a influncia dos Estados Unidos da Amrica levou
                           outros pases da regio a demonstrar rivalidade para com a URSS, que
                           decidiu pela retirada do apoio.
                               No perodo de 1980/1988, durante a guerra Ir X Iraque, os curdos
                           se viram no meio do conflito, devido  sua localizao. Aproveitan-
                           do a ocasio, a Turquia intensificou os ataques aos curdos, pois era a
                           chance de eliminar um povo indesejado. Aps o fim da guerra, os mas-
                           sacres passaram a ser praticados por parte do governo Iraquiano, de-
                           sencadeando um grande movimento migratrio para vrios pases da
                           regio, nos quais, muitas vezes, no foram aceitos.
                               Voc j ouviu falar da Chechnia?  outro conflito de origem tnica
                           e territorial. Na Rssia, os habitantes da Chechnia lutam por sua inde-
                           pendncia, adotando prticas consideradas, por alguns, como atos ter-
                           roristas, destacando-se o atentado ao teatro em Moscou, em outubro
                           de 2002, e  escola em Beslan, em setembro de 2004.



                     ATIVIDADE

         Voc concorda com a frase; "O fim justifica os meios"? Qual a sua opinio sobre atentados
     terroristas? Por que tais pases no concedem a independncia desses povos, j que esta  to
     desejada? Aprofunde suas pesquisas sobre cada um dos casos citados e veja se existe algo em
     comum entre eles.




                               Existem inmeros conflitos tnicos espalhados pelos continentes,
                           com maior ou menor intensidade, indo desde a segregao em guetos
                           ou bairros at ao extermnio (ou tentativa) de parte da populao. Al-
                           guns desses conflitos so ignorados pela mdia, como o caso dos ame-
                           rndios do Brasil, dos Estados Unidos e dos aborgenes da Austrlia, que
                           por sculos esto sendo atacados em nome do progresso, da evoluo,
                           sempre tratados como inferiores. Outros recebem mais ou menos impor-
                           tncia nos sistemas de telecomunicaes globais, dependendo de inte-
                           resses em divulgar ou no tais massacres. Podemos nos lembrar do caso
                           dos Bantos, perseguidos por Tutsis, no Burundi; na Nigria, com a pro-
                           clamao da Repblica de Biafra, pelos Ibos que provocaram uma car-
                           nificina deste povo pelo governo da Nigria; na Repblica Srvia e Mon-
                           tenegrina; na Somlia; na Palestina...
                               Neste contexto, onde se encontra a Organizao das Naes Unidas
                           (ONU)? E a Declarao dos Direitos Humanos?



126 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                 Geografia



                PESQUISA

    As diferenas tnicas podem levar a questes geopolticas srias ou isso  uma questo de menor
 importncia?
     Pesquise os motivos que levaram  Primeira Guerra Mundial.




                ATIVIDADE

    Voc sabe quando a ONU foi criada e qual a sua funo? Como o nvel de atuao dos pases-membros
 encontra-se estabelecido? J leu a Declarao dos Direitos Humanos? Faa uma pesquisa para um debate,
 em sala, com colegas e professores, no esquecendo de contextualizar a situao mundial atual.




   Nos ltimos anos, os habitantes dos `pases do sul' (pobres) passa-
ram a ser barrados nos `pases do norte' (ricos). Os imigrantes so ex-
plorados, hostilizados e menosprezados. Desenvolveu-se certa averso
ao estrangeiro pobre, uma xenofobia que, em alguns casos, chega ao
extremo. Ressurgiram grupos neonazistas atuando em diferentes pa-
ses, inclusive no Brasil.
   Os imigrantes so acusados de causar o aumento do desemprego,
forar a baixa dos salrios (pois a necessidade os faz aceitar qualquer
valor pelo seu trabalho), aumentarem os gastos com previdncia, con-
taminar as culturas, dentre outros. O `Norte' rico fecha suas fronteiras
para o `Sul' pobre, esquecendo-se que no passado o movimento mi-
gratrio foi inverso. O `outro' passou a ser visto como uma ameaa por
partidos polticos de extrema direita. Este `outro' quase sempre  o tra-
balhador latino-americano ou africano.




                PESQUISA

   Verifique se um europeu (ingls, francs...) e um sul-americano (brasileiro, boliviano...) enfrentam a
 mesma burocracia para entrar legalmente nos EUA.
     Pesquise os pases preferidos para migraes em busca de trabalho e localize-os num mapa-mundi,
 estabelecendo origem e destino.




                                                                                 nadaaVer?TudoaVer! 127
       EnsinoMdio

                                  A migrao de trabalhadores no  um evento novo, mas a globa-
                              lizao tem intensificado tal processo. (Amplie seu conhecimento veja
                              o Folhas "Para onde vais?").
                                  Neste contexto de conflitos, com diferentes nveis de intensida-
                              de, surgem novos conceitos, como o de desterritorialidade, entendi-
                              do como a "perda do territrio apropriado e vivido em razo de di-
                              ferentes processos derivados de contradies capazes de desfazerem
                              o territrio" (CORReA, 1998, p. 252). A partir da perda do territrio, os des-
                              territorializados procuram criar novas territorialidades ou reterritoria-
                              lidades, "seja atravs da reconstruo parcial, in situ, de velhos terri-
                              trios, seja por meio da recriao parcial, em outros lugares, de um
                              territrio novo que contm, entretanto, parcela das caractersticas do
                              velho territrio (...)" (CORReA, 1998, p.252).
                                  Em meio a tantos conflitos, existe hoje um grande nmero de
                              desterritorializados vivendo em campos de refugiados em vrios pases,
                              ou imigrantes clandestinos. Entretanto, essa desterritorializao no
                              deve ser vista apenas pela perda fsica do territrio, pois o conceito
                              vai alm. H a desterritorializao cultural, comum aos migrantes,
                              que chegam ao local de destino e logo procuram recriar neste um
                              novo territrio, com parcelas do velho territrio, como forma de
                              identificao simblica com a regio de origem.



                     ATIVIDADE

          Voc conhece algum que tenha passado por este processo de desterritorializao e reterritorializa-
     o? De onde essa pessoa veio? Quais dificuldades enfrentou? Voc pode conversar com ela e pergun-
     tar, que tal?


                                   o caso dos gachos que vo para o Nordeste e Centro-Oeste. No
                              novo territrio, sul-rio-grandenses, catarinenses, paranaenses e pau-
                              listas perdem sua naturalidade, pois a populao local identifica-os
                              homogeneamente como "gachos". Todos so considerados gachos,
                              pois so oriundos do "sul".
                                  No novo territrio, as pessoas procuram recriar seus vnculos e
                              estes so estabelecidos, principalmente, com `os de fora'. Percebe-se
                              uma `rede de solidariedade', onde ocorrem reunies de grupos `foras-
                              teiros' para almoos, jantares e pescarias em fins de semana, dos quais
                              participam inclusive os recm chegados, como uma forma de incluso.
                              A identidade se d pelo no pertencimento ao local. Pessoas que nun-
                              ca se viram, que eram estranhas, tornam-se `solidrias'. Os laos se for-
                              mam majoritariamente com os `estranhos do sul', e no com os `estra-
                              nhos da terra'.

128 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                        Geografia

    O sentimento de "ser de fora" cria laos de solidariedade, amiza-
de, identificao, fazendo ressurgir o sentimento de pertencimento em
meio ao elo perdido. Conforme destaca Andrade (1998, p.214), "(...) a for-
mao de um territrio d s pessoas que nele habitam a conscincia
de sua participao, provocando o sentimento da territorialidade que,
de forma subjetiva, cria uma conscincia de confraternizao entre as
mesmas(...)".
    Assim tambm procederam os inmeros nordestinos ao chegarem
no sudeste, principalmente em So Paulo, foco de sua concentrao;
os imigrantes italianos, japoneses, libaneses, ucranianos, alemes e tan-
tos outros, que procuraram recriar seu territrio (ou parte dele) como
forma de identificar-se no novo territrio que os `acolhe', mesmo que
para os do local isso parea invaso. Reterritoriarizaram-se atravs da
arquitetura, da culinria e demais aspectos culturais, procurando criar
um espao de referncia identitria, relembrando com certo saudosis-
mo o local deixado para trs, como os alemes de Witmarsum, os ucra-
nianos de Prudentpolis e tantos outros.
    Assim tambm procedem atualmente os brasileiros que vo para os
EUA, pases europeus, Japo e outros, onde brasileiros encontram-se
em restaurantes que servem comida tpica, lojas que vendem produtos
consumidos habitualmente por ns, centros de diverso que funcio-
nam como ponto de encontro, realizam festas tradicionais como car-
naval, tudo na tentativa, mesmo que inconsciente, de manuteno da
identidade.
    Segundo Paul Claval,
       "(...) como fundamento das identidades, a cultura rene os homens ou os se-
       para. Quando as pessoas aderem s mesmas crenas, dividem os mesmos va-
       lores e associam suas existncias a objetivos prximos, nada se ope a que
       eles se comuniquem livremente entre si. Mas, desde que saiam do grupo no
       qual se sentem solidrios, suas atitudes mudam: a desconfiana se instala,
       as trocas se tornam uma fonte de ameaas, na medida em que elas podem
       questionar a estrutura sob a qual foram construdas a personalidade dos in-
       divduos e a identidade dos grupos (...). (CLAVAL, 1997, p.105).




                  ATIVIDADE

     Aps esta exposio de idias, que no tem como objetivo esgotar o assunto, tamanha sua abrangncia
 e complexidade, volte  questo inicial: briga entre torcidas de futebol, fechamento de fronteiras para imigran-
 tes e aes de grupos terroristas como o ETA e o IRA tem tudo a ver? Ou nada a ver? O que voc acha?




                                                                                        nadaaVer?TudoaVer! 129
       EnsinoMdio

                            RefernciasBibliogrficas
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                             SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. O Brasil: territrio e sociedade no incio do
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                            ObrasConsultadas
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130 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
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                                                                               nadaaVer?TudoaVer! 131
       EnsinoMdio




132 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                           Geografia




                                                                                                     8
                                            PASSA POR SUA CABEA
                                               TER MUITOS FILHOS?
                                                                                           Roselia maria Soares Loch1


                                                                                    or que uma deciso to
                                                                                     especial como esta pode
                                                                                    acarretar, no futuro prxi-
                                                                                  mo, importantes mudanas
                                                                            na estrutura de uma populao?
                                                                             Por que atualmente as mulheres
                                                                             tm menos filhos em relao s
                                                                      geraes passadas? Ser que esta redu-
                                                                      o no nmero de filhos por mulher
                                                                      atinge a populao de todas as regies
                                                                      no mundo? Em que momento da histria
                                                                      mundial da populao a fecundidade*
                                                                      tornou-se elemento responsvel por um
                                                                      novo padro demogrfico?




Instituto de educao do Paran Prof. erasmo Piloto - Curitiba - PR
1




                                                                              PassaPorSuaCabeaTerMuitosFilhos? 133
       EnsinoMdio




         Quadro 1                        Para responder estas questes e outras relacionadas ao crescimen-
                                    to da populao, precisamos ir alm dos nmeros e das estatsticas. A
    *Fecundidade: A fecun-          populao no  algo que fique reduzida apenas a nmeros.  preci-
    didade  entendida como
                                    so considerar as classes sociais que a compem, seus conflitos e suas
    o nmero mdio de filhos
                                    relaes sociais, seu modo de vida e seu tipo de produo econmica.
    que uma mulher teria ao
    longo de seu perodo re-
                                    De acordo com as condies e as possibilidades de vida de cada pas,
    produtivo (15 a 44 anos,        cada nascimento assume um significado particular.
    ou 15 a 49 anos, ou ain-             Antes de entrarmos no contexto da populao brasileira,  neces-
    da 20 a 44 anos, segun-         srio refletirmos sobre o contexto internacional organizado a partir do
    do as autoridades de diver-     capital, ou do sistema capitalista. O nosso referencial  a Revoluo
    sos pases). Do ponto de        Industrial, que foi um fenmeno muito mais amplo que o crescimento
    vista demogrfico, a anlise    da atividade fabril. Toda a sociedade foi atingida havendo, a partir da-
    da fecundidade tenta medir      quele momento, profunda transformao institucional, cultural, polti-
    em que grau e como vo          ca e social. (Veja o Folhas "A indstria j era?").
    ocorrendo os nascimentos.
    A importncia est no fato           Durante as primeiras fases da histria, a populao obedecia s leis
    de que estes vo determi-       gerais da natureza. O crescimento demogrfico estava intimamente re-
    nando, conjuntamente com        lacionado ao aumento do territrio, dos alimentos e recursos dispon-
    a mortalidade e as migra-       veis, bem como s formas de organizao social e o domnio tcnico
    es, o crescimento e a es-     que funcionavam com extrema eficcia como fatores limitadores des-
    trutura da populao. Tam-      te crescimento.
    bm, o nmero de filhos              A partir do sculo XVIII, certo nmero de pases sofreu uma profun-
    que as mulheres tm es-         da transformao que alterou, significativamente, a vida da sociedade.
    t estreitamente relaciona-
                                    Estas transformaes foram desencadeadas pela chamada Revoluo In-
    do com aspectos tais como
                                    dustrial. Progressos tcnicos na agricultura e na indstria emergente, au-
    a variao da idade de ca-
                                    mento da rede de transporte e outras transformaes no espao geo-
    samento, que, por sua vez,
    sofre influncia de fatores     grfico, sobretudo nas cidades, modificaram substancialmente a vida do
    culturais (religiosos), eco-    homem no ocidente. Lembremos que as cidades neste perodo tinham
    nmicos (como crise eco-        pssimas condies sanitrias, no dispunham de rede de gua ou es-
    nmica e atraso da idade        gotos nem mesmo nos bairros habitados pela burguesia. Aos poucos, a
    de matrimnio), e polticos     melhoria nas condies sanitrias e o conhecimento de antibiticos e va-
    (como a poltica demogr-       cinas proporcionaram a reduo das taxas de mortalidade.
    fica da China, que penali-           Inicialmente homens, mulheres e crianas, trabalhavam nas inds-
    zava casais com mais de         trias, os primeiros fazendo jornadas que chegavam a 80 horas sema-
    um filho).                      nais ou seja, mais de 11 horas dirias, sem descanso. Mais tarde, de-
     Fonte: Atlas Socioeconmico
     do Rio Grande do Sul.          vido  organizao dos trabalhadores em associaes e depois em
     Disponivel em http://www.      sindicatos, houve regulamentao da jornada de trabalho, alm de ou-
     scp.rs.gov.br /ATLAS /atlas.   tras polticas trabalhistas que foram, aos poucos, determinando melho-
     asp?menu=302
                                    res condies de vida, bem como proibindo o trabalho infantil. Apesar
                                    da proibio, ainda ocorrem prticas de explorao do trabalho infan-
                                    til como as existentes na carvoarias em Minas Gerais.




134 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                    Geografia




    A indstria, desde sua fase inicial de expanso, em alguns pases da
Europa, necessitava de trabalhadores e de consumidores para os seus
produtos. Muitas pessoas atradas pelas novas perspectivas de traba-
lho e pelos benefcios encontrados nas cidades, saram do meio rural e
se dirigiram s zonas urbanas, engrossando a populao das cidades e
reduzindo o nmero de habitantes do campo. As transformaes tam-
bm foram para o meio rural, aonde chegaram novas tecnologias pa-
ra a produo agrcola. Isto favoreceu a liberao de trabalhadores ru-
rais, que se dirigiram s cidades para ocupar novos postos de trabalho
nas atividades urbanas.
    Os primeiros pases que se industrializaram foram tambm os primei-
ros que se urbanizaram. Parte deles tornou-se, mais tarde, integrante do
grupo dos pases desenvolvidos, graas ao processo histrico que lhes
possibilitou excelente nvel de crescimento econmico e social.
    Com o decorrer da Revoluo Industrial na Europa, e com os avanos
dela advindos, aconteceu o que muitos denominam de exploso demo-
grfica, ou seja, ocorreu um elevado crescimento natural ou vegetativo
(CV) resultado da diferena entre o nmero de nascimentos e mortes.
    Para se ter uma idia, foram necessrios milnios para que o contin-
gente populacional mundial atingisse a marca de 1 bilho de habitantes,
o que ocorreu por volta de 1850. Este crescimento estava condiciona-
do a fatores limitantes, tais como a fome, as doenas (peste) e a guerra.
O ndice de crescimento da populao mundial, entre 1650 e 1750, foi
de 0,3% por ano e, entre 1750 e 1850, de 0,5%. A partir de 1850 houve
crescimento da populao, em torno de 2% a 2,5% ao ano.
    Ocorreu uma acentuada diminuio nas taxas de mortalidade, pro-
vocando assim a exploso demogrfica. Para muitos, esse crescimento
populacional representava uma conquista do homem que, ao se adap-
tar melhor  vida no planeta, conseguia viver cada vez mais. Para ou-
tros, o crescimento populacional era motivo de preocupao e deveria
ser combatido, pois anunciava grandes problemas futuros.
    Quando a exploso demogrfica ainda se anunciava, o pastor,
economista e demgrafo ingls Thomas Robert Malthus (1766 - 1834),
em sua obra "Ensaio sobre a populao", considerava que o cresci-
mento populacional era tido como uma das principais limitaes ao
progresso da sociedade. Segundo ele, o crescimento ilimitado da po-
pulao no se ajustava  capacidade limitada dos recursos naturais
existentes no planeta.




                                                           PassaPorSuaCabeaTerMuitosFilhos? 135
       EnsinoMdio


                                Malthus afirmava que a populao, quando no controlada, cresce
                             numa progresso geomtrica  PG; enquanto que os meios de subsis-
                             tncia crescem numa progresso aritmtica  PA. A soluo apontada
                             por ele era a sujeio moral, isto , o homem no deve se casar en-
                             quanto no tiver recursos suficientes para sustentar a famlia. Conside-
                             rava esta idia como melhor argumento para se reduzir  natalidade,
                             alm disso, condenava as prticas de anticoncepo.




                     PESQUISA

         Quais eram as conseqncias do crescimento populacional apontadas na teoria de Malthus? Ele te-
     ve razo? Deram crditos s suas idias na poca? Faa uma pesquisa sobre isso.




                                 Ao lanar suas idias, Malthus propunha ao poder pblico criar me-
                             didas para controlar o crescimento da populao. Ele tambm era con-
                             trrio  Lei dos Pobres, que existia na Inglaterra, que obrigava o Estado
                             prover as necessidades humanas vitais aos menos favorecidos. Essa lei,
                             para ele, estimulava o crescimento populacional descontrolado, pois
                             amparava justamente aqueles que mais procriavam e menos tinham
                             condies de sustentar os filhos que colocavam no mundo.
                                 Malthus acreditava tambm que a reduo da jornada de traba-
                             lho e o aumento de "salrio alm do nvel de subsistncia incentiva-
                             ria o cio e o desperdcio e seria gasto em bebedeira e esbanjamento."
                             (ALVeS e CORReA, 2003)
                                Voc concorda que ter momentos para o lazer e um salrio que
                             permita alguns gastos extras leve ao cio e ao vcio?




                     ATIVIDADE

         Ser que essa Lei dos Pobres tem alguma semelhana com os programas implantados no Brasil,
     como: Bolsa-Escola, Vale-Gs, Bolsa-Alimentao, Carto-Alimentao, Vale-Leite? Esses programas
     incentivam mesmo a natalidade entre os pobres? E voc, o que pensa desses programas?




136 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                          Geografia



  TransioDemogrfica
    O conceito de transio demogrfica foi usado pela primeira vez
por Warren Thompson no ano 1929. Foi elaborada a partir da interpre-
tao das transformaes demogrficas sofridas pelos pases que par-
ticiparam da Revoluo Industrial nos sculos XVIII e XIX, at os dias
atuais. A partir da anlise destas mudanas demogrficas foi estabele-
cido um padro que, segundo alguns demgrafos, pode ser aplicado
aos demais pases do mundo, embora em momentos histricos e con-
textos econmicos diferentes.
    O grfico "Fases da Transio Demogrfica" demonstra as fases
desta teoria.

                                 Fases da Transio Demogrfica
                        4
            Taxas (%)




                        3
                            pr-transio




                        2
                        1                                             Natalidade
                                                                      Mortalidade
                                            1a   2a         3a
                        0
                                                                 Tempo
                                                       Fonte: organizado pela autora.
    A Primeira Fase (Pr-industrial)  marcada pelo equilbrio demo-
grfico e por baixos ndices de crescimento vegetativo, apoiados em
elevadas taxas de natalidade e de mortalidade. Nascem muitos, mas
tambm morrem muitos. A mortalidade elevada era decorrente princi-
palmente das precrias condies higinico-sanitrias, das epidemias,
das guerras, da fome, etc.
    Na Segunda Fase (transicional), temos as seguintes modificaes:
num primeiro momento, a reduo da mortalidade devido ao controle
de epidemias e aos avanos mdicos (decorrentes da Revoluo Indus-
trial), porm a natalidade ainda se mantm elevada, ocasionando um
grande crescimento populacional; depois, a natalidade comea a cair,
reduzindo-se ento o crescimento populacional.
    E por fim, na Terceira Fase (evoluda), a transio demogrfica se
completa com a retomada do equilbrio demogrfico, agora apoiado
em baixas taxas de natalidade e de mortalidade. Atualmente esto nes-
sa fase os pases desenvolvidos, a maior parte apresenta taxas de cres-
cimento inferiores a 1% e at negativas. Nesses pases o crescimento
vegetativo se encontra estagnado.




                                                                                 PassaPorSuaCabeaTerMuitosFilhos? 137
       EnsinoMdio

                              Esta idia se opunha s teorias Malthusianas, e mais tarde a Ne-
                          omalthusianas, pois defendiam que o crescimento populacional ten-
                          deria a um equilbrio "natural" que acontecia ao longo das fases de
                          transio demogrficas. Mas tambm receberam crticas pois coloca a
                          histria como responsvel por resolver o problema do elevado cresci-
                          mento, pois seria "natural" as trs fases, chegando a uma situao de
                          equilbrio populacional.
                              Voc acredita que toda populao passe pelas 3 fases demogrficas
                          apresentadas por esta teoria? Justifique sua resposta.
                              A Segunda acelerao do crescimento populacional ocorreu a partir
                          de 1950, posterior  Segunda Guerra Mundial, particularmente nos pa-
                          ses subdesenvolvidos ou pases pobres. Esse perodo foi marcado pelo
                          surgimento de novos pases independentes, africanos e asiticos e por
                          grandes conquistas na rea da sade, como a produo de antibiticos
                          e de vacinas contra uma srie de doenas. Tais conquistas se difundi-
                          ram pelos pases subdesenvolvidos graas  atuao de entidades inter-
                          nacionais de ajuda e cooperao, como a Organizao Mundial da Sa-
                          de (OMS) e a Cruz Vermelha Internacional. Alm disso, com o processo
                          de expanso de empresas multinacionais grandes laboratrios farmacu-
                          ticos se instalaram nos pases subdesenvolvidos que se industrializavam.
                          Alguns remdios se tornaram, aos poucos, mais acessveis e baratos. Leia
                          mais no quadro: Voc j comeu sua vacina hoje?

                                Quadro 2
                                                            J comeu sua vacina hoje?
                               Mesmo aps dcadas e milhares de campanhas de vacinao, mais de
                           30% das crianas de todo o mundo no tm acesso s vacinas mais impor-
                           tantes: contra difteria, tuberculose, ttano e poliomielite.
                                No incio da dcada de 1990, Charles Arntzen, do Texas A&M Universi-
                           ty, imaginou uma forma de resolver estes problemas de uma maneira muito
                           barata e eficaz: preparar alimentos geneticamente modificados, capazes de
                           produzir vacinas. Bananas, batatas ou tomates que, ao serem consumidos,
                           estariam provindo o organismo com as inoculaes necessrias. Os resulta-
                           dos dos testes parecem deixar claro que as vacinas comestveis so, de fato,
                           eficazes. Entretanto, vrias questes ainda devem ser respondidas, e vrios
                           problemas precisam ser resolvidos, antes da liberao em massa destas va-
                           cinas. Entre os obstculos est que a batata deve ser consumida crua.
                                Esta ser a vacina do futuro?
                              Tem muito mais para saber sobre este assunto. Que tal fazer uma
                           pesquisa?
                            Fonte: Revista eletrnica do Departamento de qumica  uFSC: Ano 4, disponvel em www. qmc.ufsc.br/
                            qmcweb/artigos/vacinas/index.html.




138 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                    Geografia

    Esse processo denominado revoluo mdico-sanitria incluiu tam-
bm a ampliao dos servios mdicos, as campanhas de vacinao, a
implantao de postos de sade pblica em zonas urbanas e rurais e a
ampliao das condies de higiene social. Todos esses fatores permi-
tiram uma acentuada reduo nas taxas de mortalidade, principalmen-
te a infantil, que at ento eram muito elevadas nos pases subdesen-
volvidos. A diminuio da mortalidade e a manuteno das altas taxas
de natalidade resultaram num grande crescimento populacional, que
atingiu seu apogeu na dcada de 1960 no Brasil.
    Com a nova acelerao populacional, voltaram a surgir estudos ba-
seados nas idias de Malthus, dando origem a um conjunto de teorias e
propostas denominadas Neomalthusianas. Novamente, os tericos pro-
pem o controle de natalidade e explicam que o subdesenvolvimen-
to e a pobreza agravam-se pelo crescimento populacional, que provo-
ca a elevao dos gastos governamentais com os servios de educao
e sade. Gastos sociais comprometeriam a realizao de investimentos
nos setores produtivos e dificultariam o desenvolvimento econmico.
Para os Neomalthusianos, uma populao numerosa seria um obstcu-
lo ao desenvolvimento e levaria ao esgotamento dos recursos naturais,
ao desemprego e  pobreza. Enfim, ao caos social.
    Desse raciocnio, a desordem social poderia levar os pases subde-
senvolvidos a se alinhar com os pases socialistas, que se expandiam
naquele momento (ps-guerra). Para evitar o risco, propunham a ado-
o de polticas de controle de natalidade, que se popularizaram com
a denominao de planejamento familiar.
    O planejamento familiar  feito por entidades privadas e pblicas,
que se associam  indstria farmacutica e  classe mdica e recebem
apoio dos meios de comunicao. O controle populacional  realizado
de vrias maneiras, indo da distribuio gratuita de anticoncepcionais
(plulas e preservativos) at a esterilizao (ligao das trompas e va-
sectomia) em massa de populaes pobres (ndia, Colmbia e Brasil).
    A exemplo do que ocorreu com a teoria de Malthus (Malthusiana),
a teoria Neomalthusiana foi e tem sido muito questionada, especial-
mente pelos que acreditam que as mazelas sociais existentes nos pa-
ses subdesenvolvidos tm razes bem mais profundas que as geradas
pelo crescimento demogrfico acelerado. Entre os que questionam, es-
to os adeptos da escola reformista. H os que defendem a idia de
que os miserveis no so responsveis por sua misria e, tampouco,
pelo fato de terem muitos filhos. Para eles, a origem da misria nos
pases subdesenvolvidos tem razes histricas, como ausncia de uma
poltica scio-econmica que permita a melhoria do padro de vida da
populao mais pobre.




                                                           PassaPorSuaCabeaTerMuitosFilhos? 139
       EnsinoMdio


                              Estas crticas tm suas razes na teoria Marxista (Marx, 1818-1883)
                          que considera que as causas da fome, da misria , da pobreza estavam
                          associadas com o modo de produo capitalista e no simplesmen-
                          te com o crescimento da populao. Existem causas mais complexas
                          para a misria da populao que ultrapassam o desejo pessoal de ter
                          muitos filhos. Que tal apontar algumas delas?
                              A polmica, no entanto entre os Neomalthusianos e os reformistas
                          ganham outros contornos nos dias atuais, pois est ocorrendo um fato
                          que no estava previsto nas duas anlises: h uma diminuio nas ta-
                          xas de crescimento da populao mundial, provocada por um expres-
                          sivo declnio da natalidade.
                              Para ampliar o debate sobre o declnio da natalidade leia e respon-
                          da as questes relacionadas ao texto "Frana incentiva casais a terem
                          o terceiro filho".



                                Quadro 3
                                             Frana incentiva casais a terem o terceiro filho
                                Frana anuncia que vai oferecer incentivos financeiros aos casais que ti-
                           verem um terceiro filho, numa tentativa de aumentar o ndice de fertilidade das
                           francesas. A partir de julho de 2006, os pais que tiverem um terceiro filho tero
                           direito a um ano de licena trabalhista recebendo 750 euros por ms. O obje-
                           tivo desta oferta ser de dar um incentivo aos casais franceses e permitindo a
                           eles uma melhor conciliao dos ritmos profissionais e familiares.
                               O ndice de fertilidade na Frana, uma mdia de 1,9 filho por mulher,  o
                           segundo mais alto da Europa, depois da Irlanda, que se aproxima dos 2. Mas
                           ainda est abaixo dos 2,07 necessrios para evitar um declnio populacional.
                           A mdia da Unio Europia  por volta de 1,5, sendo que em alguns pases
                           ela  de menos de 1,3, como Grcia, Espanha e Itlia.
                                Especialistas advertem que o declnio do ndice de fertilidade pode levar,
                           caso no haja imigrao ou medidas para encorajar que casais tenham filhos,
                           a paralisia econmica e a um aumento brutal das contribuies previdenci-
                           rias, j que haveria um grande aumento no nmero de aposentados com uma
                           diminuio no nmero de jovens contribuintes.
                               O novo incentivo financeiro ser acrescido a um j existente, de trs anos
                           de licena no remunerada dos pais recebendo do Estado 512 euros por
                           ms  o que foi considerado no atrativo para casais de classe mdia. A nova
                           medida deve custar 140 milhes de euros por ano aos cofres pblicos.
                            Fonte: Agncia estado 22/09/2005. Disponvel: http://www.vsp.com.br/noticias/mostra_not.Php?id=60 502




140 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                                                                        Geografia



                        DEBATE

       Aps a leitura do texto, vamos debater:
       Estas medidas adotadas para promover a fecundidade esto intervindo no espao privado da vida
       familiar? Como?
       E se oportunizassem a entrada de estrangeiros no pas? Resolveria o problema ou criaria outro?
       Justifique sua resposta.
       Considerando a afirmao dos especialistas sobre o declnio da fecundidade e as suas conseqn-
       cias econmicas, como citado no texto anterior, relacione esta afirmao com os pensamentos de
       Marx e Malthus quanto ao problema demogrfico.


   Outro entendimento que devemos ter sobre a populao  quanto
ao seu envelhecimento. De acordo com dados do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatstica (IBGE), at 2050 sero cerca de 36 milhes
de idosos no Brasil. Ao lado da regio Sul, a regio Sudeste  a mais
envelhecida do pas. (Veja no mapa 1).

Mapa 1  Proporo da populao com
         mais de 65 anos por estado                                            Mapa 2  IDH Brasil 2000




                                                Escala aprox. 1 : 56 600 000                                           Escala aprox. 1 : 56 600 000




 Fonte: Atlas Socioeconmico do Rio Grande do Sul. Disponivel em http://www.scp.rs.gov.br /ATLAS /atlas.asp?menu=302

   Em 2000, segundo o IBGE, a proporo entre idosos e jovens era
de 17,8 idosos para cada 100 jovens. Em 2050, sero 102 idosos para
cada 100 jovens. Voc far parte desta populao. Que idade ter?
   Alguns grupos polticos afirmam que com o envelhecimento da po-
pulao haver uma necessidade maior de recursos para pagar a apo-
sentadoria destes. Ser que isto  verdade?


                                                                                           PassaPorSuaCabeaTerMuitosFilhos? 141
       EnsinoMdio



                     PESQUISA

         Faa uma pesquisa sobre o sistema de previdncia pblica, mais conhecido por Previdncia Social,
     investigando que tipo de benefcios so oferecidos por este sistema.




                     DEBATE

        Visite o site www.previdenciasocial.gov.br/pgsecundarias/beneficios.asp e discuta com seus cole-
     gas se o aumento da populao idosa  realmente o causador das dificuldades financeiras apresenta-
     da por este Ministrio.


                                Analise os mapas 1 e 2 e aponte se h relaes entre o IDH e o en-
                             velhecimento da populao. Faa uma pesquisa procurando os ele-
                             mentos que expliquem estas relaes ou as ausncias delas.
                                Aps estas reflexes voc deseja ter muitos filhos?



                                RefernciasBibliogrficas
                                 ALVES e CORREA. Demografia e Ideologia, In Revista Brasileira de Estudos
                                 Populacionais, Campinas, v. 20, no 2 , p. 129-156, jul-dez 2003.

                                ObrasConsultadas
                                 MDICI, Miriam de Cssia (Org). Geografia: a populao mundial  Cincias
                                 humanas e suas tecnologias: ensino mdio. So Paulo: Nova Gerao,
                                 1999.
                                 REVISTA CINCIA HOJE. Rio de Janeiro, Vol. 37, n 219, set. 2005.
                                 RUA, Joo et al (Org). Para ensinar geografia. Rio de Janeiro: Editora
                                 Access, 1993.

                                DocumentosConsultadosOnlInE
                                 Atlas Socioeconmico do Rio Grande do Sul. Disponivel em http://www.
                                 scp.rs.gov.br /ATLAS /atlas.asp?menu=302
                                 MOREIRA, Morvan de Mello. Mudanas estruturais na distribuio etria
                                 brasileira: 1950-2050. Disponvel em: http://www.fundaj.gov.br/tpd/117a.
                                 html. Acesso em 20 set. 2005.




142 DimensoCulturaleDemogrficadoEspaoGeogrfico
                                                                                  Geografia

RIOS-NETO, E.L.G. Dia Mundial de Populao. Disponvel em: http://www1.
folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2703200513.htm. Acesso em: 02 de out
2005.
www.portal.mec.gov.br/index2.phlp. Acesso em: 23 abr 2006.
www.qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/vacinas/index.html. Acesso em: 23 abr
2006.
www.vsp.com.br/noticias/mostra_not.php?id=60502



             ANOTAES




                                                         PassaPorSuaCabeaTerMuitosFilhos? 143
       EnsinoMdio




                       DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
            I            A Terra  nossa nave, e com ela navegamos pelo espao sideral. H
                     milhares de anos o ser humano vive nesta nave, ocupando e transfor-
                     mando sua crosta. Mas a transformao desta, provocada pelas atividades

            n        econmicas que conhecemos hoje, comeou h bem menos tempo.
                         No incio as transformaes se davam como forma de obter meio pa-
                     ra a sobrevivncia. Para o professor e pesquisador Milton Santos (2004),
                     as intervenes seguiam uma srie de comportamentos que tinham co-

            t        mo razo de ser a preservao e continuidade do meio de vida. Como
                     exemplo destes comportamentos, podemos pensar nas prticas de pou-
                     sio, na rotao de terras, na agricultura itinerante. Estes e outros compor-
                     tamentos compunham o "comportamento social" do grupo que ali vivia

            r        com relao ao territrio que ocupava, conciliando, com as tcnicas de
                     que ento dispunham, o uso e a conservao da natureza e criando con-
                     dies para que ela pudesse ser outra vez utilizada.
                         A agricultura, o extrativismo, o comrcio, os servios e o artesana-

            o        to eram atividades desenvolvidas para se obter recursos para alimen-
                     tar a famlia ou um grupo social. Os excedentes indicavam a prosperi-
                     dade, a possibilidade de maiores trocas ou de garantir a sobrevivncia
                     na estao fria ou seca. A tecnologia existente no permitia alterar os

            d        ciclos naturais com grande intensidade. Assim, os ritmos da natureza
                     eram observados e eram motivos de festa.
                         Voc j participou de festas do tipo "Rainha da Primavera" ou "Ga-
                     rota Vero"? Qual o significado destas festividades para nossa socieda-

            u        de? Estas festas so diferentes das demais? Elas so iguais, por exem-
                     plo, s Festas Juninas?
                         No passado algumas festividades marcavam o tempo da produo,
                     da preparao da terra, do plantio e da colheita. E estes dependiam do

                    ritmo da natureza. Com o desenvolvimento tecnolgico e com o ad-
                     vento do capitalismo, por volta do sculo XV, esta ligao sociedade-
                     natureza produzindo e transformando espao se alterou e intensificou.
                     O desejo do lucro, ou de maiores ganhos, levava  intensificao da


                    produo econmica e, conseqentemente,  transformao e produ-
                     o do/no espao.
                         Mas o que transforma ou produz o espao? O trabalho humano! Vo-
                     c j tinha pensado nisto? O mundo que nos cerca  resultado do tra-


            o        balho humano.
                         Dentre todas as espcies, somente o ser humano tem capacidade de
                     executar trabalho? O que caracteriza o trabalho? Veja no quadro 1 e na
                     charge as diferentes definies de trabalho. Com qual voc concorda?


144 Introduo
                                                                                                   Geografia




 Fonte: Larpank, 2005. http://www.larpank.com.br/



    Para que o trabalho acontea, h necessidade de outros recursos,           Quadro 1
chamados de meios de produo; estes podem ser divididos em meios
de trabalho e objetos de trabalho. Os meios de trabalho so os instru-         em Fsica, trabalho normal-
                                                                               mente  representado por W,
mentos de produo (mquinas e ferramentas), as instalaes (edifcio,
                                                                               do ingls work,  uma medi-
etc.), as fontes de energia utilizadas na produo e os meios de trans-
                                                                               da da energia transferida pe-
porte. Os objetos de trabalho so os elementos sobre os quais ocorre o         la aplicao de uma fora ao
trabalho humano (matrias-primas minerais, vegetais e animais, o solo,         longo de um deslocamento.
etc.) Qual  a principal atividade econmica de seu municpio? Identifi-       http://pt.wikipedia.org
que quais so os principais meios e objetos de trabalho existente nele.
                                                                               em economia Poltica, traba-
    O elemento mais importante para pensar a produo do espao               lho consiste no tempo huma-
o trabalho. Mas no o trabalho individual, e sim o trabalho social, de-        no despendido na produo.
senvolvido pelas sociedades, que criam, desenvolvem e estabelecem as            um fator produtivo como 
condies de continuidade da prpria sociedade. A cada gerao utili-          a terra e os recursos naturais
zam-se objetos do passado e acrescentam-se a eles novas criaes. Co-          e o capital. (Samuelson  Di-
mo exemplo disto, pode-se apontar o tear manual que evoluiu para o             cionrio de economia)
mecnico, capaz de produzir muito mais tecido em bem menos tempo.              Para o Dicionrio da Lngua
    Ao longo da histria humana os meios de trabalho vo se alteran-           Portuguesa da Porto editora,
do, a primeira grande transformao foi a domesticao dos animais             trabalho  o exerccio de ativi-
de trao e/ou de transporte (bois, cavalos, camelos), isto quando a re-       dade humana, manual ou in-
lao sociedade-natureza apresentava um grande grau de dependn-               telectual, produtiva.
cia. Por volta do sculo XVIII afastamo-nos dos ritmos da natureza com         Para o Dicionrio Houaiss,
o desenvolvimento da mecanizao. Esta intensificou as transforma-             trabalho  conjunto de ativi-
es, dominaes e alteraes econmicas do/no espao.                         dades produtivas ou criativas,
    Voc sabe o que  Revoluo Industrial? J ouviu falar dela? Esta "revo-   que o Homem exerce para
luo" tem tudo a ver com a mecanizao dos meios de trabalho (lembra          atingir determinado fim.
do tear citado anteriormente?). A Revoluo Industrial aconteceu no scu-
lo XVIII, mas seu impacto na produo do espao foi to grande que at
hoje sofremos suas conseqncias (veja o Folhas "A indstria j era?").




                                                                                                                  145
       EnsinoMdio

                          Com o advento da era industrial, as mquinas passaram a ocupar
                     os mais variados espaos da vida humana (mquinas de lavar, andar,
                     cozinhar). No espao agrrio (campo) aconteceram significativas trans-


            I        formaes. A introduo de maquinrios para a preparao da terra,
                     para o plantio e colheita, a seleo das espcies mais adequadas pa-
                     ra a industrializao, alteraram no somente a produo agrcola como
                     tambm causaram impactos sociais, visto que grande parcela da popu-


            n
                     lao rural dos pases pobres (ou em desenvolvimento) no dispunha
                     de recursos financeiros para produzir seguindo as novas tcnicas (ve-
                     ja o Folhas "Fome: problema econmico?").
                          Assim, com a crescente adoo de tcnicas de produo mais ela-


            t
                     boradas para as atividades agrrias, houve uma migrao forada de
                     milhares de famlias para as cidades, pois, no podendo competir com
                     os produtores com condies financeiras de adotar tais tcnicas, estas
                     famlias perderam o meio de produo de onde tiravam a sua sobre-
                     vivncia. Entretanto, as cidades no tinham infra-estrutura adequada

            r        para receber esta populao, levando-as a viver em condies inade-
                     quadas de moradia, saneamento, atendimento  sade e  educao.
                     Desse modo, o desordenamento do espao urbano foi agravado em
                     conseqncia de mudanas no espao agrrio.

            o             Mas as transformaes do espao e a evoluo dos meios de produo
                     e do trabalho continuam em evoluo. Segundo Milton Santos (2004), a
                     dcada de 1970 foi marcada pelo incio da mudana do meio tcnico (tec-
                     nificao) para o meio tcnico-cientfico-informacional. Este novo espao

            d         marcado pelo desenvolvimento tecnolgico, o que possibilitou a ascen-
                     so da produo flexvel em substituio ao modo fordista de produo
                     (veja o Folhas "A industria j era?"). Essa transio modifica o territrio,
                     que sofre um processo de desenvolvimento cientfico, tcnico e de obten-

            u        o de informao, elementos que possibilitam a falada globalizao (veja
                     o Folhas "Dinheiro traz felicidade?", "A unio faz a... ? e "Ns da rede").
                          No perodo da tecnificao (o qual antecede o meio tcnico-cien-
                     tfico-informacional) as transformaes e produo do espao, segun-

                    do os critrios tcnicos, eram limitados, pois poucos eram os pases e
                     regies que possuam domnio da tcnica ou podiam utiliz-la. No en-
                     tanto, mesmo nestes poucos, as atividades econmicas desenvolvidas
                     eram geograficamente concentradas, de modo que as alteraes no es-


                    pao estavam longe de ser generalizadas. Continuavam a existir luga-
                     res sem industrializao, sem utilizar mquinas, etc.
                          O meio tcnico-cientfico-informacional tambm no se espalha igual-
                     mente por todos os espaos, existem as reas desconectadas, que podem


            o        estar "nas cidades do interior dos Estados Unidos da Amrica ou nos subr-
                     bios da Frana, assim como nas favelas africanas e nas reas rurais caren-
                     tes chinesas e indianas" (Castells, 2001, p.54). Este meio possui maior capacidade
                     de interferir, criar hbitos, alterar o modo de vida das populaes nos mais
                     distantes rinces (veja o Folhas "A gente se v no Shopping?").

146 Introduo
                                                                                  Geografia

    O meio tcnico-cientfico-informacional  caracterizado pela capa-
cidade da sociedade humana de utilizar a informao e pela agilidade
com que esta percorre o mundo e os lugares, criando o "tempo mais
rpido". E, para isto, os computadores e a internet so elementos es-
senciais. Compare o "tempo da internet" com o tempo "natural", aque-


                                                                                  G
le comandado pelo ciclo das estaes. Eles so diferentes? Voc conse-
gue explicar o porqu desta diferena?
    O que  um "tempo mais rpido"? A transformao, produo, recons-
truo, a circulao dos objetos, informaes e pessoas se do de forma


                                                                                  E
mais veloz. Podemos ver isto principalmente no ritmo de vida das pes-
soas das grandes cidades; no tempo que uma gripe do frango leva para
contaminar vrios pases; no perodo de tempo que leva entre a queda da
Bolsa de Valores de Tokyo e a observaes de efeitos negativos em nos-


                                                                                  O
sa exportao (veja o Folhas "Dinheiro traz felicidade?"). O tempo agora 
ditado pelo relgio ("Tempo  dinheiro?") e no mais pela natureza.
    A cidade, o campo, os lugares e os territrios assistem a transfor-
mao de suas paisagens, sendo reestruturados para este novo tempo.


                                                                                  G
Os espaos assumem novas funes  turismo, indstrias, setor terci-
rio superior, etc., tudo comandado pelo capital, pois este sempre pro-
cura alterar os espaos em busca de maiores ganhos. Na busca de lu-
cros, o capital vai criando mecanismos para que isto ocorra.


                                                                                  R
    O Contedo Estruturante "Dimenso econmica da produo do/no
espao"  bastante amplo, os Folhas que seguem abordam com mais pro-
fundidade alguns dos aspectos que tratamos nesta breve introduo. Cabe
a voc usar o seu tempo para pensar sobre o espao e suas transforma-
es, afinal de contas, isto altera sua vida. Aproveite as novas tecnologias
e embarque neste contedo e... bons estudos.


  RefernciasBibliogrficas
                                                                                  A
   CASTELLS, M. A sociedade em rede. So Paulo: Paz e Terra, 2001.
   HOUAISS, A.; VILLAR, M de S; FRACO, F M de M. Dicionrio Houaiss da
   lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 2922 p.
                                                                                  F
   SANTOS, M. A natureza do espao: tcnica e tempo, razo e emoo. 4
   ed. So Paulo: Ed. Universidade de So Paulo, 2004.


  ObrasConsultadas
                                                                                  I
   OLIVEIRA, A. U. A lgica da especulao imobiliria. In: MOREIRA, Rui (Org).
   Geografia: teoria e crtica. Rio de Janeiro: Vozes, 1982.
   SANTOS, M. Por uma geografia nova. So Paulo: Hucitec, 1986.
                                                                                  A
  DocumentosConsultadosOnlInE
   http://www.larpank.com.br/


                                                                                              147
       EnsinoMdio




148 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                                                                                                    Geografia




                                                                                              9
                                                                    A INDSTRIA
                                                                        J ERA?
                                                                      Andr Aparecido Alflen1, Gisele Zambone2




                                                                   om a crescente virtualizao do
                                                                  "mundo" parece que a indstria
                                                                  (grandes barraces, chamins sol-
                                                                 tando fumaa, muitos empregados
                                                                 assumindo seus turnos, produzin-
                                                                do toneladas de produtos) no tem
                                                               mais razo de ser. Mas... ser que 
                                                           isso mesmo? A indstria j era? E os em-
                                                           pregos que ela gerava, onde esto? Desa-
                                                           pareceram?




Colgio estadual Vincius de moraes - Campo mouro - PR
1


Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
2




                                                                                        AIndstriaJEra? 149
        EnsinoMdio

                                             Mas por que isso parece ser assim? No precisamos mais comprar
                                         CD de msicas  agora fazemos downloads de arquivos MP3. Tam-
                                         bm no precisamos mais de grandes bibliotecas com milhares de li-
                                         vros. Os livros, filmes e fotos esto armazenados num computador,
                                         em um CD ou na Internet, e j no precisamos produzir papel, tin-
                                         ta, nem bibliotecas. No precisamos de papel! Enviamos nossos tra-
                                         balhos por e-mail para os professores. Fotografias? Estas ento muda-
                                         ram completamente. Aqueles lbuns que a gente montava depois de
      Tux. Smbolo do Linux, sistema
                                         cada festa ou cada viagem esto sumindo. Guardamos tudo no com-
      operacional que  uma coleo      putador ou no celular. No precisamos ter mais um aparelho de som,
      de softwares livres, criados por
      indivduos, grupos e organiza-
                                         uma televiso, um CD ou DVD player, agora o computador  capaz
      es ao redor do mundo.            de ter tudo isto. Do jeito que vai, parece que a indstria s vai preci-
                                         sar construir computadores.
                                             Sem dvida aquela indstria da II Revoluo Industrial, assim co-
                                         mo foi com as indstrias da primeira Revoluo, est fadada  extin-
                                         o. Algumas indstrias tradicionais ainda existem, mas j no domi-
                                         nam a paisagem. Talvez voc conhea alguma fbrica. Se no, que tal
                                         visitar uma?
                                             Vivemos uma revoluo tecnolgica, chamada, por alguns, de terceira
                                         revoluo industrial ou revoluo tecnolgica. Esta revoluo tem atingi-
                                         do direta ou indiretamente todos os setores da economia, alterando ques-
                                         tes como produtividade e qualidade da produo. Este processo  re-
                                         sultado da evoluo tecnolgica que vai criando novos produtos, novos
                                         desejos de consumo, novas formas de produzir. Mas  preciso destacar
                                         que no  s a indstria e sua produo que se altera, todo o espao so-
                                         fre conseqncias. Voc poderia apontar algumas destas alteraes que
                                         o espao geogrfico sofre?
                                             A imagem clssica, em relao  indstria, veiculada por muito tem-
                                         po foi a de grandes barraces e suas chamins soltando fumaa; uma
                                         grande quantidade de pessoas executando diversas tarefas e uma pro-
                                         duo em srie (produtos padronizados, feitos de forma continuada).

                                             Indstria de Curitiba




                                              Fonte: Gisele Zambone


150 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia
                                                  Quadro 1
    Entretanto, essa  uma imagem cada
vez mais rara em nossos dias. Por que isso       Indstria  aquela atividade eco-
est acontecendo? Ser o fim da indstria?       nmica que se aplica  prepara-
                                                 o e elaborao de artigos;  a
    A indstria moderna surgiu com a Revo-       atividade transformadora de bens
luo Industrial (sculos XVIII-XIX) como        econmicos, na qual tambm se
resultado de um longo processo que se ini-       incluem as conservaes e me-
ciou com o artesanato medieval. Passando         lhora dos mesmos. Tambm pode
pela produo manufatureira, configurou-se       ser entendida como o conjunto de
pelo emprego de mquinas a vapor nos mais        atividades produtivas que se ca-
diversos ramos da atividade produtiva.           racterizam pela transformao de
    Voc sabe por que aconteceu a I Revolu-      matrias primas, de modo manual
                                                 ou com auxlio de mquinas e fer-
o Industrial? Sabe que tipo de energia era
                                                 ramentas, necessrias para fabri-
usada para o funcionamento destas inds-
                                                 car mercadorias. De uma manei-
trias? Procure saber mais detalhes sobre este
                                                 ra bem ampla, entende-se como
perodo, como as cidades industriais se confi-   indstria desde o artesanato volta-
guravam, como eram os salrios desta poca       do para o consumo prprio (como
e as condies de vida dos trabalhadores.        aquelas pulseiras que se faziam
    Na I Revoluo Industrial, o desenvol-       com os fios coloridos que as em-
vimento industrial levou a uma crescen-          presas de telefonia deixavam pe-
te diviso do trabalho e ao crescimento da       lo cho quando instalavam linhas
populao urbana. Estes fatos, aliados  di-     nos postes) at a moderna produ-
viso tcnica e  organizao da socieda-        o de equipamentos de inform-
                                                 tica, comunicao e instrumentos
de, provocaram uma diviso social do tra-
                                                 eletrnicos.
balho.
                                                  Texto dos autores



                ATIVIDADE

    Voc sabe o que  diviso social do trabalho? Como isso se materializa no espao geogrfico?
 D exemplos.



    As cidades comeam a apresentar importantes transformaes em
sua estrutura interna, como a disperso das diversas atividades urba-
nas, que passam a ocupar espaos seletivos, fato que vai se acentuar
com a II Revoluo Tecnolgica.
    Na cidade em que voc vive existem mais espaos ocupados por
indstrias ou por lojas? Ou, em sua cidade, h maior incidncia de ou-
tras atividades econmicas? Estes so os espaos seletivos: industrial,
comercial, etc. Voc sabe por que isso aconteceu?
    Em meados do sculo XIX, com o advento das tecnologias que le-
varam  II Revoluo Tecnolgica, a atividade industrial passou a apre-
sentar dois padres bsicos de localizao que provocaram impactos
na paisagem urbana:


                                                                                       AIndstriaJEra? 151
        EnsinoMdio

                                         O primeiro padro era marcado pela produo em larga escala de
                                         mercadorias pesadas e/ou volumosas, que necessitavam de fontes
                                         de energia abundantes e/ou terminais de transporte para a distri-
     Quadro 2                            buio da produo a um custo mnimo. Este padro industrial en-
    O modelo fordista  domina-          contrava-se geralmente afastado do centro da cidade, empregan-
    do pelas grandes unidades            do mo-de-obra residente em vilas operrias, criando os chamados
    produtivas, fabricando produ-        bairros suburbanos. Indstrias ligadas ao modelo fordista;
    tos padronizados para o con-         O segundo padro era caracterizado por indstrias com produ-
    sumo de massa em grande              o em pequena escala e que utilizavam muita mo-de-obra. Loca-
    quantidade (economia de es-
                                         lizadas nas reas centrais das cidades, compreendiam indstrias de
    cala). A utilizao de energia
                                         vesturios e confeces, pele e couro, mobilirio, grfica e edito-
    barata e o "estado" gerando
                                         rial, criando uma concentrao de estabelecimentos industriais me-
    infra-estrutura tambm eram
    importantes.                         nores no espao central da cidade.
     Texto dos autores                   Se na I Revoluo Industrial o vapor era a fonte de energia mais
                                     usada, na II Revoluo Industrial a fonte principal passa a ser a ener-
                                     gia eltrica, o que permitiu o desenvolvimento de motores pequenos,
                                     que podiam ser colocados em mquinas pequenas e mveis  como
                                     enceradeiras e geladeiras, para citar alguns exemplos. Veja  sua volta
                                     quantos usos de energia eltrica.
                                         O setor de energia eltrica penetrou aceleradamente nas indstrias
                                     qumica e metalrgica, permitindo o desenvolvimento e barateamento
                                     de uma srie de materiais. Nos pases desenvolvidos a indstria de uti-
                                     lidades domsticas  que depende da energia eltrica  cresceu, tam-
                                     bm, como resposta  escassez e ao encarecimento da mo-de-obra de
                                     servios domsticos.
                                         A II Revoluo Industrial caracterizou-se por uma rgida estrutura
                                     administrativa organizada de forma vertical para controlar a produo,
                                     separando a tarefa de quem executa e quem pensa a atividade e au-
                                     mentando, ainda mais, a alienao do trabalhador em relao  produ-
                                     o, o que j se verificava na I Revoluo Industrial.
                                         No momento atual, vivemos a chamada III Revoluo Industrial.
                                     Nesta fase a indstria, ou a fbrica global, tem como caractersticas a
                                     possibilidade de descentralizar sua produo em vrios pases e se ins-
                                     talar em qualquer lugar do planeta, observando,  claro, algumas van-
                                     tagens oferecidas pelo local.


                         ATIVIDADE

        Voc pode indicar quais so estas vantagens oferecidas para que a indstria escolha o local mais
     adequado? Por que o atual perodo histrico possibilita esse tipo de organizao industrial? Como se
     organiza a produo da fbrica global?




152 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                                                                                                   Geografia

 Quadro 3
                                             Fbrica Global
      A "fbrica global" passa a ser a estratgia utilizada pelas grandes empresas internacionais para pro-
 duzir seus produtos. Para voc entender melhor, veja este exemplo:
      A Li & Fung, uma empresa de Hong Kong, produzia, nos anos 80, uma boneca parecida com a Bar-
 bie. A boneca foi desenhada em Hong Kong. L tambm foram criados os moldes plsticos, porque isto
 dependia de mquinas sofisticadas. Os moldes eram enviados para a China, e l as diferentes partes da
 boneca eram produzidas, as bonecas eram montadas, pintadas e as roupas eram costuradas. Isto era
 feito na China, onde os salrios so mais baixos, porque estas atividades dependem mais de mo-de-
 obra do que de equipamentos sofisticados. Mas como a China, naquele tempo, no tinha tecnologia pa-
 ra imprimir as caixas de embalagens com a qualidade desejada, tudo isto era enviado para Hong Kong
 de volta, onde eram feitos os testes e o empacotamento. E Hong Kong, por ser um importante centro fi-
 nanceiro e comercial, dispunha de servios bancrios e de transporte adequados para distribuir as bo-
 necas por todo o mundo.
      Veja ainda o que diz um dos dirigentes da Li & Fung:
      "Suponha que ns recebamos, de um distribuidor europeu, um pedido de 10.000 peas de vestu-
 rio. No  o caso de se considerar que nosso escritrio na Coria fornecer produtos coreanos, ou que
 nosso escritrio indonsio fornecer produtos da Indonsia. Para este cliente ns podemos decidir com-
 prar algodo de um produtor coreano mas tecer e tingir o tecido em Taiwan. Ento ns pegamos o algo-
 do e o enviamos para Taiwan. Os japoneses tm os melhores zperes e botes, mas eles os produzem
 na maior parte em fbricas na China. Okay, ento ns vamos at a YKK, um grande produtor japons de
 zperes e pedimos o tipo adequado de zper de suas fbricas chinesas. Ento ns decidimos que, dadas
 as condies de cotas e custos trabalhistas, o melhor lugar para produzir as peas de vesturio  a Tai-
 lndia. Ns mandamos tudo para l. E porque o cliente precisa que tudo seja entregue muito rapidamen-
 te, ns dividimos o pedido entre nossas cinco fbricas na Tailndia. ... Cinco semanas depois de termos
 recebido o pedido, 10 mil peas de vesturio chegam s prateleiras na Europa, todas parecendo ter vin-
 do da mesma fbrica ... A etiqueta pode dizer `Made in Thailand', mas no  um produto tailands."
  mAGReTTA, 2000.Traduo milton Adrio.

    A tecnologia da microeletrnica, aplicada ao desenvolvimento da in-
dstria tpica da III Revoluo, possibilitou uma mudana profunda nos
padres de produo industrial, o que permite que qualquer erro de pro-
duo seja corrigido imediatamente, bastando para isso corrigir o softwa-
re, podendo ainda produzir produtos personalizados. Mas ser que essa
automao ocorre em todas as indstrias? Ela  possvel em todos os seto-
res? Ser que esse tipo de produo industrial j  um fato no mundo to-
do? No Brasil, que produtos podemos afirmar que so produzidos em in-
dstrias organizadas nos moldes da III Revoluo Industrial?
    Do ponto de vista social, a III Revoluo Industrial no gerou au-
mento de empregos. Por qu? Se a economia industrial est crescendo,
por que ela no gera empregos como nos outros perodos?
    A cada novo sistema tecnolgico h toda uma srie de mudanas,
de estilo, padres de produo e consumo, prticas concorrenciais e
relaes de trabalho que acabam repercutindo na organizao da so-
ciedade e do espao Geogrfico.

                                                                                        AIndstriaJEra? 153
       EnsinoMdio



                         ATIVIDADE

         Para que tipo de sociedade estamos caminhando? Para uma sociedade do lazer e do trabalho em
     frente ao computador? Para uma sociedade de pleno emprego?  possvel pensarmos em uma so-
     ciedade de lazer para todos?  possvel pensarmos em trabalho intelectual para todos?



                                                                                      Para refletir sobre a socie-
                                           Dirigido por Larry Wachowski, Andy dade para a qual estamos ca-
                                      Wachowski. Trata da realidade virtual (se  minhando, assista ao filme Ma-
                                      virtual pode ser realidade?). O Heri da trix e analise o domnio da
                                      histria, Neo, e seus companheiros lutam tecnologia sobre o homem.
                                      contra as poderosas mquinas (Matrix)           E no Brasil, como a ativida-
                                      que controlam o mundo, as quais criaram de industrial se desenvolveu?
                                      uma realidade capaz de controlar todos os       No Brasil a atividade indus-
                                      seres humanos e ainda usam estes como trial, at 1930, foi fraca ou in-
                                      fonte de energia.                           cipiente. Isto se deu, princi-
     www.kundw.umc-europe.org/2003/
     november/27-01-ild0.jpg                                                      palmente, porque no perodo
                                                                                  colonial a organizao scio-es-
                                       pacial foi dirigida para a produo de matrias-primas e produtos prim-
                                       rios para exportao. Por este motivo e por outros, chegamos ao sculo
                                       XX, como um pas de fraca industrializao e na condio de pas expor-
                                       tador de produtos primrios (agrcolas e extrativos). Enquanto pases co-
                                       mo a Inglaterra, Alemanha, Frana e Estados Unidos j se encontravam
                                       na II Revoluo Industrial, as nossas indstrias, at a dcada de 1930, se
                                       restringiam ao setor de gneros alimentcios e de tecelagem, caracters-
                                       ticas ainda da I Revoluo Industrial. Seria esta uma das causas do nos-
                                       so pas no se encontrar entre os pases desenvolvidos?
                                           A partir de 1930, o Brasil comeou a intensificar sua industrializa-
                                       o, atividade que, neste perodo, se concentrou na regio Sudeste, es-
                                       pecialmente em So Paulo.



                       PESQUISA

        O que explica a atividade industrial se desenvolver mais nesta regio do que em outras? Quais se-
    riam as conseqncias para as demais regies dessa concentrao espacial do desenvolvimento eco-
    nmico e da indstria no Sudeste brasileiro?




154 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                                                                                     Geografia


    O desenvolvimento industrial brasileiro ganhou maior impulso aps
a II Guerra Mundial, pois este conflito, ao dificultar as importaes, ge-
rou estmulos  indstria nacional, que passou a desenvolver inter-
namente muitos produtos que antes eram importados. Esse processo
ficou conhecido como poltica de substituio de importaes. A pol-
tica de substituio de importao j vinha ocorrendo desde a primei-
ra guerra (19141918). Esse fato acabou por intensificar ainda mais o
desenvolvimento industrial brasileiro.
    Os investimentos do Estado brasileiro na dcada de 50/60 no ra-
mo da indstria de base (metalurgia, petroqumica), no setor de hi-
dreltricas e na infra-estrutura em geral, atraram investimentos, tanto
estrangeiros quanto nacionais, que contriburam para a internacio-
nalizao da indstria no Brasil. Os investimentos em infraestrutu-
ra ocorreram principalmente na regio sudeste, que se deu devido 
crena de que a industrializao e o desenvolvimento econmico da
regio sudeste se irradiariam por todo o territrio brasileiro. Ser que
essa previso se concretizou?
    A partir de 1970, o governo brasileiro realizou investimentos (com
o dinheiro pblico), que viabilizaram projetos da iniciativa privada. Es-
tes investimentos tinham como objetivo incentivar uma relativa des-
concentrao industrial no Brasil.
    O governo pode fazer investimento com dinheiro privado? Ele po-
de investir em projetos privados/particulares? O que  a parceria p-
blica-privada (PPP)? Pesquise.
    O processo de desconcentrao da produo industrial, que se ini-
ciou nos anos 70 e continua at os dias de hoje, tornou-se mais intenso a
partir da dcada de 80, devido a vrios fatores. A concentrao econmi-
ca no sudeste gerou uma "deseconomia de aglomerao", ou seja, uma
urbanizao acelerada  que trouxe problemas de infraestrutura  e uma
organizao sindical forte que conseguiu melhorar os salrios e tornou
a regio um plo de lutas trabalhistas, isto provocou o encarecimento
da produo, e evidenciou a necessidade da desconcentrao industrial;
desta forma, algumas iniciativas foram tomadas neste sentido.
    No interior de So Paulo, o processo de reorganizao espacial da
indstria tem se direcionado, principalmente para as cidades de por-
te mdio, especialmente, aquelas situadas ao longo dos grandes ei-
xos rodovirios. Estas cidades possuem estratgias para atrao das
empresas baseadas em vantagens, como: doao dos terrenos, infra-
estrutura e outros.
  Essa reorganizao espacial da indstria, que tambm pode ser de-
nominada de reestruturao produtiva do espao, tem motivado uma




                                                                             AIndstriaJEra? 155
       EnsinoMdio


                            disputa entre as unidades da federao por meio de incentivos fiscais,
                            alm das vantagens j citadas. Com o objetivo de atrair indstrias de
                            outras regies e de outros pases. Em nome do desenvolvimento e da
                            gerao de empregos diretos e indiretos, trava-se uma guerra entre os
                            lugares para ver quem fica com a produo, pois em muitos lugares a
                            fbrica nem se instalou ainda. E nada se fala dos gastos pblicos e dos
                            processos de automao que quase no geram empregos.
                               Essa guerra fiscal se trava em torno de um suposto desenvolvimen-
                            to econmico que nem sempre ocorre com a simples implantao da
                            indstria, pois no entender de Milton Santos (2002), na economia glo-
                            balizada os lugares valorizam e desvalorizam-se muito rapidamente.
                               O que  a guerra fiscal? Esses gastos pblicos sero recuperados?
                            Sero compensados pelo desenvolvimento econmico?
                               Verifica-se que no caso brasileiro, apesar de haver uma disperso
                            das plantas industriais em direo ao interior, o comando das grandes
                            empresas continuam sendo centralizadas nas regies metropolitanas,
                            principalmente do sudeste brasileiro.
                                A desconcentrao industrial verificada a partir da dcada de 70
                            no se deu de maneira uniforme (no foram todos os lugares que re-
                            ceberam industrias) e no ocorreu em todos os setores industriais.
                            Dentre as regies do Brasil, o Sul  o que mais se beneficiou desse re-
                            arranjo industrial, pois tem um aumento expressivo no nmero de es-
                            tabelecimentos industriais. Em 1970, respondia com apenas 14,79% do
                            total de pessoas empregadas na indstria brasileira; na atualidade, res-
                            ponde por mais de 24% do total nacional.



                     PESQUISA

        Faa uma pesquisa e descubra quais empresas se instalaram recentemente no seu estado. Elas
     so nacionais? Quantos empregos geraram? A sua cidade possui uma poltica de desenvolvimento in-
     dustrial baseada nos pressupostos anteriormente discutidos?



                                Mas antes de continuarmos, analise os mapas dos setores indus-
                            triais e responda:
                                As reas industriais esto em todo territrio brasileiro? Onde esto
                                menos presentes?
                                Que tipo de atividade industrial aparece em menor intensidade na
                                regio Sudeste? Que explicao podemos apresentar para isto?


156 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                                                                                              Geografia

                                    Principais Setores Industriais no Brasil  1999




 Fonte: Atlas geogrfico escolar multimdia. Rio de Janeiro, 2004. CD-ROm.


                                                                                      AIndstriaJEra? 157
        EnsinoMdio

                                           Quanto s demais regies brasileiras, em linhas gerais,  possvel afirmar:
                                           A Regio Centro-Oeste tambm tem aumentado sua participao na
                                           produo industrial, embora ainda em pequeno nmero, localizando-
                                           se apenas em alguns pontos do seu territrio. Alm das indstrias ex-
                                           trativas do setor de minerao, atrai algumas grandes agroindstrias
                                           sulistas e do sudeste que transferiram para esta regio etapas da sua
                                           cadeia produtiva. O que  cadeia produtiva? O que  agroindstria?
                                           A regio Nordeste teve, na dcada de 80, um decrscimo no n-
                                           mero de estabelecimentos industriais e no nmero de empregos,
                                           mas tem atrado tambm algumas indstrias do sudeste, principal-
                                           mente pela mo-de-obra mais barata nesta regio e pelos incenti-
                                           vos fiscais. (Veja o texto sobre o Cear). O estado da Bahia  o que
                                           mais tem atrado indstrias, principalmente do setor petroqumico.
                                           O que a Bahia tem para atrair as indstrias deste setor? Em que re-
                                           gio do Estado estas indstrias se concentram?

     Quadro 4
                                       Cear vira plo exportador de grifes de luxo
                                                                                                    Isabelle moreira Lima
         Cerca de 450 operrios trabalham sob o forte calor cearense produzindo calas nas quais costu-
     ram etiquetas originais da marca de jeans italiana Diesel, vendidas  luxuosa grife por US$ 12 e reven-
     didas em lojas espalhadas pelo mundo por at US$ 600.
          Segundo o diretor-presidente da SN Confeces, Andr Nunes, design e material determinam o va-
     lor de um produto. No caso das Diesel cearenses, o tecido  a sarja do tipo "strand", que vem de San-
     ta Catarina. O custo do tecido saiu por R$ 6,44, o que no  exatamente caro.
         Mas so a mo-de-obra e a localizao que barateiam o custo e fazem do Cear um lugar muito
     atraente para confeces norte-americanas e europias de luxo.
        Na SN, por exemplo, um costureiro ganha no mnimo R$ 320 e no mximo R$ 500, de acordo com
     sua produo.
         A logstica  perfeita: o Cear tem dois portos grandes (o do Mucuripe, em Fortaleza, e o do Pecm,
     a 60 km da capital) e teve seu aeroporto reformado e adaptado para receber vos internacionais ainda
     na dcada de 90.
         "H navios com sada duas vezes por semana e a viagem s demora seis dias", diz Andr Nunes.
         justamente por causa do "pacote perfeito" oferecido pelo Cear, de mo-de-obra e logstica, que
     marcas de luxo escolhem o Estado para produzir, diz o agente comercial da Globaltex, Edson Palhares.
      Folha de So Paulo, So Paulo, domingo, 13 de novembro de 2005.


                                           A regio Norte do Brasil, onde se encontra a Zona Franca de Ma-
                                           naus, tem mostrado uma diminuio do nmero de estabelecimen-
                                           tos industriais, com um crescimento do nmero de pessoas ocupa-
                                           das e aumento do valor da produo industrial. Em outras palavras,
                                           diminuiu no nmero de indstrias e aumentou a produo. A que
                                           se deve este fato?


158 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                                                                                                     Geografia




                      ATIVIDADE

      O artigo do jornal Folha de So Paulo "SP e RJ tm maiores perdas de participao no PIB brasi-
 leiro, diz IBGE", apresenta dados atuais sobre a industrializao no Brasil. Aps sua leitura, responda:
 O que mudou na industrializao brasileira recentemente? A que se devem estas mudanas?



 Quadro 5
                    SP e Rio tm maiores perdas de participao no PIB brasileiro, diz IBGE
                                                                                                  Janaina Lage
     Segundo o Coordenador de Contas Regionais, Frederico Cunha, diversos fatores explicam a per-
 da de participao do Estado de So Paulo nos ltimos anos, com destaque para a perda de participa-
 o da indstria. Em 2000, a participao do Estado no Produto Interno Bruto era de 33,7%. Em 2003,
 caiu para 31,8%.
    Em 1985, incio da srie histrica, a participao da indstria paulista no PIB era de 51,6%. Em
 2003, este patamar caiu para 40,4%. De acordo com Cunha, a disseminao de indstrias leves, co-
 mo as de alimentos, nos demais Estados, as polticas de incentivos fiscais e a guerra fiscal contriburam
 para a maior desconcentrao da indstria.
     O avano da fronteira agrcola tambm contribuiu para reduzir a concentrao da agricultura nacio-
 nal, segundo o coordenador.
     O ano de 2003 foi particularmente negativo para a indstria paulista em razo do cenrio de juros al-
 tos. "Toda e qualquer poltica fiscal ou monetria que influencia a demanda agregada interfere no desem-
 penho da indstria paulista. Se as famlias param de consumir, isso afeta a indstria paulista, que tem par-
 te de sua produo voltada para o mercado interno", afirmou Cunha
    Se na regio Sudeste houve queda na participao no PIB, o grupo de Estados ligado  agroin-
 dstria (formado por Pernambuco, Gois, Par, Esprito Santo, Cear, Amazonas, Mato Grosso e Mato
 Grosso do Sul), alm do Distrito Federal, foi, por sua vez, o que mais avanou.
      Entre as quatro maiores economias do pas, o Rio Grande do Sul apresentou o melhor resultado.
 Alm de registrar um crescimento de 21% na atividade agropecuria, o Estado teve bom desempenho
 nos setores industriais voltados para as mquinas e implementos agrcolas, ligados ao avano da agro-
 pecuria. Os setores industriais que contriburam para a expanso foram a indstria mecnica e mate-
 rial de transporte.
    Este resultado no dever se repetir nas contas de 2005. Neste ano, o RS enfrentou forte queda da
 produo agrcola em razo da estiagem e o desempenho da indstria de mquinas e equipamentos
 destinados  agricultura sofreu forte queda em razo da reviso de projees da colheita.
  Folha Online, 04/11/2005. www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u102050.shtml


   Comeamos este Folhas falando que a "indstria j era". Qual sua
opinio sobre o tema aps ter trabalhado este Folhas?




                                                                                          AIndstriaJEra? 159
       EnsinoMdio



                           RefernciasBibliogrficas
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                            MAGRETTA, J. FUNG, V. Fast, global and entrepreneurial: supply chain
                            management, Hong Kong style an intertview. Harvard Business Review
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                            ALBAN, M. Crescimento Sem Emprego. Salvador: Ed. Casa da
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                            CAMARGO, J. B. Elementos Formadores da Sociedade Brasileira.
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                            CASTRO, I. E., MIRANDA; M., EGLER; Cludio (Orgs.). Redescobrindo o
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                            KON, A. Economia Industrial. So Paulo: Nobel. 1999.

                            LENCIONI, S. Reestruturao urbano-industrial no Estado de So Paulo: a
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                            Paulo,1994.



                           DocumentosConsultadosOnlInE
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                            nov. 2005.




160 DimensoEconmicadaProduodoEspaoGeogrfico
                    Geografia



ANOTAES




            AIndstriaJEra? 161
       EnsinoMdio




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                                                                               10
                                                           A GENTE SE V
                                                           NO SHOPPING ?
                                                                                Gisele Zambone1


                                                             hoppings so espaos exclusi-
                                                             vos de compra? Quando voc
                                                             vai ao shopping, voc vai s
                                                           compras?  o local para se ver ou
                                                           para ser visto? Como voc inter-
                                                           pretaria o ttulo acima?




Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
1




                                                                      AGentesevnoShopping? 163
       EnsinoMdio

                                                                      Shopping  um estrangeirismo e embora a palavra no tenha ori-
                                                                  gem portuguesa, provavelmente a maioria dos brasileiros  capaz de
                                                                  entender seu significado ao v-la. Mas o que significa shopping em in-
                                                                  gls? O lugar de compra ou o ato de comprar, de adquirir?
                                                                      Muitas palavras utilizadas neste Folhas so estrangeirismos como
                                                                  voc ver ao longo do texto. Ento, pesquise o que  estrangeirismo.
                                                                  Mas antes, observe ao redor. As influncias estrangeiras apresentam-
                                                                  se apenas na lngua ou aparecem, tambm, na produo do espao?
                                                                  Em sua cidade existem influncias estrangeiras? Onde? Nas constru-
                                                                  es? Nos nomes das lojas e supermercados? Nos panfletos de propa-
                                                                  gandas?
                                                                      Neste Folhas discutiremos um pouco sobre este local e outros es-
                                                                  paos de consumo, para comearmos o assunto, pare, observe e refli-
                                                                  ta sobre as semelhanas e diferenas das imagens a seguir.
                                                    Shopping em Curitiba, PR                  rea de lazer, em Curitiba, PR
           Fonte: Acervo pessoal  Gisele Zambone




                                                                                                                                            Fonte: Acervo pessoal  Silvia Alcntara
                                                                      Os shopping centers surgiram nos Estados Unidos na dcada de
                                                                  1950. Sua gnese est ligada ao aparecimento dos subrbios das ci-
                                                                  dades norte-americanas, fato que tambm se deu associado  amplia-
                                                                  o do uso do transporte individual, o automvel. Os subrbios norte-
                                                                  americanos so conjuntos residenciais afastados do centro da cidade
                                                                  e at da rea urbana; so marcados pelas construes de grandes ca-
                                                                  sas, sem muros e com amplas reas verdes ao redor. So um cone do
                                                                  bem morar naquele pas. No Brasil, temos algumas reas similares, co-
                                                                  mo o Alphavile Graciosa (Regio Metropolitana de Curitiba) e o Tam-
                                                                  bor (Regio Metropolitana de So Paulo). O que o automvel tem a
                                                                  ver com isto? O automvel permite a locomoo da populao at es-
                                                                  sas reas. E tambm  o que  importante para nosso tema  o acesso
                                                                  s lojas que esto no caminho da casa para o trabalho.
                                                                      O primeiro shopping center brasileiro foi inaugurado na cidade de
                                                                  So Paulo em 1966. De l para c, eles se tornaram elementos presen-
                                                                  tes na vida e na paisagem urbana das grandes cidades. At a dcada de
                                                                  1980, os shoppings centers eram empreendimentos quase que exclusi-
                                                                  vos das capitais dos estados, mas a partir de meados desta mesma d-
                                                                  cada, eles passaram a ser construdos nas cidades mdias e, tambm,
                                                                  no interior dos estados.
164 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                       Geografia

    Os shopping centers brasileiros apresentaram, inicialmente, localizao
diferente das dos norte-americanos. No Brasil, os primeiros shoppings
se localizaram em reas comerciais tradicionais, ao longo de grandes
avenidas. Com a interiorizao, comearam a se localizar ao longo de
rodovias. So estabelecimentos que procuram atrair a populao de
diversas cidades, ampliando assim o possvel nmero de clientes, os
consumidores.
    Atualmente, a escolha de locais para a instalao de shoppings centers
continua a mesma?
    Com os dados da ABRASCE (Associao Brasileira de Shoppings Cen-
ters), podemos verificar, na tabela, o aumento no nmero de shoppings
desde seu aparecimento no Brasil e algumas particularidades sobre eles.
    Observao importante: um grande nmero de outros centros co-
merciais, de mdio e pequeno porte, no esto includos entre os esta-
belecimentos associados da ABRASCE. Esta congrega, aproximadamen-
te, 63% dos shoppings centers brasileiros - dados do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econmico e Social - BNDES (GOmeS, et al, 2004).

        TABELA 1
          Dados gerais referente aos Shoppings Centers no
             Brasil filiados a ABRASCE (Agosto 2005)

                 Nmero Total de Shoppings                   262

                              Em operao                    241

                             Em construo                    21

                      rea Construda (m2)           14.337.067

                       Vagas para carros               415.341

                          Lojas Satlite                 41.009

                          Lojas ncora                       914

                        Salas de Cinema                   1.105

                      Empregos Gerados
                                                       484.110
                       (mil pessoas/ms)

                Faturamento (R$ Bi) em 2004                  36,6

                   Percentual de Vendas
               em Relao ao Varejo Nacional           18%
                (Excludo Setor Automotivo)
          Fonte: www.abrasce.com.br/gr_numeros.htm


                                                                         AGentesevnoShopping? 165
           EnsinoMdio

                                                O sudeste  a regio onde estes mais se concentram, sendo que
                                            na cidade de So Paulo encontramos a maior concentrao, 24% do
                                            total brasileiro. As regies Norte e Centro-Oeste aparecem com uma
                                            pequena parcela, aproximadamente 6% (GOmeS, et al, 2004).
 Mapa 1  Brasil: Densidade Demogrfica                                            Qual  a explicao para esta dis-
                                                                               tribuio? Os mapas de "habitantes por
                                                                               km2" e o de "rendimento mediano" de-
                                                                               vem ajudar em sua resposta
                                                                                   Espalhados por muitas cidades
                                                                               brasileiras, estes estabelecimentos co-
                                                                               merciais tm grande importncia eco-
                                                                               nmica, poltica e social.
                                                                                   Econmico: so geradores de
                                                                                   inmeros empregos; geram gran-
                                                                                   de quantidade de impostos, so
                                                                                   construdos por grandes empresas
                                                                                   privadas, que demandam recur-
                                                                                   sos tanto em sua construo quan-
                                                                                   to em seu funcionamento. Tambm
                                                                                   podem auxiliar no desenvolvimen-
                                                                                   to urbano das cidades, pois tendem
                                                                                   a modernizar a rea na qual se lo-
                                                                                   calizam, atraindo um grande n-
                                                  Escala aprox. 1:43 600 000
                                                                                   mero de servios e consumidores,
                                                                                   o que pode contribuir para a valo-
 Mapa 2  Brasil: Rendimento mdio                                                 rizao da regio onde se instala.
                                                                                   Que tipo de mudanas podemos
                                                                               apontar para demonstrar que hou-
                                                                               ve valorizao da regio? Que outros
                                                                               empreendimentos podem gerar a va-
                                                                               lorizao do espao urbano?
                                                                                   Poltico: sua localizao demanda
                                                                                   uma deciso importante, pois es-
                                                                                   te pode gerar benefcios, como os
                                                                                   apontados anteriormente, ou pro-
                                                                                   blemas. Os shopping podem ge-
                                                                                   rar impactos no trfego local, pro-
                                                                                   vocando congestionamento e maior
                                                                                   poluio atmosfrica e sonora. Afe-
                                                                                   tam tambm os tradicionais centros
                                                                                   comerciais de rua, provocando uma
                                                                                   desvalorizao destas reas e, em al-
                                                                                   guns casos, gerando at mesmo o
                                                 Escala aprox. 1:43 600 000
                                                                                   fechamento de lojas, e, conseqen-
                                                                                   temente, desemprego.
  Fonte: Atlas geogrfico escolar multimdia. Rio de Janeiro, 2004. CD-ROm.

166 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                 Geografia

    Na cidade onde voc mora, j observou locais onde os estabeleci-
mentos comerciais fecharam? O que provocou isto?
    Social: os shopping tornaram-se progressivamente no s um local
    de compra, composto de lojas e vitrines. Atualmente, os shopping re-       Curiosidades sobre os
    presentam tambm locais de convvio, espaos de visibilidade pa-           dados da tabela 1
    ra aqueles que querem ver e serem vistos, o local do footing.              Voc se ateve  quantidade
    Um local onde o usurio se sente mais seguro, confortvel, pois            de vagas para carros existen-
    o ambiente  climatizado, e "vigiado". Onde o usurio pode ser             tes? Daria para estacionar to-
    participante de um mundo globalizado, pois os ambientes dos                dos os veculos de Londrina/
    shoppings possuem um padro global. Observe o estilo arqui-                PR (dados do Departamen-
                                                                               to de Trnsito, 2005) e ain-
    tetnico, disposio e a presena dos mesmos elementos, como
                                                                               da sobraria mais da metade
    praas de alimentao e cinemas. At os cheiros so semelhan-
                                                                               das vagas.
    tes. Voc concorda com isto? Quais elementos demonstram que os
    shopping so locais globalizados?
    Os shopping tambm passaram a ter grande importncia como lu-               As praas pblicas tradicio-
gar de lazer. Lazer este que, geralmente,  pago  o ingresso do cine-         nais, com floreiras e chafariz
ma, os jogos eletrnicos, a bebida na praa de alimentao.                    so modelos do sculo XVIII
    Toda a populao tem dinheiro para adquirir este lazer?                    e XIX. Foi o distanciamen-
                                                                               to do habitante urbano do
    Segundo GOMES (2002, 164), "Fisicamente, o espao pblico , antes
                                                                               espao natural que levou 
de mais nada, o lugar, praa, rua, shoppings, praia, qualquer tipo de
                                                                               construo das praas, que
espao, onde no haja obstculos  possibilidade de acesso e partici-
                                                                               so espaos, nas cidades,
pao de qualquer tipo de pessoa." Partindo deste pressuposto, voc            onde existem referncias 
afirmaria que os shopping centers so lugares pblicos? Que elemen-            natureza.
tos voc apontaria para embasar sua reposta?
    Os tradicionais locais de encontro ou de lazer, como as praas, os
cinemas, os campinhos de futebol, desapareceram ou perderam im-
portncia com o aparecimento dos shopping?
    Na maioria das cidades menores os cinemas fecharam em decor-
rncia da televiso, e mais tarde, com o advento do vdeo. Nas gran-
des cidades estes se reestruturaram, com salas menores, mais con-
fortveis, com maior qualidade de udio e vdeo, e se concentraram
nos shopping.



                ATIVIDADE

    As salas de cinemas foram lugares importantes de lazer no passado. Ocupavam grandes espaos,
 geralmente na parte central das cidades. Aos poucos foram desaparecendo, dando lugar a outras ativi-
 dades urbanas. Isto aconteceu em sua cidade? Voc pode enumerar algumas atividades que surgiram
 onde antes haviam cinemas? Estas tambm so lugares de lazer?
     E as praas pblicas? O que ocorreram com elas? Quem as utiliza hoje? Quem  responsvel pela
 criao e manuteno deste espao?



                                                                          AGentesevnoShopping? 167
       EnsinoMdio

                                      Os shopping geralmente pertencem a grandes empresas privadas,
     Quadro 1
                                  como a Iguatemi Empresa de Shopping Centers S. A., proprietria do
   Maior da Amrica Latina        Shopping Curitiba (Curitiba - PR), e a Rede Nacional de Shoppings Centers
    Depois da unio em novem- Ltda (Renasce) proprietria do ParkShopping Barigi (Curitiba - PR).
   bro do ano passado (2004),
                                      Juridicamente, so locais privados, entretanto tem sido utilizados
   o complexo BarraShopping /
   New York City Center (Rio de
                                  como um local pblico. Mas so utilizados por todo tipo de pessoas?
   Janeiro) se tornou o maior          possvel verificar o quanto este tipo de atividade econmica  im-
   centro de consumo e lazer portante para a economia de uma cidade ou regio. Mas ela tambm
   da Amrica Latina, com 664 tem se tornado importante na vida das pessoas. Para alguns especia-
   lojas e 9400 vagas de es- listas, estes estabelecimentos representam o modo de vida urbano de
   tacionamento. Desde en- uma sociedade centrada no consumo.
   to, as vendas no BarraSho-
                                      No Brasil, as transformaes no comrcio se intensificaram aps a
   pping aumentaram 25% e
                                  II Guerra Mundial, dcada de 50, com a consolidao e a expanso da
   as do New York City Cen-
                                  indstria de nosso territrio. Isto, associado  produo industrial de
   ter, 120%. A presena das
   ncoras Leader magazine e bens de consumo durveis e no durveis, produzidos em grande esca-
   Casa&Vdeo contribuiu para la,  crescente concentrao de pessoas nas cidades (veja Folhas "A in-
   alavancar o trfego em 3%. dstria j era?"), ao aumento do consumo e  generalizao do uso do
   Juntos, os dois shopping re- automvel, possibilitou a introduo de novas formas comerciais, co-
   cebem 3 milhes de consu- mo os shoppings centers, mas tambm a consolidao dos supermerca-
   midores por ms.               dos e hipermecados  a diferena bsica entre os dois est no nmero
    Fonte:http://www.renasce.com. de caixas (check out) e na variedade de produtos disponveis. Veja um
       br/ acessado 08/2005
                                  exemplo de check out na imagem a seguir.
                                                                              Silvana Pintaudi (1987/1988/1999),
   Check-out em supermercado - Curitiba, PR
                                                                          gegrafa que h muito tem discutido
                                                                          sobre os supermercados, aponta vrios
                                                                          elementos que merecem ateno. Se-
                                                                          gundo ela, o primeiro supermercado
                                                                          surge na cidade de So Paulo, em 1953,
                                                                          e traz consigo o self-service, ou seja, os
                                                                          consumidores passam a ter contato di-
                                                                          reto com as mercadorias, sem a neces-
                                                                          sidade de um vendedor intermediando
                                                                          a compra, reduzindo significativamente
                                                                          os custos no sistema de vendas, permi-
                                                                          tindo assim um maior lucro para o co-
                                                                          merciante, alm de possibilitar o conta-
                                                                          to direto do consumidor com o objeto
                                                                          de desejo: a mercadoria. A expanso
                                   Fonte: Acervo pessoal  Gisele Zambone dos supermercados tambm se deu
                                                                          graas  geladeira e  reduo de seu
                                  custo, pois ela permitiu que as pessoas pudessem abastecer suas casas
                                  com gneros alimentcios perecveis por perodos mais longos, exigin-
                                  do assim menor nmero de visitas ao comrcio.




168 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia

    Os supermercados so espaos comerciais que possibilitam s pes-
soas encontrarem, num mesmo local, um grande conjunto de merca-
dorias disponveis para seu abastecimento, no sendo necessrio ir a
vrios pontos de compra de produtos, como na quitanda, mercearia,
padaria, peixaria, aougue, emprio, bazar e outros. Mas, assim como
os shopping, estes estabelecimentos ocasionam mudanas no espao
urbano, provocando impactos negativos, seja provocando congestio-
namento nas ruas prximas, seja contribuindo para o desaparecimen-
to dos pequenos comrcios. Leia o texto: Vitria e Londrina lutam pa-
ra impedir instalao do Wal-Mart.

 Quadro 2
 Vitria e Londrina lutam para impedir instalao do Wal-Mart
     Vitria no ES e Londrina no PR tm um propsito em comum: impedir a
 instalao do Wal-Mart.
     Em Vitria a Cmara de Vereadores, o Sindicato dos Empregados no
 Comrcio, a Cmara de Dirigentes Lojistas, lderes comunitrios e religio-
 sos esto mobilizados para evitar que o Wal-Mart construa uma megalo-
 ja na capital capixaba.
     Segundo o Sindicato dos Comercirios do ES, cada 450 empregos di-
 retos gerados pelo Wal-Mart causam o desemprego de 1.500 trabalhado-
 res de pequenos negcios que acabam fechando.
     Londrina tambm luta para barrar a entrada do Wal-Mart e sua ao
 predatria na cidade. A Prefeitura acionou a justia para conseguir a de-
 sapropriao do terreno comprado pela rede e construir no local um tea-
 tro em vez de um hipermercado.
     Pelos clculos da Prefeitura, cada emprego gerado pelo Wal-Mart le-
 va 5 trabalhadores ao desemprego.
  http://www.rel-uita.org/ 2004.


   No foram somente os locais de consumo que se modificaram, os
produtos e as necessidades das pessoas tambm. Associada  vida ur-
bana, a famlia se modifica, ficando menor ou assumindo configura-
es diferentes. Assim, a quantidade de produtos a comprar se modifi-
ca  para famlias menores, pores menores so necessrias.



                      ATIVIDADE

      Voc j identificou os diferentes tamanhos de embalagens para um mesmo tipo de produto? Ento
 visite um supermercado. Pode ser um grande hipermercado ou o mercado perto de sua casa. Verifique,
 por exemplo, diferentes tamanhos dos pacotes e/ou caixas de arroz. Faa o mesmo com outros produ-
 tos: macarro, bolachas, caf. Qual a razo para tal diversidade?



                                                                              AGentesevnoShopping? 169
       EnsinoMdio

                            As mulheres, ou a me de famlia, passam a trabalhar fora. No h
                         mais tempo para preparar elaboradas refeies em casa, compra-se
                         produtos congelados ou semi-prontos. Identifique a diversidade destes
                         produtos e quais suas origens (onde foram produzidos).
                            Os meios de comunicao de massa, como a televiso, (produto que
                         pode ser comprado em um hipermercado), invadem os lares e, atravs
                         da publicidade, criam necessidades. Lembre-se disso quando for com-
                         prar o ltimo lanamento de bolachas. Procure no supermercado qual
                         so os novos lanamentos de produtos e procure informaes sobre o
                         que eles, de fato, tm de novo em relao aos seus antecessores.
                            A indstria, buscando maiores ganhos, gera uma grande diversida-
                         de de produtos, para diferentes consumidores. Isto sem falar do am-
                         plo domnio de algumas empresas sobre algumas linhas de produtos.
                         Observe a quantidade de tipos de shampoo. Quem os fabrica? Verifi-
                         que tambm quais so os fabricantes das diferentes pasta-de-dentes e
                         sabo em p no Brasil.
                            Embora a expanso do supermercado no Brasil esteja associada ao
                         automvel, a escolha do ponto (o local onde est localizada a loja) 
                         apontada pelas empresas do setor como importante para o bom de-
                         sempenho do negcio. Isto faz com que grandes empresas disputem
                         pontos, provocando um aumento do valor da terra urbana.
                            A escolha do ponto demanda um levantamento scio-econmico
                         da regio alvo onde o estabelecimento comercial pretende se instalar.
                         Entre os fatores analisados esto: densidade demogrfica, a renda fa-
                         miliar e o acesso ao local. Por que estes fatores so importantes para
                         definir o melhor ponto?
                            Os supermercados e shoppings centers tm ligaes com as mudanas
                         no espao urbano, mas tambm tm gerado mudanas culturais na po-
                         pulao, pois geram novos costumes. Dentre estas mudanas culturais,
                         muitas delas importadas, vamos discutir um pouco sobre os fast food.

                                Fast Food, em Shopping - Curitiba, PR




                                                             Fonte: Gisele Zambone  acervo particular.


170 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                     Geografia

    Assim como shopping center, a expresso fast food tambm  um
estrangeirismo. E tambm, como vimos no caso dos shoppings centers,
o fast food est associado s mudanas do modo de vida urbano.
    As grandes distncias a per-
correr entre casa e trabalho, nas
                                                                 No vamos questionar aqui a qua-
grandes cidades, dificultam ou
                                                            lidade dos alimentos, mas fica uma di-
mesmo impedem que as pesso-
                                                            ca: Assista ao documentrio Super Size
as voltem para casa para almo-
                                                            Me - A Dieta do Palhao. O Documen-
ar. Isto imps aos trabalhado-
                                                            trio enfoca o problema da obesidade
res destas cidades a necessidade
                                                            nos Estados Unidos de maneira irreve-
de consumir refeies rpidas.
                                                            rente. O diretor  Morgan Spurlock.
Para atender a esta exigncia
os fast foods parecem ser per-  www.prosieben.de/
feitos, no  mesmo?
    No Brasil o fast food se consolida na dcada de 1980, inicialmen-
te atravs de redes internacionais, principalmente norte-americanas,
que adotavam o esquema de franchising. Mas logo comearam a sur-
gir empresas nacionais com este formato de atendimento. Alm do for-
mato do atendimento, os fast food trazem consigo um tipo de produto
que  igual em todos os pontos de vendas da rede. A empresa franque-
adora  quem determina quem vai consumir (quem so os potenciais
clientes daquela loja), como vai consumir (disposio da loja, cores,
mveis, etc.), como vai manipul-lo (como produzir e quem vai for-
necer os produtos), tudo isto para manter a homogeneidade da mar-
ca. Quando se vai a uma rede de fast food, no importa o local que ela
esteja, a sensao visual e gustativa deve ser a mesma. Isto  uma das
marcas da tal globalizao.

 Quadro 3
     Adolescentes globais
       Os teens, atualmente, formam um enorme grupo mundial, que so alimentados pelas informaes
 trazidas pela TV e pela Internet, e com isso esto cada vez mais parecidos. Apesar de existirem diferen-
 as culturais entre alguns pases, os adolescentes ao redor do mundo formam hoje a primeira gerao
 com a mesma cabea, um exrcito vestido com as mesmas marcas de jeans e camiseta, que conso-
 me os mesmos refrigerantes, fast food e aparelhos eletrnicos. Para essa gerao os alimentos indus-
 trializados esto sistematicamente presentes, pois as propagandas, atravs da TV, foram criando no-
 vos hbitos de consumo.
  A PROLIFeRAO DO "GOSTO GLOBAL" NO BRASIL. Silvia Ortigoza.
  Disponvel em: www.rc.unesp.br/igce/planejamento/necc/Artigo%20Silvia%20GeOuSP.htm
    Voc concorda com a autora? Voc participa deste mundo citado por ela? Qual a sua opinio
 quanto a influncia da TV sobre o modo de vida das pessoas?




                                                                                       AGentesevnoShopping? 171
       EnsinoMdio

                                  Este tipo de estabelecimento comercial no tem como clientes mais
                              fiis os ocupados trabalhadores das grandes cidades, nem se encontram
                              somente nas grandes cidades. Sobre a sua clientela, leia o quadro Ado-
                              lescentes Globais. Quanto a sua disposio territorial, estas se encontram
                              espalhadas principalmente pelas grandes e mdias cidades, mas os tipo
                              de produtos vendidos se espalham pelos mais diversos municpios brasi-
                              leiros. Como afirma a pesquisadora Silvia Ortigoza (2005),
                                     "Ele aparece tambm em outras cidades (mesmo quando no  necessrio),
                                     como signo da participao no mundo global, moderno, onde a velocidade
                                     est presente. O fast food, nas metrpoles, faz parte do `cotidiano', nas cida-
                                     des menores ele representa a `festa'. De um modo ou de outro, ele exerce
                                     seu fascnio, pois enquanto uns vem nessa `forma de comer' uma necessi-
                                     dade, outros encontram nela prazer, realizao, lazer".
                                 No municpio onde voc mora existem redes de fast food? Elas so
                              necessrias para a alimentao dos trabalhadores, como foi apontado
                              ou, como a autora acima afirma, representam a `festa'?



                     PESQUISA

         Ao longo do texto apareceram vrias palavras que so estrangeirismos. Liste-as e aponte que ou-
     tras palavras, utilizadas em nosso dia-a-dia, tambm so estrangeirismos.




                     ATIVIDADE

          Somente a lngua recebeu influncia estrangeira? O que mais compe nosso dia-a-dia que sofreu esta
     influncia? O estrangeirismo  um recurso de linguagem utilizado para atrair consumidores? Por qu?




                                 GlOSSRIO
                                  Lojas-ncora: correspondem s grandes lojas, que tm clientes cativos,
                                  que por si s atraem pblico, como exemplo a C&A, Casa e Vdeo, Casas
                                  Bahia, Renner e Lojas Americanas.
                                  Lojas-satlite: tambm h as que so lojas de sucesso, mas menores,
                                  em geral, estas lojas precisam mais do shopping, do que o contrrio.




172 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                        Geografia

 RefernciasBibliogrficas
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 Boletim Paulista de Geografia. no 66, pp.29-48.1988.
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 ObrasConsultadas
 BAUDRILLARD, J A. Sociedade de Consumo. Lisboa: Edies 70, 1991.
 GOTTDIENER, M. A Produo Social do Espao Urbano. Trad. G.G.
 Souza. So Paulo: EDUSP, 1993.


 DocumentosConsultadosOnlInE
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 Disponvel em: www.igeo.uerj.br/VICBG-2004/Eixo1/E1_119.htm#_edn1.
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                                                                          AGentesevnoShopping? 173
       EnsinoMdio




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                                                                                                                Geografia




                                                                                                        11
                                                                                NS DA REDE
                                                                                 Gisele Zambone1, Leda maria Corra moura2



                                                                                   uais so as redes que envol-
                                                                                   vem estas pessoas?
                                                                                   Como estas redes as amarram?
                                                                                 Voc consegue enxerg-las na
                                                                                paisagem?




                                                              Figura 1
                                                            Fonte: www.sxc.hu




Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
1


Colgio estadual euzbio da mota - Curitiba - PR
2




                                                                                                           nsdaRede 175
       EnsinoMdio

                           Oqueumarede?
                             O fato de um animal "cair" numa rede significa, geralmente, que ele foi
                         capturado, caado ou aprisionado. O caador, quando trabalha a servio
                         da indstria, participa da "rede" de explorao deste animal e/ou de suas
                         qualidades, visando lucro. Tambm participam, embora de forma diferen-
                         te, aqueles que consomem os "produtos" derivados daquele animal.
                             Pense num carrinho de supermercado carregado com as compras
                         do ms. Em quantas redes ele pode estar envolvido?
                             As pessoas da figura 1 no esto envolvidas por nenhuma rede/teia
                         material, visvel. Mas isso no quer dizer que elas no sejam, de certa
                         forma, "prisioneiras". Mas afinal, de que natureza  a rede/teia que en-
                         volve/aprisiona o ser humano?
                             Antes de nos apressarmos na resposta desta questo, vamos ler al-
                         gumas definies de rede contidas no dicionrio.

                               REDE: 1. Entrelaado de fios (de linho, algodo, fibras artificiais ou sin-
                          tticas) cordes, arames, etc., formando uma espcie de tecido de malha
                          aberto, composto em losangos ou em quadrados de diversos tamanhos. 2.
                          Artefato de malhas largas, usado para apanhar peixes, aves, borboletas etc.
                          3. Tela de arame usada para proteo, resguardo (colocou na janela uma re-
                          de contra insetos). 4. Objetos entrecruzados quaisquer. Conjunto de estra-
                          das, tubos, fios, canais etc. que se entrecruzam. 5. Conjunto de pontos que
                          se comunicam entre si. 6. Conjunto de pessoas ou estabelecimentos que
                          mantm contato entre si, geralmente organizadas e sob um nico coman-
                          do. 7. Sistema constitudo pela interligao de dois ou mais computadores e
                          seus perifricos, com o objetivo de comunicao, compartilhamento e inter-
                          cmbio de dados. 8. Rdio, TV grupo de emissoras associadas ou afiliadas
                          que transmitem, no todo ou em parte, a mesma programao, cadeia.
                           (Adaptado de: HOuAISS, 2001, p. 2406)


                             Voc j deve ter notado que as pessoas da figura 1 esto envolvi-
                         das por mais de uma rede. Ento, vamos tentar identificar as diversas
                         redes que envolvem tanto a elas como a quase todos ns por meio do
                         seguinte exerccio:
                             Listem, em equipe, os objetos que vocs tm em casa e que possi-
                         bilitam suas conexes com o mundo. Estas conexes devem ser enten-
                         didas de maneira ampla, desde a relao com o grupo social mais res-
                         trito (famlia, amigos, professores, namorados(as), vizinhos), at com
                         as coisas que acontecem no mundo.
                             Estes objetos que vocs listaram so a parte da teia (a materialidade
                         dela) que alcana vocs nas suas casas, nos seus cotidianos. Para esta-
                         belecer a sua conexo com o mundo, os "fios" dessa teia alongam-se
                         por todo o planeta, amarrados por milhares de ns.

176 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia


    Esses fios esto, necessariamente, materializados no espao geogr-
fico? Podemos v-los? Tocar neles?



                ATIVIDADE

    Tente descrever a trajetria do fio da rede que liga um dos objetos que voc listou, desde a sua
 casa (ou da sua mo) at um pas distante qualquer.  possvel fazer esse exerccio?
     Voc consegue identificar que tipo de rede  essa? Que nome voc daria a ela?



    Muito bem, uma das redes que envolvem as pessoas da figura 1 j
conseguimos identificar. Mas, ser que existem outras?
    Vamos refletir juntos sobre outros tipos de rede. Para isso, nos uti-
lizaremos da linguagem potica para guiar nossa reflexo.


                 Eu, Etiqueta
                 Em minha cala est grudado um nome
                 que no  o meu de batismo ou de cartrio
                 um nome...estranho.
                 Meu bluso traz lembrete de bebida
                 que jamais pus na boca, nesta vida.
                 Em minha camiseta, a marca de cigarro
                 que no fumo, at hoje no fumei
                 [...]
                 Com que inocncia demito-me de ser
                 eu que antes era e me sabia,
                 to diverso de outros, to mim-mesmo
                 ser pensante, sentinte e solidrio.
                 [...]
                 Onde terei jogado fora
                 meu gosto e capacidade de escolher,
                 minhas idiossincracias to pessoais,
                 [...]
                 Por me ostentar assim , to orgulhoso
                 de ser no eu, mas artigo industrial,
                 peo que meu nome retifiquem.
                 J no me convm o ttulo de homem,
                 meu nome novo  coisa.
                 Eu sou a coisa, coisamente.
                  (Carlos Drummond de Andrade. O corpo.
                  Rio de Janeiro, Record, 1984 p. 85-87.).



                                                                                        nsdaRede 177
       EnsinoMdio

                                   Leia os trechos da poesia "Eu, Etiqueta", de Carlos Drumond de An-
                               drade. Voc pode acessar os sites http://www.minerva.uevora.pt/pu-
                               blicar/etiquetas/poema.htm ou http://www.alavip.com.br/curiosida-
                               des_euetiqueta.htm e ler o poema na ntegra.
                                   A rede dos sentidos, no texto de Drummond, aponta para um sen-
                               timento e para uma transformao do eu-lrico (o narrador do poema).
                               Voc  capaz de identificar que sentimento e que transformao  essa?



                     DEBATE

          Voc j se sentiu angustiado alguma vez por ser pressionado a fazer parte (uso) desta rede? Sentiu-se
     infeliz por no ter acesso a coisas que ela oferece e isso lhe custou no ser includo em algum grupo so-
     cial do qual gostaria de participar? Discuta estas questes com os colegas de classe. Leia mais sobre es-
     ta problemtica no Folhas "Dinheiro traz felicidade?".




                                   A poesia de Drummond faz uma crtica a comportamentos que,
                               na maior parte do tempo, no so problematizados pelas pessoas. Ao
                               contrrio, participar das situaes que a poesia descreve, muitas ve-
                               zes, nos  imposto como condio para estabelecer comunicao com
                               pessoas com as quais desejamos nos relacionar socialmente (fazer par-
                               te da tribo). Alguns de ns, geralmente aqueles que se encantam com
                               tudo isso, valorizam tanto os comportamentos questionados na poesia,
                               quanto o consumo exagerado a que ele remete e no se sentem inco-
                               modados por estarem atados a esta rede.
                                   Que relaes podem ser estabelecidas entre a rede presente na po-
                               esia de Drummond e aquela da lista de objetos que vocs organizaram
                               anteriormente? O que estas duas redes tm em comum e o que elas
                               tm de diferente?
                                   Voc sabia que a palavra texto tem sua origem na idia de rede,
                               de tessitura de tecido? Veja algumas das definies encontradas no
                               dicionrio:

                                     Vocabulrio: texto (etimologia latina)  narrativa, exposio, tecer, fazer te-
                                 cido, entranar, entrelaar, construir sobrepondo ou entrelaando, (...) compor
                                 ou organizar o pensamento em obra escrita ou declamada...
                                  (HOuAISS, 2001, p. 2713).




178 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                              Geografia

    Por meio das definies apresentadas, voc pde perceber que
um texto tambm  uma rede e pode ter vrias formas (escrita, fa-
lada, imagem, desenho, etc.).
    Que relaes podemos estabelecer entre as reflexes feitas at ago-
ra sobre a idia de rede e o ditado popular "Caiu na rede,  peixe"?


  Oslugaresparticipandoderedes
   At agora nosso raciocnio, para a compreenso das redes que
envolvem as pessoas da figura, est se desenvolvendo por meio de
objetos de uso pessoal, domstico e cotidiano. No entanto, muitos
outros objetos, maiores, de uso comum da sociedade  qual perten-
cemos (ou usado apenas por parte dela) tambm participam da tra-
ma dessa grande rede. Quais so eles? Vamos pesquisar juntos!



               PESQUISA

     Observe no lugar onde voc mora. Que construes da engenharia (objetos) permitem a comu-
 nicao deste lugar com outros espaos da cidade, do estado, do pas, do mundo? Faa, nova-
 mente com sua equipe, uma lista destes grandes objetos. Com base na lista,  possvel dizer que
 o lugar onde voc mora  bem equipado no que se refere a objetos tcnicos/cientficos? Esses ob-
 jetos facilitam a circulao de produtos/mercadorias, de pessoas e de idias? Como?




  lugaresdiferentes
   Os lugares (produzidos e/ou apropriados pelos grupos sociais) in-         Voc estranhou o uso da pa-
tegram as grandes redes de produo, de circulao e de informao          lavra objeto para referirmo-
de maneira mais ou menos intensa, em funo da presena de obje-            nos a coisas construdas pela
tos tcnicos em seu territrio. Por exemplo, um lugar (pas, estado,        engenharia? Na verdade, es-
cidade, bairro, distrito, etc.) que contenha um aeroporto internacio-       ta palavra caiu nas malhas do
nal (objeto que organiza um tipo de circulao), um grande centro           pensamento geogrfico e foi
universitrio voltado  pesquisa (objeto onde se produz cincia e tec-      apropriada por ele, ganhando
nologia), uma importante estrutura rodoviria, a presena ou acesso          esse novo significado.
a um porto (outro objeto para circulao) e indstrias de tecnologia
de ponta (objeto1 onde acontece a produo)  um lugar-plo, im-
portante n na rede que conecta o global e o local.
   Por outro lado, lugares pouco equipados (por exemplo, peque-
nas cidades em reas de economia fraca, sertes, etc.), embora este-
jam tambm inseridos na relao local-global, participam dela de ma-
neira menos intensa.


                                                                                        nsdaRede 179
       EnsinoMdio



                         PESQUISA

         Observe mais uma vez o lugar onde voc mora e organize uma tabela, classificando os objetos
     tcnicos que ele contm de acordo com sua finalidade. Antes, leia a nota com a definio da expresso
     "objeto tcnico", do ponto de vista da Geografia.

       Objetos tcnicos so todas                                    Nome do lugar
      as "formas-objetos providas               Objetos              Objetos                Objetos
      de um contedo tcnico es-              PRODUO            CIRCULAO          CINCIA/TECNOLOGIA
      pecfico [...] so acrscimos
                                                                                         Por exemplo:
      que as sociedades superim-             Por exemplo:         Por exemplo:
                                                                                          Universidade
      puseram  natureza."                Indstria de cermica, Shopping Center
       SANTOS, m. A natureza do es-                                               Centro de Pesquisa Cientfica,
                                              pisos, azulejos    Centro Comercial
       pao: tcnica e tempo, razo                                                           etc.
       e emoo. So Paulo: Hucitec,
       1996.                                 Complete esta tabela com o nmero de linhas que voc considerar
                                          necessrio.



                                         Tecnopolos
                                            Alguns lugares do mundo atual so to equipados, sobretudo com
                                       produo de conhecimentos tecnolgicos e cientficos, que so deno-
                                       minados tecnopolos.
                                            Os tecnopolos podem ser considerados, tambm, ns da rede produti-
                                       va/informativa irradiando para o mundo as novidades tecnolgicas e cien-
                                       tficas que so absorvidas com maior ou menor intensidade pelas pessoas,
                                       em funo de sua origem de classe social e/ou do lugar onde moram.
                                            Vamos pensar concretamente sobre isso. O telefone celular, ho-
                                       je bastante popularizado,  uma "necessidade" criada recentemente
                                       (aproximadamente dez anos). Hoje, ele tornou-se necessidade para
                                       muitos de ns, sobretudo para aqueles que compraram o aparelho e o
                                       incorporaram  organizao de sua vida cotidiana. Mais que isso, em-
                                       bora o telefone celular tenha, essencialmente, apenas a funo de co-
                                       municao verbal  distncia e imediata, a cada dia a indstria lana no
                                       mercado modelos que oferecem outros recursos (possibilidade de tirar
                                       e enviar fotografia, filmar, etc.). A propaganda destes produtos, veicu-
                                       lada pela mdia, pretende despertar em ns o desejo de t-los, instigan-
                                       do um consumo desenfreado e irrefletido. (Veja o que acontece com os
                                       espaos tursticos no Folhas "Voc consome ou produz espao?").
                                            As indstrias ligadas  telefonia celular colocam em contato alguns tec-
                                       nopolos situados em diferentes pases do mundo. Desses tecnopolos so
                                       irradiados os produtos (no caso, os aparelhos de telefone celular) que, por
                                       meio das vias de transporte e circulao, chegam ao consumidor.

180 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                                Geografia



    Na Amrica, por exemplo, podemos identificar o Vale do Silcio, na
Califrnia  EUA, como um tecnopolo das indstrias de computadores
e telefonia celular.

 Quadro 1
                               O plo tecnolgico de Campinas
                                                                          Rogrio Cezar de Cerqueira Leite
     Tecnopolos constituem um fenmeno recente, embora abundante. Foi
 apenas em meados da dcada de 60 que se percebeu que algo imprevi-
 svel estava ocorrendo em alguns locais especficos. Em torno de algumas
 universidades, ou instituies de pesquisas, como Stanford, na Califrnia, e
 o Instituto Tecnolgico de Massachusetts, em Boston (Estados Unidos da
 Amrica), eclodiram espontaneamente empresas intensivas em tecnologia,
 aglomerando-se em espaos inadequados.
      Em comeos da dcada de 70 observou-se um outro aspecto ainda mais
 intrigante: grandes empresas europias e japonesas, ou abriram filiais, ou com-
 praram ou se associaram a empresas localizadas nesses locais magicamente
 privilegiados, tais como aquele que veio a ser chamado Vale do Silcio, sem o
 que perderiam em competitividade.
     A razo do sucesso dessas concentraes de empresas intensivas em
 tecnologia, universidades e instituies de pesquisas e desenvolvimento s
 veio a ser desvendada progressivamente...O sucesso do Vale do Silcio e simi-
 lares decorre da proximidade fsica entre as empresas  elas mesmas e entre
 elas  e as instituies de pesquisas e da existncia de mecanismos informais
 de troca de informao. Tudo se passa como se a comunidade tcnica consti-
 tusse um enorme crebro comunitrio. A universidade atua no apenas como
 uma fornecedora de tecnologia, mas, antes de tudo, como uma catalisadora
 para acelerar as trocas entre empresas.
  Folha de So Paulo, 24/09/2000.
  Rogrio Cezar de Cerqueira Leite  professor emrito da unicamp e membro do Conselho editorial da Folha.



    Baseado no texto "Plo tecnolgico de Campinas", defina, com su-
as palavras, o que  um tecnopolo.
    Verifique, em livros didticos de Geografia para o Ensino Mdio e
em dicionrios, como aparecem as definies de tecnopolos e compa-
re com a sua definio, elaborada anteriormente.
    A palavra tecnopolo  formada por dois radicais  tecno e polo. Ela
une as idias presentes nesses radicais para dar significado a uma coi-
sa. Podemos dizer que essa palavra  tecnopolo  pode ser compara-
da com o n de uma rede, n este que une dois fios desta rede, neste
caso as idias de polo (lugar) e de tecnolgico  produtor/irradiador
de inovaes tecnolgicas.


                                                                                                             nsdaRede 181
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                     PESQUISA

        Voc pode navegar nos sites listados abaixo para saber um pouco mais sobre tecnopolos e res-
     ponder as questes.
            www.ub.es/geocrit/sn-69-32.htm
            www.revistafrancabrasil.com.br/apresenta2.php?pag_id=134&edicao=262
            www.estadao.com.br/ext/educacao/resolucoes/fuvest/fuvest-geo.pdf
            orbita.starmedia.com/mundogeografico/texto53.html

               Quais tecnopolos existem na Amrica? Qual  a especialidade produtiva de cada um?
               Quais os tecnopolos que existem na Europa e na sia? O que eles produzem?
               Os lugares onde estes tecnopolos se localizam so grandes metrpoles?
               Que equipamentos (objetos tcnicos) precisam estar contidos no territrio de um lugar para
               que ele se torne um tecnopolo?




                               Omundonofoisempreassim...
                                 H dez anos, a possibilidade de compra de um telefone celular era
                             muito restrita devido ao elevado preo, no apenas do aparelho, co-
                             mo das ligaes. O mesmo podemos dizer dos microcomputadores de
                             uso domstico.
                                  verdade que estes aparelhos ainda so caros para uma grande
                             parcela da sociedade, o que os torna objetos de consumo de alguns,
                             mas no de todos. Devemos considerar, cuidadosamente, que a maio-
                             ria da populao mundial vive alheia, excluda, impedida social e eco-
                             nomicamente do acesso a esses objetos. No entanto, parte daqueles
                             que no os possuem sabem que trata-se de objetos importantes para
                             o mundo atual, e algumas dessas pessoas tm na escola o nico meio
                             de acesso a eles.
                                 Isso foi assim com todos os objetos tcnicos criados pelo avano da
                             cincia e da tecnologia, ao longo do desenvolvimento do sistema ca-
                             pitalista de produo. Eles surgiram como novidade, transformaram-se
                             em necessidade (para quase todos), criaram redes envolvendo parce-
                             las cada vez maiores do planeta e, depois de algum tempo de seu sur-
                             gimento, tornaram-se objetos consumidos por um grande nmero de
                             pessoas. Observe a tabela 1 a seguir.



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                                                                                          Geografia

TABELA 1
     Tempo que levou para ser usado por 50 milhes de pessoas
          1873                   Eletricidade                46 anos
          1876                    Telefone                   35 anos
          1886                   Automvel                   55 anos
          1906                     Rdio                     22 anos
          1926                    Televiso                  26 anos
          1953               Forno microondas                30 anos
          1975              Computador pessoal               16 anos
          1983                     Celular                   13 anos
          1993                     Internet                   4 anos
                                                       Fonte: Nunomura, 1998, p. 36.


  Perodoshistricos/tcnicosdocapitalismo
    Essa coisa de vivermos em rede , portanto, algo histrico, desen-
volvido historicamente, o que quer dizer que no foi sempre assim. Pa-
ra voc, aluno, pode ficar difcil imaginar o mundo de uma forma dife-
rente, afinal a sua gerao  filha da globalizao. Por isso, vale a pena
pensar, ainda que rapidamente, sobre isso.
    Desde sua origem, o capitalismo desenvolveu-se num movimento
de expanso que pretendia alcanar o espao global. Essa  uma ca-
racterstica e uma necessidade do modo de produo capitalista e con-
dio para sua "sobrevivncia".
    No entanto, durante muitos sculos, as pesquisas e criaes tecno-
lgicas e industriais de um pas eram consideradas de domnio daque-
le pas e se desenvolviam em seu territrio. Aos outros pases, que no
sabiam produzir aqueles objetos (no tinham cincia e tecnologia pa-
ra isso), cabia importar ou permitir que empresas estrangeiras os cons-
trussem. Pense nas primeiras ferrovias construdas no Brasil. Elas fo-
ram obras de empresas inglesas. Os primeiros automveis comprados
por brasileiros vinham dos Estados Unidos da Amrica, transportados
por navios, pois ns no os produzamos.
    Essa situao foi assim at os anos 50 do sculo XX. Depois disso, as
grandes empresas dominadoras de tecnologia comearam a instalar filiais
em territrios de outros pases, fora daquele onde se fixava sua matriz. Foi
nesse momento que o Brasil comeou a receber as filiais das empresas au-
tomobilsticas (Volks, Ford, Fiat, Chevrolet) e, mais tarde, das empresas de
eletro-eletrnico (Sharp, Semp Toshiba, Sanyo, LG, Nokia, Motorola, etc.).
    Sobre a indstria voc pode ler o Folhas "A indstria j era?". Portanto,
a globalizao como ns a conhecemos hoje, teve seu impulso mais for-
te depois da Segunda Guerra Mundial e intensificou-se muito mais a partir
da dcada de 1990, quando a telefonia celular e os microcomputadores do-
msticos "conectaram", alguns de ns, com o mundo todo, em tempo real.


                                                                                       nsdaRede 183
       EnsinoMdio



                     PESQUISA

         Pesquise e reflita: Por que o texto afirma que "alguns de ns" e no todos participam da conexo
     global? Quem so os excludos? Por que so excludos?



                                 Esta tecnologia, discutida anteriormente, transformou as noes de
                             tempo e espao. Alguns estudiosos dizem que as distncias (teoricamen-
                             te) se encurtaram e o tempo tornou-se instantneo/real. Isso quer dizer
                             que, alm de nos locomovermos muito mais rapidamente (avio, trem ba-
                             la), sabemos instantaneamente (ao vivo pela televiso, rdio e internet)
                             dos fatos que acontecem em qualquer lugar do globo. As redes de infor-
                             mao e de circulao fazem parte da dinmica de nossas vidas, permitem
                             circular idias, pessoas, mercadorias, capitais, de maneira real e virtual.



                     PESQUISA

         Que mudanas (para melhor e para pior) esta "velocidade" conquistada pela tecnologia, que encurta
     distncias e torna o tempo instantneo, trouxe para a vida moderna? E como fica a vida daqueles que
     no podem participar desse novo padro de espao e tempo?
          Diante destas reflexes queremos propor um desafio: pesquise em livros de Sociologia e de Hist-
     ria o significado de aldeia global. Relacione-o com o conceito geogrfico de rede.




                                Masafinal,dopontodevistadageografia,
                                oqueumarede?
                                 As definies e conceituaes se multiplicam, mas pode-se admitir
                             que se enquadram em duas grandes matrizes: a que apenas considera
                             o seu aspecto, a sua realidade material, e uma outra, onde  tambm
                             levado em conta o dado social.
                                 As redes do primeiro tipo so as que se materializam no espao ge-
                             ogrfico. Referem-se a tudo que permite o "transporte de matria, ener-
                             gia ou informao", como estradas, ferrovias, hidrovias, rotas areas, li-
                             nhas de transmisso para telecomunicaes e "seus pontos de acesso ou
                             pontos terminais, seus arcos de transmisso, seus ns de bifurcao ou
                             de comunicao." As redes que levam em conta o social e o poltico so
                             formadas por "pessoas, mensagens e valores" (SANTOS, 1996).


184 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia



                 PESQUISA

     Escolha um dos tecnopolos pesquisados anteriormente e descubra o que ele produz, quais so os
 principais pases consumidores desses produtos e de que tipos de redes ele precisa para materializar a
 malha da qual  um dos principais ns.




                 DEBATE

    Debata com seus colegas sobre as "vantagens e as desvantagens" de manter-se o mais "desco-
 nectado" possvel das redes.




                 PESQUISA

    Escolha um pas que participa menos intensamente das redes e pesquise sobre as limitaes e as
 possibilidades que esta postura traz. Sugesto: Cuba, Angola, Albnia, Nigria, etc.

   Vamos retornar  pergunta inicial. Afinal, quais so as redes que en-
volvem as pessoas da figura 1? De que natureza  cada uma delas?

  RefernciasBibliogrficas
   ANDRADE, C. D. de. Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984.
   HOUAISS, A.; VILLAR, M. Salles. Dicionrio Houaiss da lngua portuguesa.
   Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
   LEITE, R. C. de C. O plo tecnolgico de Campinas. So Paulo: Folha de
   So Paulo, 24 set. 2000.
   NUNOMURA, E. O sucesso meterico da Internet. Veja, So Paulo, v. 31, no
   30, p. 36, 29 jul. 1998.
   SANTOS, M. A natureza do espao: tcnica e tempo, razo e emoo. So
   Paulo: Hucitec, 1996.

  ObrasConsultadas
   IANNI, O. Era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1996.

  DocumentosConsultadosOnlInE
   www1.folha.uol.com.br/fsp/vale/vl2409200033.htm. Acesso em: 05 de mar.
   de 2006.
   www.sxc.hu. Acesso em: 05 de mar. de 2006.

                                                                                          nsdaRede 185
       EnsinoMdio




186 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                             Geografia




                                                                                      12
                                                              DINHEIRO TRAZ
                                                                FELICIDADE?
                                                                                       Gisele Zambone1



                                                                    m nossa sociedade a felicida-
                                                                    de est muito ligada  idia
                                                                  de consumir, possuir bens e, a
                                                                     prpria idia de realizao in-
                                                                     dividual est "contaminada"
                                                                     por e para isso. No  sem
                                                                 motivo que esta sociedade tam-
                                                           bm  chamada de "sociedade do con-
                                                           sumo". Como o dinheiro e o consumo
                                                           organizam o espao geogrfico? O que
                                                            dinheiro? E o que  felicidade?




Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
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                                                                               DinheiroTrazFelicidade? 187
        EnsinoMdio

                                           Um ditado popular diz que dinheiro no traz felicidade. Felicidade
                                        um conceito complexo, de difcil definio. Que tal tentar defini-la?
                                           Talvez voc tenha uma definio prpria do que  felicidade. E di-
                                       nheiro, o que ? Logo discutiremos isso, agora vamos falar um pouco
                                       da felicidade.
                                           Em nossa sociedade a felicidade est muito ligada  idia de consu-
                                       mir, possuir bens e, a prpria idia de realizao individual est "con-
                                       taminada" para isso. No  sem motivo que esta sociedade tambm 
                                       chamada de "sociedade do consumo". Esta sociedade despontou prin-
                                       cipalmente aps a II Guerra, perodo no qual a sociedade passou por
                                       importantes mudanas comportamentais. Voc saberia dizer quais fo-
                                       ram estas mudanas, e por que aconteceram?
                                           A produo industrial, que neste perodo alcanou grande desen-
                                       volvimento, apresentava mecanismos para produzir em grande esca-
                                       la, o que permitia levar aos mercados uma grande quantidade de pro-
                                       dutos com menores preos. Uma grande parcela da populao pode,
                                       ento, consumir estes produtos (veja no Folhas "A gente se v no sho-
                                       pping?", sobre a geladeira). Produzindo em larga escala reduziam o
                                       custo, o que permitia s indstrias lucrar mais.


                          ATIVIDADE

         Mas qual  o problema de uma sociedade onde a felicidade est ligada ao ter, ao consumir? Com-
     prar  to bom, voc no acha? Pois  exatamente assim que se quer que voc pense. Esta  a ideo-
     logia do mercado. Mas o que  ideologia? Veja no quadro 1 o texto de Marilena Chau (1982) e oua a
     msica "Ideologia", do Cazuza, e depois responda a questo do pargrafo a seguir.



    Quadro 1                                           Na ideologia do mercado, que  dominante na atualida-
    Segundo CHAuI (1982: 113), ideologia          de, o indivduo  classificado pela marca da cala que veste,
    o conjunto lgico e sistemtico e coerente     pelo celular que exibe, pelo cargo que ocupa, pelos lugares
    de representaes (idias e valores) e de      que freqenta; assim, os objetos ou as coisas tm um "va-
    normas ou regras (de conduta) que indi-        lor" maior do que o ser humano. Mas, ao mesmo tempo, es-
    cam e prescrevem aos membros da so-            quecemos que toda mercadoria  fruto do trabalho humano,
    ciedade o que devem pensar, o que de-          e que todo trabalho humano  necessariamente um empre-
    vem valorizar, o que devem sentir, o que
                                                   endimento coletivo. A pessoa  aquilo que ela consome, ou
    devem fazer e como devem fazer... a fun-
                                                   compra. E quem no tem dinheiro, no pode ser feliz?
    o da ideologia  a de apagar as diferen-
    as, como as de classes, e de fornecer aos         O filsofo Aristteles, sculo IV a.C., ligava a felicidade 
    membros da sociedade o sentimento da           moralidade, e assim somente o ser humano virtuoso pode-
    identidade social, encontrando certos refe-    ria ser feliz. Leia no quadro 2 o que Aristteles considerava
    renciais identificadores de todos e para to-   necessrio para ser feliz. Se voc seguisse as orientaes de
    dos, como por exemplo a Humanidade, a          Aristteles, voc seria feliz? Reflita e debata com seus cole-
    Liberdade, a Igualdade, a Nao.               gas sobre isto.

188 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                      Geografia

    A felicidade, alis,  um bem propriamente humano, que s pode
ser adquirida em funo de recursos humanos, e s tem sentido no an-
damento da vida humana. O que mais caracteriza a felicidade  o sen-
timento de satisfao.
    A felicidade na contemporaneidade tem sido associada e reduzi-               Quadro 2
da s conquistas materiais. Isto faz o indivduo a ter uma postura que          "Alguns consideram que basta
o leva a trabalhar para manter e expor um nvel de consumo. O la-               uma certa quantidade de vir-
zer, que poderia trazer a felicidade, tambm passa a ser uma mercado-           tude, mas buscam uma abun-
ria. Por exemplo, no basta jogar bola,  preciso jogar vestindo a rou-         dncia ilimitada de riqueza
pa da "marca tal" e jogando na escola de futebol "X". O que importa            e patrimnio, poder, glria e
consumir, no havendo preocupao com as conseqncias (ambien-                 bens semelhantes. Alm dis-
tais e oramentrias) de suas escolhas. Ou as prprias preocupaes             so,  fcil responder a tal po-
foram induzidas pelo "marketing", pela "propaganda" e no refletem              sio com a prova irrefutvel
uma preocupao sobre o ato de consumir (o que voc entende por                 dos fatos. Com efeito, vemos
"ato de consumir"?). O indivduo " reduzido ao papel de consumidor,            que no se adquirem e con-
sendo cobrado por uma espcie de obrigao moral e cvica de consu-             servam virtudes atravs de
                                                                                bens exteriores, mas bens ex-
mir". (CONSumO SuSTeNTVeL, p.17).
                                                                                teriores mediante virtudes. Ve-
    " doce estar na moda, ainda que a moda seja negar minha identi-            mos tambm que a vida feliz,
dade", sobre este tema, leia a poesia "Eu, Etiqueta", no Folhas "Ns da         seja entendida como beno
rede" e aponte os trechos onde a preocupao com o indivduo con-               ou como virtude (ou mesmo
sumidor aparece. Debata isto com os colegas.                                    como ambas),  apangio de
    A maior parte dos problemas ambientais atuais est ligada ao con-           homens que se destacam pe-
sumo. A poluio (atmosfrica, hdrica), a extrao de recursos natu-           lo carter e pela inteligncia.
rais para produzir grandes quantidades de produtos, o descarte do li-           mesmo que tenham poucos
xo de milhes de toneladas materiais, enfim, tudo est associado ao             bens exteriores"
                                                                                 Aristteles, p.481
consumo. E nem entramos em consideraes quanto  quantidade de
produtos suprfluos criados para deixar a mercadoria mais atraente. A
prpria idia de reciclar  uma ao sem dvida importante e que pre-
cisa ser expandida  acaba sendo mais um elemento que ajuda a "di-
minuir a culpa" pelo consumo ao invs de provocar questionamentos
sobre o impacto e a necessidade do consumo.
    Voc pode apontar outros problemas? Assim, criamos uma socieda-
de de consumo ou consumista? Mais feliz ou menos feliz?



                ATIVIDADE

     Agora que voc j pensou sobre a felicidade, que tal saber o que as outras pessoas pensam so-
 bre isto. Faa entrevistas com pessoas de diferentes nveis cultural, econmico, tnico, religioso so-
 bre o que  a felicidade para elas e compare suas definies. Ser feliz tem algo em comum? Qual 
 sua concluso?




                                                                               DinheiroTrazFelicidade? 189
       EnsinoMdio

                                 Mas, voltemos ao dinheiro. Dinheiro  o meio usado na troca de
                             bens, para comprar coisas. Pode vir na forma de moedas ou cdulas.
                              usado na compra de bens ou servios, no pagamento da fora de
                             trabalho ou nas demais transaes financeiras. Mas no apenas para
                             isso.  algo que faz parte de nossa vida de tal maneira que nem sem-
                             pre nos perguntamos o que , como surgiu, para que serve e como
                             o usamos. Voc usa com maior freqncia que tipo de dinheiro pa-
                             ra pagar suas compras?
                                 O dinheiro  uma decorrncia das atividades e das relaes eco-
                             nmicas, ele  indispensvel na vida moderna e termina se impon-
                             do como elemento de troca geral de todas as coisas que so objetos
                             da comercializao.


                     ATIVIDADE

         Que tipos de coisas ou produtos so comercializados? Os bens comercializados hoje so diferen-
     tes dos que eram comercializados no passado? Qual a ligao disto com o espao geogrfico ou com
     a disciplina de geografia?



                                O dinheiro  um dos principais elementos para a transformao do
                             espao. Sem dinheiro no  possvel construir empresas, pagar salrios,
                             desenvolver infraestrutras. Nos lugares onde no h dinheiro, no h de-
                             senvolvimento. A falta de dinheiro (riqueza) gera distores e diferencia-
                             es no espao, tanto nos pases centrais como nos pases perifricos.
                                Milton Santos (2002) chama de "luminosos" aqueles espaos onde
                             existem condies para se acumular mais dinheiro. Isto se d porque
                             o territrio acumula uma maior quantidade de tecnologias e informa-
                             es, o que o torna mais atrativo para as atividades mais desenvolvidas
                             tecnologicamente e financeiramente. Em oposio, chama de "opacos"
                             os espaos onde tais caractersticas esto ausentes, ou seja, territrios
                             que, por no possurem certo desenvolvimento, no conseguem atrair
                             para si empresas que necessitam de tais condies, ficando desta for-
                             ma fora do processo de desenvolvimento.


                     ATIVIDADE

         Voc poderia apontar no mundo e no Brasil onde encontramos territrios opacos e luminosos? Lo-
     calize-os em um mapa e crie uma legenda identificando-os.




190 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                 Geografia

    Com a globalizao, a ligao econmica entre os lugares aumen-
tou. Neste processo h troca mais intensa de mercadorias e dinheiro.
Mas no se pode entender a globalizao sem que atentemos para as-
pectos alm da circulao de mercadorias ou dos sofisticados proces-
sos logsticos de produo (onde produzir, como produzir, quanto pro-
duzir, como comercializar). A globalizao permitiu a instalao de um
dinheiro virtual ou fluido (assim chamado porque entra e sai dos pa-
ses com facilidade, relativamente invisvel, praticamente sem ser nota-
do  por exemplo, as transaes financeiras das bolsas de valores). Ve-
ja mais sobre isso no quadro 3.
    Neste processo, para Milton Santos (2002), o dinheiro assume duas
lgicas: o dinheiro das empresas, responsveis pelo setor da produo,
necessrio para o funcionamento e expanso de cada firma em parti-
cular; e o dinheiro dos governos financeiros globais  FMI (Fundo Mo-
netrio Internacional), BID (Banco Interamericano de Desenvolvimen-
to).  por intermdio deles que as finanas se do como inteligncia
global e atuam no mundo todo.

      Quadro 3
     Bolsas de valores so locais onde so negociados valores mobilirios
 (aes ou debntures) sobre a fiscalizao dos corretores e autoridades.
 A aes so fraes de uma propriedade  empresa, indstria, etc.  que
 so vendidas na bolsa de valores; se a empresa obtiver lucro, geralmente
 o dono daquela frao tambm obtm. As bolsas de valores esto presen-
 tes principalmente nas grandes cidades, locais onde as grandes empresas
 tm sua sede e/ou locais onde h compradores para estas aes. Dada a
 tecnologia existente, hoje  possvel comprar aes em qualquer bolsa de
 valores do mundo e a qualquer hora do dia, pois ao redor do mundo tem
 sempre uma bolsa de valores aberta, negociando aes. Para saber mais
 detalhes sobre este assunto, consulte a pgina da Bolsa de Valores do Pa-
 ran, ou da Bolsa de Valores do Estado de So Paulo  Bovespa.
  Bolsa de Valores de So Paulo e a pgina http://www.dhnet.com.br/bolsas.htm




                      ATIVIDADE

     Tendo como base o planisfrio com fuso horrio e as bolsa de valores de So Paulo, Londres, T-
 quio, Nova York, Hong Kong, Cingapura e Tailndia, responda:
    O investidor que estiver em Cuiab  MT, s 20h de um domingo, poderia comprar aes negocia-
 das na bolsa de Nova York? Em que outras bolsas de valores do mundo ele poderia negociar?
     E o investidor que estiver em Londres, s 21h de uma sexta-feira, e quiser investir seu dinheiro an-
 tes do final de semana? Em que bolsa de valores do mundo poder faz-lo?



                                                                                DinheiroTrazFelicidade? 191
       EnsinoMdio

                                Antes o territrio (aqui entendido como o pas) continha e regulava
                            o dinheiro. E o dinheiro era tambm um elemento do territrio (o franco
                            francs, o marco alemo, a lira italiana, o dlar americano, o peso argen-
                            tino, o escudo de Portugal, etc.). Hoje, sob influncia do dinheiro global,
                            a moeda local, como o Real no Brasil, escapa a toda regulao interna e
                            passa a depender das decises e dos julgamentos da inteligncia global,
                            que geram impacto sobre a moeda local e podem mesmo impedir que
                            medidas internas de controle monetrio tenham sucesso.
                                At o comeo do sculo XX o dinheiro consistia em moedas de ou-
                            ro e prata largamente aceitas entre os pases. Estes pases fixavam o
                            poder de troca (taxa de cmbio) com base nesta "ncora". Por exem-
                            plo, um "ris" valia dois gramas de ouro.
                                Como "ncoras" foram usados o padro ouro e o sistema de Bretton
                            Woods. Para o primeiro (1870-1914), o grama do ouro era a referncia de
                            cmbio. Para o segundo (final da Segunda Guerra Mundial at 1973), o
                            dlar servia de referncia internacional.
                                As naes que no pudessem manter fixas as taxas de referncia
                            (cmbio) de sua moeda em relao quelas "ncoras" enfrentariam uma
                            crise na troca de seu dinheiro e teriam dificuldades para comprar e ven-
                            der produtos no mercado internacional.
                                Esta forma de cmbio internacional baseada na uniformidade do va-
                            lor entre as diferentes moedas, no resistiu s mudanas ocorridas no ce-
                            nrio econmico mundial a partir dos anos de 1970.


                     PESQUISA

        Pesquise o que  padro ouro e o Sistema de Bretton Woods e porque estes no se mantiveram.


                                 Aps o fim do sistema de Bretton Woods houve uma acentuao da li-
                            berdade de ao dos mercados financeiros que surgiam e a crescente in-
                            tegrao financeira global, que facilitou a entrada e sada de "dinheiros"
                             investimentos financeiros  mais rapidamente. Com isto, a qualquer ins-
                            tabilidade poltica ocorre elevao da taxa de juros, falncias de empre-
                            sas, ou declnio do crescimento da economia, ou ainda a desvalorizao
                            da moeda local (mais reais para comprar a mesma quantidade de dlares).
                            Tudo isso deixa os investidores ansiosos para tirar seu dinheiro do pas. E
                            a, junto com a sada do dinheiro, vo-se empresas e empregos. No so
                            poucos os pases que sofreram crises cambiais (desvalorizao rpida de
                            sua moeda). "A Amrica do Sul sediou as primeiras crises financeiras "mo-
                            dernas" de 1981 a 1983, atingindo duramente o Chile, a Argentina e o Uru-
                            guai. Desde ento, Rssia, Mxico, Tailndia, Indonsia, Malsia e outras
                            naes tm enfrentado desastres econmicos" (Sara Silver, s.d.).
                                 A histria atual est cheia de crises econmicas que comearam em um
                            pas e rapidamente afetaram muitos outros. Um exemplo foi a crise me-


192 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                      Geografia

xicana em 1994 (veja o texto "As razes da crise antecedem os eventos de
1994"). Mas estas crises so reflexos deste dinheiro menos ligado  produ-
o e mais associado  mobilidade,  fluidez, com capacidade de entrar e
sair dos pases em busca das melhores condies de gerar mais dinheiro.
    O capital financeiro  o dinheiro global que produz mais dinheiro
sem produzir bens e servios  no tem pas de origem. Se as possibi-
lidades de ganhos so maiores no Brasil, ele vem para c; se no dia se-
guinte surge uma crise poltica aqui ou um atentado destri uma refi-
naria de petrleo no Iraque, este capital financeiro pode especular que
seus ganhos sero menores, e vende suas aes e vai, por exemplo, pa-
ra a China. Assim no h fixao do capital em obras, empresas que ge-
rem emprego e mercadorias. Os lugares ficam  merc do dinheiro que
vem e vai com rapidez, sem produzir nada ou quase nada.



                       ATIVIDADE

     Ser que esta chamada fluidez do dinheiro afeta sua vida? De que forma? E o lugar onde voc
 vive  afetado positivamente ou negativamente por este dinheiro/investimentos?



 Quadro 4
                                  As razes da crise antecedem os eventos de 1994
                                                                                                Trond Gabrielsen
     No comeo, o Mxico foi bem sucedido em controlar a inflao e de fato ganhou elogios de todo o
 planeta por sua poltica monetria. Sustentava-se largamente que o pas passaria por uma mudana eco-
 nmica paradigmtica atravs da assinatura do North American Free Trade Agreement (NAFTA) e da pro-
 messa de evoluir para uma histria de "unio"  na qual tantos investidores domsticos e estrangeiros po-
 deriam vir a colher benefcios. Como resultado, a economia mexicana comeou a crescer novamente, e
 cresceu a uma taxa anual de 3,1% entre 1989 e 1994. Tanto as exportaes como as importaes de-
 colaram, e o pas tambm experimentou uma entrada massiva de investimento direto externo... De 1991
 a 1994, o estoque de ttulos internacionais no amortizados (no h pagamento dos juros do emprstimo)
 cresceu de 1 bilho para 3,8 bilhes de dlares  tornando o Mxico extremamente vulnervel s flutua-
 es das taxas de juros e aos ataques especulativos  sua moeda. Tornava-se cada vez mais claro aos
 investidores internacionais que o peso estava sobre-valorizado, forando o Banco Central a gastar grande
 parte de suas reservas internacionais (feita em dlar) para manter a moeda atrelada ao dlar.
     Como foi que a crise estourou? Uma vez que as reservas internacionais, que sustentavam o peso,
 caram ao longo de 1994, investidores comearam a temer que o governo mexicano deixasse de sus-
 tentar a paridade do peso em relao ao dlar. Depois da desvalorizao de 20 de dezembro, o peso
 caiu cerca de 50% em uma semana. Corridas massivas aos bancos enfraqueceram a moeda mexica-
 na ainda mais, com severas conseqncias sobre os negcios de infra-estrutura do pas, assim como
 para a populao e em conseqncia, em 1995, o Produto Interno Bruto do Mxico encolheu 7%.
  Adaptado do disponvel em: http://www2.gsb.columbia.edu/ipd/jbankingmXN_ por.html




                                                                                      DinheiroTrazFelicidade? 193
        EnsinoMdio



    Quadro 5
                                          Em determinados momentos, as moedas, at ento aceitas como
                                      tal, perdem a confiana da sociedade em que circulam, como pode
    Chamamos de inflao              se verificar no caso do Mxico j descrito. Quando isto acontece, por
    quando h um aumento ge-
                                      exemplo, gera casos de elevada inflao, levando, muito freqente-
    neralizado dos preos, fa-
                                      mente, a sociedade a eleger outros objetos como moeda ou retomar o
    zendo com que o dinheiro
    perca seu valor de compra.        escambo (troca de bens por outros bens).
    No Brasil a inflao anual, em        Na Rssia, na dcada de 90, o escambo passou a ser usado. Mas o
    1989, chegou a 1630% e            que ocorreu na Rssia neste perodo que levou a esta situao?
    em 1990 em um nico ms               A Rssia, neste perodo, estava em "mudana" do seu sistema eco-
    (maro), em 80%.                  nmico. De 1922 a 1991, ela fez parte da URSS  Unio das Repblicas
    Se em 1o de maro de 1990         Socialistas Soviticas. Esta se formou em 1922, unindo a Rssia, Ucrnia,
    voc tivesse R$ 100,00,           Belarus e o Transcucaso (dividido em 1936 em trs partes, formando os
    qual seria seu poder de com-      territrios da Armnia, do Azerbaijo e da Gergia). Os pases blticos
    pra no final deste ms? e ao      (Letnia, Litunia e Estnia) e a Moldvia foram anexados durante a Se-
    dia, qual era a inflao?         gunda Guerra Mundial. O Cazaquisto, o Quirquisto, o Tadjquisto, o
                                      Turquimenisto e o Uzbequisto j faziam parte da Rssia em 1922.
                                          Usando o mapa "mudo" da ex-URSS, identifique os pases que a
                                      formavam.

          Repblicas que compunham a URSS




           www.en.wikipedia.org/wiki/Republics_of_the_Soviet_union




194 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia



                 PESQUISA

   Neste perodo o sistema poltico e econmico da URSS era o Socialismo. Mas o que  socialis-
 mo? Qual a diferena entre o capitalismo e o socialismo? Que tal uma pesquisa detalhada sobre o
 mundo socialista?


    Na dcada de 80 o regime sovitico, controlado pelo Partido Comunista,
apresentava dificuldades econmicas e polticas. A produo agrcola e in-
dustrial era insuficiente para atender as necessidades da populao, e as fi-
las para conseguir produtos bsicos j faziam parte do cotidiano sovitico.
    Em 1985 assumiu, como secretrio geral do Partido Comunista da
Unio Sovitica (PCUS), Mikhail Gorbatchov. Ele deu incio a um pro-
cesso de reformas que se basearam em duas palavras de ordem: glas-
nost (que significa, em russo, abertura e transparncia) e perestroika
(que significa, em russo, reestruturao).
    A Glasnost tinha como objetivo o abrandamento da censura. Mas o
que  censura? Por que ela pode prejudicar as pessoas e a vida de um
pas? Por que ela prejudicava a populao da URSS?
    A Perestroika buscava introduzir critrios de eficincia na gesto da eco-
nomia, seriamente prejudicada por dcadas de inrcia burocrtica e corrup-
o. Mas o que  corrupo? Por que ela prejudica as pessoas e a vida de
um pas? Por que a economia da URSS apresentava grande burocracia?
    Estas mudanas implementadas pelo governo de Gorbatchov possi-
bilitaram que conflitos polticos, sociais, econmicos, regionais e tnicos,
h muito reprimidos pelo governo autoritrio sovitico, explodissem, ge-
rando uma situao que levou  queda de Gorbatchov e  dissoluo
da Unio Sovitica, ou seja, ao colapso da URSS em 1991. Com o fim da
Unio Sovitica, acabou, de forma definitiva, o regime comunista e ini-
ciou-se a implantao da economia dita de mercado. Uma srie de acon-
tecimentos e decises acabaram levando ao que se denominou "Crise da
Rssia", em 1998, que foi uma das vrias crises financeiras nos anos 90.
Um dos efeitos da crise foi o crescimento da inflao.



                 PESQUISA

    Pesquise sobre as causas destas crises. Voc consegue ver como estas crises se relacionam
 aos temas citados  felicidade, realizao pessoal, dinheiro, moeda, crises financeiras, territrios 
 neste Folhas?




                                                                                 DinheiroTrazFelicidade? 195
       EnsinoMdio

                             Para saber um pouco mais sobre o mundo socialista, assista ao
                         filme "Adeus Lnin!" (veja o quadro 6).
                             E ento? Dinheiro traz felicidade?
                                                               Quadro 6
                                                              O filme "Adeus Lnin!", de Wolfgang Becker, con-
                                                          ta a histria de um jovem da Alemanha Oriental em
                                                          1989. Ele  preso por policiais e sua me sofre um
                                                          ataque cardaco entrando em coma. Alguns meses
                                                          depois, com as Alemanhas Oriental e Ocidental, j
                                                          unidas, ela desperta. O rapaz, tentando evitar que a
                                                          me sofra emoes fortes, procura esconder da me
                                                          o acontecido, evitando o contato com o mundo ca-
                                                          pitalista.
                           www.cinepop.com.br/cartazes/adeuslenin.jpg


                           RefernciasBibliogrficas
                            ARISTTELES. Tratado da poltica. trad: M. de Campos. Lisboa: Europa-
                            Amrica, s/d.
                            CHAUI, M.S. O que  ldeologia. So Paulo: Ed. Brasiliense, 1982.
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                           ObrasConsultadas
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                            Leopoldo: Ed. Unisinos, 2003.
                            SANTOS, M. Por uma outra globalizao: do pensamento  conscincia
                            universal. 12. ed. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2005.
                            SCHAFFER, N. O. et al. Um globo em suas mos: prticas para a sala de
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                            SINGER, P. Para entender o mundo financeiro. So Paulo: Ed Contexto,
                            2003.

                           DocumentosConsultadosOnlInE
                            GABRIELSEN, T. As razes da crise antecedemos evenetos de 1994.
                            Disponvel em: www2.gsb.columbia.edu/ipd/jbankingMXN_por.html. Acessado
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                            SILVER, S. Antecedentes sobre Crises Cambiais: breve histria. Disponivel
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196 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                          Geografia



ANOTAES




            DinheiroTrazFelicidade? 197
       EnsinoMdio




198 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                       Geografia




                                                                                            13
                                                          FOME: PROBLEMA
                                                             ECONMICO?
                                                                                     Andr Aparecido Alflen1


                                                                   izem que quando ela chega 
                                                                     uma triste sina no tem jeito
                                                                     no [...]
                                                                     A questo  mesmo agora
                                                                     mudar esta histria dividir o
                                                                    po [...]
                                                                  Nesta terra de riqueza ver tanta
                                                              pobreza [...]
                                                                                       (Roberto menescal/Abel Silva)
                                                                             Hino do Fome Zero  www.fomezero.gov.br




                                                              A charge e os trechos da poesia apon-
                                                           tam para um problema da atualidade.
                                                           Que problema seria este? Ele possui al-
                                                           guma relao com a agricultura e com a
                                                           organizao do espao agrrio?
Colgio estadual Vincius de moraes - Campo mouro - PR
1




                                                                            Fome:ProblemaEconmico? 199
         EnsinoMdio

                                            Enquanto nos pases pobres aproximadamente 1/3 da populao
                                        possui uma dieta alimentar insuficiente para atender suas necessidades
     Quadro 1                           bsicas, nos pases ricos e desenvolvidos, o consumo dirio se situa na
    "Privao de nutrio  mais        faixa entre 4.000 a 5.000 calorias, o que explica, em parte, o aumento
    de 16% das crianas meno-           da obesidade nestes pases. Apesar disso, a fome tambm ocorre nes-
    res de 5 anos no mundo em           ses pases.
    desenvolvimento esto grave-            A fome  ainda um grave problema a ser superado pela humanida-
    mente desnutridas. Cerca de         de. Pesquisas revelam que os pases pobres, entre eles o Brasil, so os
    50% desses 90 milhes de
                                        que apresentam indicadores mais elevados de fome e desnutrio. Po-
    crianas vivem na sia me-
                                        rm, as situaes mais graves neste sentido ocorrem na sia Meridio-
    ridional. muitas dessas crian-
    as esto anmicas, debilita-
                                        nal e na frica.
    das e vulnerveis a doenas;            A FAO (Organizao das Naes Unidas para a Agricultura e Ali-
    a maioria delas j tinha peso       mentao) estimava em 2005 uma populao mundial de 842 milhes
    baixo ao nascer; algumas te-        de pessoas famintas. Na sua opinio, em que pases encontra-se a
    ro problemas de aprendiza-         maior parte destes famintos?
    gem se chegarem a ir para a             A fome, apesar de ser um problema muito comentado e discutido,
    escola. Provavelmente, per-
                                        ainda est longe de ser resolvido. Milhares de crianas morrem todos
    manecero entre os mais po-
                                        os dias, principalmente na faixa etria de zero a cinco anos, vtimas da
    bres dos pobres ao longo de
    toda a vida"
                                        fome e da desnutrio.
     Fonte: Relatrio situao da in-       O Fundo das Naes Unidas para Infncia  UNICEF  tem dados so-
     fncia no mundo  2003.            bre desnutrio no Brasil, que constam no Relatrio "Situao Mundial
     http://www.unicef consulta em
     10/10/2005                         da Infncia  2003". Veja a tabela 1, analise seus dados e responda: Qual
                                         a situao das crianas brasileiras em relao  desnutrio?

                                        TABELA 1
                                                        Porcentagem de menores de 5 anos sofrendo de:
                                                                                                                              Retardo de
                                                     Baixo peso                              Marasmo
                                                                                                                             crescimento
                                         Moderado e grave Grave Moderado e grave                                       Moderado e grave

                                                       6                     1                     2                             11
                                         Fonte: Situao mundial da Infncia 2003 - www.unicef.org consulta em 10/10/2005.


                                            A desnutrio no Brasil, ao contrrio do que se pensa, ocorre em
                                        todo o pas e no apenas nas regies mais pobres. O fenmeno se en-
                                        contra tanto no meio urbano quanto no meio rural, onde se produz o
                                        alimento.
                                            A fome ou a carncia alimentar na infncia quando no leva  mor-
                                        te, pode causar dficits hormonais que desencadeiam problemas de
                                        crescimento, de maturao neuronal, comprometimento sseo-muscu-
                                        lar, entre outros. As crianas com estes problemas podem apresentar
                                        dificuldades de aprendizagem, sentimento de inferioridade e dificulda-
                                        des de convvio social.


200 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                      Geografia

    Para uma alimentao adequada  necessrio ingerir diariamente ti-
pos variados de alimentos que contenham carboidratos, protenas, lipdios
(gorduras), glicdios (acares), vitaminas e sais minerais. A Organizao
Mundial de Sade (OMS) e a FAO recomendam uma ingesto de 2300 ca-
lorias dirias para as mulheres e 3200 calorias para os homens, o que cor-
responderia s necessidades dirias para uma vida saudvel de um indiv-
duo adulto em atividade moderada. (DuTRA e mARCHINI, 1998).
    A carncia alimentar, ou uma alimentao inadequada, pode deixar
o organismo suscetvel a doenas infecto contagiosas, tais como a tu-
berculose, pneumonia, coqueluche; o que reflete nos gastos do sistema
de sade pblico. Por outro lado, a ingesto de calorias (atravs dos ali-
mentos) maior do que o gasto energtico do corpo provocar acmulo
de gordura nos tecidos, ou seja, a obesidade.

 Quadro 2
      A obesidade  uma enfermidade crnica que se acompanha de ml-
 tiplas complicaes, caracterizada pela acumulao excessiva de gordura
 em uma magnitude tal que compromete a sade, explica o Consenso Lati-
 no Americano em Obesidade. Entre as complicaes mais comuns est o
 diabete mellitus, a hipertenso arterial, as dislipidemias, as alteraes oste-
 omusculares e o incremento da incidncia de alguns tipos de carcinoma e
 dos ndices de mortalidade.
    Para que uma pessoa tenha uma alimentao equilibrada,  recomen-
 dvel que consuma, pelo menos, um alimento de cada um dos trs grupos
 abaixo, em cada refeio:
     Reguladores: so fontes de vitaminas, minerais e fibras;
     Energticos: so fontes de carboidrato, que fornecem energia ao
     organismo;
     Construtores: so ricos em protenas, clcio e ferro.
                                                      Fonte: http://boasaude.uol.com.br
    Voc sabe quais so os alimentos que compem cada um dos grupos?
 Pesquise e construa uma pirmide alimentar utilizando os alimentos que
 voc consome no seu dia a dia.




                 ATIVIDADE

    Mas ser que desnutrio e obesidade podem resultar de maus hbitos alimentares? Ser que a
 desnutrio e a obesidade podem ser, tambm, um problema econmico?




                                                                                      Fome:ProblemaEconmico? 201
       EnsinoMdio

                              De acordo com pesquisas recentes do Instituto Brasileiro de Geo-
                         grafia Estatstica  IBGE  a obesidade tambm estaria ocorrendo en-
                         tre as camadas mais pobres da populao. Pesquise, reflita e comente
                         com seus colegas e professor o aumento de pessoas obesas no Bra-
                         sil. Leia o quadro "obesidade".
                              Agora pensemos: a fome, a obesidade, a pirmide alimentar, a m
                         educao alimentar podem nos remeter a reflexes sobre a agricul-
                         tura? Vamos conhecer um pouco da agricultura brasileira para tentar
                         responder a questo.
                              A partir de 1950, o Brasil comeou a desenvolver sua indstria pe-
                         sada ou de base com o objetivo de aprimorar sua industrializao e
                         atrair novas indstrias e investimentos. O desenvolvimento industrial
                         brasileiro a partir desse perodo combinou investimentos estatais em
                         setores estratgicos como a siderurgia, gerao de energia com in-
                         vestimentos estrangeiros, principalmente de empresas multinacionais
                         que se instalaram com o apoio e incentivo do governo brasileiro. A
                         mudana capitalista que se processava no Brasil visava uma maior in-
                         sero na economia mundial, necessitando ampliar as exportaes e
                         o desenvolvimento econmico brasileiro.
                              Naquele contexto de mudana capitalista iniciou-se uma polti-
                         ca de modernizao, com o objetivo de tornar a agricultura brasi-
                         leira mais dinmica e produtiva, buscando aumentar e diversificar a
                         produo agrcola atravs de financiamentos agrcolas para a com-
                         pra de equipamentos modernos como mquinas agrcolas (tratores,
                         colheitadeiras).
                              Esta poltica modernizadora no levou em conta as implicaes
                         sociais desse processo. A introduo de novas tecnologias nos cul-
                         tivos agrcolas e de substituio das culturas tradicionais por produ-
                         tos que permitem uma maior mecanizao, como a soja, por exem-
                         plo, ocasionaram uma drstica reduo da mo-de-obra empregada
                         no campo e, conseqentemente, o xodo rural. Voc sabe o que 
                         xodo rural? Pesquise esse tema e o contexto histrico que o desen-
                         cadeou.
                               Os pequenos proprietrios, por terem dificuldade de acesso aos
                         crditos agrcolas, ficaram excludos do processo de modernizao.
                         Isto gerou um empobrecimento destes pequenos proprietrios. Mui-
                         tos tiveram que vender suas propriedades para pagar as dvidas ob-
                         tidas na tentativa de modernizar sua produo. Os baixos valores
                         obtidos na venda de seus produtos no eram suficientes para so-
                         breviver e pagar os emprstimos. Desta forma, as grandes empresas
                         agrcolas incorporaram as pequenas propriedades que no tinham
                         condies de competir com elas, contribuindo para uma maior con-
                         centrao fundiria.




202 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                                     Geografia


 Quadro 3
     Concentrao de terra no Brasil  uma das maiores do mundo. Me-
 nos de 50 mil proprietrios rurais possuem reas superiores a mil hectares e
 controlam 50% das terras cadastradas. Cerca de 1% dos proprietrios rurais
 detm em torno de 46% de todas as terras. Dos aproximadamente 400 mi-
 lhes de hectares titulados como propriedade privada, apenas 60 milhes de
 hectares so utilizados como lavoura. Os restantes das terras esto ociosas,
 sub-utilizadas, ou destina-se  pecuria. Segundo dados do Incra, existem cer-
 ca de 100 milhes de hectares de terras ociosas no Brasil.
      Segundo o censo de 1995, existem cerca de 4,8 milhes de famlias de
 trabalhadores rurais "sem terra", ou seja, que vivem em condies de arren-
 datrios, meeiros, posseiros ou com propriedades de menos de 5 hectares.
 A Constituio brasileira determina que as terras que no cumprem sua funo
 social devem ser desapropriadas para fins de reforma agrria. A funo social
 da terra  determinada de acordo com o nvel de produtividade, alm de crit-
 rios que incluem os direitos trabalhistas e a proteo ao meio ambiente.
  Reforma Agrria e Violncia no Campo Centro de Justia Global. www.pt.org.br - Consulta 09/09/05


    Enquanto os grandes proprietrios pertencentes  classe domi-
nante controlam grande quantidade de terras, a maioria dos campo-
neses fica com o controle de uma pequena parcela.
    Leia o Quadro "Concentrao de terras no Brasil" e discuta com
seus colegas se ele reflete a realidade de sua regio. Faa uma pes-
quisa sobre a estrutura fundiria do seu municpio (para isso, obser-
ve, pergunte e, tambm, consulte a pgina do www.incra.gov.br). Em
seguida construa um grfico que melhor permita visualizar os re-
sultados obtidos. O que voc conclui? Existe concentrao fundi-
ria na sua cidade? O que predomina: pequenas, mdias ou grandes
propriedades?




                       PESQUISA

     Para aprofundar seus conhecimentos, que tal pesquisar quais so as diferenas de dimenso
 entre pequena, mdia e grande propriedade rural. Essas diferenas so as mesmas em todas as
 regies do Brasil?
    Que tipo de produtos agrcolas so produzidos nestes diferentes tipos de propriedades? Voc
 se alimenta com estes produtos?




                                                                                                     Fome:ProblemaEconmico? 203
       EnsinoMdio

                                O fato da poltica de modernizao agrcola privilegiar a grande e a
                             mdia propriedade com crditos agrcolas subsidiados fez com que pro-
                             dutos agrcolas destinados  indstria de transformao e de exportao
                             fossem favorecidos em relao  produo agrcola destinada ao merca-
                             do interno ou a alimentao da populao.



                     DEBATE

        No momento atual, como se explica a preponderncia da produo agrcola para exportao?
        Haveria ainda algum tipo de privilgio para essa produo agrcola voltada para o mercado externo?



                                 Nas sociedades capitalistas a produo sempre se volta para o lu-
                             cro, esta  uma das caractersticas do sistema, necessria, portanto, pa-
                             ra sua sobrevivncia e para sua reproduo. Desta forma a produo
                             se orienta pela demanda do mercado, seja externo ou interno, que na
                             prtica determina o que deve ser produzido, embora este mecanismo
                             no seja simples.
                                 A tabela 2 traz um exemplo de como a agricultura para exportao
                             se destaca em detrimento da agricultura produtora de alimentos para
                             consumo interno.
                                 Vamos analisar a tabela?

                             TABELA 2
                                                Safra 2004/2005 - LAVOURAS TEMPORRIAS
                                                       HECTARES                                    PRODUO
                                PRODUTO               CULTIVADOS                    %                Em mil                %
                                                        Em mil                                      Toneladas
                                    SOJA                   23.301,10             47,81%                  51.090,00       45,04%
                                   MILHO                   12.025,00             24,67%                  34.976,00       30,82%
                                  ARROZ                      3.916,00             8,03 %                 13.227,30       11,65%
                                  FEIJO                     3.812,80              7,82%                      3.044,40    2,68%
                                   TRIGO                     2.756,30              5,65%                      5.845,90    5,15%
                                OUTROS
                                                             2.956,05              6,02%                      5.295,45    4,66%
                               PRODUTOS
                              Fonte: Companhia Nacional de Abastecimento- 2005 Tabela elaborada pelo autor.
                              www.conab.gov.br, acesso em 10/09/2005.




204 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                    Geografia

    Como podemos identificar, a soja, que no  to presente na me-
sa do povo brasileiro, ocupa 47,81% da rea cultivada com lavouras
temporrias e representa a maior parte da produo nacional de gros.
Com relao ao milho, boa parte de sua produo tambm se destina
 exportao, ocupando uma rea de 24,67% das lavouras tempor-
rias e boa parte da produo nacional de gros.
    No caso do arroz, do feijo e do trigo, que so produtos para con-
sumo interno, percebe-se que possuem em termos percentuais reas
bem reduzidas em relao a outros produtos e a sua participao na
produo de gros  bem modesta. H ainda um outro aspecto: es-
ses produtos vm, nos ltimos anos, perdendo espao agrcola para os
produtos de exportao.  o caso do arroz, que, entre 1980 e 1996, te-
ve uma reduo de rea cultivada de 36%. Mesmo assim, o arroz teve
um aumento de 2,1% de produo no perodo, isso graas  introdu-
o de novas tecnologias no seu cultivo.
    Vale salientar que, se excluindo a soja, laranja, algodo, e a cana,
mais de 50% da produo de alimentos vem da pequena propriedade,
geralmente agricultura familiar. No se trata de afirmar que a produo
para exportao no seja importante, pelo contrrio, ela  fundamen-
tal para o equilbrio da balana comercial brasileira e para a gerao
de riquezas para nosso pas, mas se persistir este desequilbrio, poder
haver necessidade ainda maior de importao de alimentos.
    Por que as lavouras destinadas ao mercado interno so preteri-
das em relao s lavouras de produtos para exportao?
    Ter uma forte produo voltada para o mercado externo pode levar
 falta de alimentos para a populao brasileira? Seria essa uma das
causas da fome? Ela paira na falta de condies econmicas das famlias
mais pobres para adquirirem os produtos necessrios a uma alimentao
digna. O problema  a distribuio de renda.




                 DEBATE

     Uma poltica agrcola que incentive maior produo de gneros alimentcios destinados ao mercado in-
 terno poderia contribuir para melhorar a situao alimentar do povo brasileiro? Que outras medidas, aliadas
 a esta poltica, poderiam resolver o problema da fome?




                                                                              Fome:ProblemaEconmico? 205
       EnsinoMdio



                     PESQUISA

        De acordo com o mapa responda: em que regio do Brasil a ocupao da terra  mais intensa
     pela agropecuria? Explique os motivos pelos quais algumas regies so mais ocupadas pela agro-
     pecuria do que outras. Para isso, voc precisar pesquisar as caractersticas fsicas (relevo, vege-
     tao, clima, solo, hidrografia) e histricas das regies.


                                  Mapa 1 - Ocupao da terra pela Agropecuria no Brasil




                                                                                        Escala aprox. 1: 41 000 000


                                   Fonte: Atlas geogrfico escolar multimdia. Rio de Janeiro, 2004. CD-ROm.

                                 No atual estgio de desenvolvimento econmico no  mais poss-
                             vel analisar o campo e a cidade como realidades separadas, pois mo-
                             dernas tecnologias so empregadas na agricultura mudando as condi-
                             es de trabalho no campo e as caractersticas da produo agrcola.
                             Mtodos modernos de administrao so implantados para se adquirir
                             melhores colheitas e maior produtividade por rea cultivada.
                                 Alm da introduo de equipamentos modernos, da utilizao de
                             fertilizantes que alteram as caractersticas dos solos, tornando-os mais
                             frteis, podemos citar o cultivo de plantas em estufa que no depen-
                             dem do ritmo da natureza ou das estaes do ano, e ainda a hidropo-
                             nia, que  uma tcnica de cultivo dentro da gua enriquecida com nu-
                             trientes necessrios para o desenvolvimento das plantas.

206 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                       Geografia

    Por um lado, a agricultura depende menos da natureza do que de-
pendia no passado, porm passa a depender cada vez mais da tcnica e,
conseqentemente, da indstria ou das grandes empresas ligadas ao co-
mrcio internacional  que tm o monoplio das pesquisas e das semen-
tes melhoradas, das quais necessitam os agricultores para obterem boas
colheitas. (Veja o caso dos transgnicos no Folhas "Voc toma veneno?").
Deste modo, a agricultura se torna cada vez mais dependente do Capital
urbano industrial, colocada a servio do desenvolvimento industrial.
    Quem mais se beneficia nesta relao entre agricultor e empresa
fornecedora de insumos?
    Os mtodos modernos de administrao, aliados a tecnologia em-
pregada na produo agrcola proporcionam um considervel aumen-
to da produo. Essas tecnologias que possibilitam a explorao mxi-
ma do potencial agrcola possuem um alto custo, acessvel, portanto,
s empresas ou proprietrios rurais que possuem capital ou acesso aos
financiamentos agrcolas. E como ficam os pequenos proprietrios ou
minifundistas que no possuem esses requisitos? E aqueles que conse-
guiram se modernizar?
    Geralmente, o uso intensivo de tecnologia na produo agrcola se
verifica nas grandes propriedades, mas podemos constatar que exis-
tem pequenas propriedades familiares tecnificadas que conseguem ga-
rantir bons rendimentos na produo, garantindo assim uma boa qua-
lidade e vida.
    Quanto aos pequenos produtores, h os que exploram determina-
dos nichos de mercado ou possuem contrato com empresas agroin-
dustriais que absorvem toda a sua produo,  o caso da agricultura
orgnica ou do cultivo de flores. Porm, a maior parte deles se uti-
liza ainda de tcnicas tradicio-
                                    Foto 1 - Pequena Propriedade familiar de
nais de cultivo, devido ao custo subsistncia Campo Mouro/PR.
elevado dos insumos e tecno-
logias agrcolas. Praticam uma
agricultura de subsistncia, que
nem sempre supre as necessida-
des bsicas de sua famlia. Des-
ta forma, buscam alternativas de
complementao da renda fami-
liar, empregando-se como mo-
de-obra temporria nas grandes
propriedades de monoculturas
ou nas cidades mais prximas.
    Nestas condies, deteriora-
se a qualidade de vida desses
camponeses, podendo ocorrer  Fonte: Andr Aparecido Alflen  arquivo pessoal.
casos de fome e desnutrio.



                                                                       Fome:ProblemaEconmico? 207
       EnsinoMdio

                                O Espao agrrio brasileiro passou, nas ltimas dcadas, por trans-
                            formaes por conta do processo de modernizao introduzido na
                            agricultura e, tambm, da incorporao de novas reas para produo
                            agrcola observados nas regies Centro-Oeste e Norte do Brasil.
                                Essas mudanas aumentaram a produo agrcola, alterando as re-
                            laes de trabalho no campo e a distribuio da populao entre os
                            espaos rural e urbano. Antes desse perodo de modernizao agrco-
                            la, os trabalhadores eram empregados ou agregados nas fazendas. Es-
                            sa realidade mudou a partir da introduo de tecnologias modernas
                            levadas ao campo pela poltica de modernizao e mudanas na legis-
                            lao trabalhista, o que reduziu drasticamente o contingente emprega-
                            do no campo.



                     PESQUISA

        Voc sabe o que  um agregado? No que ele se diferencia de um empregado, de um meeiro,
     de um arrendatrio? Todas essas palavras denominam diferentes formas de relaes de trabalho e
     produo no campo. Pesquise o que significam e que relaes de trabalho se estabelecem.



                                A mudana nas relaes de trabalho no campo, principalmente
                            com relao ao surgimento do trabalhador temporrio, no pode ser
                            atribudo somente  introduo da tecnologia na produo, mas tam-
                            bm a mudanas na legislao trabalhista, que estabelecia garantias e
                            encargos trabalhistas que os grandes proprietrios no queriam assu-
                            mir, dispensando, assim, os trabalhadores. Foi neste contexto que sur-
                            giu o trabalhador temporrio na agricultura.
                                Por no ter qualificao profissional, o trabalhador temporrio tor-
                            nou-se mo-de-obra barata e abundante para as grandes propriedades,
                            reduzindo os custos de produo, contribuindo para a competitivida-
                            de do produto no mercado. Normalmente so contratados por tercei-
                            ros, o que aumenta ainda mais a explorao do trabalho.



                     PESQUISA

         Como so chamados esses contratadores de mo-de-obra rural nas diferentes regies
     do Brasil? Pesquise isso e investigue sobre as condies de trabalho desses empregados
     "terceirizados".




208 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                       Geografia

                                   Meu Pas
                       Composio: Zez di Camargo


                               Aqui no falta sol
                              Aqui no falta chuva
                     A terra faz brotar qualquer semente
                                      [...]

                     Por que ser que t faltando po ?
                   Se a natureza nunca reclamou da gente
                                    [...]

                    Se nessa terra tudo que se planta d
                         Que  que h, meu pas ?
                                     [...]

                         Tem algum levando lucro
                        Tem algum colhendo o fruto
                         Sem saber o que  plantar
                                   [...]

                          Fonte: http://cifraclub.terra.com.br




    Para o proprietrio, a mo-de-obra temporria  um bom negcio,
pois no acarreta encargos trabalhistas. Para os trabalhadores, fica a
sobrevivncia nas periferias das cidades com o pouco que recebem,
que normalmente no  suficiente para uma alimentao adequada,
gerando problemas de sade e agravando ainda mais os problemas ur-
banos.  a fome que se manifesta na populao, tornada urbana, em
funo das mudanas fundirias e trabalhistas ocorridas no campo.
    Alm das relaes j descritas anteriormente,  preciso discutir, tam-
bm, a unidade familiar de produo, os arrendatrios e os parceiros
que se constituem relaes muito utilizadas no sistema agrcola brasi-
leiro. Fica aqui a sugesto de pesquisa sobre esses temas.
    Mas, afinal, existe alguma relao entre a produo agrcola e a fo-
me? A partir das reflexes propostas pelo texto, de que forma poder-
amos resolver ou amenizar o problema da fome?
    Leia, cante e interprete a msica "Meu Pas" de Zez Di Camargo
e Luciano e descreva as relaes nela apontadas e a questo da fome
no Brasil.
    Faa ainda um comentrio sobre as relaes de trabalho no campo
e como elas afetam a vida e o trabalho nas cidades.


                                                                       Fome:ProblemaEconmico? 209
       EnsinoMdio



                           RefernciasBibliogrficas
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210 DimensoEconmicadoEspaoGeogrfico
                                                                                                Geografia



 DocumentosConsultadosOnlInE
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 Hino do Fome Zero, a letra toda e o arquivo da cano, bem como mais informaes a
 i

 respeito do Programa Fome Zero podem ser obtidos no site www.fomezero.gov.br



                                                                                Fome:ProblemaEconmico? 211
       EnsinoMdio




            I         DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                         Voc pode apontar alguns problemas relacionados ao meio-am-
                     biente? Um somente no, mas muitos, no  mesmo?

            n            O meio-ambiente tem sido motivo de debates
                     e de preocupaes internacionais. Isso  possvel Quadro 1
                     verificar nos mltiplos eventos que vm ocorren- Para entendermos o que 
                     do desde o final da dcada de 60 do sculo XX, meIO-AmBIeNTe:

            t        dentre eles: Conferncia da Biosfera, em Paris/ "meio  lugar onde se vi-
                     Frana, 1968; Conferncia de Estocolmo, na Su- ve, com suas caractersticas
                     cia, 1972; Eco 92, no Rio de Janeiro/Brasil, 1992; e condicionamentos geofsi-
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            r        Pases Baixos, 2000; Bonn, na Alemanha, 2001; ou profissional onde se vive
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                     Biolgica, em Curitiba/Brasil, 2006.
                                                                        organismos vivos e os seres
                                                                        humanos;"
                         Mas o que gerou tamanha preocupao? O  Novo Dicionrio da Lngua
                     que levou estas pessoas a reunirem-se e orga-         Portuguesa Aurlio.


            d        nizarem-se no sentido de preservar o ambiente?
                     Seria o fato de no termos para onde ir se a Terra acabasse?
                         A preocupao com a natureza nasceu junto com a cincia Geogrfi-
                     ca, no sculo XIX, mas os primeiros indcios desta preocupao com os


            u        fenmenos relacionados  natureza e ao meio-ambiente surgiram prati-
                     camente com a prpria humanidade. O homem primitivo deslocava-se
                     constantemente a procura de alimentos e melhor local para se acomodar.
                     Sua acomodao (fixao) era efmera, dependendo da disponibilidade


                    de abrigo (caverna, por exemplo) e da facilidade de obter alimentos, o
                     que demandava conhecer o perodo em que as rvores frutferas estavam
                     produzindo, bem como a dinmica das estaes do ano, pois em locais
                     onde o inverno ou estao seca eram rigorosos, as migraes eram estra-


            
                     tgias de sobrevivncia. Desse modo, a observao da natureza e o reco-
                     nhecimento, mesmo que simplista, de seus fenmenos eram vitais.
                         Nos ltimos trs sculos, a relao sociedade-natureza tem se dete-
                     riorado, criando ambientes inadequados para a vida humana, para as


            o
                     plantas e demais animais. Algumas prticas humanas so causadoras
                     deste desequilbrio. Voc poder indicar quais so estas prticas?




212 Introduo
                                                                                          Geografia




    O conhecimento geogrfico foi construdo e acumulado durante s-
culos e tornou-se cincia no final do sculo XIX. Desde ento, sofreu
reformulaes, passou a considerar, cada vez mais, e de maneira mais
crtica, a ao da sociedade sobre a natureza.  importante destacar
que a relao sociedade-natureza no  o nico campo de estudo da
Geografia, porm esta cincia chega ao sculo XXI procurando expli-
caes e solues para os desequilbrios ambientais e as alteraes da
dinmica da natureza.
    Como se pode verificar no quadro 2, o conceito de meio ambien-       Quadro 2
te para a Geografia no se refere somente aos elementos da natureza.
                                                                           "Para um gegrafo, a no-
Ela buscou adotar uma outra expresso para lidar com a problemtica
                                                                         o de meio ambiente no
ambiental: o termo socioambiental. O termo "scio" aparece referin-
                                                                         recobre somente a nature-
do-se  sociedade, que  sujeito fundamental dos processos ligados 
                                                                         za, ainda menos a fauna e
problemtica ambiental contempornea, visto que tal problemtica sur-    a flora somente. este termo
ge juntamente com a apropriao e explorao que a sociedade faz da      designa as relaes de in-
natureza. Este tema ser tratado mais detalhadamente nos Folhas "Voc    terdependncia que exis-
toma veneno?", "Os seres humanos so racionais. Ser?", "Pare de so-     tem entre o homem, as so-
nhar com um carro!" e "Catstrofes so evitveis ou inevitveis?".       ciedades e os componentes
    O que ocorreu nestes trs ltimos sculos para que os desequil-     fsicos, qumicos, biticos
brios ambientais se ampliassem tanto?                                    do meio e integra tambm
                                                                         seus aspectos econmicos,
    A relao de dependncia sociedade-natureza se alterou. Novas
                                                                         sociais e culturais".
tcnicas, mquinas, pesquisas cientficas, novas relaes de trabalho,
                                                                         Francisco mendona, 2001.
acumulao de riqueza, produo industrial, entre outros fatores que
se estabeleceram a partir da Revoluo Industrial, criaram um ambien-
te onde a natureza passou a ser vista somente como fonte de riqueza, a
ser explorada e dominada. Aliado a isto, h tambm uma ampliao do
consumo e, conseqentemente, uma ampliao dos resduos gerados.
    At algumas dcadas atrs, a natureza era vista como capaz de se
recompor dos problemas gerados pela sociedade e de seu modo de
produzir e consumir. Porm, a grande quantidade de rios contamina-
dos, cidades com ar poludo causando problemas respiratrios, conta-
minao por agrotxicos, aquecimento da atmosfera, acidentes radio-
ativos, destruio da camada de oznio, entre outros, levaram setores
da sociedade a repensar a relao sociedade/natureza.
    Aps mais de 30 anos, desde o primeiro evento ambiental (Paris,
1968), conseguimos resolver nossos problemas ambientais?
    Nas palavras de Herman Daly (1984)  economista e professor da
Universidade de Maryland/Estados Unidos da Amrica  "lidamos com
a Terra como se ela fosse um negcio do qual queremos nos livrar".
Voc concorda com ele?




                                                                                                       213
       EnsinoMdio




            I            Mesmo depois de tanto avano cientfico, o homem no tem co-
                     mo prever e evitar muitas catstrofes. Ainda que algumas delas tenham
                     origem na dinmica da natureza, como os terremotos e o vulcanismo,
                     afetam muitos seres humanos, o que torna necessrio analis-las de

            n        uma perspectiva social (para obter mais detalhes veja o Folhas "Cats-
                     trofes so evitveis ou inevitveis?"). Sobre as catstrofes previsveis e
                     provocadas pela ao humana, os estudos possibilitam o levantamen-
                     to de hipteses, como no caso do aquecimento global, mas no a so-


            t        luo do problema.
                         No podemos nos esquecer que a Terra  nossa morada, nossa ca-
                     sa, e no temos como conseguir outra, ou temos? Ser que a melhor
                     soluo seria deixar este planeta e buscar outro?


            r            Porm, se partirmos com a mesma organizao econmica que te-
                     mos, iremos destruir mais um planeta. Pois os desejos que a socieda-
                     de e o sistema capitalista tm, vo na contramo da recuperao dos
                     ambientes terrestres, visto que a procura por maiores lucros levam 


            o        maior produo, o que demanda maior consumo de recursos  natu-
                     rais, humanos, ambientais. A produo precisa ser consumida, o que
                     gera resduos aps o consumo  o lixo. E assim seguimos destruindo
                     a natureza e os ambientes terrestres.


            d            Voc j se perguntou por que consumimos objetos descartveis?
                     Por que temos a moda? Por que somos convencidos a trocar de carro,
                     eletrodomsticos e outros objetos de uso pessoal ou familiar, mesmo
                     que eles ainda estejam em boas condies de uso e funcionando?


            u            A criao de necessidades incentiva uma postura consumista, im-
                     portante para a produo capitalista, pois s assim a economia no p-
                     ra de crescer.
                         A economia precisa continuar crescendo para que toda a socieda-


                    de possa usufruir das riquezas, no  mesmo? Mas ser que a riqueza
                     produzida no mundo j no  suficiente para atender toda a humani-
                     dade? E ser que essa riqueza  distribuda de forma que toda huma-
                     nidade seja beneficiada?


            
            o
214 Introduo
                                                                               Geografia




    Estes questionamentos tm como objetivo levar voc a pensar um
pouco nos problemas socioambientais que afetam nossas vidas, bem
como nas alteraes sofridas pela dinmica da natureza nas ltimas d-
cadas. Os Folhas deste Contedo Estruturante abordam alguns temas
relacionados  problemtica ambiental, porm, esse assunto est lon-
ge de ser/estar esgotado.
                                                                               G
    Torcemos para que aps os estudos destes Folhas a Terra j seja um
lugar melhor para toda a humanidade. Bons estudos!
                                                                               E
  RefernciasBibliogrficas
   FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionrio da lngua portuguesa Aurlio.
                                                                               O
   Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
   MENDONA, F. A. Geografia socioambiental. Terra Livre. So Paulo n. 16 p.
   139-158 1o semestre/2001.                                                   G
  ObrasConsultadas
   CIDADE, L. C. F. Vises de mundo, vises da natureza e a formao
   de paradigmas geogrficos. Terra Livre. So Paulo no 17 p. 99-118 2o
                                                                               R
                                                                               A
   semestre/2001.
   DARLY, H. A economia do sculo XXI. Porto Alegre: Mercado Aberto,
   1984.
   DREW, D. Processos Interativos Homem-Meio-Ambiente. So Paulo:


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   Bertrand Brasil, 1989.
   LEFF, E. Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade,
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   RODRIGUES, A. M. Produo e consumo do e no espao: problemtica
   ambiental urbana. So Paulo: Hucitec,1998.

                                                                               I
                                                                               A
                                                                                           215
       EnsinoMdio




216 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                       Geografia




                                                                               14
                                                  OS SERES HUMANOS
                                                SO RACIONAIS. SER?
                                                                            marcia Regina Garcia1


                                                                  oc cuida de tudo o que
                                                                  precisa? Que tratamento
                                                                 voc d a algo do qual sua
                                                               vida e das futuras geraes
                                                            dependem? Voc tem algum cui-
                                                         dado especial para com a natureza
                                                      do lugar em que vive? Alm de voc,
                                                     quem mais  responsvel por esses cui-
                                                     dados? Voc acha que os seres huma-
                                                     nos tm atitudes racionais para com o
                                                     planeta Terra?




Colgio estadual Barbosa Ferraz - Andir - PR
1




                                                            OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 217
       EnsinoMdio

                                 Calcula-se que a origem do planeta Terra deu-se h aproximada-
                             mente 4,5 bilhes de anos. Inicialmente era muito diferente, lentamen-
                             te nosso planeta foi adquirindo as caractersticas fsicas atuais. Observe
                             a tabela geolgica para voc ter uma noo das transformaes ocor-
                             ridas neste perodo.
                                 Antes de continuar, uma observao importante sobre a construo
                             de uma tabela geolgica: sua leitura deve ser feita da parte inferior (Era
                             mais antiga) para a superior (Era recente). Isto porque a tabela  cons-
                             truda como a deposio de sedimentos na Terra. Os mais antigos ge-
                             ralmente so encontrados em maior profundidade (embaixo) e os mais
                             recentes na parte mais superficial (em cima).



                     ATIVIDADE

         Verifique em qual Era e Perodo geolgico ns, seres humanos, surgimos na superfcie da Terra.
     Comparado com a origem de outros seres vivos, nossa existncia neste planeta pode ser considerada
     antiga? Qual  a sua concluso?



   TABELA GEOLGICA
                                     ESCALA GEOLGICA DO TEMPO
                       Durao
         Eras         aproximada              Perodos                Caractersticas principais
                       em anos
      Cenozica         + 1 milho           Quaternrio          Surgimento dos seres humanos.
                                                                  Surgimento dos grandes mamferos;
                      + 69 milhes             Tercirio          Formao das grandes cadeias mon-
                                                                  tanhosas.
                                              Cretceo
    Mesozica ou                                                  Grandes rpteis (dinossauro, etc.);
                      + 120 milhes           Jurssico
      Secundria                                                  Intensas erupes vulcnicas.
                                              Trissico
                                              Permiano
                                             Carbonfero          Formao dos oceanos e mares;
    Paleozica ou                            Devoniano
                      + 310 milhes                               Surgimento da vida animal e vegetal;
       Primria                               Siluriano
                                             Ordoviciano          Soterramento de grandes florestas.
                                             Cambriano
                                            Algonquiano ou
                                                                  Intenso metamorfismo, com a forma-
                                             Proterozico
    Pr-cambriana                                                 o de jazidas de minerais metlicos;
                       + 4 bilhes           Arqueano ou
      ou Primitiva                                                Formao da crosta terrestre;
                                             Arqueozico
                                                                  Ausncia de vida.
                                                Azico


218 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                        Geografia

    A parte superior da crosta terrestre, a litosfera, est associada s mas-
sas lquidas (rios, oceanos, lagos, etc.) que, juntamente  baixa atmosfe-
ra e a biota, formam um conjunto que do suporte e sustentao para a
vida na Terra.  nesse espao que a vida se desenvolve, que as socieda-
des humanas se estabeleceram e se desenvolveram, realizando constan-
tes e grandes transformaes na natureza. Caso ela seja destruda onde
vamos viver? Temos a possibilidade de nos mudar de planeta?
    Se a existncia humana, caso comparada ao tempo geolgico de
nosso planeta, pode ser considerada extremamente recente, pense en-
to em sua existncia como sociedade organizada! Mesmo assim, ao
longo de sua evoluo, como grupos nmades e posteriormente como
sociedades sedentrias, foram e continuam sendo imensas as transfor-
maes realizadas por estes seres na natureza.
    De modo geral, tem-se a noo de que a poluio e a degradao
ambiental so produtos da sociedade ps Revoluo Industrial do s-
culo XVIII e que, a partir da, se expandiu afetando diversos locais. A
degradao ambiental seria fruto da evoluo tecnolgica, efetivada
pelas indstrias e pela sociedade contempornea, que passou a des-
matar em larga escala para produzir alimentos para atender a uma po-
pulao crescente e gerar lucro. Os grupos pr-histricos, as socie-
dades antigas e as sociedades medievais viviam em harmonia com a
natureza (fauna, flora, solo, recursos hdricos...). Triste engano!!!  ver-
dade que, no passado, quando as tcnicas utilizadas pelos seres huma-
nos eram mais simples, as transformaes eram mais lentas, mas as de-
gradaes ambientais sempre existiram.
    Para sua melhor compreenso e para reforar o assunto que se se-
gue, localize o Novo Mxico em um Atlas Geogrfico e faa uma bre-
ve pesquisa sobre suas caractersticas naturais  clima, vegetao, so-
lo, hidrografia.
    O professor Fernando Fernandez (Universidade Federal do Rio de
Janeiro), em sua obra "O poema imperfeito", questiona se os grandes
impactos e as grandes transformaes da natureza s ocorreram aps a
Revoluo Industrial. Defende a tese de que a runa e a ascenso de ci-
vilizaes esto relacionadas com a forma destas se relacionarem com
a natureza. Cita como exemplo o pueblo de Chaco Canyon, construdo
por um povo que existiu na regio do atual Novo Mxico (Estados Uni-
dos da Amrica) conhecido como Anasazi. Mas o que estas pessoas fi-
zeram de to grave assim?
    O pueblo de Chaco Canyon foi construdo pelos "indgenas" por vol-
ta do ano 900 d.C., com grossos troncos de rvores e pedras. Uma imen-
sa construo de cinco andares, com 650 habitaes, mais de 201 metros
de comprimento por 95 metros de largura, suficiente para abrigar 3.000
pessoas. Em sua construo foram gastos 200 mil magnficos troncos de
rvores de 5 metros cada! E Chaco Canyon no era o nico, mas apenas
o maior entre os pueblos construdos pelos Anasazi.

                                                               OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 219
       EnsinoMdio

                              Quando os espanhis chegaram  Amrica, encontraram tais edifi-
                          caes abandonadas. Mas, por que foram abandonadas? Qual teria si-
                          do a reao dos espanhis ao se depararem com tamanha construo
                          arquitetnica?
                              Ao realizar sua pesquisa, voc deve ter percebido que no Novo M-
                          xico existe uma significativa variao climtica e Chaco Canyon est
                          construdo num deserto. Mas por que realizar uma construo gigan-
                          tesca como esta num deserto? De onde teria vindo a imensa quantida-
                          de de madeira utilizada nesta construo?
                              Pasmem, toda a madeira foi retirada dali mesmo! Sim. Estudos pa-
                          leobotnicos mostraram que ali existiu uma rica floresta de rvores
                          decduas e conferas que foi sendo gradualmente derrubada para for-
                          necer lenha para a construo dos pueblos, tambm para o aprovei-
                          tamento agrcola do solo e como fonte de energia no preparo de ali-
                          mentos, aquecimento e outros.
                              Eles teriam ido cada vez mais longe para conseguir madeira para
                          suas construes (at 80Km) e lutado, por muito tempo, contra a ero-
                          so que corroa os solos por eles cultivados. Entretanto, chegou um
                          momento que no deu mais e esta sociedade sucumbiu aos efeitos de
                          seus atos. O clima da regio havia mudado; a flora e a fauna nativas
                          j no existiam mais; o solo, da forma que era utilizado, no produzia
                          o suficiente para o sustento de todos. Era necessrio deixar tudo pa-
                          ra trs se quisessem sobreviver. E acredita-se que foi isso que fizeram.
                          Migraram em grupos menores para diferentes regies, mas nada mais
                          se soube desse povo.


                                                       Voc j ouviu falar ou leu algo sobre a Ilha de
                                                  Pscoa (Chile) e Machu Picchu (Peru)? Quem viveu
                                                  nestes locais? Como era a organizao social antes
                                                  da colonizao? Como era obtido o sustento mate-
                                                  rial? Ser que a relao destas sociedades com a
                                                  natureza era similar? Faa uma pesquisa sobre am-
                                                  bos. Voc pode assistir ao filme "Rapa-Nui: uma
                                                  aventura no paraso" (1994  direo de Kevin Rey-
                                                  nolds), que trata dos costumes dos habitantes da
                                                  Ilha de Pscoa e apresenta uma das hipteses para
                                                  a construo dos moais e o desmatamento da ilha.


                              Chaco Canyon, Ilha de Pscoa e Machu Picchu so apenas alguns
                          exemplos ou grandes pontos de interrogao de nosso passado, isso
                          somente citando algumas sociedades que existiram no continente ame-
                          ricano. Existem muitos outros casos intrigantes.




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                                                                                                   Geografia

    Os seres humanos dependem da manuteno dos recursos naturais
para sua sobrevivncia. Entretanto, agem alheios a tudo, como se suas
vidas no dependessem de determinados fatores que a tornam possvel
na Terra, como solo para produzir alimentos, gua de qualidade, tanto
para saciar a sede e higiene, quanto para a produo de seus alimentos
no dia-a-dia, ar puro, dentre outros recursos, que se prejudicados afeta-
ro, conseqentemente, outros.
    As aes humanas tm causado muitos danos ao meio, como: ex-
tino de espcies animais e vegetais; degradao de solo, causando
eroso; desertificao e salinizao; degradao dos recursos hdricos;
contaminao do solo e da gua por produtos qumicos diversos; e
tantos outros atos.
    So vrias as conseqncias da degradao dos solos. Vejamos um
pouco sobre a eroso, a desertificao e a salinizao dos solos.
                                                       Foto 1 - Eroso pluvial em terreno sedimentar.
  Eroso
    O processo de degradao da terra  abrangen-
te. Primeiro ocorre a degradao da vegetao, que
 retirada para o aproveitamento do solo para a agri-
cultura ou pecuria. Com a retirada da vegetao,
teremos tambm a degradao dos recursos hdri-
cos, pois os mananciais, rios e lagos, ficam despro-
tegidos de vegetao ciliar e ocorre o assoreamento.
Lentamente o processo erosivo vai se intensificando
e os solos passam a ser cada vez menos frteis, pois
perdem seus nutrientes, fato que afeta diretamente a
qualidade de vida da populao local.
    A eroso, isto , o transporte das partculas su-
perficiais do solo pela gua ou pelo vento,  um
fenmeno natural. Embora os agentes erosivos j  Fonte: http://www.sxc.hu
afetassem o solo antes do homem iniciar sua ao, a perda de par-            Segundo o Programa de
tculas era compensada pela formao natural do solo e pela co-             qualidade Ambiental da em-
bertura vegetal natural. Com as atividades praticadas pelo homem,           presa Brasileira de Pesqui-
o risco de eroso aumenta, pois a presso por alimentos levou a             sa Agropecuria (embrapa),
uma explorao intensa de algumas reas, sendo esta superior a              no Brasil, as perdas de solo
sua capacidade de suporte.                                                  pela eroso j atingem 840
    A eroso do solo provoca perdas de nutrientes e de matria              milhes de toneladas anu-
orgnica, alteraes na textura, estrutura e quedas nas taxas de            ais (t/ano) e esto aumen-
                                                                            tando com a abertura de no-
infiltrao e reteno de gua. Este processo reduz a produtivi-
                                                                            vas frentes agropecurias no
dade da terra, o que leva a uma ampliao do uso de fertilizan-
                                                                            Centro-Oeste e na Amaznia.
tes qumicos na produo agrcola. (Veja mais sobre este tema no
                                                                             Fonte: Bley Jr.
Folhas: "Voc toma veneno?").                                                www.ecoltec.com.br/pub4.html




                                                             OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 221
        EnsinoMdio

                              Desertificao
                                Voc sabe o significado dessa palavra? J ouviu falar ou leu algo sobre
                            o assunto? Conhece alguma regio que vem sofrendo desertificao?
                                Desertificao  a degradao de terras em regies com escassa
                            precipitao, podendo esta tornar-se rida, ou seja, um deserto.
                                Durante a evoluo geolgica da Terra, a vegetao sofreu intensas
                            transformaes, ora se expandindo, ora regredindo, ora se adaptando
                            s novas condies ou at desaparecendo de um determinado local
                            devido s variaes climticas.
                                A vegetao das regies de escassez de precipitao foi se adap-
                            tando lentamente ao meio, pois as mudanas climticas tambm foram
                            ocorrendo lentamente. Com o aumento populacional, a interveno
                            humana foi se intensificando cada vez mais, devido  necessidade cres-
                            cente de alimentos, a presso populacional gerou um desmatamento
                            cada vez maior para sustentar e abrigar uma populao tambm cada
                            vez maior. Entretanto, no momento atual, podemos afirmar que a am-
                            bio, ou necessidade de acumulao de capital (riquezas), tem levado
                            a uma explorao excessiva desses ecossistemas frgeis, tornando-os
                            em reas de risco de desertificao, esgotando sua biodiversidade.
                                Observe no mapa "Risco de desertificao no mundo, segundo a sua
                            gravidade" as regies mais propcias  desertificao, compare esta infor-
                            mao com um mapa-mndi de densidade demogrfica e responda: Qual
                             o tamanho da populao mundial que sofre com a desertificao?


   Mapa 1 - Risco de desertificao no mundo, segundo a sua gravidade




                                             Escala aprox. 1:178 000 000


    Fonte dos dados: FAO.



222 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                 Geografia

    Mais de um tero das terras emersas corresponde a reas ridas, isto
, regies que sofrem dficit de gua permanente ou por um determi-
nado perodo do ano (sazonal). As atividades humanas tm contribudo
para a degradao destas reas
                                  Mapa 2 - reas no Brasil suscetveis a desertificao
que so ambientalmente frgeis,
o que as fazem mais sujeitas a
degradao. "O desmatamento
desenfreado e as prticas erradas
de uso do solo fazem com que, a
cada minuto, 12 hectares de terra
virem deserto no mundo." (Revista
Comcincia  unicamp, 1999)
    Ser que o Brasil possui re-
as suscetveis  desertificao?
    Observe o Mapa 2 e confron-
te este com outros mapas (pol-
tico e fsico), verificando os esta-
dos onde o risco deste processo
 mais intens3. Analise a vegeta-
o original dessas reas, a ve-
getao atual, o clima, o solo e a
hidrografia.
                                                                                   Escala aprox. 1:44 500 000




                     PESQUISA

     Quais atividades econmicas so praticadas nestas reas sujeitas a desertificao? Qual  a
  tecnologia adotada? Ser que tais atividades econmicas apresentam alguma relao com o risco de
  desertificao local?



    comum encontrarmos referncia a um processo de desertifica-
o no sudoeste do Rio Grande do Sul (Quara, So Francisco de Assis
e municpios prximos). A professora Dirce Suertegaray (UFRS - Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Sul) tem dedicado seus estudos 
rea. Em seu livro "Deserto Grande do Sul: controvrsia", a professora
questiona tal denominao. O quadro contm um trecho do livro, leia
e responda: Por que a autora afirma que reas arenosas dessa regio
no correspondem a reas desrticas?




                                                             OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 223
       EnsinoMdio


                            Quadro 1
                                Tomando como ponto de partida a concepo de deserto/desertificao
                            do ponto de vista climtico, deduz-se que as reas arenosas dessa regio
                            no correspondem a reas desrticas. Nestas reas, embora a vegetao
                            seja estpica, as condies pluviomtricas so de elevada umidade (normais
                            pluviomtricas em torno ou superiores a 1.400mm anuais).
                                 A razo da ocorrncia da vegetao estpica nesta regio  explicada
                            pela evoluo paleoclimtica local. No Cretcio Inferior tivemos grandes de-
                            sertos no Brasil (aproximadamente formao Botucatu) e da para frente hou-
                            ve uma sensvel atenuao da aridez. A vegetao passou por mudanas,
                            mas pequenas, explicadas pelas mudanas climticas ocorridas no Quater-
                            nrio (perodos glacirios com climas mais secos e frios e perodos interglaci-
                            rios com climas mais quentes e midos).
                                Esses areais so, sobretudo, depsitos arenticos inconsolidados, des-
                            providos de vegetao e retrabalhados sob os processos caractersticos do
                            clima atual. Sua origem  natural, porm sua expanso decorre do uso que
                            deste espao  feito.
                             SueRTeGARAY, D. Deserto Grande do Sul.


                              Segundo a Agenda 21, a desertificao afeta 1/6 da populao da
                          Terra. Qual  a populao total da Terra? Quanto representa 1/6 desta
                          populao? Faa os clculos de quantas pessoas so afetadas pela
                          desertificao.
                              Retomando a atividade do mapa "Risco de desertificao no mundo
                          segundo sua gravidade", em que poro do mundo vive a maior parte
                          da populao atingida pela desertificao?
                              Voc sabe o que  "Agenda 21"?
                              Em 1992, realizou-se no Rio de Janeiro a Conferncia das Naes
                          Unidas sobre o Meio-Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como
                          Rio-92 ou ECO-92. Foi um importante marco nas discusses ambientais
                          em nvel global. Deste encontro surgiu um importante documento, co-
                          nhecido como Agenda 21, que trata de aes a serem postas em pr-
                          tica pelas naes na tentativa de reverter ou evitar a degradao am-
                          biental. No stio do Ministrio do Meio Ambiente voc tem acesso s
                          informaes a respeito da Agenda 21, bem como ao documento com-
                          pleto da Agenda 21 (40 captulos)  www.mma.gov.br.
                              No captulo 12 da Agenda 21, desertificao foi definida como sendo
                          "a degradao do solo em reas ridas, semi-ridas e sub-midas secas,
                          resultante de diversos fatores, inclusive de variaes climticas e de ativi-
                          dades humanas". Para chegar a tal definio, foram necessrios estabele-
                          cer alguns pontos, que foram aceitos pelo PNUMA (Programa das Naes
                          Unidas para o Meio Ambiente), que serviram de base para a definio de
                          reas suscetveis  desertificao, que podem ser observados a seguir:



224 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia

1- No que diz respeito s variaes climticas, a seca  um fenmeno
   tpico das regies semi-ridas;
2- No que diz respeito s aes de degradao da terra induzidas pelo
   homem, deve-se entend-la como tendo, pelo menos, cinco com-
   ponentes, conforme prope a FAO (Organizao das Naes Uni-
   das para Agricultura e Alimentao):
   a) Degradao das populaes animais e vegetais (degradao bi-
      tica ou perda da biodiversidade) de vastas reas do semi-rido
      devido  caa e extrao de madeira;
   b) Degradao do solo, que pode ocorrer por efeito fsico (eroso
      hdrica ou elica e compactao causada pelo uso da mecaniza-
      o pesada) ou por efeito qumico (salinizao ou sodificao);
   c) Degradao das condies hidrolgicas de superfcie devido 
      perda da cobertura vegetal;
   d) Degradao das condies geohidrolgicas (guas subterrne-
      as), devido a modificaes nas condies de recarga  reabaste-
      cimento dos lenis freticos;
   e) Degradao da infra-estrutura econmica e da qualidade de vi-
      da dos assentamentos humanos.




                PESQUISA

    Reflita sobre cada um dos pontos anteriores e faa uma pesquisa, juntamente com seus colegas,
 sobre as condies de seu municpio, no que se refere a degradao da terra, mesmo que no se trate
 de rea de risco de desertificao.




    Durante a realizao da RIO-92, foi proposta, por diversos pases
com problema de desertificao, a aprovao de uma Conveno In-
ternacional sobre Desertificao. A proposta foi aceita. Posteriormen-
te, a ONU (Organizao das Naes Unidas) designou o dia 17 de ju-
nho como o "Dia Mundial de Luta contra a Desertificao e a Seca",
data que marca o aniversrio da Conveno das Naes Unidas para o
Combate  Desertificao.
    No Brasil, as reas mais afetadas pela desertificao foram definidas
pela Embraba como sendo os ncleos de Cabrob  PE, Gilbus  PI,
Irauuba  CE e Serid  RN.




                                                              OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 225
        EnsinoMdio

                                       Salinizao
                                         Os solos apresentam sais em nveis diferenciados. Quando este n-
                                     vel se eleva, chegando a uma concentrao muito alta, pode prejudicar
                                     o desenvolvimento de algumas plantas mais sensveis ou mesmo impe-
                                     dir o desenvolvimento de praticamente todas as espcies. Cada planta
                                     possui seu nvel de tolerncia a sais.
                                         Mas como ocorre a salinizao? Ser que todos os solos apresentam
                                     a possibilidade de se tornarem salinos?
                                         Geralmente a salinizao dos solos ocorre em regies de baixa pre-
                                     cipitao pluviomtrica, que apresentam alto deficit hdrico e onde
                                     existe dificuldade de drenagem.
     Quadro 2                            A gua das chuvas, ao cair e penetrar no solo, solubiliza e transporta
    Voc sabe o que so sais? J     ons de Clcio (Ca++), Magnsio (Mg++), Sdio (Na+), Potssio (K+),
    viu isso nas aulas de qumi-     assim como radicais Hidrogeno-carbonato (HCO3-1), Carbonato (CO3-2),
    ca? Se no viu ainda, adiante-   Sulfato (SO4-2), transformando-se em uma soluo que vai para os rios,
    se ao seu professor: segundo     lagos e reservatrios. Quando esta gua  utilizada para irrigar um solo
    o cientista Arrhenius (1859-     (principalmente quando esse  raso) em locais de baixa precipitao,
    1927), " um composto cujos      que apresenta deficit hdrico e dificuldade de drenagem, este se tornar
    ons subsistem aps a neutra-    salino com o passar do tempo.
    lizao de um cido por uma
    base. [...] Geralmente um sal
                                         No Brasil, o risco de salinizao dos solos se concentra no semi-
     um slido inico no qual       rido nordestino e no norte de Minas Gerais. Regies onde o perodo
    nem ions H+ nem os ons OH      seco  superior a 5 meses por ano, ou seja, o deficit hdrico  muito
    esto presentes." (RuSSeL,       grande, por isso a evaporao direta do solo e a transpirao das plan-
    1981, P. 381)                    tas  evapotranspirao  so intensas. Quanto menor for o valor da
    Os sais fazem parte de nosso     precipitao mdia anual e maior for a evapotranspirao, maior ser
    dia-a-dia, com certeza voc      o risco de salinizao dos solos quando estes forem irrigados.
    j consumiu sal de cozinha           Mas as plantas transpiram? As plantas so compostas majoritaria-
    (NaCl); talvez j tenha toma-    mente de gua, cerca de 85% a 95%; parte desta gua pode ser libera-
    do anticidos estomacais  o     da pelas folhas  transpirao foliar  sob a forma de vapor,  o pro-
    sal de fruta.                    cesso de transpirao das plantas. A transpirao foliar  o conjunto da
    uma curiosidade: os sais         transpirao estomtica (que ocorre atravs dos estmatos onde tam-
    nem sempre so brancos. O        bm ocorre a respirao da planta) e da transpirao cuticular (perda
    Sulfato de cobre (CuSO4), por    de vapor d'gua atravs da cutcula). Essa transpirao ser diferente
    exemplo,  azul e o Dicroma-     conforme o clima da regio, assim, algumas plantas, como os cactos,
    to de Potssio (K2Cr2O7) 
                                     adaptaram-se s regies secas para reduzir a transpirao.
    vermelho-alaranjado.
                                         Muitas regies de clima temperado apresentam praticamente as
                                     mesmas mdias anuais de precipitao, mas a evaporao nestas reas
                                      menor que em regies de clima tropical, tornando esta ltima mais
                                     suscetvel aos danos causados por esse processo.




226 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                           Geografia

    Muitos pases apresentam reas salinizadas desde os tempos antigos,
que foram abandonadas por se tornarem imprprias para a agricultura.
Antes isso acontecia pelo completo desconhecimento do processo,
mas hoje, com o avano tecnolgico e cientfico, isso acontece, na
maioria dos casos, por negligncia. A ganncia pelo lucro fcil e rpi-
do fala mais alto. O solo do permetro irrigado de Custdia - PE teve
sua atividade agrcola interrompida pela salinizao.
    No semi-rido nordestino, no vale do So Francisco, a irrigao 
bastante utilizada e, na maioria das vezes, mal utilizada, pois em vez
de irrigar na medida certa, encharca-se o solo. Conforme Joo Suassu-
na, pesquisador da Fundao Joaquim Nabuco, "irrigar no significa,
apenas, levar gua s culturas por meio de tubulaes ou canais pre-
viamente calculados. Significa, tambm, ajustar as quantidades aplica-
das s necessidades hdricas dos vegetais, levando-se em conta as ca-
ractersticas do solo e clima locais, bem como, a qualidade da gua
utilizada na irrigao".


 Quadro 3
                                                 O mar de Aral ou de algodo
                                                                                              marie-Hlne mandrillon
     A partir da dcada de 1970, o mar de Aral, um lago salgado situado no corao da sia Central,
 na fronteira entre o Casaquisto e o Uzbequisto, viu a sua superfcie drasticamente reduzida. O cau-
 dal dos rios Amou-Daria e Syr-Daria, que o alimentavam, no s diminui para metade, mas at desapa-
 receu totalmente, no incio dos anos 80. No entanto foi necessrio esperar por 1988 e pela poltica de
 glasnost de Mikhail Gorbatchev, para que a imprensa moscovita desse o alarme: o Aral perdeu meta-
 de de sua superfcie e o seu nvel baixou 15 metros. Os prejuzos foram enormes: em alguns lugares, o
 mar recuou, realmente, mais de 100 Km, o que fez com que os portos de pesca de Aralsk e de Mou-
 nak passassem a localizar-se no interior; o sal, espalhado pelo vento, afetou grandes extenses de ter-
 ras e, alm disso, muitas espcies de peixes extinguiram-se definitivamente.
     A agonia do mar de Aral  a revelao espetacular do fracasso de uma poltica de irrigao em gran-
 de escala, que permitiu que 7 milhes de hectares fossem inteiramente dedicados  monocultura do
 algodo. Alm de que, juntamente com as guas do mar, perderam-se 60 mil empregos e a memria
 de uma paisagem desfez-se para sempre.
     Com o aproveitamento hidrulico do Amou-Daria e do Syr-Daria, a partir dos anos sessenta, os
 seus deltas secaram, ao mesmo tempo em que a populao que vivia perto do mar, e que mal inicia-
 ra o processo de transio demogrfica, passou a ter a cultura industrial do algodo, o "ouro branco",
 como nica fonte de rendimento.
  Fonte: mANDRILLON, marie-Helne. estado do meio Ambiente no mundo. 1993.



   A salinizao  tambm uma forma de desertificao, pois torna os
solos imprprios para o cultivo, forando a populao local a migrar
para outras reas.




                                                                             OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 227
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

         O texto "O mar de Aral ou de algodo" conta a histria de um proceso de degradao ambiental de
     grandes dimenses. Aps l-lo, responda: Voc precisa de tudo que tem? Voc tem algum cuidado es-
     pecial para com o planeta em que vive? O ser humano sabe cuidar do planeta em que vive? No seria ne-
     cessrio racionalidade para que a vida na Terra continue a existir de forma saudvel? Mas... o ser huma-
     no no  um ser racional?




                                RefernciasBibliogrficas
                                 CONFERNCIA DAS NAES UNIDAS SOBRE O MEIO AMBIENTE E
                                 DESENVOLVIMENTO (1992: Rio de Janeiro). Agenda 21. Curitiba: IPARDES,
                                 2001.
                                 FERNANDEZ, F. O poema imperfeito: crnicas de Biologia, conservao
                                 da natureza e seus heris. Curitiba: UFPR, 2005.
                                 MANDRILLON, M. In: BEAUD, M.C e BOUGUERRA, M. L. Estado do
                                 ambiente no mundo. Lisboa: Instituto Piaget, 1993.
                                 RUSSEL, J. B. Qumica Geral. So Paulo: Mc Graw-Hill do Brasil, 1981.
                                 SUERTEGARAY, D. Deserto Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 1998.


                                ObrasConsultadas
                                 ATKINS, P.; JONES, L. Princpios de qumica: questionando a vida
                                 moderna e o meio ambiente. Porto Alegre: Bookman, 2001.
                                 DREW, D. Processos interativos homem-meio ambiente. Rio de
                                 Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
                                 OLIVEIRA, E. C. de. Introduo  biologia vegetal. So Paulo: EDUSP,
                                 2003.
                                 SANTANA NETO, J. L.; ZAVATINI, J. A. Variabilidade e mudanas climtica.
                                 Maring: Eduem, 2000.
                                 SUGUIO, K.; SUZUKI, U. Evoluo geolgica da Terra e a fragilidade
                                 da vida. So Paulo: Editora Edgard Blucher Ltda, 2003.


                                DocumentosConsultadosOnlInE
                                 AUDRY, P.; SUASSUNA, J. Estudo da salinidade das guas de
                                 irrigao das propriedades do GAT1 e da sua evoluo sazonal
                                 durante os anos de 1988 e 1989. Disponvel em: http://www.fundaj.gov.



228 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                      Geografia


br/docs/ tropico/desat/catal.html. Acesso em 16 fev. 2006.
Bley Jr., C. Eroso Solar: Riscos a considerar para a agricultura nos
trpicos. Disponvel em: www.ecoltec.com.br/pub4.html
www.iica.org.br. Acesso em: 17 dezembro 2005.
www.mma.gov.br/port/redesert/desertmu.html. Acesso em: 02 fev. 2006.
www.mma.gov.br/port/srh/acervo/publica/doc/drena/cap04.pdf.Acesso
em: 16 fev. 2006.
www.sxc.hu




             ANOTAES




                                                             OsSeresHumanosSoRacionais.Ser? 229
       EnsinoMdio




230 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                   Geografia




                                                                           15
                                                PARE DE SONHAR
                                                 COM UM CARRO!
                                                                        marcia Regina Garcia1


                                                               oc consegue imaginar sua
                                                               vida ou a vida de nossa
                                                              sociedade sem automveis
                                                           circulando pelas ruas e sem a
                                                        comodidade proporcionada pe-
                                                     los eletrodomsticos que dispomos
                                                  em nosso dia-a-dia? Voc acha que ha-
                                                veria alguma possibilidade disso vir a
                                                acontecer?
                                                Que fatores poderiam levar a isto? Que
                                                foras possibilitam que estas coisas fun-
                                                cionem? Como estas questes afetam a
                                                (des)organizao do espao geogrfico?




Colgio estadual Barbosa Ferraz - Andir - PR
1




                                                                ParedeSonharcomumCarro! 231
        EnsinoMdio


                                        A Geografia  uma cincia que estuda o espao, a relao socieda-
                                     de-natureza e sua transformao. Esta afirmao ajuda voc a respon-
                                     der a questo anterior?
                                        Existem em nosso planeta muitas sociedades que, em funo de
                                     caractersticas culturais peculiares, mantm uma relao diferenciada
                                     com a natureza, explorando-a ou modificando-a de acordo com seus
                                     anseios. Para esclarecer esta idia, precisamos refletir um pouco.



                         ATIVIDADE

         Que tipo de relao existe entre uma sociedade pastoril nmade e a natureza? E entre os pescadores
     ribeirinhos ou os grupos que praticam agricultura de subsistncia e a natureza? Agora, pense na relao
     existente entre a sociedade ocidental capitalista e a natureza. Qual  a sua concluso?




     Atravs da fotossntese, as         Durante sua evoluo, o ser humano aprendeu a utilizar diversos
    plantas capturam energia do      recursos naturais, transformando-os para atender suas necessidades,
    sol e transformam em ener-       inclusive como fontes de energia. Estes recursos possibilitaram s di-
    gia qumica. esta energia po-    ferentes civilizaes um maior grau de desenvolvimento que outra, ou
    de ser convertida em eletrici-   seja, o desenvolvimento precoce de tcnicas em relao aos demais,
    dade, combustvel ou calor.      para um melhor aproveitamento dos recursos.
    As fontes orgnicas que so
                                         Voc sabe qual foi o primeiro recurso energtico a ser utilizado pe-
    usadas para produzir ener-
                                     los seres humanos? Foi a biomassa, ou seja, a lenha, utilizada desde
    gias usando este processo
    so chamadas de biomassa.        os primrdios para as pessoas se aquecerem do frio, para afugentar
     Fonte:                          animais, para cozer e assar alimentos, depois para fundir e forjar me-
     www.ambientebrasil.com.br       tais utilizados na fabricao dos mais diversos utenslios. Ainda hoje,
     acessado em:11/10/2005          a biomassa  utilizada, principalmente, nos pases pobres, embora nu-
                                     ma proporo menor que o carvo mineral, o gs natural, o petrleo
                                     e a hidreletricidade.
                                         O uso indiscriminado de madeira pode colocar em risco reas
                                     florestais ainda existentes em nosso planeta, principalmente devido 
                                     explorao ilegal que ocorre tanto para gerar carvo vegetal quanto
                                     para o comrcio de madeira de lei.




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                                                                                             Geografia



 Quadro 1
     Madeira de Lei: A expresso madeira de lei tem origem em uma lei do pe-
 rodo imperial e, apesar de muito conhecida, no tem definio tcnica.
      Segundo Osny Duarte Pereira, em obra intitulada Direito Florestal Brasi-
 leiro, publicada em 1950, pgina 96, " A Carta de Lei de 15 de outubro de
 1827, no  12 do art. 5 , incumbia aos juizes de paz das provncias a fiscali-
 zao das matas e zelar pela interdio do corte das madeiras de construo
 em geral, por isso chamadas madeiras de lei.''
     Entretanto, h variaes no entendimento desta expresso. Madeira de lei
 pode, ainda, se referir quelas madeiras de alto valor no mercado, indepen-
 dente de sua resistncia. Se madeiras duras e resistentes podem ser exce-
 lentes para a construo civil e naval, s as madeiras moles so boas para a
 fabricao de compensados.
     Laboratrio de Produtos Florestais recomenda que a expresso madei-
 ra de lei no seja utilizada em documentos oficiais como contratos, licitaes,
 textos legislativos, etc. Sempre que necessrio, as madeiras devem ser cita-
 das pelos seus nomes comuns mais conhecidos e principalmente pelo no-
 me cientfico.
  Fonte: www.ibama.gov.br


    As floretas do Paran sofreram esse tipo de ao. Voc sabe qual
foi o destino dado s nossas rvores de madeira de lei? Foi um des-
tino "nobre" ou serviram apenas de lenha? Pesquise sobre esse as-
sunto e indique, no mapa, a localizao que estas florestas tiveram
no Paran.
     preciso lembrar, ainda, que as florestas derrubadas (so mui-
tas vezes imensas reas arrasadas por "correntes" puxados por tra-
tores potentes) deram lugar  pecuria e/ou agricultura. Mas isso 
outra histria!
    Atualmente, devido aos avanos tecnolgicos, os recursos energ-
ticos mais utilizados so os combustveis fsseis (carvo mineral, pe-
trleo e gs natural), a hidreletricidade e a energia nuclear. Outras for-
mas, menos difundidas, referem-se  energia elica (modalidade onde
a cidade de Palmas, no Paran,  precursora em sua utilizao na re-
gio Sul), geotrmica, solar e de mars. Todas as fontes de energia, se-
jam elas convencionais ou alternativas, necessitam de tecnologia para
sua explorao e aproveitamento.




                                                                             ParedeSonharcomumCarro! 233
       EnsinoMdio

                            Foto 1 - Usina Hidreltrica de Itaipu, PR   Foto 2 - Termoeltrica de Uruguaiana, RS




                             Fonte: www.itaipu.gov.br                    Fonte: www.fundaj.gov.br


                             Foto 3 - Energia elica de Palmas, PR      Foto 4 - Energia solar




                              Fonte: marcio miguel de Aguiar             Fonte: www.sxc.hu



                                 O uso de tais formas geralmente est relacionado com a disponi-
                            bilidade destes recursos em um determinado pas ou regio. Entretan-
                            to muitos pases so carentes de fontes de energia e as importam (car-
                            vo, mineral radioativo, petrleo) ou mesmo a energia j transformada
                            para atender s suas necessidades.


                     ATIVIDADE

        O Brasil importa fontes de energia? Quais? Exportamos fontes de energia ou energia j transfor-
        mada? Faa uma pesquisa sobre a exportao e a importao de energia pelo Brasil apontando
        sua importncia.
        Voc sabe o que  energia? Voc sabe como tais recursos passaram a ser utilizados como fonte de
        energia? Faa uma pesquisa sobre este tema.



                                Segundo o Novo Dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa, ener-
                            gia  a "propriedade de um sistema que lhe permite realizar traba-
                            lho". A energia pode ser classificada em dois grandes grupos: cinti-
                            ca ou potencial.
                                A energia cintica  a energia associada ao movimento e energia
                            potencial  a energia armazenada, que pode ser transformada, em ou-
                            tro tipo de energia, a qualquer momento.

234 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia

    Para se produzir energia eltrica - como a que possibilitou acender
as lmpadas de sua sala - a partir das guas de um rio torna-se neces-
sria a construo de um reservatrio, cujas guas tero maior energia
potencial gravitacional quanto mais ngreme for a queda das guas. A
medida que a gua se desloca do reservatrio em direo  turbina, a
energia potencial gravitacional da gua transforma-se em energia ci-
ntica (de movimento). A medida que a altura diminui, tambm dimi-            A energia potencial gravi-
nui a energia potencial, aumentando a cintica. Importante, quando           tacional  a energia que um
gua est no limiar de colidir na turbina, a energia  praticamente to-      corpo possui quando esta si-
da cintica. J o carvo  uma fonte de energia qumica que, pelo pro-       tuado a uma certa altura aci-
cesso de combusto, transforma-se em energia trmica que aquece a            ma de um referencial
gua, gerando vapor a 100 C e este, em alta presso, movimenta o ge-
rador, transformando-se em energia eltrica. Nas usinas termeltricas
a gs,  realizada a transformao da energia qumica das molculas
que constituem o gs natural em energia mecnica e depois em ener-
gia eltrica. Nos automveis, a energia qumica (seja da gasolina, do
leo diesel, do gs ou do lcool)  transformada em movimento (ener-
gia cintica). Quando preparamos um churrasco, a energia qumica da
combusto do carvo vegetal (ou da lenha) se transforma no calor que
assa a carne.
    Nestes exemplos, podemos identificar de forma simples algumas
das transformaes necessrias nas fontes de energia (a gua do rio, o
gs natural, o carvo vegetal, a gasolina, o lcool, a lenha...), para que
possamos utiliz-las no dia-a-dia.
    Atravs de mquinas, uma forma de energia pode transformar-se
em outra. Voc poderia apontar alguns exemplos deste fato? Vejamos
agora algumas fontes, selecionadas em funo de seu uso.


  Carvomineral
    O carvo mineral  uma rocha sedimentar (combustvel fssil) for-
mada a partir do soterramento e compactao de vegetais em ambien-
tes anaerbicos (antigas reas pantanosas). A partir do momento em
que a matria vegetal  soterrada, inicia-se o lento processo de forma-
o do carvo, devido ao aumento da presso e da temperatura.
    No perodo Carbonfero da era Paleozica (aproximadamente 350
milhes de anos atrs), o clima existente em certas regies do hemisf-
rio norte possibilitou o desenvolvimento de exuberantes florestas cujos
restos vegetais soterrados ao longo do tempo deram origem ao carvo.
Tais florestas tambm puderam se desenvolver no sul do Brasil.




                                                                     ParedeSonharcomumCarro! 235
        EnsinoMdio

                                       Os ambientes propcios  formao de carvo so as bacias rasas,
                                   esturios, deltas ou pntanos (reas mal oxigenadas). Lentamente de-
                                   tritos vegetais vo se depositando em uma depresso, como um lago,
                                   por exemplo. Estes sedimentos vo tornando-o cada vez mais raso e a
                                   vegetao existente nas margens comea a invadi-lo e o lago transfor-
                                   ma-se num pntano, onde os restos vegetais cobertos pela gua e por
                                   sedimentos, lentamente, formam a turfa. Faa uma pesquisa e concei-
                                   tue delta, esturio e pntano.
                                       A formao do carvo mineral ocorreu, principalmente, em reas
                                   onde existiam grandes florestas pantanosas (Europa, sia e Amrica
                                   do Norte) e apresentavam instabilidade tectnica. Estas reas estavam
                                   sofrendo um contnuo e lento processo de subsidncia sendo a turfei-
                                   ra continuamente soterrada com novos depsitos sedimentares, o que
                                   deu origem a muitas camadas de carvo.
     Subsidncia  o rebaixa-          Sua distribuio pelo planeta  muito irregular, concentrando-se em
    mento das camadas rocho-       praticamente dois pases, Rssia e Estados Unidos, contando estes, res-
    sas, que podem ocorrer natu-   pectivamente, com 50% e 30% das reservas mundiais. Segundo estima-
    ralmente ou pela explorao    tivas, o Brasil possui 0,1% das reservas conhecidas (TAIOLI, 2001).
    de um recurso natural (car-        Voc sabia que o poder calorfico (capacidade de gerar calor) do
    vo, gua, petrleo...)        carvo est diretamente relacionado  quantidade de carbono exis-
                                   tente nos restos vegetais litificados? Temos quatro tipos diferentes de
                                   carvo na natureza, com diferentes concentraes de carbono, que
                                   so: turfa, linhito, hulha (carvo betuminoso) e antracito. Observe a
                                   concentrao de carbono em cada etapa do processo de formao
                                   do carvo:
                                      A turfa apresenta cerca de 55% de carbono e apresenta pouco va-
                                      lor econmico;
                                      O linhito: apresenta teor de carbono entre 65% e 75%;
                                      A hulha: tipo mais abundante e mais consumido, apresenta entre
                                      75% e 90% de carbono;
                                      O antracito: difcil de ser encontrado, apresenta entre 90% e 96% de
                                      carbono, assim, com maior poder calorfico.
                                       Sua utilizao como recurso energtico  antiga, pois os romanos
                                   usavam-no para aquecer suas casas. Entretanto, seu uso se intensi-
                                   ficou a partir do sculo XVIII, sendo o recurso energtico adotado
                                   na primeira fase da Revoluo Industrial, que se iniciou na Inglater-
                                   ra (veja o Folhas "A indstria j era?"). Nesse perodo, devido  difi-
                                   culdade de transporte, as indstrias concentravam-se perto dos locais
                                   onde o carvo mineral era explorado (minas) ou prximo a um rio,
                                   que alm de fornecer gua para o processo produtivo, poderia ser
                                   utilizado como via de transporte.




236 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                         Geografia

   J ocorreram muitas guerras pelo domnio de jazidas carbonferas,
pois at as primeiras dcadas do sculo XX, um pas para ser conside-
rado poderoso deveria ter um grande "espao vital" (veja o texto de
apresentao do contedo Geopoltica) com reservas de recursos na-
turais que garantiriam o atendimento das necessidades de sua popula-
o e o desenvolvimento econmico da nao.
   Os maiores produtores mundiais de carvo so tambm os maiores
consumidores e exportadores? Utilize a tabela 1 como ponto de parti-
da para responder esse questionamento.

                 TABELA 1
                     Maiores produtores mundiais de carvo
                       China                                     33,8%
                       Estados Unidos                            25,6%
                       ndia                                      8,3%
                 Fonte: Agncia Internacional de energia

   Dentre muitos pases que utilizam o carvo mineral como fonte de
energia, a China  um pas altamente dependente desta fonte, tendo
milhares de minas em seu territrio, muitas funcionando em pssimas
condies, responsveis anualmente pela morte de milhares de minei-
ros que ficam soterrados ou se queimam em exploses.
   Leia o texto "China cogita fechar 4.000 minas por falta de seguran-
a" para entender um pouco o que ocorre por l.


 Quadro 2
      China cogita fechar 4.000 minas por falta de segurana
    A indstria de minerao na China  uma das mais mortferas do mundo.
 S no ano passado, ao menos 6.000 mineiros morreram trabalhando devido
 aos incndios, s enchentes nas minas e s exploses. Isso representa 80%
 das mortes ocorridas nesse setor da indstria, em todo o mundo.
     Boa parte das minas no segue a regulao mnima para manter a segu-
 rana de seus trabalhadores, e os equipamentos usados so antigos e mui-
 tas vezes j danificados. A maioria das 28.000 minas de carvo registradas
 na China esto obsoletas.
     O governo do pas lanou diversas campanhas para a implementao de
 mais medidas de segurana nas minas. Os locais que no cumprissem as or-
 dens poderiam ser fechados. Mas o alto consumo de energia e os preos do
 carvo fazem com que algumas minas ignorem as novas regulaes. O car-
 vo na China fornece 70% da energia consumida no pas e, em 2006, a pro-
 duo do material deve aumentar em 4,9%. Isso significa 2,16 bilhes de to-
 neladas de carvo.
  Fonte: Folha Online www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 13/02/2006.



                                                                         ParedeSonharcomumCarro! 237
         EnsinoMdio

                                                             A existncia de carvo mineral no Brasil  co-
   Mapa 1 - Ocorrncia de carvo mineral                 nhecida desde o sculo XIX, atravs dos tropeiros
                                                         que viajavam pela regio Sul, mas sua explorao
                                                         ganhou impulso a partir da Segunda Guerra Mun-
                                                         dial, pela necessidade de substituir combustveis
                                                         importados (derivados de petrleo).
                                                             Observe no mapa 1 que a faixa permocar-
                                                         bonfera do Brasil (termo referente aos depsi-
                                                         tos dos perodos Carbonfero e Permiano da era
                                                         Paleozica, correspondendo, respectivamente,
                                                         a 350 e 270 milhes de anos atrs, aproximada-
                                                         mente), apresenta a forma da letra S. Tais de-
                                                         psitos encontram-se nos estados de So Pau-
                                                         lo, Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
                                                         J so pesquisadas as reservas de carvo no Pa-
     Escala aprox. 1: 56 500 000
                                                         r (Serra dos Carajs) e outros estados.

                                        O carvo produzido nos estados da regio sul  utilizado tambm
                                    para gerar energia eltrica em usinas termeltricas. Podemos citar as
                                    termeltricas de So Jernimo, Candiota, Gasmetro e Charqueadas,
                                    localizadas no Rio Grande do Sul; em Santa Catarina temos a Usina
                                    Termeltrica da Companhia Siderrgica Nacional, em Siderpolis, e a
                                    Sociedade Termeltrica de Capivari. O carvo paranaense  utilizado
                                    nas usinas de Harmonia e Figueira, alm da Fbrica Presidente Vargas
                                    (Indstria de Material Blico do Brasil), que se localiza em Piquete 
                                    SP, onde se produz explosivos para o exrcito.
                                        At o momento, o carvo metalrgico s  extrado de Santa Cata-
                                    rina. Este carvo apresenta grande quantidade de hidrocarbonetos pe-
                                    sados, podendo ser transformado em coque. Nem todo carvo pro-
                                    duzido no Brasil  coqueificvel, devido  sua m qualidade (grande
                                    quantidade de impurezas).
     Coqueificao  o processo         A explorao do carvo mineral causa muitos danos  natureza,
    de aquecimento do carvo,       pois  necessria a remoo de toda matria vegetal e mineral (solo e
    obtendo-se, como resulta-       rochas) para chegar  reserva. Entretanto, quando sua explorao ini-
    dos, um resduo slido, poro-   ciou-se, no se falava em preservao e imensas reas foram degra-
    so, carbonoso, aps a libera-   dadas. Tal tipo de explorao pode causar a acidificao da gua dos
    o de gases presentes em       rios, chuvas cidas, subsidncia no local de explorao, deteriorao
    sua estrutura.                  da paisagem, danos  sade dos mineradores e muitos outros.
                                        Por se formar em condies anxicas (ausncia de oxignio), o
                                    carvo est comumente associado a sulfetos (on de enxofre: S-2),
                                    principalmente a pirita (FeS2), conhecida popularmente como ouro
                                    dos tolos, que, exposta  ao do oxignio e da gua, sofre oxida-




238 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                             Geografia

o, gerando uma soluo de cido sulfrico (H2SO4) e sulfato fer-
roso (FeSO4), altamente poluidora. Estas substncias acidificam as
guas, aumentando o teor de sulfatos (on de enxofre ligado a qua-
tro tomos de oxignio: SO42) que causam uma srie de reaes qu-
micas como, por exemplo, a solubilizao (capacidade que tem uma
substncia de se dissolver em outra) de metais pesados, clcio, s-
dio, ferro e outros.
    A oxidao (oxidao  a perda de eltrons por uma espcie qu-
mica) dos sulfetos tambm pode gerar calor e induzir a autocombus-
to do carvo, liberando cido sulfdrico (H2S), que possui cheiro mui-
to desagradvel, alm de provocar chuvas cidas que, muitas vezes,
pela dinmica da atmosfera, ocorrem em reas distantes da rea po-
luidora, ou seja, suas conseqncias podem atingir sociedades que
no possuem relao direta com a rea de explorao, no respeitan-
do fronteiras.
    O smog  um tipo de poluio atmosfrica composta por fuligem e
enxofre. No ano de 1952, em Londres, mais de trs mil pessoas morre-
ram em poucos dias devido ao aumento da concentrao de poluen-
tes que se acumularam, aprisionados em uma massa de ar que perma-
neceu estacionada devido a uma inverso trmica.




                ATIVIDADE

    Voc j ouviu falar de algum fato relacionado a essa poluio invasora de fronteiras? Pensando
 nesta questo, se uma indstria poluidora do ar fosse instalada na sua cidade, que cuidado seria ne-
 cessrio para definir a localizao desta indstria sem que ela polusse sua atmosfera?




   At a dcada de 1970, todos os rejeitos, da explorao do car-
vo, ficavam a cu aberto. A partir da dcada de 1980, surgem as pri-
meiras iniciativas na tentativa de minimizar os impactos ambientais
dessa explorao. Estudos esto sendo realizados para o desenvol-
vimento de tecnologias limpas para o uso do carvo, tentando mini-
mizar os impactos ambientais e obter maior eficincia energtica. Es-
te processo pode ser realizado por meio da pr-combusto, durante
a combusto, ps-combusto ou pela converso do carvo em ou-
tros combustveis. Que tal realizar uma pesquisa para conhecer me-
lhor esses processos?




                                                                        ParedeSonharcomumCarro! 239
        EnsinoMdio

                                      Hidreletricidade
     A utilizao de energia el-
                                        Este tipo de energia eltrica  responsvel pelo abastecimento de
    trica no Brasil pode ser con-   aproximadamente 90% do consumo nacional. A gua  utilizada des-
    siderada precoce, pois em       de a antiguidade como fonte de energia para mover moinhos ou ou-
    1879, quando Thomas ed-         tros equipamentos. Mas quando ela passou a ser utilizada como fonte
    son construa a primeira usi-   geradora de energia eltrica?
    na eltrica para iluminar New       As primeiras usinas hidreltricas que surgiram no Brasil eram priva-
    York, D. Pedro II inaugurava,   das e visavam atender s necessidades de uma tecelagem, minerao
    no Rio de Janeiro, a ilumi-     ou de uma fazenda; posteriormente as usinas foram destinadas  ilu-
    nao eltrica da estao da    minao pblica e ao atendimento  populao.
    Corte (atual estao D. Pedro
    II), com seis lmpadas.             Antigamente, para a construo de uma usina hidreltrica no era
                                    necessrio conseguir autorizao governamental, nem havia necessi-
                                    dade de estudos de impactos ambientais. Lentamente isso foi mudan-
                                    do, e hoje vrios estudos so realizados, por exemplo: Estudos Pr-
                                    vios de Impacto Ambiental (EPIA), Avaliao de Impacto Ambiental
                                    (AIA) e posterior Relatrio de Impactos Ambientais (RIMA) para verifi-
                                    car as possveis interferncias ambientais, socioculturais e econmicas
                                    na rea atingida. Mesmo assim, os impactos podem ser significativos.
                                    Voc poderia indicar alguns impactos na vida da populao atingida
                                    pela construo da barragem?
                                        Para a instalao de uma usina hidreltrica deve-se considerar a to-
                                    pografia do entorno, a largura do rio e o caudal, objetivando maior
                                    aproveitamento do potencial hidrulico e evitando, assim, o alagamen-
                                    to de grandes reas e seus impactos.
                                        A energia eltrica produzida pela fora da gua  considerada re-
                                    novvel, uma vez que a gua utilizada para gerar energia no se esgo-
                                    ta no processo, podendo ser utilizada para outros fins. O lago forma-
                                    do pela barragem do rio pode ser utilizado para a navegao, uma vez
                                    que elimina as quedas d'gua, que dificultavam o percurso antes de
                                    sua formao. Tambm pode ser utilizado para o desenvolvimento da
                                    piscicultura, recreao, irrigao e outros.



                        PESQUISA

         Pesquise sobre as atividades desenvolvidas no lago de Itaipu, na regio oeste do Paran.




240 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                           Geografia

    E a fauna aqutica? Ser que a construo de um lago pode interfe-
rir na vida dos peixes e outras espcies?
    O rio forma um ambiente ltico, onde a movimentao  inten-
                                                                                           Ltico: sistemas aquti-
sa e constante. Ao formar o lago, este passa a lntico, e toda a fau-                     cos de guas predominan-
na aqutica sofre com isso. Nesse processo, muitos peixes desapare-                       temente correntes, de fluxo
cem, pois precisam realizar a piracema, que  o processo migratrio                       contnuo;
que ocorrem todos os anos em direo a montante (rio acima, contr-                       Lntico: ambiente aquti-
rio  correnteza) para que ocorra maturao gonadal e possam pro-                         co onde predominam guas
criar e perpetuar a espcie. Estes, presos num lago, no se reprodu-                      paradas, ou de corrente
zem. Uma tentativa para minimizar este impacto  a construo das                         reduzida.
escadas para peixes.
    A energia hidreltrica durante muito tempo foi considerada uma
energia limpa, mas recentemente essa classificao est sendo questio-
nada. Segundo o pesquisador Philip M. Fearnside, do Instituto Nacio-
nal de Pesquisas da Amaznia (INPA), instituto do Ministrio da Cin-
cia e Tecnologia, que estuda as barragens amaznicas, estas so fontes
de gases de efeito estufa e, na regio, o impacto maior seria causado
por Tucuru, Balbina, Samuel e Curu-Uma, todas na bacia amaznica.
Ele considera que tais usinas (reservatrios) causam pelo menos o do-
bro do impacto de gerar a mesma energia com petrleo.




                        PESQUISA

       Pesquise os impactos ambientais, socioeconmicos e culturais de uma grande usina hidreltrica.
     Veja, na tabela 2, algumas usinas hidreltricas brasileiras. Considerando a rea alagada (em km2 ) e
  a potncia (em mw), qual  a usina mais eficiente? Qual deve ser a explicao para isto?




TABELA 2
    Relao potncia/volume/rea alagada de usinas selecionadas
                                                              Potncia   Volume   rea
       Usina              Ano          Rio/Estado
                                                                MW       106 m3   Km2
       Balbina            1989         Uatum/AM                  250    17.500   2.360
   Paulo Afonso           1955 S. Francisco/BA                  3.984      128      16
        Itaipu            1991       Paran/BR-PY              12.600    29.000   1.360
 Porto Primavera 1995                Paran/SP-MS               1.818    18.500   2.250
   Salto Osrio           1975          Iguau/PR               1.332     6.750     41
 Fonte de dados: mLLeR, A. C., 1995. Adaptada pela autora.




                                                                                     ParedeSonharcomumCarro! 241
         EnsinoMdio

                                            A partir da crise do petrleo de 1973, iniciou-se no Brasil uma cor-
                                        rida por outras fontes de energia, na tentativa de diminuir nossa de-
     Quadro 3
                                        pendncia do petrleo importado, que era muito grande. Nesse per-
    O projeto da usina Hidreltri-
                                        odo, teve incio a construo de grandes usinas, na maioria das vezes,
    ca de mau, no rio Tibagi/PR
    est sendo contestado por
                                        com impactos to grandes quanto o tamanho das usinas construdas,
    muitos (bilogos, antrop-          que consumiram cifras exorbitantes dos cofres pblicos. Todos os rios
    logos e outros) que alegam          brasileiros foram estudados para verificar as possibilidades de aprovei-
    que o reservatrio da usina         tamento, instalando-se pequenas, mdias ou grandes usinas.
    causaria um grande impac-               O territrio paranaense  responsvel pela gerao de mais de 20%
    to na fauna e flora local, pois     da energia hidreltrica consumida no Brasil, pois possui grandes usi-
    esta regio possui uma me-          nas como Itaipu, Foz do Areia, Salto Osrio, Salto Santiago e outras,
    ga diversidade, alm de atin-       com grande potncia, atendendo s necessidades de sua populao e
    gir terras indgenas. At que       distribuindo energia para outros estados. Este potencial  explorado
    ponto se deve produzir ener-
                                        pela Copel  Companhia Paranaense de Energia Eltrica  exceto Itai-
    gia para atender a demanda
                                        pu e usinas hidreltricas localizadas ao longo do rio Paranapanema.
    e satisfazer as mais diversas
    necessidades e interesses               Existem tambm projetos para construo de novas usinas, entre
    dos seres humanos? e a,            estes esto os projetos para o rio Tibagi, que alagar terras de reservas
    como fica a questo ambien-         indgenas. Bom lembrar que os povos indgenas j sofreram ao longo
    tal? qual a atitude que o go-       dos sculos e, de certo modo, ainda no conseguiram uma rea efe-
    verno estadual deve ter?            tivamente sua, pois precisam mais uma vez "ceder" sua rea para o
     Texto sistematizado pela autora.   "bem" da sociedade. Ser que a sociedade em geral pensa no bem es-
                                        tar dos indgenas? Como voc pensa esta questo?
                                            Veja a seguir as usinas da Copel, listadas por ordem decrescente de
                                        potncia.

  Mapa 2 - Paran  Usinas Hidreltricas e Termoltricas
                                                                                                   1   Usina Hidreltrica Gov. Bento Munhoz
                                                                                                       da Rocha Netto (Foz do Areia)
                                                                                                   2   Usina Hidreltrica Governador Ney
                                                                                                       Braga (Segredo)
                                                                                                   3   Usina Hidreltrica de Salto Caxias
                                                                                                   4   Usina Hidreltrica Governador Parigot
                                                                                                       de Souza
                                                                                                   5   Usina Hidreltrica Guaricana
                                                                                                   6   Usina Hidreltrica Chamin
                                                                                                   7   Usina Hidreltrica Apucaraninha
                                                                                                   8   Usina Hidreltrica Mouro
                                                                                                   9   Usina Hidreltrica Derivao do Rio
                                                                                                       Jordo
                                                                                                   10 Usina Hidreltrica Marumbi
                                                                                                   11 Usina Hidreltrica So Jorge
                                                                                                   12 Usina Hidreltrica Chopim I
                                                                                                   13 Usina Hidreltrica Rio dos Patos
                                                                                                   14 Usina Hidreltrica Cavernoso
                                                                                                   15 Usina Hidreltrica Melissa
                                                                                                   16 Usina Hidreltrica Salto do Vau
                                                                                                   17 Usina Hidreltrica Pitangui
                                                                       Escala aprox. 1:5 650 000   18 Usina Termeltrica Figueira




242 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                    Geografia

  Petrleo
    O petrleo  o recurso energtico mais consumido em nvel mundial,
sendo estratgico para o desenvolvimento das naes, podendo, no mo-
mento, ser tambm responsvel por sua runa.  um combustvel fssil,
assim como o gs natural e o carvo mineral. Voc sabe qual a sua ori-
gem e quando este importantssimo recurso energtico se formou?
    Vrias so as teorias sobre sua origem, entretanto a mais aceita atu-
almente  que tenha surgido a partir da decomposio de matria or-
gnica animal e vegetal (principalmente algas e plnctons), soterrada
por sedimentos lacustres ou marinhos. Em ambientes rasos (platafor-
mas continentais), devido  rpida sedimentao  ou no fundo do
oceano, devido ao menor teor de oxignio  a oxidao da matria or-
gnica no ocorre plenamente e esta vai se transformando com a per-
da dos componentes volteis e concentrando carbono, at se transfor-
mar em hidrocarbonetos. Este processo leva milhes de anos.
    Para fazer a perfurao estudos geolgicos e geofsicos so realiza-
dos na rea, alm de anlises geoqumicas e paleontolgicas de amos-
tras, que possibilitaro constatar a existncia ou no de hidrocarbone-
tos, evitando maiores gastos.
    Sua ocorrncia no globo  varivel, pois novas reservas podem ser
descobertas, ao mesmo tempo em que outras esto se exaurindo. No
momento atual, a maior concentrao de petrleo est no Oriente M-
dio e de gs, na Europa Oriental.
                                         Mapa 3  Brasil: refinarias de petrleo  2005
    Seu uso  conhecido desde a an-
tiguidade. Estima-se que o betume
tenha sido usado na construo das
muralhas da Babilnia, na Mesopo-
tmia. Era conhecido pelos antigos
egpcios e utilizado na pavimentao
de estradas dos Incas, na Amrica.
    No Brasil, encontramos referncia                      MAPA DO BRASIL
 existncia de petrleo na Bahia, no                       COM POOS DE
final do sculo XIX, perodo em que                            PETROLEO
se construa a Estrada de Ferro Leste
Brasileiro. Relatos informavam que
as ferramentas utilizadas na constru-
o ficavam sujas de leo. Entretan-
to, a primeira descoberta com inte-
resse comercial foi feita em Lobato,
tambm na Bahia, no ano de 1938.
Em 1953, foi criada a Petrobrs (Pe-
                                                                               Escala aprox. 1:46 000 000
trleo Brasileiro S.A.).



                                                                             ParedeSonharcomumCarro! 243
       EnsinoMdio

                               A primeira descoberta de petrleo na plataforma continental brasi-
                           leira foi realizada em 1968, em Sergipe. Hoje, a maior parte do petr-
                           leo nacional  retirado da plataforma continental, em guas profundas
                           (superiores a 800m), com destaque para a bacia de Campos, litoral flu-
                           minense, onde se concentra a maior extrao no momento. Devido s
                           especificidades da explorao na plataforma continental, o Brasil de-
                           senvolveu tecnologia que, atualmente,  exportada.
                               H ainda a possibilidade de existir petrleo no subsolo amaznico brasi-
                           leiro, uma vez que a Venezuela  pas cujo territrio contm parte da Ama-
                           znia   um dos maiores produtores mundiais desse recurso mineral.
                               Nas ltimas dcadas, o petrleo virou motivo de guerras (Guerra
                           do Golfo: invaso do Iraque pelos EUA, Reino Unido e demais pases
                           que os apoiaram), pois fortes economias seriam arruinadas sem a ga-
                           rantia de sua oferta. Uma das estratgias utilizadas nos conflitos foi co-
                           locar fogo nos poos, ao que leva grande quantidade de CO2 para a
                           atmosfera, podendo intensificar o efeito estufa.
                               Hoje, os maiores conflitos, ou pelo menos os mais divulgados pela
                           imprensa, embora com outra roupagem, so os que se originam pela
                           posse do petrleo, mas j existem vrios conflitos por domnio de gua.
                           Ser que um dia poderemos presenciar um desses conflitos em nosso
                           territrio? (Sobre esta questo, leia o Folhas "A gua tem futuro?".)
                               A sociedade atual  altamente dependente dessas fontes de energia,
                           pois sua manuteno provm, basicamente, destas trs fontes  carvo
                           mineral, hidreletricidade e petrleo; ao que tudo indica, alguns pases
                           seriam capazes de passar por cima de tudo e de todos para consegui-
                           rem garantir a manuteno de seu padro de vida.



                     ATIVIDADE

        E a, j pensou em uma mudana radical em seu modo de vida? Isso seria vivel ou voc nem
     cogita esta hiptese? O que as fontes de energia tem a ver com estas mudanas?




                              RefernciasBibliogrficas
                               FERREIRA, A. B de H. Novo dicionrio da lngua portuguesa. Rio de
                               Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
                               MLLER, A. C. Hidreltricas, meio ambiente e desenvolvimento. So
                               Paulo: Makron Books, 1995.
                               TAIOLI, F. Recursos energticos. In: TEIXEIRA, W. et al. Decifrando a Terra.
                               So Paulo: Oficina de Textos, 2001.


244 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                        Geografia

 ObrasConsultadas
 BAIRD, C. Qumica ambiental. Porto Alegre: Bookman, 2002.
 CANTO, E. L. do. Minerais, minrios e metais. De onde vm? Para onde
 vo? Coleo Polmica. So Paulo: Moderna, 2001.
 GUERRA, A. T.; GUERRA, A. J. T. Novo dicionrio geolgico-
 geomorfolgico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
 LEINZ, V.; AMARAL, S. E. Geologia Geral. So Paulo: Editora Nacional,
 1989.
 PINTO, P. S. Auto-suficincia relativa. Revista Indstria Brasileira, junho/
 2005, p.16 a 21.
 POPP, J. H. Geologia Geral. Rio de Janeiro: LTC  Livros Tcnicos e
 Cientficos Editora S.A., 1999.
 ROSA, L. P. Impactos de grandes projetos hidreltricos e nucleares.
 So Paulo: Marco Zero, 1988.


 DocumentosConsultadosOnlInE
 FOLHAONLINE. China cogita fechar quatro mil minas por falta de
 segurana. So Paulo: Folha de So Paulo. Disponvel em: www1.folha.
 uol.com.br. Acesso em 13 fev. 2006.
 educaterra.terra.com.br/almanaque/historia/petroleo_brasil.htm. Acesso
 em: 20 outubro 2005.
 www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=15154.
 Acesso em 20 outubro 2005.
 www.cni.org.br/produtos/diversos/src/rev52/Pg%2016_21%20Petroleo.pdf
 Acesso em: 21 outubro 2005.
 www.comciencia.br/reportagens/energiaeletrica/energia03.htm. Acesso
 em: 21 outubro 2005.
 www.copel.com/pagcopel.nsf/0/02228A56D4FA23C403256AFD
 00429A3C?OpenDocument. Acesso: em 21 outubro 2005.
 www.cristalinolodge.com.br/ecossistemap.htm. Acesso em: 15 outubro
 2005.
 www.mct.gov.br/sobre/namidia/CTnamidia/2002/25_02b.htm. Acesso em:
 20 outubro 2005.
 www.ibama.gov.br
 www.itaipu.gov.pr
 www.fundaj.gov.br
 www.sxc.hu


                                                                        ParedeSonharcomumCarro! 245
       EnsinoMdio




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                                                                                                           Geografia




                                                                                                   16
                                                                        CATSTROFES
                                                                       SO EVITVEIS
                                                                      OU INEVITVEIS?
                                                                                           Roselia maria Soares Loch1

                                                                            or que chamamos de "catstrofe"
                                                                            os furaces, terremotos, erup-
                                                                           es vulcnicas, secas, enchentes,
                                                                      deslizamentos de encostas e tsunamis?
                                                                      Como evitar uma "catstrofe"?




Instituto de educao do Paran Prof. erasmo Piloto - Curitiba - PR
1




                                                                             CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 247
       EnsinoMdio

                              Para entender o que  uma "catstrofe natural", vamos definir as
                          duas palavras que formam a expresso: catstrofe, segundo o Novo Di-
                          cionrio Aurlio da lngua portuguesa,  um "acontecimento sbito, de
                          conseqncias trgicas e calamitosas"; natural, segundo o mesmo di-
                          cionrio,  "referente  natureza; aquilo que  conforme a natureza".
                          E ento, continua com a mesma opinio?
                              As catstrofes naturais so eventos com os quais todas as socieda-
                          des convivem. Em alguns lugares elas so muito freqentes, em outros
                          so relativamente raras; no entanto, em todas as sociedades elas repre-
                          sentam um desafio. S  pertinente referirmo-nos a "catstrofes natu-
                          rais" quando estas afetam direta ou indiretamente a sociedade de uma
                          forma significativa com danos graves causados a pessoas, a bens (pr-
                          dios, lavouras, estradas, etc.) e ao ambiente. Elas constituem um pro-
                          cesso de ruptura entre o sistema social e natural. Ocorrem desde que
                          a Terra se formou, mas h uma percepo que elas se intensificaram
                          na atualidade. Voc tambm acredita que elas tenham se intensificado?
                          Qual  a sua explicao para isto?


                                               Recordando
                                                    Vamos relembrar alguns acontecimentos, que
                                                 marcaram esta ruptura recentemente.
                                                      Assistindo  televiso no ms de maro de
                                                   2004, ficamos sabendo de um fenmeno que
                                                  atingiu o litoral sul do Brasil. Comeou como
                                                  um ciclone extratropical, mas  medida que foi
                                                  evoluindo, ganhou caractersticas incomuns.
                                                  Batizado de Catarina, foi classificado como fu-
                                                raco. No mesmo ano, em dezembro, soubemos
                                           que a terra tremeu mais uma
                                                                              Quadro 1
                                        vez. Dessa vez foi na sia, tre-
                          meu sob as guas do Oceano ndico provocan- enquanto os estados unidos
                          do ondas gigantes conhecidas como tsunamis. da Amrica aguardavam a
                          E o furaco Katrina, 11 tormenta Atlntica de chegada de outro furaco, o
                          2005 chega aos Estados Unidos.                     saldo de mortos por causa do
                                                                             Katrina atingiu ontem 1.037.
                              Eventos como estes no podem passar Houve a atualizao da conta-
                          despercebidos e devem ser colocados no gem na Louisiana, onde o to-
                          centro dos debates a respeito das relaes tal chegou a 799.
                          sociedade-natureza, bem como a questo da
                                                                             No mississippi, so 219. H
                          fragilidade dos seres humanos. Vamos refle-
                                                                             ainda 19 mortos registrados
                          tir um pouco sobre este assunto. Que expli- na Flrida, no Alabama, na
                          cao voc daria para a questo a seguir?          Gergia e no Tennessee.
                                                                                  Fonte: Folha de So Paulo, So
                                                                                  Paulo, 22/09/ 2005.



248 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                                  Geografia


      Segundo vrias reportagens editadas pela mdia falada e escrita, a trag-
  dia causada pelo Tsunami na sia se deve, em grande parte,  falta de avi-
  so. A rea mais atingida no tinha nenhum sistema de alarme. A Austrlia re-
  cebeu um aviso do maremoto, a ndia e os outros pases do Oceano ndico
  no. Estes ltimos no pertenciam ao sistema integrado de alerta.
      Se a falta de comunicao nos pases pobres  uma das causas das "ca-
  lamidades" com vtimas humanas e perdas de bens materiais, como explicar
  a tragdia deixada pela passagem do furaco Katrina nos Estados Unidos?
  Lembre-se: furaces so muito mais comuns e previsveis que tsunamis.




   Classificaodas"Cattrofesnaturais"
Tabela 1
                 CATEGORIA                                           TIPO DE EVENTO

                 Meteorolgico                               furaco, tufo, tornado, ciclone

                   Hidrolgico                                  inundao, seca, incndio

                                                                  terremoto, maremoto,
                    Geolgico
                                                                ondas gigantes, vulco
 Adaptado: TeNAN, Coriolano Luiz. Calamidades naturais.Rio de Janeiro. SuNAB, 1974.


    Existem outras classificaes mais abrangentes que podem ser em-
pregadas na confeco de relatrios e tambm para estudos compa-
rativos e anlise do comportamento de cada um. A elaborao desta
classificao justifica-se por facilitar o ordenamento e as generalizaes
das ocorrncias dos eventos.
    De maneira geral, as "Calamidades Naturais" tm sido classificadas
e ordenadas de acordo com os seus processos desencadeadores.
    Observe os tipos de eventos na tabela "Classificao das Catstro-
fes Naturais" e reflita: Por que certos eventos ocorrem com mais fre-
qncia em determinados perodos do ano do que em outros? Quais
fenmenos naturais ocorrem mais no vero que no inverno? Voc per-
cebe diferenas nos fenmenos naturais, em sua regio, nas diferen-
tes estaes do ano?
    Alm de observar a distribuio temporal dos eventos, a localizao
geogrfica  imprescindvel, pois permite caracteriz-lo geofisicamente,
ou seja, sua espacialidade pode ser definida, seu mapeamento estabele-
cido e seu risco conhecido atravs de sua determinao no espao.




                                                                                      CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 249
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

        Pesquise sobre as enchentes e as secas, eventos mais comuns no Brasil, para responder as ques-
        tes a seguir:
        Quais so as regies mais afetadas por estes eventos? Tente justificar o porqu.
        A partir das informaes coletadas por voc: Podemos afirmar que no Brasil as secas esto associadas
        ao Nordeste e as enchentes ao Sul?
        Esses eventos hidrolgicos, enchente e seca, podem acontecer ao mesmo tempo no Brasil?
        Faa um levantamento dos impactos desses eventos na sociedade, apontando a extenso do pro-
        blema e a durao das conseqncias.

                                 Muitos eventos geofsicos podem ser identificados por sua localiza-
                             o, pois aqueles mais extremos no ocorrem em muitos lugares, co-
                             mo  o caso de furaces e vulces. Pesquise, num dicionrio geogrfi-
                             co o que so e quais so os fenmenos geofsicos.
                                 Em um Atlas Geogrfico busque o planisfrico de "tormentas e
                             inundaes" e responda a que regies da Terra os furaces so mais
                             freqentes.
                                 Classificados como eventos meteorolgicos, os furaces, os ciclo-
                             nes, os tufes e os tornados so eventos que produzem um resultado
                             destrutivo, mas ainda h muitas dvidas a respeito deles. Afinal, como
                             so formados esses fenmenos atmosfricos? Quais as diferenas entre
                             eles? Por que alguns lugares so atingidos por eles e outros no? Quais
                             as conseqncias desses fenmenos no espao e na sociedade?
                                 Vamos saber um pouco mais sobre as caractersticas de cada um
                             deles e entender os impactos provocados.
                                 Mesmo se tratando dos mesmos fenmenos, os furaces recebem
                             diferentes nomes. Tudo depende do espao terrestre onde acontecem
                             e da velocidade dos ventos existentes.
   Foto 1 - Destruio causada pelo furaco              A mais poderosa tempestade do nosso pla-
   Katrina (2005), Nova Orleans, EUA.                neta  o furaco. Um fenmeno que se forma
                                                     nas guas quentes das regies trpicas. A mes-
                                                     ma gua quente que atrai os turistas s regies
                                                     tropicais serve de combustvel para os furaces.
                                                     Quando sua rota segue em direo s reas po-
                                                     voadas, o resultado  altamente destrutivo. Uma
                                                     inquietao no tempo, oceanos tropicais mor-
                                                     nos, umidade, e ventos relativamente fortes em
                                                     nveis superiores da atmosfera so as condies
                                                     necessrias que podem combinar e dar origem a
                                                     ventos violentos, ondas gigantes, chuvas torren-
    Fonte: www.sxc.hu                                ciais, e inundaes associadas a este fenmeno.

250 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                Geografia

     fcil identificar um furaco atravs de uma imagem de satlite. Is-
so porque o furaco possui uma densa nuvem em forma de espiral e o
famoso "olho" do espao parece um frgil redemoinho, porm na ter-
ra tem um poder destrutivo.
    O maior perigo est na gua, pois a presso baixa no olho do fura-        Quadro 2
co pode levar bilhes de toneladas de gua do mar para as praias for-       Escala de furaces
mando uma tempestade de grandes propores. No  por acaso que              Escala Saffir-Simpson
90% das vtimas de furaco morrem afogadas.
                                                                             Foi desenvolvida no comeo
    Para medir a intensidade dos furaces utiliza-se a escala Saffir-Simp-   dos anos 70 pelo engenhei-
son, ela mede a fora dos ventos numa categoria que vai de 01 a 05.          ro Herber Saffir e o diretor do
Leia a tabela "escala de Furaces" para saber a categoria e a velocida-      Centro Nacional de furaces,
de dos ventos. O furaco Katrina, j citado anteriormente, chegou  ca-      Robert Simpson.  uma es-
tegoria 5 ao se aproximar de Louisiana nos Estados Unidos.                   cala que indica o potencial
    A partir dos anos 70, com as tecnologias mais avanadas, os sat-        de destruio de um furaco,
lites permitiram previses mais precisas das reas a serem atingidas e       levando-se em conta: pres-
                                                                             so mnima, vento e a ressa-
a categoria dos furaces, podendo dessa forma retirar a populao de
                                                                             ca causada pela tormenta.
reas com possibilidade de serem atingidas ou colocando-os em abri-
gos. Mas mesmo assim os furaces continuam fazendo estragos. Ma-                Categoria 1 (ventos de
tam milhares de pessoas todos os anos.                                          118 a 152 km/h),
    De acordo com o lugar onde se formam ganham nomes diferentes.               Categoria 2
No oeste do Pacfico, nas regies do Japo, China, Coria, Filipinas so        (153 a 178 km/h),
chamados de tufes e so mais poderosos que os furaces atlnticos.             Categoria 3
Os tufes dispem de uma rea maior de oceano quente para viajar e              (179 a 209 km/h),
se fortalecer. Mais de 20 tufes se formam no oeste do pacfico num             Categoria 4
ano comum. As mesmas tempestades so conhecidas como Ciclones,                  (211 a 250 km/h),
a diferena est na rea de atuao.
                                                                                Categoria 5 (ventos su-
    O ciclone tem uma extenso geogrfica maior do que a do fura-               periores a 250 km/h).
co, mas os ventos so mais calmos, no h nuvens espiraladas nem
a formao de "olho". No Hemisfrio Sul, giram no sentido dos pon-
teiros do relgio (sentido horrio) e, no Hemisfrio Norte, giram no
sentido contrrio ao dos ponteiros do relgio (sentido anti-horrio). A
ocorrncia de um ciclone no indica necessariamente que haja tem-
pestade, embora seja comum os ciclones virem acompanhados da for-
mao destas. Quando se forma longe da Linha do Equador, em guas
frias, ele  chamado de ciclone extratropical.
    O tornado, outro fenmeno meteorolgico de grande poder de
destruio, se diferencia dos furaces por se formar sobre o continen-
te. As superfcies continentais super aquecidas geram ventos verticais e
isto contribui favoravelmente para o desenvolvimento da tempestade
que d incio ao tornado. Quando um tornado atinge os oceanos so
chamados de tromba d'gua.
    Os Tornados so medidos pela intensidade dos estragos que causam,
e no pelo seu tamanho fsico. Tornados grandes podem ser fracos, e tor-
nados pequenos podem ser violentos. So considerados a mais destrutiva


                                                             CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 251
       EnsinoMdio

                              de todas as tempestades na escala de classificao dos fenmenos atmos-
                              fricos. A intensidade dos tornados  classificada na Escala Fujita que vai
                              de F1 at F5, sendo o F1 o menos intenso e o F5 o mais intenso.
                                  Podem ocorrer em qualquer parte do mundo, desde que existam
                              condies favorveis; entretanto, observa-se com uma maior freqn-
                              cia nos Estados Unidos numa rea confinada entre as Montanhas Ro-
                              chosas (a oeste) e os Montes Apalaches (a leste). A regio onde fica
                              situado o estado americano de Oklahoma  considerado a alia de tor-
                              nados, regio onde so mais freqentes.
                                   Se voc quiser ter uma noo do efeito destrutivo de um tornado,
                              assista ao filme Twister, que tem Oklahoma como cenrio e o "astro
                              principal"  um fenmeno meteorolgico!
                                  Mas nem todas as "cala-
                              midades naturais" podem ser
     Dirigido pelo holan-     atribudas a eventos meteo-
     ds De Bont, com         rolgicos. Enquanto os fura-
     a produo de Ste-       ces so classificados como
     ven Spielberg na         eventos da geodinmica ex-
     retaguarda, o que        terna da Terra, os terremotos,
     propiciou um show        maremotos e vulces tm sua
     de efeitos visuais e     origem na geodinmica inter-
     sonoros.                 na da Terra, so os chamados
                              eventos geolgicos.
                                  Voc j imaginou como
                              devem se sentir as pessoas
                              que so atingidas por este fenmeno? O clssico "no entre em pnico"
                              , nesta situao, imprescindvel. Imagine a sensao esquisita sob os
                              ps, que balana os mveis, faz tremer janelas e no dura mais que al-
                              guns segundos.



                     ATIVIDADE

          Terremoto  a mais destrutiva e imprevisvel manifestao da natureza. Por que os terremotos aconte-
     cem?  possvel prever sua ocorrncia? Em que lugar do mundo as sociedades esto mais sujeitas a so-
     frer com os abalos ssmicos?


                                  Terremotos, abalos ssmicos ou tremores de terra so termos utili-
                              zados para identificar eventos ssmicos, classificados conforme o seu
                              "tamanho". Desta forma, o termo terremoto  reservado para eventos
                              grandes, geralmente aqueles com perdas humanas e grandes estra-
                              gos. Fenmeno de vibrao brusca e passageira da superfcie da Ter-
                              ra so resultante de movimentos subterrneos de placas rochosas, de


252 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia

atividade vulcnica, ou por deslocamentos (migrao) de gases no in-
terior da Terra. O movimento  causado pela liberao rpida de gran-
des quantidades de energia na forma de ondas ssmicas.
    A maior parte dos terremotos ocorre nas bordas das placas tectni-        Quadro 3
cas ("tectnica" vem da palavra "construo" em grego) ou em falhas
                                                                             Escala Richter
entre dois blocos rochosos. Pesquise em um Atlas Geogrfico o planis-
                                                                             A quantidade de energia libe-
frio "placas tectnicas" e identifique os limites das placas e a direo
                                                                             rada por um abalo ssmico,
de seus movimentos.                                                          ou sua magnitude,  medi-
    O comprimento de uma falha pode variar de alguns centmetros at         da pela amplitude das ondas
milhares de quilmetros, como  o caso da falha de San Andreas na Cali-      emitidas segundo o parme-
frnia, Estados Unidos. S nos Estados Unidos ocorrem de 12 mil a 14 mil     tro da escala de Richter, que
eventos ssmicos anualmente (ou seja, aproximadamente 35 por dia). Ba-       vai de zero a 9 pontos.
seado em registros histricos de longo prazo, aproximadamente 18 gran-
                                                                             Escala Mercalli
des terremotos (de 7,0 a 7,9 na Escala Richter- veja a tabela das escalas)   O poder de destruio de
e um terremoto gigante (8 ou acima) podem ser esperados num ano.             um terremoto  medido pe-
    Entre os efeitos dos terremotos esto a vibrao do solo, abertura       la escala mercalli, de zero a
de falhas, deslizamentos de terra, tsunamis, mudana no eixo de ro-          12 pontos. O abalo que des-
tao da Terra, alm de efeitos destrutivos em construes feitas pelo       truiu a Cidade do mxico, em
homem, resultando em perda de vidas, ferimentos e altos prejuzos fi-        1985, teve magnitude 8,1 e
nanceiros e sociais (como o desabrigo de populaes inteiras, facilitan-     intensidade 10.
                                                                              Fonte: www.apolo11.com/
do a proliferao de doenas, fome, etc.).
                                                                              richter.php
    A regio onde ocorre a liberao de energia ssmica (ondas ssmi-
cas), ou a falha na rocha,  chamada de regio focal ou foco ssmico 
hipocentro. O ponto diretamente acima do foco, na superfcie da Terra,
 chamado de epicentro. A zona ao redor do epicentro  normalmente a
mais afetada por um abalo ssmico. Se este ponto se localizar no mar ou
em zonas desabitadas, o sismo pode no provocar estragos.
     Em alguns terremotos, os tremores s podem ser registrados por
aparelhos denominados sismgrafos. Outros so abalos to violentos
que devastam extensas regies. O maior terremoto j registrado foi o
Grande Terremoto do Chile, em 1960, atingindo 9.5 na escala de Ri-
chter, em seguida o da Indonsia, em 2004, registrando 9.3 na mesma
escala.
    O que um terremoto provoca na superfcie da Terra, tal como, tre-
mor sentido pelas pessoas, rachaduras nas paredes ou no solo, desa-
bamentos de edificaes, etc., pode ser medido como sua intensidade,
na escala denominada Escala Mercalli. Em virtude dos desmoronamen-
tos de edifcios e dos incndios resultantes, alguns terremotos foram
causadores de grandes catstrofes.
    A escala de Mercalli tem uma importncia apenas qualitativa e no de-
ve ser interpretada em termos absolutos, uma vez que depende de obser-
vao humana. Por exemplo, um sismo com 8 na Escala Richter num de-
serto inabitado  classificado como I na escala de Mercalli, enquanto que
um sismo de menor magnitude ssmica, por exemplo 5, numa zona on-


                                                             CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 253
       EnsinoMdio

                            de as construes so dbeis e pouco preparadas para resistir a terremo-
                            tos pode causar efeitos devastadores e ser classificado com intensidade
                            IX, na escala Mercalli.
                                E os Maremotos? H quem identifique o termo "maremoto" como
                            "tsunami"  contudo, maremoto refere-se a um sismo no fundo do mar,
                            semelhante a um sismo em terra firme e que pode, de fato, originar
                            um(a) tsunami.
                                A palavra `'tsunami'' quer dizer, em japons, `onda do porto'  tsu
                            (porto, ancoradouro) e nami (onda, mar)  uma onda ou uma srie de-
                            las que ocorrem aps perturbaes abruptas. Mas para entender me-
                            lhor como funciona um Tsunami, ou uma onda,  preciso antes saber
     Tabela 2               o que  uma perturbao.
                                              Escala Mercalli
        Mag     Efeitos percebidos.
           I    Nenhum movimento  percebido.
                Algumas pessoas podem sentir o movimento se elas esto em repouso e/ou em andares
          II
                elevados de edifcios.
                Diversas pessoas sentem um movimento leve no interior de prdios. Os objetos suspensos
          III
                se mexem. No exterior, no entanto, nada se sente.
                No interior de prdios, a maior parte das pessoas sente o movimento. Os objetos suspen-
          IV
                sos se mexem, e tambm as janelas, pratos, armao de portas.
                A maior parte das pessoas sente o movimento. As pessoas adormecidas se acordam. As
          V     portas fazem barulho, os pratos se quebram, os quadros se mexem, os objetos pequenos
                se deslocam, as rvores oscilam, os lquidos podem transbordar de recipientes abertos.
                Todo mundo sente o terremoto. As pessoas caminham com dificuldade, os objetos e qua-
          VI    dros caem, o revestimento dos muros pode rachar, rvores e os arbustos so sacudidos.
                Danos leves podem acontecer, mas nenhum dano estrutural.
                As pessoas tm dificuldade de se manter em p, os condutores sentem seus carros sa-
         VII    cudirem, alguns prdios podem desmoronar. Os danos so moderados em prdios bem
                construdos, mas podem sofrer danos no resto.
                Os condutores tm dificuldade em dirigir, casas com fundaes fracas tremem, grandes es-
         VIII   truturas, como chamins e prdios podem se torcer e quebrar. Prdios bem construdos so-
                frem danos leves, contrariamente aos outros, que sofrem severos danos.
                Todos os prdios sofrem grandes danos. As casas sem alicerces se deslocam. Algumas
          IX
                canalizaes subterrneas se quebram, a terra se fissura.
                A maior parte dos prdios e suas fundaes so destrudas, assim como algumas pontes.
          X     As barragens so significativamente danificadas. Largas fissuras aparecem no solo, os tri-
                lhos das ferrovias entortam.
                Grandes partes das construes desabam, as pontes e as canalizaes subterrneas so
          XI
                destrudas.
         XII    Quase tudo  destrudo. O solo ondula. Rochas podem se deslocar.
                                                Fonte: www.apolo11.com/richter.php  acesso em 19/12/05 (com adaptaes)

254 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                               Geografia

Tabela 3
                                           Escala Richter

  Mag      Efeitos percebidos.

    1      No  sentido pelas pessoas. S os sismgrafos registram.

    2       sentido nos andares mais altos dos edifcios.

    3      Lustres podem balanar. A vibrao  igual  de um caminho passando.

   3.5     Carros parados balanam, peas feitas em loua vibram e fazem barulho.

           Pode acordar as pessoas que esto dormindo, abrir portas, parar relgios de pndulos e cair
   4.5
           reboco de paredes.

            percebido por todos. As pessoas caminham com dificuldades, livros caem de estantes; os
    5
           mveis podem ficar virados.

   5.5     As pessoas tm dificuldades de caminhar, as paredes racham, louas quebram.

           Difcil dirigir automveis, forros desabam, casas de madeira so arrancadas de fundaes.
   6.5
           Algumas paredes caem.

           Pnico geral, danos nas fundaes dos prdios, encanamentos se rompem, fendas no cho,
    7
           danos em represas e queda de pontes.

           Maioria dos prdios desaba, grandes deslizamentos de terra, rios transbordam, represas e di-
   7.5
           ques so destrudos.
   8.5     Trilhos retorcidos nas estradas de ferro, tubulaes de gua e esgoto totalmente destrudas.
    9      Destruio total. Grandes pedaos de rocha so deslocados, objetos so lanados no ar.
                                              Fonte: www.apolo11.com/richter.php  acesso em 19/12/05 (com adaptaes)

    Em dicionrios, a idia mais comum encontrada de "perturbao"
vem dos seus sinnimos: "desordem", "transtorno". Ou seja, uma per-
turbao  algo que "altera o estado normal" de um ambiente, provo-
cando alguma mudana que desequilibre esse ambiente.  comum,
por exemplo, dizermos: "pare de me perturbar, voc vai me tirar do s-
rio!". Em Fsica, "perturbao" tem um significado muito parecido: per-
turbao  uma modificao em algum ponto de um meio que causa
algum desequilbrio neste. Por exemplo, o tsunami que arrasou muitas
regies da sia, no final de 2004, foi extremamente devastador por ser
uma perturbao associada a uma quantidade gigantesca de energia.
Essa energia originou-se em um sismo no fundo do oceano e a per-
turbao causada na superfcie transportou essa energia, espalhando-a
por centenas de quilmetros. Quanto mais prximo da regio onde a
perturbao se deu, tanto maior a perturbao e a quantidade de ener-
gia contida em seu movimento.




                                                                     CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 255
       EnsinoMdio

                                               Observe na figura como se forma o tsunami:



                                           velocidade da onda  maior
                                           em guas mais profundas...




                                                                                                        ...e menor em
                                                 perfil do fundo                                       guas mais rasas
                                                     do mar


                                             A velocidade do tsunami  reduzida conforme ele vai chegando  praia
                                         (menor profundidade). Observe a figura "Como se forma um tsunami", as
                                         ltimas ondas, por terem maior velocidade, empilham-se nas ondas que
                                         esto na frente, fazendo aumentar a altura e a amplitude destas. Assim, 
                                         medida que a onda se aproxima de terra, a sua freqncia e altura aumen-
                                         tam e sua velocidade diminui. Veja mais detalhes no quadro "Ondas".
       Quadro 2
           Ondas
         Voc deve ter percebido que os fenmenos naturais de origem na geodinmica interna so propa-
      gados por meio de ondas: as ondas ssmicas dos terremotos; as ondas das tsunamis.
         Apenas para lembrar, as ondas em questo so mecnicas, porque propagam-se em um meio
      material (gua). Se uma onda que se propaga em determinado meio, encontra a superfcie de outro
      meio pode sofrer reflexo, absoro e/ou refrao. Esta ltima,  o caso da tsunami.
                                                                      comprimento de onda
                                                                                                              crista

                                                                                                               altura
                                                 amplitude                     vale


          A ilustrao mostra os parmetros que caracterizam uma onda: comprimento e amplitude de on-
      da (crista, vale e altura), alm da freqncia de oscilao e velocidade de propagao. Observe que a
      amplitude  medida a partir do nvel do mar (caso das ondas ocenicas) e a altura  a distncia vertical
      entre a crista de uma onda e o vale da onda adjacente.
       Fonte: Curso de Oceanografia da universidade de Santa Ceclia de Santos  unisanta  disponvel em http://cursos.unisanta.br/oceanografia/ondas.htm)

                                            Os tsunamis podem caracterizar-se por ondas gigantescas, causan-
                                         do grande destruio. Embora os tsunamis ocorram mais freqente-
                                         mente no Oceano Pacfico, podem ocorrer em qualquer lugar. Existem
                                         muitas descries antigas de ondas repentinas e catastrficas, particu-
                                         larmente na regio do Mar Mediterrneo. Milhares de portugueses que
                                         sobreviveram ao grande terremoto de Lisboa, em 1755 foram mortos
                                         por um tsunami que se seguiu poucos minutos depois. Antes da gran-
                                         de onda atingir a costa, as guas do porto retrocederam, revelando car-
                                         regamentos perdidos e naufrgios abandonados.

256 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                               Geografia

    A costa brasileira pode sofrer futuramente algum impacto de tsunami?
    Em 2001, cientistas previram que uma futura erupo do instvel
vulco Cumbre Vieja em La Palma (das Ilhas Canrias) poderia causar
um supergigante deslizamento de terra para dentro do mar. Nesse po-
tencial deslizamento de terra, a metade oeste da ilha iria catastrofica-
mente deslizar para dentro do oceano. Esse deslizamento causaria uma
megatsunami com ondas de 100m de altura que devastaria a costa da
frica noroeste, com uma tsunami de 30m a 50m alcanando a costa
leste da Amrica do Norte muitas horas depois, causando devastao
costeira em massa e a morte de provveis milhes de pessoas.
    Voc levaria a srio esta previso anunciada pelos cientistas? An-
tes de responder, leia com ateno a afirmao a seguir.
    Aps a passagem do furaco Katrina, inmeras agncias de notcias
afirmaram que especialistas americanos alertavam, h 03 anos, para o
risco de destruio da cidade de New Orleans, no estado da Louisiana
(Estados Unidos da Amrica) em caso de furaco, caso nada fosse fei-
to para resolver o problema da precariedade dos diques. Como nada
foi feito, o resultado foi estampado em todos os noticirios da impren-
sa falada e escrita em setembro de 2005.
    E agora, podemos dar crditos aos cientistas?
 Quadro 3




     Nova Orleans est localizada abaixo do nvel do mar, e protegida de enchentes do Rio Mississippi
 atravs de diques. Por causa destes diques e da sedimentao do subsolo da cidade, uma grande
 tempestade ou furaco causaria grande estrago na cidade. Em 30 de agosto de 2005, dois dos
 diques que cercavam Nova Orleans cederam  grande presso das guas do Lago Pontchartrain. Os
 reservatrios destes diques j estavam acima da capacidade, devido ao furaco Katrina. Por causa
 disso, 89% da cidade foi alagada, com a gua atingindo uma profundidade de at 7,6 metros.
  Fonte: www.pt.wikipedia.org/wiki/New_Orleans (com adaptaes).




                       ATIVIDADE

     Identifique num mapa-mundi a posio geogrfica do vulco Cumbre Vieja em La Palma. Ser que
 existe a possibilidade dessa megatsunami chegar na costa brasileira? Ser que devemos nos preocupar?
 Estamos preparados?



                                                                   CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 257
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

         H uma grande coincidncia entre a localizao dos terremotos e as reas vulcnicas. Voc poderia dar
     uma explicao do porqu isto ocorre? O planisfrio "zonas ssmicas e vulcnismo" pode auxiliar em sua res-
     posta. Localize, no mapa-mndi com placas tectnicas , as reas de ocorrncias desses fenmenos,
     destacando o nome do continente ou oceano e o nome da placa litosfrica onde as reas esto situa-
     das. Identifique se a rea de ocorrncia do fenmeno est prxima ao Crculo do Fogo. Pesquise, num
     dicionrio geogrfico, a definio de vulco e registre em seu caderno.

                    Figura 1- Placas tectnicas




                                       notciaemdestaque!
                                           Os meios de comunicao desempenham um papel importan-
                                       te, no s ao informar sobre as catstrofes, quando ocorrem, mas
                                       tambm ao explicar os motivos porqu acontecem e informar so-
                                       bre como se podem evitar ou atenuar os seus efeitos.



                     PESQUISA

        Tendo isso em mente, que tal explorar o tema "Catstrofes naturais" nos textos informativos divulga-
     dos pela imprensa escrita? Pesquise, em jornais e revistas, textos que retratam acontecimentos ligados
     ao assunto tratado neste Folhas.



258 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                                         Geografia

    Lembre-se de que a notcia  um texto enxuto que se concentra em
descrever concisamente um determinado acontecimento. J a reportagem
 um texto mais extenso e resulta de uma investigao mais detalhada dos
fatos. A reportagem faz uma apresentao mais panormica e em maior
profundidade das informaes. Ela se faz presente com mais freqncia
em revistas. J a notcia  um texto informativo, comum no jornal.
    Num artigo publicado na revista Isto  "Deu a louca no mundo", em
fevereiro de 1995, o jornalista Peter Moon montou um mapa da Terra
com a indicao das principais catstrofes que eclodiram nos ltimos
anos. O quadro mostrava ocorrncias de terremotos, enchentes, erup-
es vulcnicas, ciclones, secas, incndios, dava o nmero de mortos e
de desabrigados, e ainda mencionava o buraco na camada de oznio e
o efeito estufa.



                        ATIVIDADE

       Assim como Peter Moon, construa voc o seu mapa. Para isso utilize as informaes da lista de Ca-
  tstrofe Naturais, a seguir acrescente mais dados atravs de uma pesquisa. Examine, em dados esta-
  tsticos existentes, se houve aumento das catstrofes da natureza nos ltimos tempos.


Tabela 4
                                          Calamidades Naturais da Histria do mundo
 DATA               TIPO                    LOCAL              MORTOS           DATA         TIPO          LOCAL         MORTOS
                                                                                                            China/
  1138            Terremoto              Sria/Aleppo            230 mil        1920       Terremoto                     200 mil
                                                                                                            Gansu
                                                                                           Terremoto/      Japo/
  1556            Terremoto             China/Shaansi            830 mil        1923                                     143 mil
                                                                                            Incndio       Kanto
  1737            Terremoto              ndia/Calcut           300 mil        1948       Terremoto    Turcomenisto    110 mil
                                                                                                         Paquisto/
  1755            Terremoto            Portugal/Lisboa           100 mil        1970        Ciclone                      300 mil
                                                                                                         Bangladesh
                                          Indonsia                                                        China/
  1815             Erupo                                        92 mil        1976       Terremoto                     255 mil
                                       Vulco Tambora                                                     Tangshan
                                          Indonsia/
  1883       Erupo/Tsunami                                      36 mil        1991        Ciclone      Bangladesh      138 mil
                                           Kracatoa
  1887           Inundao                   China              1 milho        2003       Terremoto       Ir/Bam        31 mil
                                           Martinica/                                      Terremoto/
  1902             Erupo                                        40 mil        2004                      sia/frica    255 mil
                                           Mt.Pelee                                         Tsunami
                 Terremoto/                                                                 Furaco/    Estados Unidos
  1908                                  Itlia/Messina           100 mil        2005                                      1037
                  Enchente                                                                  Enchente      da Amrica
 Fonte: www.pt.wikipedia.org/wiki/Lista_dos_maiores_desastres_naturais (Com adaptaes).

   Agora voc pode responder a pergunta feita no incio deste Folhas.
As catstrofes so evitveis ou inevitveis? Qual sua concluso?


                                                                                           CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 259
       EnsinoMdio

                            RefernciasBibliogrficas
                             FOLHA DE SO PAULO, So Paulo, 22 set. 2005.
                             MOON, P. Osis secou. Revista ISTO, 1324, p.76-77, 15 de fevereiro de
                             1995.
                             TENAN, C. L. Calamidades naturais. Rio de Janeiro. SUNAB, 1974.



                            ObrasConsultadas
                             Enciclopdia Microsoft Encarta 2001- Vulco.
                             FERREIRA, A. B. de Holanda. Novo dicionrio da lngua portuguesa.
                             Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1986.
                             ORIEUX, M. Fenomenos geolgicos. Rio de Janeiro: Liceu, 1968.
                             VASCONCELOS, R. A. FILHO, A. P. Atlas geogrfico ilustrado e
                             comentado. So Paulo: FTD, 1999.



                            DocumentosConsultadosOnlInE
                             BERZ, G. O preo das mudanas climticas. Disponvel em:
                             www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./gestao/index.
                             html&conteudo=./gestao/artigos/mudancas_climaticas.html. Acesso em 07
                             de setembro de 2005.
                             CALAMIDADES NATURAIS DA HISTRIA DO MUNDO. Tabela disponvel
                             em: www.wikipedia.org/wiki/lista_dos_maiores_desastres_naturais
                             CURSO DE OCEANOGRAFIA DA UNIVERSIDADE DE SANTA CECLIA DE
                             SANTOS. Ondas. Disponivel em: www.cursos.unisanta.br/oceanografia/
                             ondas.html
                             Enciclopdia virtual livre. Disponvel em: www.pt.wikipedia.org/wiki/
                             Vulc%C3%A3o. Acesso em: 10 de setembro de 2005.
                             ESCALA MERCALLI - Tabela disponvel em: www.apolo11.com.richter.php.
                             Acesso em 19 dez. 2005.
                             ESCALA RICHTER - Tabela disponvel em: www. apolo11.com.richter.php.
                             Acesso em 19 dez. 2005.
                             MARIENSE, L. P. Vulces. Boletim do Museu de Geologia. Disponvel em:
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                             MATTEDI, M. A.; BUTZKE, I. C. The relation between the social and the
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260 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                    Geografia

NASCIMENTO. E. L. Quo realista  o filme "Twister"? Disponvel em: www.lemma.ufpr.br/ernani/
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PAIVA, P. Agosto de furaces, tufes, terremotos e ciclones. Disponvel em: www.tempoagora.
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www.pt.wikipedia.org/wiki/new_Orleans
ww.sxc.hu




             ANOTAES




                                                        CatstrofessoEvitveisouInevitveis? 261
       EnsinoMdio




262 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                               Geografia




                                                                                                      17
                                                                                  VOC TOMA
                                                                                    VENENO?
                                                             Gisele Zambone1, Joo Carlos Ruiz2, Leda maria Corra moura3




                                                                                      uito se tem falado na
                                                                                     importncia de uma vida
                                                                                    saudvel, sem vcios, com
                                                                                   boa alimentao e exerc-
                                                                                      cios. Mas ser que todas
                                                                                      as pessoas que dizem
                                                                  ter este estilo de vida esto mesmo livres
                                                                  dos envenenamentos?
                                                                  Qual a ligao deste fato com o espao
                                                                  geogrfico?




1
 Colgio estadual Presidente Lamenha Lins - Curitiba - PR
2
 Colgio estadual Rosa D. Calsavara - Cambira - PR
3
 Colgio estadual euzbio da mota - Curitiba - PR


                                                                                                  VocTomaVeneno? 263
       EnsinoMdio



                              A produo de alimentos, no modo capitalista de produo, vem
                          sendo marcada, h vrias dcadas, pelo uso de inseticidas e outras subs-
                          tncias txicas, que contaminam o solo, os rios, o ar e os alimentos. Por
                          que envenenamos os lugares onde vivemos?
                              A agricultura, considerada uma das mais antigas formas de organi-
                          zao do espao pelo homem,  tambm um dos meios de mudana
                          de um espao, transformando-o de natural em social. Esta relao po-
                          de produzir desequilbrio no planeta? Esta relao pode garantir a pre-
                          servao do equilbrio ecolgico?
                              Para o equilbrio da natureza, deve-se levar em considerao que o cli-
                          ma, a vegetao, a temperatura, a umidade, o solo, o relevo, a rede hidro-
                          grfica e os seres vivos esto intimamente ligados entre si. A alterao em
                          um destes elementos altera todos os demais, ou seja, quebra o equilbrio.
                              Mas as alteraes provocadas pela agricultura no meio natural sem-
                          pre tiveram a mesma intensidade?
                              As tcnicas da agricultura itinerante primitiva causavam pouco im-
                          pacto ambiental, visto que eram feitas em pequenas reas, as quais
                          eram abandonadas quando apresentavam sinais de exausto, o que
                          possibilitava sua recomposio natural.
                              Nos sistemas agrcolas atuais, geralmente grandes reas so cultiva-
                          das com um s tipo de vegetal  monocultura  o que exige controle
                          de pragas e implica na utilizao de agrotxicos. Como a produo 
                          destinada  exportao, so necessrios cuidados com a reposio da
                          fertilidade do solo, utilizando insumos e adubos. Alm disso, esse tipo
                          de agricultura necessita de uso intensivo de mquinas.
                              Qual  a funo da agricultura para a sociedade humana? Esta fun-
                          o sempre foi a mesma?
                              Observe a produo agrcola existente em seu municpio. Todos os
                          produtos agrcolas produzidos so utilizados para a alimentao? Qual
                          o destino dos produtos a cultivados? Pesquise.
                              A agricultura moderna precisa produzir para atender o mercado
                          com alimentos e com matrias-primas. Atende com alimentos voc e
                          sua famlia, mas estes alimentos no chegam (sempre) direto da roa
                          para sua mesa. Por exemplo, uma fbrica de polpa de tomate, uma f-
                          brica de fios de algodo, uma usina de acar e lcool ou uma fbrica
                          de rao animal utiliza matrias-primas que so processadas e transfor-
                          madas em alimentos industrializados.
                              Para atender a demanda por alimentos  in natura ou industrializa-
                          dos  das cidades,  preciso grandes produes. Como conseguir isto?
                              O tamanho da rea de plantio pode ser importante dependendo do
                          tipo de produto cultivado. Mais do que isto,  preciso uma grande pro-
                          dutividade, o que implica em:


264 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                Geografia



   solo naturalmente frtil ou fertilizado quimicamente atravs de apli-
   cao de tcnicas reparadoras;
   umidade  gua  disponvel naturalmente ou por sistemas de irri-
   gao artificial;
   lavoura "saudvel", o que pode ser mantido atravs de inseticidas,
   acaricidas e outros;
   cultivos e colheitas feitas de forma rpida e sem desperdcio, o que
   pode ser feito utilizando implementos agrcolas e, em alguns casos,
   mquinas;                                                                 Quadro 1
   sementes selecionadas que germinem rapidamente, que produzam             Agrotxicos
   em maior quantidade e que estejam prontas para a colheita em             Agrotxicos, pesticidas, fun-
   pouco tempo. Em alguns casos o agronegcio utiliza sementes ge-          gicidas, defensivos agrcolas,
   neticamente modificadas.                                                 muitos so os nomes usados
                                                                            para definir a mesma coisa:
    Todas estas intervenes geram desequilbrio ambiental. Na busca        substncias usadas nas plan-
de maiores ganhos a agricultura moderna, capitalista, tem utilizado re-     taes a fim de proteg-las
cursos que, ambientalmente, nem sempre so adequados.                       do ataque de pragas. Segun-
    Aqui vale um lembrete: estamos tratando da produo vegetal de          do a definio adotada pela
forma mais direta, mas isto no significa que a produo animal (pe-        Anvisa (Agncia Nacional de
curia) no sofra as mesmas exigncias do mercado e a busca do lu-          Vigilncia Sanitria),  classi-
cro.  claro que a tecnologia de produo, neste caso,  diferente, po-     ficado como agrotxico pela
rm envenena os consumidores da mesma forma.                                lei 7.802, de 1989, qualquer
                                                                            "produto qumico ou biol-
    Para se ter uma grande rea para produo  agrcola ou pecuria 
                                                                            gico, utilizado nas reas de
a vegetao natural precisa ser alterada. A vegetao original que pode     produo, armazenamento
ser composta de florestas, matas, campos, ou seja, de grande variedade      e beneficiamento de produ-
de espcies vegetais, cede lugar  monotonia vegetal  a espcie culti-     tos agrcolas, nas pastagens,
vada  dificultando ou impedindo a sobrevivncia de espcies animais        na proteo de florestas e de
e vegetais originrias da regio e facilitando a proliferao de espcies   outros ecossistemas e tam-
especficas que causam danos ao cultivo, da o uso intenso de contro-       bm de ambientes urbanos,
ladores. Veja no texto "Cultivo de soja empurra boi para reas de flo-      hdricos e industriais". e sua
resta" um caso concreto de destruio da vegetao.                         finalidade  "alterar a compo-
                                                                            sio da flora ou da fauna, a
     O mau uso do solo tem, como conseqncias, diversos problemas
                                                                            fim de preserv-las da ao
referentes  sua fertilidade bem como ao meio ambiente. Busca-se, en-
                                                                            danosa de seres vivos noci-
to, corrigir a perda de fertilidade, ao que gera danos ambientais.
                                                                            vos."
Por exemplo, para corrigir a acidez  acrescentado ao solo o calcrio        Fonte: Agncia Nacional de Vi-
dolomtico (CaCO3); para o bom desenvolvimento da planta, so acres-         gilncia Sanitria.
centados nutrientes, como os elementos qumicos Nitrognio (N), Fs-
foro (P) e Potssio (K). Porm, estes elementos no permanecem s
onde foram lanados, parte vai para os cursos d'gua alterando a com-
posio das guas, e o equilbrio natural, matando algumas espcies e
permitindo a outras, que se adaptam mais rapidamente ao novo am-
biente, o dominem.


                                                                                VocTomaVeneno? 265
       EnsinoMdio



                            Quadro 2
                                Cultivo de soja empurra boi para reas de floresta
                                                                                             Claudio Angelo

                                Relatrio de organizaes no-governamentais brasileiras confirma uma
                            suspeita trgica para a Amaznia: a expanso do cultivo de soja est de fato
                            empurrando a pecuria para reas de floresta, especialmente em Mato Gros-
                            so e Rondnia.
                                 Alguns de seus resultados j vm sendo divulgados desde o incio do
                            ano, mostrando, por exemplo, que h uma correlao entre os grandes des-
                            matamentos ilegais e a expanso da agricultura em Mato Grosso, onde 70%
                            dos desmatamentos com mais de 1.350 hectares so usados para agricultu-
                            ra, sendo a soja a principal cultura plantada.
                                As reas j abertas para pastagem viram plantaes. E as reas de flo-
                            resta viram pasto, j que o capim, diferente da soja, se d bem mesmo em
                            regies acidentadas e com muita chuva.
                                "A soja em si no pode ser considerada o fator principal  ela  um dire-
                            cionador e acelerador do desmatamento", diz Roberto Smeraldi, da Organiza-
                            o No Governamental Amigos da Terra  Amaznia Brasileira.
                                  O estudo tambm aponta cenrios para a expanso da soja na regio estu-
                            dada (Rondnia, Par, Tocantins, Mato Grosso e Maranho), que dever quase
                            triplicar at 2014  de 58,2 mil km2 plantados hoje para 170,7 mil km2.
                                 Na ltima dcada, a rea de soja no Mato Grosso cresceu 400%. O plan-
                            tio comeou pelo cerrado, e migrou nesses dez anos cerca de 500 quilme-
                            tros para o norte. No mesmo perodo, diz o estudo, a rea desmatada no Es-
                            tado aumentou progressivamente. Entre 2002 e 2003, ela cresceu 133%,
                            segundo dados da Fema, o rgo ambiental estadual.
                             Fonte: Folha de So Paulo (17/03/2005).
                             http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1703200501.htm


                             Outro elemento natural importantssimo  a gua (H2O). Desde
                          os tempos mais remotos muitas atividades humanas e at a defini-
                          o do local de formao de moradia esto condicionadas  pre-
                          sena desse recurso. Ele  fundamental  manuteno do equilbrio
                          e da preservao ambiental e  manuteno da vida. Sua ampla e
                          inadequada utilizao na agricultura pode gerar a salinizao* dos
                          solos, tornando este inadequado para o cultivo, como tambm a
                          mudana dos cursos d'gua.




266 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                                     Geografia



                       PESQUISA

    Para entender melhor este tema, pesquise o caso do rio So Francisco no Nordeste do Brasil ou o
 Mar de Aral entre o Casaquisto e o Usbequisto.



    O uso intensivo de tcnicas e culturas inadequadas, como a utilizao
de maquinrio que compacta o solo, ou que remove sua camada frtil; a
falta de terraciamento* que provoca a perda de solo com as enxurradas,
tem provocado um significativo impacto ambiental, originando problemas
como: eroso e perda de fertilidade dos solos, a lixiviao*. Estima-se que
o Brasil perde, por ano, aproximadamente 840 milhes de toneladas de
solos arveis devido a eroso. Estes solos perdidos vo parar nos rios, as-
soreando*-os. O processo de desertificao (para saber mais a esse respei-
to leia o Folhas "Os seres humanos so racionais. Ser?") tambm ocorre
devido ao mal uso do solo. Leia o artigo "IBGE investiga o meio ambiente
de 5.560 municpios brasileiros" e responda com qual problema (ou pro-
blemas) seu municpio apareceria nesta pesquisa.

 Quadro 3
      IBGE investiga o meio ambiente de 5.560 municpios brasileiros
     A MUNIC 2002, levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geo-
 grafia e Estatstica,  o primeiro levantamento nacional das Unidades Muni-
 cipais de Conservao Ambiental: eram 689 Unidades espalhadas por 10,5
 milhes de hectares em 436 cidades.
     No Brasil, os desastres mais comuns so inundao, deslizamentos de
 encostas, secas e eroso. Entre 2000 e 2002, 2.263 municpios brasileiros
 (41% do total) declararam ter sofrido algum tipo de alterao ambiental que
 afetou as condies de vida da populao: 16% tiveram deslizamento de en-
 costa e 19% sofreram inundaes. Dos 1.954 municpios (35%) que informa-
 ram alterao da paisagem, 676 (35%) disseram que a causa foi a eroso do
 solo (vossorocas*, ravinas, deslizamentos).
      A eroso do solo  segundo problema ambiental mais mencionado  cau-
 sou prejuzo  agricultura em 43,1% dos municpios, com maior freqncia
 em regies onde predominam tecnologias modernas: Sudeste (58,0%), Sul
 (58,8%) e Centro-Oeste (60,6%). J 49,2% dos municpios apontaram o es-
 gotamento do solo acompanhado da contaminao do solo por uso de ferti-
 lizantes e agrotxicos como causas que comprometeram o desempenho da
 atividade agrcola.
  Fonte: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=363&id_pagina=1




                                                                                                             VocTomaVeneno? 267
       EnsinoMdio



                              Para realizao de atividades agrcolas, com menor impacto am-
                          biental,  importante conhecer a composio do solo, o relevo, o tipo
                          de cultura existente ou a ser implementada, as mquinas agrcolas, a
                          necessidade de uso de adubos, agrotxicos e outros produtos do g-
                          nero, alm dos recursos hdricos e florestais.
                              Dentre os mltiplos problemas que a agricultura causa  natureza a
                          mais debatida  o uso dos herbicidas, praguicidas, fungicidas e outros
                          chamados de agrotxicos  veja definio da Anvisa no incio deste Fo-
                          lhas. Mesmo sabendo dos problemas causados, o uso destes produtos
                          est largamente difundido. Sua expanso se deve ao rpido avano da
                          tecnologia agrcola e da necessidade de obteno de maior produtivi-
                          dade, o que dificulta seu controle ou extino.
                              Os agrotxicos tambm so transportados pelas guas superficiais
                          para o leito dos rios, por infiltrao para os lenis freticos, contami-
                          nando-os, alm de penetrarem nos alimentos que sero consumidos,
                          sem falar das possibilidades de serem levados pelo vento para reas
                          distantes ou permanecerem no solo por longos anos contaminando fu-
                          turas plantaes. Veja no texto "Resduos industriais e de servios de
                          sade contaminam o solo" como este problema  freqente no Brasil.
                          Seu municpio tambm est na lista de contaminados? Qual a justifica-
                          tiva para sua resposta?



                            Quadro 4
                                Resduos industriais e de servios de sade contaminam o solo
                                A contaminao de solo tambm  uma dor de cabea para 33% dos mu-
                            nicpios brasileiros, e as maiores propores de ocorrncias foram no Sul e Su-
                            deste: 50% e 34%, respectivamente. As principais causas da contaminao de
                            solo foram: uso de fertilizantes e agrotxicos (63%) e a destinao inadequada
                            do esgoto domstico (60%).
                                A poluio de gua provocada por agrotxico ou fertilizante  um problema
                            para 16,2% (901) dos municpios brasileiros. Na Bacia Costeira do Sul, 31%
                            dos municpios registraram poluio da gua por agrotxicos, e nas bacias do
                            Rio da Prata e Costeira do Sudeste, a proporo foi de 19%.
                                J a contaminao no solo por uso de agrotxicos e fertilizantes afeta 20,7%
                            dos 1.152 municpios. Entre os estados, a maior proporo de municpios com
                            contaminao foi verificada em Santa Catarina (56%), no outro extremo, Amap
                            e o Piau registraram as menores propores do pas, ambos com 2%.
                             Fonte: www.ibge.gov.br/.




268 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                            Geografia



    Mas como no usar agrotxico? A planta precisa estar muito bem
nutrida para resistir s pragas, comuns no sistema de monocultura. "O
alimento convencional, por sua vez,  como um organismo doente que
 mantido por drogas" (CAmPANHOLA & VALARINI, 2001).
    Para evitar o uso dos agrot- Foto 1 - Cultivo de olercolas
xicos, h dois caminhos. O pri-
meiro  simplesmente no apli-
c-los nas plantas e criar outros
mecanismos de controle, como
cuidando meticulosamente da
planta ("catao" de pragas ou o
controle biolgico) e utilizando
uma adubao orgnica, ao
esta mais dispendiosa de mo-
de-obra.
    A outra maneira de evitar os
pesticidas  fazer com que as  Foto: Icone Audiovisual
plantas j nasam resistentes s pragas e, dessa forma, dispensem a
proteo qumica. Essa foi a perspectiva que a biotecnologia trouxe
para a agricultura, desenvolvendo assim os alimentos transgnicos. Ve-
ja os dados da pesquisa PG Economics.


 Quadro 5
      O estudo "Lavouras GM: Impactos Econmicos e Ambientais - Os Pri-
 meiros Nove Anos", feito pela PG Economics (consultoria independente es-
 pecializada em impacto econmico e ambiental de tecnologias de agricultura)
 e divulgado neste ms, em Londres, apontou que o plantio de transgnicos
 reduziu em 14% a rea afetada por agroqumicos em 18 pases que comer-
 cializam esse tipo de alimento.
     Ainda segundo o estudo da PG Economics, desde 1996, as lavouras de
 transgnicos reduziram em 6% o volume de pulverizao de agroqumicos no
 mundo  o equivalente a 172,5 milhes de quilos de pesticida.
  Fonte: www.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias. Publicado em 20/10/2005.



   Antes de ampliarmos esta discusso  preciso destacar um fato muito
importante sobre os trangnicos. Alguns cientistas alegam que um trans-
gnico  um Organismo Geneticamente Modificado (OGM), tcnica de-
senvolvida h muito tempo, na tentativa de melhorar as espcies; outros
entretanto, afirmam que h uma grande diferena entre um transgnico




                                                                                    VocTomaVeneno? 269
         EnsinoMdio

                                       e um OGM. Para estes, os transgnicos so produtos desenvolvidos pe-
                                       la engenharia gentica, inserindo um gene exgeno (de outra espcie)
                                       via transformao gnica, criando seres cujas caractersticas no existi-
     Quadro 6                          riam naturalmente, ou no se transferiria naturalmente entre os organis-
    1. Plantas transgnicas:           mos, como, por exemplo, um gene de um ser humano para um bact-
    so plantas criadas em labo-       ria. Veja mais detalhes no quadro "Plantas transgnicas".
    ratrio com tcnicas da en-             A constituio das clulas vivas  determinada pela combinao de
    genharia gentica que per-         vrios genes. Eles so o que os seus comportamentos determinam, por
    mitem "cortar e colar" genes
                                       serem portadores das instrues qumicas necessrias para o organismo.
    de um organismo para ou-
    tro, mudando a forma do or-             Esses genes so uma seqncia do DNA (cido Desoxirribonucli-
    ganismo e manipulando sua          co) que so transmitidos de uma gerao para outra. Assim, os filhos
    estrutura natural a fim de ob-     herdam as caractersticas de seus pais. Por estarem em constante de-
    ter caractersticas especfi-      senvolvimento, os genes permitem que o organismo, em seu processo
    cas. Por exemplo foram inse-       evolutivo, se adapte ao meio ambiente.
    ridos na soja Roundup Ready             Atravs da engenharia gentica, a cadeia do DNA pode ser manipu-
    da monsanto genes de vrias        lada, efetuando enxertos, incluses e excluses que alteram sua consti-
    espcies diferentes, a fim de      tuio e sua biologia natural. Dessa forma so atribudas novas caracte-
    que a planta adquirisse resis-
                                       rsticas que podem ser traduzidas em maior resistncia e produtividade
    tncia ao agrotxico glifosato.
                                       (no caso das plantas).
    A bactria de solo Agrobacte-
    rium sp CP4 forneceu o ge-
                                            As pesquisas relacionadas  transgenia na indstria farmacutica
    ne mais importante para a so-      tem mais de 25 anos, como o caso da insulina que  produzida por
    ja transgnica, chamado de         uma bactria geneticamente modificada com um gene humano.
    ePSPSCP4. esse gene co-                 Depois destes dados, o que voc conclui quanto aos produtos que
    difica uma enzima que mo-          esto nas prateleiras dos supermercados. Eles contm algum compo-
    difica o comportamento bio-        nente transgnico?
    qumico da planta, permitindo
                                           Um grande nmero de produtos alimentcios j sofreram, ou esto
    que o herbicida glifosato no
                                       sofrendo, alteraes em laboratrios. Esses produtos so denominados
    mate a planta. Alm destes
    tambm os genes do vrus do        de transgnicos. A sua produo e comercializao, apesar de muita
    mosaico da couve-flor (Ca-         contestao, j esto sendo feitos em vrios pases, como, por exem-
    mV35S), da flor Petnia hy-        plo, os Estados Unidos que produzem: tomate, soja, algodo, milho,
    brida, da bactria Agrobacte-      canola, abobrinha e batata, modificados geneticamente. Na Europa 
    rium tumefasciens e outros.        feito o comrcio autorizado de milho, tabaco, soja, canola e chicria.
    2. Glifosato:  o nome de          Na Frana, Alemanha e Espanha apenas o milho est sendo produzi-
    uma substncia qumica que         do, e em pequena escala. No continente Americano, a soja, o milho e
    bloqueia uma importante en-        a canola transgnica so exportadas para serem usados como alimen-
    zima responsvel por uma           to processado industrialmente e em rao animal.
    das etapas de sntese dos
    aminocidos. O glifosato              Estima-se que h, atualmente, uma grande quantidade de deriva-
    um herbicida, ou seja, uma         dos de soja e milho transgnicos presente nos alimentos processados
    substncia qumica que tem         industrialmente. Alm dos j existentes, existem muitos outros produ-
    a capacidade de matar ve-          tos alimentcios, como: salmo, truta, arroz, pepinos, prontos para se-
    getais.                            rem lanados no mercado.
     Fonte: www.pr.gov.br/ gover-
     no. eletronico/jornaltransgeni-
     cos.pdf




270 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                      Geografia

    Em relao aos riscos ambientais, pesquisas afirmam que existem
inmeras evidncias que demonstram ser sua prtica de alto risco, e
que pode causar grandes e irreparveis danos ambientais. Sabemos
que quando um elemento do meio ambiente  modificado, pode haver
um efeito domin com mudanas que afetam todo o ecossistema. Ape-
sar disso, o setor da engenharia gentica afirma que as espcies trans-
gnicas no vo causar problemas.



                DEBATE

    O que sabemos, com certeza,  que estamos testemunhando um experimento global que envolve
 o homem, a natureza e sua evoluo, cujos resultados ainda no so possveis de se prever.
     Qual sua opinio sobre este tema? Debata com seus colegas.



    Outra alternativa para evitar os usos dos agrotxicos so as plan-
tas bem nutridas da agricultura orgnica. Mas o que  a agricultura
orgnica?
    A agricultura orgnica faz parte do conceito amplo que trata das
"agriculturas alternativas", ou seja, uma proposta diferente do que
existe e domina na produo agrcola. Esta envolve tambm a cha-
mada agricultura natural, agricultura biodinmica, agricultura biol-
gica, agricultura ecolgica.
    Todas essas prticas agrcolas adotam princpios semelhantes que
podem ser resumidos em:
    reciclagem dos recursos naturais presentes na propriedade agrcola;
    compostagem* e transformao de resduos vegetais em hmus
    no solo;
    no deixar o solo sem cobertura vegetal morta e viva;
    diversificao e integrao de exploraes vegetais e animais;
    uso de esterco animal;
    rotao e consorciao de culturas;
    controle biolgico de pragas e fitopatgenos, com excluso do
    uso de agrotxicos;
    eliminao do uso de reguladores de crescimento e aditivos sin-
    tticos na nutrio animal.




                                                                           VocTomaVeneno? 271
       EnsinoMdio




                     ATIVIDADE

        Voc conhece uma propriedade agrcola que segue estes princpios? Que benefcios podem ser
     apontados neste tipo de agricultura? E na convencional?



                               A agricultura orgnica, alm da importncia ambiental,  uma op-
                           o para o pequeno agricultor tornar sua propriedade economicamen-
                           te vivel. Esta prtica agrcola utiliza mais mo-de-obra e apresenta
                           menor produtividade que os sistemas convencionais. Por outro lado,
                           mostra um desempenho econmico melhor. Isto ocorre porque os pro-
                           dutos orgnicos visam atender a um segmento restrito e seleto de con-
                           sumidores que esto dispostos a pagar um preo maior por eles.
                               Outro diferencial para o pequeno produtor investir na produo
                           de orgnicos,  que esta no desperta interesse das grandes empresas
                           agropecurias, pois exige muita mo-de-obra. Entre estes produtos en-
                           contramos as hortalias e as plantas medicinais que, historicamente,
                           so produzidas por pequenos agricultores.
                               A diversidade de produtos  importante para a produo org-
                           nica, pois a presena de uma praga no elimina toda a plantao e
                           tambm permite que outra planta possa agir como repelente de uma
                           praga, mas isto tambm possibilita ao pequeno agricultor a renda du-
                           rante todo o ano, diminuindo o risco de perder toda a produo de-
                           vido a ocorrncia de pragas, doenas, geadas, chuvas de grazino, etc.
                           A exigncia de mais mo-de-obra no deve ser vista como empeci-
                           lho, pois o aproveitamento da mo-de-obra familiar pode represen-
                           tar um fator de fixao familiar no campo, alm de diminuir os cus-
                           tos efetivos de produo.
                               Os gastos com adubos podem ser diminudos na medida que se uti-
                           lize melhor os recursos disponveis na propriedade, tais como: com-
                           postagem ou reciclagem de material orgnico vegetal e animal gerado
                           no prprio estabelecimento.
                               A eliminao do uso de agrotxicos contribui para a reduo dos
                           custos de produo e os desequilbrios biolgicos causados nos agro-
                           ecossistemas.




272 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                                            Geografia




                     ATIVIDADE

     Apontamos alguns elementos que mostram como a agricultura orgnica pode ser vivel economica-
 mente para a pequena propriedade agrcola, mas em relao ao equilbrio ecolgico tratado inicialmen-
 te neste Folhas, como ela contribui?
   Voc considera saudveis os alimentos e a produo agrcola disponveis ou produzidos em seu
 municpio? Como podemos produzir sem usar agrotxicos?



    O texto "Produtos desenvolvidos na Esalq atacam pragas de cana,
ctricos e outras frutas sem danos ao ambiente" mostra uma aplicao
da agricultura orgnica em prtica.

 Quadro 7
 Produtos desenvolvidos na Esalq atacam pragas de cana, ctricos e outras
 frutas sem danos ao ambiente. USP transforma fungos em bioinseticida
                                                    Reinaldo Jos Lopes  free-lance para a Folha
      Fungos microscpicos selecionados por pesquisadores da USP  Esalq
 esto se mostrando armas sutis e precisas contra os insetos e caros que
 atacam diversas culturas agrcolas no Brasil. Trs produtos que utilizam es-
 sas armas biolgicas j esto sendo usados no campo, com resultados ani-
 madores para agricultores e para o ambiente. As trs espcies de fungo so
 encontradas na natureza em diversas regies do planeta, de acordo com Al-
 ves, mas os pesquisadores conseguiram transform-los em armas biolgicas
 potentes por meio de seleo e melhoramento gentico. O impacto ambien-
 tal dos produtos  muito baixo, j que insetos teis (como os polinizadores
 e outros inimigos naturais das pragas), assim como animais de grande por-
 te e seres humanos, no so afetados por eles. "Essa  uma das diferenas
 em relao ao inseticida qumico, que  generalista, pega tudo. O biolgico,
 se for bem selecionado,  muito mais especfico, embora de ao mais len-
 ta que os agrotxicos".
  Publicado na Folha de So Paulo em 10/12/2003.



    Agora, responda: Voc acredita em sua eficcia? Ou  melhor con-
tinuar tomando veneno?




                                                                                                    VocTomaVeneno? 273
       EnsinoMdio

                               GlOSSRIO
                             Assoreamento: acmulo de partculas slidas arrastadas de par-
                             tes mais altas do terreno para os corpos de gua, no processo cha-
                             mado eroso hdrica, que reduz o volume livre para armazenar ou
                             conduzir gua (Glossrio Embrapa http://sistemasdeproducao.cnp-
                             tia.embrapa.br/FontesHTML/BovinoCorte/BovinoCorteRegiaoSu-
                             deste/glossario.htm. Acesso em: 15 fev. 2006).

                             Compostagem: processo de degradao biolgica da matria or-
                             gnica sobre condies aerbias, tendo como resultado um mate-
                             rial, relativamente, estvel denominado de composto. (Glossrio
                             Embrapa. Disponvel em: http://sistemasdeproducao.cnptia.embra-
                             pa.br/FontesHTML/BovinoCorte/BovinoCorteRegiaoSudeste/glos-
                             sario.htm. Acesso em: 15 fev. 2006).

                             Fitopatgeno: organismo que causa doenas em plantas. (Unicamp
                             na mdia. Disponvel em: www.unicamp.br/unicamp/canal_aberto/
                             clipping/novembro2004/clipping041107_estado.html. Acesso em:
                             07 nov. 2004.)

                             Lixiviao: dissoluo e remoo dos componentes do solo. (Di-
                             cionrio Houaiss de lngua portuguesa).

                             Salinizao: Evaporao muito intensa em lagos e lagoas, em cli-
                             mas tropicais ridos ou semi-ridos, produz a concentrao progres-
                             siva de sais nesses mananciais. (Disponvel em: www.unb.br/ig/glos-
                             sario/verbete/salinizacao.htm. Acesso em: 15 fev. 2006).

                             Terraceamento / terraciamento: construo de obstculos seguin-
                             do as curvas em nvel ou no, para reduzir a velocidade das guas
                             que escorrem pelo terreno, permitindo que sulcos retenham a umi-
                             dade, aumentem a infiltrao e reduzam a eroso. (Disponvel em:
                             www.defesacivil.rs.gov.br. Acesso em: 14 fev. 2006).

                             Vooroca ou vossoroca: canal, geralmente aberto pela chuva,
                             no qual a gua escorre rapidamente sobre a terra. Ela aumenta a
                             velocidade da eroso e torna a terra mais difcil de ser cultivada.
                             O termo tem origem tupi-guarani. (Disponvel em: http://preser-
                             veomundo.conhecimentosgerais.com.br/a-expansao-dos-desertos/
                             glossario.html. Acesso em: 15 fev. 2006).




274 DimensoSocioambientaldoEspaoGeogrfico
                                                                                     Geografia

 RefernciasBibliogrficas
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 ObrasConsultadas
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 CHIAVENATO, J. J. O massacre da natureza. So Paulo: Moderna,
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 HOUAISS, A; VILLAR, M. de S. Dicionrio Houaiss de lngua portuguesa.
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 MENDONA, F. de A. Geografia e meio ambiente. So Paulo: Contexto,
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 MSZROS, I. Produo destrutiva e estado capitalista. So Paulo:
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